Quem sou eu

Minha foto
Desejam falar comigo? *Escrevam seus comentários, que assim que puder, entrarei em contato. Eu não uso outlook.

Pelo mundo

sábado, 20 de dezembro de 2008

Aviso especial: curiosidades natalinas


Querem saber o que significa cada símbolo do Natal? Acesse o meu blog Fazendo Arte com Paula Dunguel.
Endereço:http://fapdunguel.blogspot.com/

Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de paz e amor nos corações.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 14: A profecia da rainha da Irlanda (1ª parte)


foto: quarto medieval

*por uns instantes, pensei em dar um tempo nas postagens, por causa da minha amiga que mencionei na postagem anterior. Mas senti em meu coração, que não era isso que Ericka gostaria que fizesse, até por respeito à sua memória e em respeito também aos que leêm sempre. Sendo assim, lá vai mais um capítulo! Esse é para você também, querida Ericka! Esteja onde estiver...

Na festa, Isolda seguia com o plano, oferecendo muita bebida para Marcos. Quando percebe que ele já estava completamente bêbado, ela sobe ao quarto pedindo para que ele não tardasse muito. Foi o tempo suficiente para Isolda e Brangia agirem e armarem todo o engodo.
Na hora que o rei subira, Isolda o aguardava à cabeceira da cama, tal como o combinado. Os aposentos estavam em plena escuridão.
— Por que apagaste as velas? —pergunta o rei tonto.
— Quando um gentil-homem se deita com uma donzela, meu senhor — responde Isolda postada à cabeceira da cama — é costume na Irlanda apagar as velas.
— Bem, que seja como dizes, minha senhora. Permita-me...
O rei aproxima-se e cambaleante pela embriaguez deita-se na cama, só que ao invés de Isolda, ele toma em seus braços Brangia, a fiel criada.
Com cuidado, Isolda sai e vai buscar alento nos braços de seu amado.
Não muito tempo depois, Tristão era surpreendido por batidas na porta de seu alojamento. Ele levantou-se um pouco sonolento e imaginando que Isolda estivesse com seu tio, ele se surpreende ao ver quem era.
— Isolda? O que faz aqui?
Ela estava encharcada e tremia de frio, Tristão puxa-a para si e tenta aquecê-la, abraçando-a e esfregando-lhe as costas. Às pressas ele fecha a porta, sua amada Isolda parecia muito apreensiva e começava a chorar.
— Por Deus, senhora! O que houve?
Ela o abraça e revela o motivo de sua aflição.
— Brangia está se sacrificando por nós — fala amargurada. — Ela se ofereceu para ficar em meu lugar, pelo menos esta noite.
— Deus do Céu! — exclama ele. — Oh, minha amada! A que ponto chegamos?
Tristão ficara muito chocado ao ver a que conseqüências levara-os o tal feitiço. Mas uma coisa acabou por consolá-lo: Isolda estava ali, junto dele e outro não iria possuir a mulher que ele amava, pelo menos não naquela noite. Ao senti-la tão perto, Tristão foi logo acometido pelas mesmas sensações de desejo quando se viam perto um do outro e larga-a imediatamente, num curto ímpeto de lucidez.
Sua cabeça dera mil voltas nesta hora e sentia-se confuso.
— O que foi? Qual o problema querido?
— Não devias ter vindo aqui! — ele suava frio, tentando ao máximo conter-se e apoiando-se numa mesa no quarto.
— Mas para onde irei eu? Não posso ficar em meu quarto, porque Brangia está lá com o rei e muito menos exposta nos corredores do castelo, pois todos pensam que estou com Marcos agora. Pelo menos aqui, sei que estou segura. Tu és o único que jamais iria delatar-me — justifica ela.
— É verdade... — concorda ele. — delatá-la, estaria assinando a minha sentença de morte, pois também sou culpado por tudo que está acontecendo.
— Não somos culpados, meu amor, e sim, o destino. Ele que conspirou contra nós.
— No fundo, eu não me importaria se minha morte pudesse aliviar a parcela de tua culpa. Eu morreria por nós dois desde que tu ficasses bem — confessa ele virando-se para ela. Seus olhos cinzentos brilhavam...
Isolda abraça-o comovida e cobre-lhe a face de beijos e afagos, foi uma convincente declaração de amor, talvez a mais bela de todas que Isolda ouvira dele.
— Por favor, não fale em morte, querido Tristão. Tu não vais morrer e eu também não vou! — diz abraçada a ele.
Tristão a estreitara forte em seus braços, Isolda chegou a sumir devido a intensidade do abraço. Ele acariciava-lhe os cabelos e beijava o alto de sua fronte. Ficaram juntos aquela noite toda.
Enquanto isso, Brangia deixava-se possuir por Marcos e no momento do defloramento, ela precisou sufocar o grito de dor, para que Marcos não estranhasse a voz dela e descobrisse a farsa. O cheiro da bebida dele a enjoava, foi a sua pior experiência e talvez a mais humilhante. Brangia sentia-se uma verdadeira meretriz, a criatura mais imunda da face da terra. Mas ela dispôs-se a isso e era tarde para arrependimentos.
“Fizeste por lealdade à tua senhora e era a única maneira de penitenciar-vos...” — pensava às lágrimas.
Depois de saciado e exausto, rei Marcos adormecera ao seu lado. E ela ali, sentindo-se totalmente abandonada. “Perdão, querido Dinas. Não tive escolha...” — pensou por fim, tornando a chorar outra vez. Ela havia se apaixonado por Dinas, desde que o vira no enterro de Sir Morholt, embora não alimentasse nenhuma esperança quanto a isso, pois sabia o seu lugar; nunca que um nobre, como ele, repararia numa reles criada.
No quarto de Tristão, Isolda não podia dormir, precisava apenas dar um tempo até a consumação do matrimônio, para que pudesse voltar e assumir o lugar de Brangia. Também, em respeito à fiel criada, os dois amantes permitiram-se apenas desfrutar da companhia um do outro e uma troca de carícias inocentes, mas nada além disso. Não seria justo com a pobre criada que, naquela hora, sacrificava-se por eles.
“ Eu não posso me deleitar nos braços de meu amado, enquanto Brangia está lá, sacrificando-se contra a vontade e suportando o peso de um homem que ela não ama; cedendo aos seus caprichos...”— pensava Isolda prudentemente. E Tristão, embora o desejo sufocasse o seu coração, compreendia a gravidade da situação.
Ele recostara-se na cabeceira da cama e Isolda, aninhada em seus braços, deitara a cabeça sobre um de seus ombros. Ela derramava lágrimas silenciosas, refletindo sobre tudo que havia se passado com eles até aquele momento, enquanto Tristão afagava-lhe os cabelos sedosos e dourados, a fim de confortá-la. Naquela atmosfera silenciosa, era possível ouvir as batidas dos dois corações ansiosos, rezando para que tudo desse certo, e para que o Deus de Tristão e a deusa de Isolda protegessem Brangia.
— Eu preciso ir agora. Pelo tempo, o rei consumou o casamento e Brangia deve estar a minha espera para que eu assuma o meu lugar como esposa.
— Espere só um momento! Deixe-me ver se os arredores estão desertos, para que ninguém a veja saindo daqui.
Tristão confere e constata que não havia o menor risco.
— Não há ninguém lá fora. Todos dormem. Podeis ir se quiseres — fala ele.
Isolda dá-lhe um último beijo.
— Adeus querido — despede-se ela, abraçando-o antes de sair.
— Vá Isolda e depressa! Partas porque Brangia deve estar precisando muito de ti.
Ela sai.
Nos aposentos reais, Brangia esperava por Isolda e indagava-se onde sua senhora estaria.
“Que pergunta mais tola... Só um único lugar seria seguro para ela neste castelo: os aposentos de Tristão, porque nós três compartilhamos o mesmo segredo. Com certeza, Isolda está lá... Agora só espero que ela não esqueça de mim e venha render-me...”
Não muito depois, Isolda chega ao quarto do casal.
— Senhora! Graças a Deus!
— E o rei?
— Está dormindo profundamente.
— Rápido! Dê-me a camisola que estás vestindo e fique com a minha!
Ambas trocam de lugar e Isolda assume o seu lugar na alcova. Amanhã era só fazer cara de mulher mais feliz e realizada do mundo, que o rei não desconfiaria de nada e tudo acabaria bem. Pelo menos para Isolda, agora, para Brangia, a vida seria bem diferente daquela noite em diante...


Dedicatória especial do capítulo: Em memória de Ericka Deriquehem

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Luto: Amiga Ericka, saudades eternas


Hoje perdi uma das leitoras mais assíduas do meu blog. Meu coração está chorando...Mas sei que a vida não termina com a perda do corpo físico e nem os laços de amizade. Tenho certeza que de onde minha amiga estiver, ela continuará a ler e prestigiar-me em espírito.

Ericka, querida amiga, fique na paz e velai por mim.

*Este texto de Tristão e Isolda, ao qual lia com freqüência e se encantava a cada linha, será todo dedicado a ti, de agora em diante. E quando terminar esta obra, farei uma dedicatória especial; e se algum dia eu vir a publicar como livro, seu nome será o primeiro a ser homenageado, depois dos meus agradecimentos a Deus.
Não direi "Adeus", mas sim, "até qualquer dia", quando Deus achar que deve chamar-me ao convívio dos que me precederam.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (6ª parte)


índice geral :: parte anterior (5ª parte)

No salão, totalmente enfeitado para a coroação de Isolda e a festa, Tristão havia se sentado. Os criados terminavam os últimos preparativos.
Lancelote e Percival saíram da capela e foram ter com ele.
— O que está havendo, Tristão? — pergunta Percival.
— Não é nada, Percy.
— Como não? Estás pálido, como se estivesses morto!
— Acho que é o calor.
— Calor?! O tempo está escuro e frio, sujeito a chuva! — riu-se Percival. — É meu amigo, bem se vê que não estás nada bem!
— Assustaste a todos nós, meu amigo. Há algo que o perturba?
— Foi só uma ligeira indisposição, Lance. Já estou melhor...
— Tem certeza?
— Saí para pegar um pouco de ar e é só. Por favor... voltem para junto do Grande Rei e terminem de assistir à cerimônia — pede-lhes Tristão, tentando disfarçar o desespero.
— Tu não vens? — indaga Lancelote.
— Daqui há pouco. Só preciso de mais um tempo aqui.
Eles relutaram um pouco, porém, voltaram à capela, pois perceberam que Tristão queria ficar só. Chegando lá, Sir Gawain, curioso como sempre, cobriu-lhes de perguntas.
— O que deu no “novato” para sair assim, de forma tão intempestiva?
— Não sabemos, Gawain — responde-lhe Percival.
— Não sabeis? Vós não fostes falar com ele?
— Tristão se sentiu mal, só isso — corta Lancelote, antes que os convidados percebessem o movimento estranho dos cavaleiros e a saída de Tristão da cerimônia. Algo, dentro de Lancelote, dizia-lhe que era melhor manter no anonimato e ninguém saber do fato.
Ainda no salão, Tristão estava sentado no mesmo lugar e pensava consigo mesmo: “Louca! Doidivanas! Por que Isolda? Por quê?”. No fundo, acho que o coração dele preferia tê-la ouvido dizer não, contudo, o que ela alegaria para justificar a decisão?
Sinceramente, Tristão não sabia, mas seria a deixa para que ele tomasse a palavra e a defendesse, alegando o que queria e assumir toda a culpa. Se ainda assim não adiantasse e Isolda não alcançasse clemência, na pior das hipóteses ele arrancaria Isolda do altar e fugiria com ela, para deixá-la em segurança e depois, regressaria para arcar com as conseqüências.
A cerimônia terminou e todos foram para o salão real, onde ocorreria a coroação da consorte do regente da Cornualha.
Isolda fingia sorrir, através de uma máscara que via-se obrigada a criar, durante o evento. Dom Patrício abençoou a coroa e Isolda, ajoelhou-se diante dele. Ele proferiu uma benção em latim e colocou a coroa sobre sua cabeça.
Ao verem-lhe a fronte coroada, todos os presentes curvam-se para saudar a esposa de Marcos, em sinal de respeito. Desejaram-lhe vida longa e depois, todos os que tinham ordem militar fizeram uma fila, diante do trono dos reis, para jurarem fidelidade à consorte do seu regente. Foi o momento mais difícil para Tristão, porque como primeiro cavaleiro da Cornualha, vira-se obrigado a prestar-lhe o juramento, antes de todos os outros.
Ela estende-lhe a mão e Tristão a toma com reverência, mal conseguindo olhar-lhe nos olhos.
— Minha espada estará a serviço do meu rei e a vosso serviço também, senhora, até o dia de minha morte — diz Tristão alto e de forma solene, prestando-lhe o juramento imposto pela cortesia e a tradição da cavalaria.
— Não aflijas teu coração, querido. Dará tudo certo — sussurra-lhe baixo, cuidando para que ninguém mais a ouvisse.
Tristão não entendera. O que ela quis dizer com isso? —“Ela enlouquecera com o casamento forçado, por certo...” — pensara Tristão.
Depois dele, os outros cavaleiros fizeram o mesmo.
A comemoração durara o dia inteiro. Marcos aproveitou para acertar com os reis irlandeses os critérios da aliança que fariam. Conversaram por um longo espaço de tempo e depois de tudo acertado entre eles, Anguish Gormond e sua esposa tomaram parte da festa.
Durante a festa, Tristão topa com os reis da Irlanda, estes o cumprimentaram cortesmente; Tristão conversou com eles por um tempo, mas depois pediu licença e retirou-se. No salão iluminado, tudo era alegria e todos aqueles festejos o estavam sufocando.
Discretamente, Tristão afasta-se do salão, deixando para trás a música e os risos que, aos poucos, foram se transformando em sussurros distantes. No seu íntimo, desejava imensamente que o chão se abrisse e o engolisse inteiro e inconscientemente dirigiu-se à esplanada, o terraço mais alto em um castelo. Lá, apoiara-se nas muralhas e olhava para as trevas do abismo que se estendia à frente, impedindo-o de ver o solo.
No horizonte, entre céu e mar, nuvens negras se adensavam prenunciando uma tempestade.
— Sei não! Isto é mau presságio! Uma tempestade num dia de casamento? — comentava o vigia da torre leste, com seu companheiro de guarda.
— Ora! Largas de ser supersticioso!
Uma chuva fina começava a cair. Tristão olha para o alto e deixa que as gotas generosas lavassem sua alma. No céu, relâmpagos começaram a cruzar o espaço e ribombavam com força, instantes depois. A torrente engrossou e Tristão ficou ali, imóvel, enquanto coisas horríveis passavam pela sua mente. Imaginava que logo Isolda estaria nos braços de outro e pior, desvirtuada, impura. O que seu tio faria? O que ele poderia fazer? Arrancá-la do leito conjugal? De forma alguma isto poderia ser feito.
Ele entra outra vez em desespero e debruça-se sobre a muralha.
— Oh, Senhor dos céus! O que farei? Deus!
Pedia ele e, numa atitude desafiadora, olha o céu carregado e grita amargurado.
Oh, Deus do céu!!!! Fulmine-me!!!!! Que um raio me atinja e me parta ao meio!!!!!!
Os guardas ouviram o clamor e se assustaram.
— O que foi isso?!
— Veio da esplanada! — fala o outro.
Um deles olha para baixo e na cortina densa de chuva, percebe um vulto de pé sobre o terraço.
— Aquela pessoa é louca! Ficar exposto, desta maneira, numa tempestade como esta...
Ele gritou de novo e, agora, mais atentos, os guardas reconhecem a voz.
— Reconheço o tom! É Sir Tristão!
— Como? O que deu nele?
— É melhor chamar alguém.
Um dos guardas desce apressado até o salão e encontra-se com Dom Audret.
— Senhor! Graças a Deus!
— O que foi, homem? Que tamanha aflição é esta?
— É Sir Tristão, Dom Audret. Está lá na esplanada e debaixo do temporal. E como sois parente dele, talvez consiga tirá-lo de lá!
— Aquieta-te, homem! Irei vê-lo. Beba um pouco...
— Não ouso, meu senhor. Estou de serviço.
— Ora! Só um copo não fará mal! Tome — diz ele animado, dando-lhe uns tapinhas nas costas e sai.
Audret vai à esplanada e lá, vislumbra a figura patética, encurvada nas muralhas. Por uns instantes, um instinto assassino despertara dentro de si e desejou empurrá-lo, para que fosse engolido pelas trevas. Chegou a avançar uns passos, mas recuou.
“Não. Matá-lo agora, no meio do tormento, seria uma benção para ele...” — pensa hesitante.—“ Quero que sofras, caro Tristão, até não agüentar mais...sofras por teu amor impossível...”
Sorrindo maliciosamente, Audret se afasta.
Sir Dinas procurava por Tristão, em meio àquela fanfarra e nada de encontrá-lo. “Por Deus! Onde estás, meu amigo?”— pensava aflito.
Nesta hora, ele vê Audret.
— Dom Audret! Viste Sir Tristão?
— Tristão?! Não! Não o vi! Ora! Vai ver, ele já se recolheu! — responde ele com a cara mais deslavada e cínica do mundo.
Sir Dinas de Lindan continuou a procurá-lo.
Basílica aproxima-se.
— Está acontecendo alguma coisa, Audret querido?
— Nada, Basílica. Não está acontecendo nada. Vamos dançar...
Por sorte, Dinas encontra o guarda com a taça oferecida por Audret, deliciando-se com pequenos e tímidos goles.
— Ei! Por que estás fora de teu posto? E o que significa isso? Estás bebendo em serviço?!!!— fala ele indignado.
O homem se assusta e joga a taça longe, jurando que não estava bebendo, só a segurava.
— Sir Dinas! Que bom que vos encontrei! Precisa ajudar Sir Tristão!— ele muda o assunto rápido, desviando-lhe a atenção da sua imprudência.
— O que tem ele? — pergunta Dinas aflito.
Ele lhe explica tudo.
— O quê?! Na esplanada, no meio da tormenta?
— Sim, meu senhor.
— Depressa. Leve-me até ele!
Eles saíram juntos.
“Céus! Espero que Tristão não tenha feito nenhum ato impensado...” — indagava preocupado.
Ao chegar no terraço, Dinas pôde respirar aliviado. Tristão estava sentado, enrolado com sua capa e apoiava as costas na muralha. A chuva ainda caía sem trégua... Ele estava completamente encharcado e parecia desacordado.
— Ei, Tristão! Que isso? Levanta homem!
Ao tocá-lo, Tristão desperta.
— Dinas, meu fiel amigo...
— Deus meu! Tristão!!! Vamos entrar, depressa, ou acabarás doente. Venha! Me ajude... — pede ao guarda.
— Não precisa! Estou bem... Deixem-me! — fala ele.
— De modo algum! Precisas trocar estas roupas!
Levaram Tristão para seu alojamento militar e lá, Dinas tratou de arrumarar-lhe logo roupas secas, para que se livrasse das roupas úmidas.
— Ela se casou, Dinas. Está tudo acabado! — desabafava ele, muito perturbado. — O que será dela?
— Não sei o que dizer, Tristão. Mas se isto te serve de consolo, saiba que se precisarem da minha ajuda, eu tudo farei para defendê-los. Lutarei por clemência junto ao rei.
— Dinas... obrigado.
— Agora tente dormir um pouco. Deixe as preocupações para amanhã.
— Não sei se conseguirei. Só de pensar que Isolda estará nos braços de outro daqui a alguns instantes e que só Deus sabe o que lhe poderá acontecer... Eu fui um covarde! — amargurava-se Tristão.
— Vou mandar preparar-te uma bebida quente e reconfortante e procure acalmar teu coração. Nada poderás fazer agora. Descanse.
Apesar dos conselhos de Sir Dinas, Tristão teve a sensação de que teria uma noite insone e longa. O fato de imaginar Isolda nos braços de outro homem feria-lhe fundo na alma, mas ele nada podia fazer a não ser rezar, rezar para que seu tio não percebesse-lhe a desonra.


próximo capítulo :: índice geral

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

mensagem especial: Solidariedade




Santa Catarina tinha uma massa muito grande de leitores deste blog, pesa-me por isso, ao coração, o que vem acontecendo àquele belo Estado. Aos amigos de Santa Catarina e agora, Espírito Santo, que lêem este blog, que liam quando computador ainda tinham e aqueles que talvez não leiam mais, pois podem ter perdido a vida na chuva impiedosa, deixo minha solidariedade e estou rezando por vocês e pelos seus Estados. Muitas das vezes, flagelos como estes nos assolam e indagamos: Onde está Deus numa hora destas? Porém, creio que a pergunta talvez seja outra: O que nós estamos fazendo com o nosso planeta?
Deus é sábio em tudo que faz e sua Natureza criada é perfeita; nós sim que, por ânsia de querer mais do que já temos, mexemos de forma irresponsável com Ela.
A Natureza não se defende, todavia, mais tarde, até para encontrar novamente o seu ponto de equilíbrio, Ela se vinga e é o que estamos vendo, não só em Santa Catarina, mas em todo mundo: terremotos freqüentes e até mesmo em lugares que nunca os tinha tido, Ciclones em larga escala, aquecimento absurdo, em partes do mundo que eram consideradas frias mesmo no Verão, etc...
Acho que é chegada a hora de pararmos para pensar no amanhã e buscar meios de cuidar melhor do nosso Planeta, que é a nossa casa, enquanto ainda temos tempo. Deus dotou o homem de inteligência, para saber diferenciar o que é bom e o que é mau. Conjuro a todos os leitores deste blog a ajudarem Santa Catarina. Participem das campanhas! Vamos mostrar a nossa solidariedade nesta época, que por causa do Natal, só se exalta esta palavra, o Amor e a Fraternidade. São nossos irmãos que estão sofrendo e provavelmente, o Natal deste ano, para eles não será o mesmo.
PAZ E BEM A TODOS

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (5ª parte)

foto: Trângulo Amoroso by Paula Dunguel

índice geral :: Parte anterior(4ª parte)

No almoço, Isolda, alegando uma indisposição qualquer, pedira licença ao noivo, aos convidados, ao arcebispo e retirou-se. Quando ela entrou no quarto, Huddent fez verdadeira festa para saudá-la; mas ela nem percebera a alegria do cãozinho, porque as palavras de Lancelote martelavam em sua mente: “ele me disse, por meias palavras, que precisava sair, mas não entrou em detalhes. A mim, pareceu-me que estava um pouco alterado...”
Isolda deitara-se na cama, e embora quisesse parecer à Tristão uma imagem de fortaleza, ela também temia o que poderia acontecer na noite de núpcias. Seria muito difícil enganar a Marcos.
— Estamos perdidos, meu amor... Eu não sei o que fazer! — desespera-se Isolda.
Isolda torna a chorar, não via a menor esperança. Huddent pulou na cama quando ouviu-lhe os soluços e, sentado junto dela, cheirava seus cabelos. Ele não entendia o que era aquilo e virava a cabecinha a cada soluçar de sua dona.
Nesta hora, Brangia entra no quarto com lençóis limpos.
— Isolda... — chama-a com pesar.
— Deixe-me, Brangia. Quero ficar só...
Ela fez que ia sair, mas volta-se e senta-se na cama.
— Saia, por favor... Me deixe só — pede-lhe mais uma vez.
Brangia começa, então, a acariciar-lhe as madeixas.
— Por favor, senhora. Não me expulseis de vossa companhia. Eu só quero ajudar-vos — fala-lhe a criada de forma suplicante.
— Ninguém poderá me ajudar, Brangia. Estou perdida e Tristão também.
Brangia também estava muito preocupada por saber que Isolda não tinha a virgindade intacta e então, ela pensou um pouco e soltando um suspiro prolongado, decidiu sacrificar-se pelos desafortunados amantes e assim, reparar o seu erro. Era a única coisa que ela poderia fazer.
— Eu ainda sou virgem, senhora e poderia deitar-me com Marcos em teu lugar, se assim o quiseres.
Isolda estancara o choro com aquelas palavras e olhava-a assustada.
— Como?! Tu terias coragem de fazer isso? Ficarias em meu lugar na primeira noite? — escandaliza-se a princesa.
— Senhora, perdoe-me a ousadia, mas não há outro jeito. Entregaste tua virgindade a Tristão. Se te deitares com rei Marcos, desonrada como estás, será um escândalo e condenação, na certa, para os dois! Sendo um marido ultrajado, ele não haverá de ter clemência!
Isolda estremece. Só a idéia de ver Tristão pendente em uma forca, a assustava. Brangia tinha razão; não havia outro remédio.
— Minha amiga... é um sacrifício extremo e cruel... Oh não, é arriscado em demasia! Não posso concordar com isto; não é justo! Ele poderá perceber o truque...
— Se fizermos tudo perfeito, ele jamais desconfiará.
— Mas como faríamos isto, sem que ele perceba que não sou eu?
— Deverás embriagá-lo, para que ele perca a noção das coisas e quanto ao resto, um quarto em completa escuridão, uma roupa vossa e o vosso perfume costumeiro, irá ajudar-nos a levar a bom termo o plano — arquiteta a aia. — Procureis subir ao quarto antes dele e espere-o, sentada à cabeceira. Coloque o vosso perfume, uma camisola semelhante à minha e prendamos os cabelos da mesma forma. Quando ele chegar, peça-o para apagar todas as luzes e se ele contestar, diga-lhe que é costume e recato na Irlanda, a mulher se entregar ao esposo na completa escuridão. Depois que o rei fizer isto, chamai-o à alcova com uma voz doce e ardente. É nesta hora que eu assumirei o vosso lugar e vós saiais imediatamente; procure esconder-vos num lugar que fiqueis bem resguardada e antes que o dia amanheça, voltai para substituir-me.
Isolda sorri, o plano era perfeito e desta forma, com certeza daria certo.
— Brangia... Não sei como poderei retribuir-vos tamanho sacrifício? Estou sem palavras...
— Só lamento não poder fazer isto todas as noites, para livrar-te desta sina, minha senhora... Esta sina, que eu mesma causei...
— E nem eu poderia exigir isto de ti, minha amiga, mas, ficando em meu lugar, pelo menos nesta noite, já presta-nos um grande auxílio — fala-lhe Isolda, abraçando-a comovida.
Tristão voltara um pouco mais tarde e ficara sabendo da chegada dos reis irlandeses e da hora que seria o enlace.
Domingo, Dia do Senhor, realizou-se o casamento pela manhã.
Tristão não queria ir, mas todos os cavaleiros, conselheiros e barões, que serviam a Marcos, compareceriam à cerimônia e ele, não poderia deixar de ir, era obrigado a representar o patético papel de fingir que estava tudo bem e sorria forçado. Rei Arthur e Gwenevere, Anguish e Isolda “a velha” estavam próximos ao altar da capelinha, por trás da sala do trono. Arthur, ao ver Tristão, acena-lhe e ele responde-lhe cortesmente.
Lancelote, chama-lhe então.
— Vem cá, homem! Senta-te perto de nós!
Marcos e Isolda estavam de frente para Dom Patrício, mas não viram quando ele chegou. Isolda parecia angustiada, doida para se ver livre daquilo tudo e no íntimo do coração queria ver Tristão, tanto era assim que, vez em quando, ela se virava para os convidados na capela e procurava definir o tal rosto querido, no meio daquelas pessoas; então, ela enfim vê Tristão sentado ao lado de Sir Lancelote e Sir Percival, o rosto dele estava carregado e denunciava uma grande amargura; mas ele estava lá, junto dela, numa hora tão difícil para ambos. Isolda queria aproveitar a festa para contar-lhe sobre o plano de Brangia e acalmar-lhe a alma aflita.
A cerimônia prossegue e chega, enfim, a hora dos votos de fidelidade. O “SIM” definitivo. Dom Patrício pergunta a Marcos se aceitava Isolda como sua legítima esposa e se prometia-lhe ser fiel até a morte; o rei responde sem vacilar, mas... na hora de Isolda, ela hesitou e custou a responder, gerando uma grande expectativa em todos os presentes: Rei Arthur, Gwenevere e os reis irlandeses se entreolharam; Audret e Basílica arregalaram os olhos... “Será que Isolda seria capaz de dizer um”NÃO” bem audível, recusando a aceitar o rei como esposo? E se o fizer, que desculpas dará para justificar-se ?” — pensavam os dois. Marcos e o Bispo também a olharam, em busca de repostas para o silêncio dela, o rei, começou a angustiar-se temendo a resposta, pois já havia se afeiçoado à beleza da jovem.
Tristão, ao lado de Lancelote, fica pálido e, suando frio, senta-se mais na ponta do banco, assumindo uma postura de “alerta e defesa”; Lancelote olha-o assustado, ele quase havia se levantado, como se quisesse evitar alguma desgraça.
— Princesa Isolda. Vou perguntar-vos mais uma vez. Aceitais Marcos, regente da Cornualha, como vosso esposo, jurando-lhe fidelidade e respeito até o fim de vossos dias?
Ela ainda não respondera e mecanicamente, olhara para Tristão. Ela percebeu-lhe a angústia nos olhos.
— Princesa Isolda, responda! — insiste o Bispo.
Ela disfarça o olhar que lançara a ele e olha para Marcos, lívido e pasmo, diante de si.
“Se eu disser “não” terei que justificar-me e colocarei a vida de Tristão em risco...” — pensara rápido.
— Sim. Eu aceito — responde ela, enfim.

Tristão quase desfalece, numa sensação de alívio, mas ao mesmo tempo de desespero.
— Ei, homem! O que tens, por Deus? — pergunta Lancelote, vendo a palidez mortal que recaíra sobre o amigo.
Ele se levanta e, não lhe dando a mínima resposta, sai da capela.
— Tristão, aonde vais?
— O que deu nele, Lance? — assusta-se também Sir Percival.
Sir Gawain, recostado na parede, também ficara surpreso com a saída súbita dele.

6ª parte :: índice geral

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (4ª parte)


foto: Isolda, a mãe
índice geral :: parte anterior (3ª parte)
Morgana reparara em Isolda “a velha”, vira-lhe o crescente na testa e comenta com o marido.
— Ela é uma seguidora da antiga religião. Como nós...
— Por certo que sim, minha senhora. Aquela marca é idêntica a vossa.
O grande Merlin, também sorria ao vê-los. O único que demonstrara um grande desconforto com a presença dos dois fora o Bispo, mas ele tinha que suportá-los, afinal, eles eram os pais da noiva.
— Pai! Mãe!
Isolda corre para abraçá-los.
— Oh, minha pequena! — exclama a rainha abraçando-a saudosa.
— Eu não sabia que viriam...
— Marcos da Cornualha mandou-nos um convite, comunicando o dia e a hora do casamento.
— Ele não me disse nada!
— Ele queria fazer-te uma surpresa, minha filha — confessa-lhe o pai.
Isolda olha para o noivo, Marcos se aproximava para cumprimentá-los. Nesta hora, Isolda percebera uma coisa: Marcos era um bom homem e talvez, fosse tão vítima quanto Tristão e ela.
— Venham, Majestades! Tomem acento conosco!
Os reis irlandeses sentaram-se e Anguish começou a procurar por algo, ou alguém.
— E Sir Tristão? Não o vejo por aqui! — comenta sem querer.
Rei Marcos estranha mais uma vez a ausência de Tristão.
— É mesmo! Por Deus, onde ele se meteu agora? — perguntara-se o rei.
Isolda estava calada e pensativa.
— Isolda, querida? Sabes de alguma coisa?— pergunta-lhe.
— E por que eu haveria de saber? Tristão não me deve satisfações, meu senhor.
— Deve sim, e muito! Em breve serás senhora da Cornualha e deverá ser-te fiel e obedecer-te, como obedece a mim. Sinceramente, eu não entendo; ambos pareciam tão próximos quando desembarcaram no porto?! Por que ele a evitas agora?
— Talvez para preservar-me de comentários maldosos — responde Isolda.
— E há algum motivo para isso?
— Motivo não há, meu rei — mente ela, para proteger Tristão. — Mas não convém à uma noiva, prestes a tornar-se esposa, ficar a conversar com outros homens, que não sejam o seu pretendente, pelos corredores de um castelo — tenta justificá-lo.
— Minha filha tem razão, rei Marcos — fala a rainha tentando protegê-la.
— É... com vossa licença, Majestade... — intervêm Sir Lancelote. — Eu sei onde está Tristão. Encontrei-o pela manhã nas cavalariças, arrumando um cavalo. Perguntei-lhe o que fazia e ele me disse, por meias palavras, que precisava sair, mas não entrou em detalhes. A mim, pareceu-me que estava um pouco alterado.
— Ele está muito estranho... — comenta o rei.
Isolda deixa sua mente vagar e lembra-se da discussão ferrenha, que ela e Tristão tiveram pela manhã e que resultou naquela fuga...

“Com a ajuda de Brangia, ambos se encontraram às ocultas mais uma vez. No diálogo conturbado, Tristão estava preocupado com a desonra dela e cismara que deveria contar a verdade ao rei, assumindo que seduzira Isolda, embora a contragosto dela, fazendo cair a culpa, apenas sobre si. Isolda seria perdoada e ele arcaria com todas as conseqüências.
Pela primeira vez, Isolda usara de sua autoridade de futura rainha e proibiu-o de fazer isto:
— Se tu fizeres isto, serás condenado por alta traição e serás morto por pena máxima! — lembrara-se ela.
— Eu não me importo... — teimava ele.
— Mas eu me importo!!!! Não quero ser responsável por tua morte!!!!! Tristão, eu, como tua futura rainha, proíbo-te de tomares uma atitude besta como esta!
— Por Deus, não me faças cumprir uma ordem destas!
— Meu amor... És o meu único alento nesta vida miserável e queres privar-me, tão precocemente, de tua companhia?! Não! Não permito esta loucura! — Chorava Isolda desesperada.
— E tu? O que será de ti, meu Deus? Nós chegamos às últimas conseqüências, desonrei-te! Meu tio não é tolo! Ele vai perceber!!! Isolda, eu não quero que morras... — Tristão começara a desesperar-se também.
— Nós não vamos morrer! Não tivemos culpa! Nosso único pecado, talvez, seja nos amarmos muito e profundamente, embora tenha surgido esta maldita idéia de casamento! Mas asseguro-te que darei um jeito, querido, pensarei em algo para que o rei não perceba.
— Não há como! Isto é uma esperança vã e tola, senhora!
— Tristão, pela alma o juro, se me desobedeceres e contares ao rei, eu irei contrariar a tua versão diante de todos. Não ficarei calada, deixando a culpa apenas para ti. Queres morrer? Pois então, morreremos juntos. Escolha!
Tristão ficara totalmente desfigurado com aquela ameaça.
— Tu não serias capaz... — falou ele entre os dentes e com voz entalada.
— Experimente! Conte ao rei a verdade e verás do que sou capaz! — ameaçou-lhe Isolda enxugando as lágrimas e assumindo a forma altiva de uma rainha.
Tristão ficou indignado e, totalmente transtornado, afastou-se dela. Nem sequer olhou para trás...”

Foi assim que aquela discussão findara. Uma verdadeira troca de ameaças e na certa, Tristão pegou um cavalo e saiu a esmo, para tentar esfriar a cabeça.

Na praia, próximo ao castelo da Cornualha, uma figura solitária amarrara o cavalo num arbusto e deitara-se na areia. No horizonte, nuvens adensavam-se em cúmulos pesados e imponentes e de tom ligeiramente acinzentado. Prometiam chuva para breve. Na areia, Tristão apertava forte sua fronte; a cabeça dele parecia estar prestes a explodir de tanta dor. Ele não sabia o que fazer.
Muito gosto ele teria de morrer por ela se com isso, Isolda conseguisse a clemência do rei. Morreria, e sua alma partiria em paz, sabendo que sua amada ficara bem. Seria tão fácil... mas, “bolas! Por que ela tinha que ser tão teimosa?” — pensava desesperado.
A dor de sua cabeça só aliviou, quando ele deixou mais uma vez a postura viril de cavaleiro e pôs-se a chorar.
Pela primeira vez em sua vida, Tristão sentia um grande medo, até maior do que o medo que sentira, quando quase tombara pela espada do cavaleiro irlandês.

domingo, 23 de novembro de 2008

Aviso aos meus queridos navegantes!!!!



Atenção: Acompanhem em "Amores Imortais" esta linda e sublime história de amor, criada pelo indiscutível talento de William Shakespeare (com um sutil toque meu).


Romeu e Julieta em Prosa e Versos





domingo, 16 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (3ª parte)

foto: olhar enigmático de Morgana

índice geral :: parte anterior (2ª parte)

Após o jantar, Tristão quis vê-la e mandou Brangia entregar-lhe um bilhete, dizendo que precisava encontrá-la. Brangia, esperançosa, julgara que ele estava disposto a tentar fugir outra vez.
Isolda, naquela noite, antes das donzelas se recolherem, recebe-lhe rápido em seus aposentos enquanto Brangia ficara de guarda. Outra vez juntos, ambos se abraçaram e se beijaram, matando a saudade que sentiam e Isolda tentara persuadi-lo a fugir de novo, mas no dia seguinte, o noivado já estava marcado e por ordem de Audret, Basílica grudou-se em Isolda usando o pretexto de ajudar-lhe com os preparativos, no que acabou frustrando qualquer plano que ambos pudessem combinar, pois a prima não dava-lhes nenhum espaço.
Uma semana antes do casamento, chegaram os demais convidados.
Um homem anunciava a cada um à medida que chegavam. A primeira a chegar e que era uma das figuras mais ilustres e esperadas foi Morgana, casada agora com o rei Uriens. As moças que Isolda tomava conta, correram para vê-la.
— Vejam! É Lady Morgana! — falava uma delas empolgada.
— Ela é que é a famosa Morgana das fadas? — falou outra admirada. — Eu achei que ela fosse mais alta!
— Lady Morgana! É um prazer tê-la conosco neste momento solene! — cumprimenta Marcos.
— Vejo que estás cuidando muito bem destas terras! A Cornualha está prosperando! — comenta ela.
— Rei Uriens — Marcos faz-lhe uma reverência. — Rei Uriens, senhora Morgana, esta é Isolda minha futura esposa — apresenta-lhe o rei.
Morgana olhara-a fundo nos olhos o que muito perturbou Isolda. A ela, parecia-lhe que a famosa feiticeira da Deusa, invadira-lhe o fundo de sua alma. O certo é que Morgana, sensitiva como sempre, percebe que algo muito sério atormentava Isolda e a fazia infeliz; porém, Morgana foi discreta e nem fez-lhe perguntas sobre isso; não era de sua alçada invadir-lhe a privacidade.
O noivado foi muito bem organizado e dentro de sete dias seria o casamento. Uma festa para entrar na história da Bretanha e mais ainda quando chega, finalmente, Arthur e seus cavaleiros. As moças ficaram mais excitadas com a chegada deles.
— Vejam!!! É o Grande Rei e sua esposa! — exclama Helena, dando pulinhos de contentamento. — Olhem!!!! Quatro cavaleiros!
— Um deles deve ser Sir Lancelote! — grita Lívian encantada.
— Quem será? Ai, quero conhecê-lo! — fala outra quase delirando.
— Tristão! — chama-lhe o tio. — Venha! Vamos fazer-lhes as honras!
Ao receber a notícia da chegada deles, Tristão sentira-se mais animado.
Marcos, acompanhado de toda a Corte, foi recebê-los. Ao lado dele estavam Isolda e Tristão, acompanhados de Audret, Basílica, Brangia e Sir Dinas de Lindan.
— Senhor, meu rei. Eu e Isolda senti-mo-nos lisonjeados com vossa régia presença!
— Bajulador incorrigível este! — caçoa o rei.
— Como, meu senhor? — espanta-se Marcos.
— Arthur Pendragon, não comece! — repreende-lhe Gwenevere. — Esqueceste do que conversamos, durante a viagem?
— Nossa! As mulheres não têm o menor senso de humor! — reclama ele. — Ah, mas quem eu vejo?! Tristão!!!!
Arthur nem deixou ele reverenciá-lo, já foi abraçando-o. Tristão sentira-se um verdadeiro chocalho nas mãos do rei. Arthur era capaz até de desmontá-lo, de tal que fora o cumprimento dele.
— Meu senhor e meu rei — ri Tristão depois de tantos dias. — Eu devo por obrigação ajoelhar-me e saudá-lo!
— Ora, deixe disto, rapaz! Sem cerimônias hoje! Quero esquecer que sou rei por um dia! —fala ele bem-humorado.
— Sir Tristão! — diz-lhe Lancelote, abraçando-o.
Tristão ainda mal se recuperara do abraço do rei e já recebera outro em seguida. Mas Lancelote foi menos “agressivo”.
— Lance! Folgo em vê-lo outra vez! — cumprimenta Tristão feliz.
— Ei! Alto lá! Agora é minha vez! Com licença! — fala Percival aproximando-se.
— Sir Percival! — exclama Tristão.
Ambos também se abraçam, só faltava Gawain...
Todos olharam para ele e Arthur franziu o cenho, como se dissesse ao primo: “olha a cortesia”. Contrariado, Sir Gawain apenas estende a mão para saudar o jovem cavaleiro, mas é Tristão que o abraça.
— Ei! Me larga!!! Detesto homem me agarrando!!!!
— Apesar de tudo, eu o admiro, Sir Gawain — fala-lhe Tristão, deixando-o totalmente sem graça.
Depois da calorosa saudação do rei e dos cavaleiros a Sir Tristão, Marcos apresenta Isolda.
— Nossa! Como é belíssima!!! Demoraste homem, mas escolheste bem a noiva! — Arthur não conseguira evitar a ironia, apesar das recomendações de sua esposa.
Gwenevere desistira de controlá-lo. Seu marido era, e sempre seria essa figura carismática e bem-humorada.
— Sir Tristão. É um prazer revê-lo e gozando de perfeita saúde — fala-lhe Gwenevere estendendo-lhe a mão.
Com muita reverência e respeito, Tristão beija-lhe a mão e saúda a rainha.
— Faço minhas vossas palavras, senhora.
— Isolda. Trouxe-vos um presente.
Gwenevere chama os criados, que faziam parte do cortejo real, e pede-lhes que trouxessem a caixa com o presente de casamento.
Era um colar magnífico, incrustado de safiras azuis e feito do mais puro ouro-branco, minério muito raro de se ver. Tal colar combinava muito bem com os belos olhos azuis de Isolda.
— Este é o nosso presente, alteza. Com os mais sinceros votos de felicidade — fala-lhe a Grande Rainha.
— Agradeço-vos tão sublime gentileza, Majestades.
Lancelote repara uma nuvem de tristeza nos olhos de Isolda, da mesma forma que Morgana. “Será que ela não gostou do presente dos reis?...” — pensa ele intrigado, pois reparara que Isolda fazia um grande esforço para demonstrar alegria pelo presente.
O mago Merlin da Bretanha também aproximou-se e saudou a todos. Rei Marcos, Isolda e Tristão curvaram-se em respeito ao grande Druida e conselheiro do Grande Rei. Apenas Audret recusava-se a prostrar-se diante de um adorador do demônio, como sempre dizia dos druidas e das sacerdotisas da Deusa e afastara-se com Basílica, discretamente, para evitar aquele contato.
Outra figura importante e que era esperada com ansiedade, seria Dom Patrício, arcebispo de Glastonbury e primaz da Igreja romana na Bretanha. Este alto prelado iria celebrar as bodas.
Dom Patrício chegara no sábado, pela manhã e foi muito bem recebido por Marcos. O casamento era questão de horas.
No castelo, os criados trabalhavam sem parar, para deixarem tudo a contento para o Domingo. Durante o almoço de sábado, em honra do arcebispo, Dinas aproxima-se do rei e diz-lhe algo ao seu ouvido, cuidando para que ninguém ouvisse.
— Como? Eles chegaram? Por Deus, mande o arauto anunciá-los!
— Eles quem, meu senhor? — pergunta Isolda curiosa.
— É uma surpresa, querida noiva.
Isolda quase caíra para trás, quando o arauto anunciou os reis da Irlanda. Ela não sabia se ria ou chorava ao ver seus pais. Havia sido tão injusta com eles no dia que deixara a Irlanda; mal se despedira.
O rei Anguish Gormond e a rainha Isolda “a velha” adentraram o salão, fazendo calar os lábios de todos. Em sinal de respeito, rei Marcos levanta-se e todos repetem o gesto dele. A antiga desavença havia caído por terra e pelo milagre, que só uma aliança consegue providenciar, os súditos da Cornualha curvaram-se ante os reis do antigo país inimigo. Embora muitos o fizessem forçado, eles não tinham escolha; O regente da Cornualha faria um pacto de paz, ao contrair casamento com a herdeira irlandesa e o passado seria finalmente esquecido.
— Ora, vejam só! — disse Arthur em tom galanteador. — Daí se explica de onde a princesa herdou tanta formosura! Ai! Gwen?! Por que me beliscou, mulher?
— Me respeite, senhor meu marido!
— Mas nenhuma se compara a ti, querida! — tenta consertar o Grande Rei.

4ª parte :: índice geral

domingo, 9 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (2ª parte)


índice geral :: parte anterior (1ª parte)

Arthur e Gwenevere trataram de preparar a viagem.
Junto com os reis, outros cavaleiros da Távola Redonda os acompanharam: Lancelote, Gawain, Percival e Bors. Estes quatro, em vez de regressarem para ver seus parentes, preferiram permanecer em Camelot, após a derrota dos saxões, aperfeiçoando as táticas de combate que empreenderam na guerra, no caso de alguma ameaça de nova invasão pelos bárbaros, tão comuns naquela época.
— Nossa! Dizem que grandes torneios esportivos estão sendo realizados por conta do noivado e casamento de Marcos! — comentava Sir Percival, com os olhos iluminados de excitação.
— Para mim será ótimo! Minha espada e minha lança estão sedentas de sangue! — fala Sir Bors animado.
— Meu velho e fiel Bors! São torneios esportivos, sem o intuito de derramamento de sangue! Deveis controlar vossa força, pois eles não são saxões!— adverte-lhe Arthur.
— Até que seria bom, se fossem torneios mortais... — murmura Gawain. — Teria um grande prazer em enfrentar “o fedelho” outra vez.
— Ora! Não começa, Sir Gawain! — repreende-lhe Sir Lancelote. — Aquele “fedelho”, como dizes, é Sir Tristão e é nosso companheiro e irmão de armas!
— Mas Santo Deus! — exclama Arthur em seu costumeiro tom debochado. — Ainda com esta birra infame contra Tristão, caro primo?
Todos riram. Gawain fez um muxoxo e emburrou a cara.
— É verdade! — comenta Sir Percival, lembrando-se. — Sir Tristão está na Corte de Marcos! Será ótimo rever nosso velho amigo!
O mago Merlin também fazia companhia a Arthur, queria rever Morgana, pois ela também fôra convidada para o grande evento, por ser senhora da Cornualha.
No castelo de Tintagel, Marcos recebe um comunicado oficial, confirmando a presença de Arthur.
— Veja, minha noiva! O Grande Rei confirmou a presença! Ele virá para o nosso casamento! — comemorava Marcos feliz. — Estás feliz, minha senhora?
— É uma grande honra receber o rei Arthur nesta Corte — desconversa Isolda.
— Perguntei se estavas feliz, minha querida.
— Se meu noivo está feliz, eu também estou — disfarça ela.
— Por Deus! Onde está Tristão? Ele anda tão estranho ultimamente! Pouco fala, não participa mais das coisas que acontecem ao redor dele... Vive mais enclausurado em sua casa perto do alojamento dos guardas do que conosco...
Isolda estremecera um pouco. De certo ela sabia que Tristão evitava tudo aquilo para não sofrer ou fugir do pecado. Eles continuavam enfeitiçados, isto era inegável, e estarem próximos um do outro poderia dar razão à insensatez e caírem outra vez em tentação.
Audret e Basílica estavam presentes e prestavam atenção às palavras do rei.
— Se estás tão preocupado, chame-o meu tio? — sugere-lhe Audret de propósito. Queria muito ver a reação de Isolda e Tristão, durante o jantar.
— Pois farei isto! Ele precisa saber que o rei Arthur virá e tomará parte em nossa alegria.
Marcos sai do torreão, corta o pátio interno passando pelas cavalariças e vai até o alojamento de Tristão, uma espécie de casebre de apenas um cômodo, mas amplo e confortável o suficiente para uma única pessoa. Ele estava recostado na cama, com a harpa nas mãos e absorto da realidade. Mecanicamente, dedilhava as cordas sem saber o que tocava e assusta-se ao ouvir batidas insistentes na porta.
— Tristão!!! Abra agora! Quero falar-vos, meu sobrinho! Trago-vos boas novas!
Tristão hesita. Não queria abrir a porta, mas vendo o tio tão suplicante acabou cedendo.
— Ora qual, rapaz? Quer fazer-se monge?! — brinca Marcos.
— Perdão, meu senhor... mas não estou me sentindo bem...
— Estás doente? — pergunta Marcos aflito e já querendo tocar-lhe para ver-lhe a temperatura.
Tristão segura-lhe a mão de forma educada e abaixa-lhe o braço. Ver o tio preocupado, como um pai, fazia-o sentir-se muito pior; ainda mais depois do que houve entre ele e Isolda.
— Não estou enfermo, senhor... é uma má fase. Portanto não vos preocupeis.
— Má fase? — Marcos não entendeu.
— Quais as novas que meu tio traz? — desconversa ele tomando o rumo da conversa, que havia se perdido.
— Ah, sim! Se passais por má fase, trago-vos certas notícias que irão alegrar-vos um pouco!
— Serão bem vindas... — suspira ele.
— O Grande Rei e a Rainha virão para o casamento. E não só ele! Juntos virão alguns cavaleiros! De certo, teu amigo Lancelote será um deles.
— Folgo em saber tão alegres notícias, meu senhor.
— Bem, mas, deveis melhorar este semblante! Não desejarás receber tão estimados amigos com esta face abatida, não é? Vamos — Marcos começa a puxá-lo.
— Pra onde? — gagueja ele.
— Jantar, ora essa! Que mais seria?
— Não, tio... eu... — Tristão tenta esquivar-se.
— Ora céus! Precisa vos alimentar homem! Anda! Mais um jantar em honra à futura rainha será servido!
— Por obséquio, senhor! Não estou com fome agora!
— Mas que teimosia! Terás a coragem de fazer mais esta desfeita à princesa Isolda?
Marcos empurra-o, literalmente, à sala de jantar.
Os criados e os convidados ficaram surpresos com aquele falatório todo. Isolda reconhecera a voz de Tristão e sentia-se feliz; há muito tempo que Tristão evitava estar em sua presença, mas ela queria vê-lo, sentia a falta dele.
— Eu não estou com fome!!! Já disse!!!!— berrava ele indignado.
— Que não está com fome o quê! Há muito tempo que não te alimentas direito, rapaz! — teimava o tio. — Eu não quero ter que prestar contas ao vosso pai, do outro lado, quando eu partir desta vida miserável! “Olha Marcos... — dirá vosso pai. — Confiei-vos meu filho e não cuidastes dele como pedi que o fizestes...” — inventa o rei.
Marcos fez ele sentar-se à força na mesa. Muitos riram.
Os olhos de Tristão e Isolda, depois de dias, voltaram a se cruzar.
— Tristão... — fala ela sorrindo e mais aliviada por vê-lo bem.
— Bons dias, senhora... — cumprimenta ele sem graça e já sentindo o coração palpitar, com o sorriso doce que Isolda devotara-lhe.
Tristão cala-se e abaixa os olhos. Queria evitar-lhe o olhar, mas não conseguia desprender-se dos olhos dela por muito tempo.
Marcos mandou começarem a servir os pratos.
Sir Audret sorria de satisfação ao ver o primo sentindo-se tão desconfortável. De quando em vez, lançava um olhar sugestivo à Basílica e degustando uma boa taça de vinho. Tristão não conseguia falar uma palavra, queria que aquilo tudo terminasse logo para voltar à sua solidão.
E o que mais irritava a ele, era Marcos comentando sem parar dos preparativos do casamento; um verdadeiro suplício. Mas o simples fato de estar próximo à Isolda, reacendera a chama do desejo, por isso ele evitara este reencontro ao máximo.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (1ª parte)


índice geral :: capítulo anterior (3ª parte)

Em todo percurso, reinaria um silêncio mortal, se não fosse por Marcos tagarelando sobre as belezas agrestes da Cornualha. Cavalgando ao lado do rei, Isolda buscava, com seus olhos aflitos, os olhos de Tristão para obter algum alento; alguma força para suportar o que estava por vir.
Tristão preferiu retardar-se um pouco e cavalgar atrás do cortejo, uma vez que estava muito perturbado. Dinas seguia ao lado dele e tentava persuadi-lo a não perder as esperanças e reverter a situação.
— Ainda dá para ambos fugirem, Tristão!
—É tarde demais — sentencia ele desanimado.
— Nunca é tarde!
— Não percebeste, Dinas, o quanto meu tio está feliz? Parece um jovem de 20 anos... Nunca o vi assim!
— E o amor de ambos? Como fica? Eu não me conformo com esta resignação.
— Querendo ou não, eu tenho uma dívida incalculável para com este homem... Eu não posso fugir agora, com Isolda, e apunhalá-lo com tamanho desgosto!
— Oh, céus! Se há uma coisa em ti que eu desprezo e esta tua teimosia!
— Eu nasci teimoso e vou morrer teimoso — retruca ele.
— E o meu medo é justamente este — fala Dinas. — Meu medo é esta teimosia toda, levá-lo a um abismo sem fim!
— Talvez Sir Gawain tenha razão, quando diz que nasci sob má estrela... — desabafa ele de forma irônica.
— Ora! Faça-me o favor! Pare de dizer asneiras, homem! Sofrerás porque tu queres, não culpes o destino e nem qualquer estrela por tua insensatez! — replica-lhe o amigo.
No castelo, Marcos ocupara Basílica de cuidar de tudo e preparar a recepção, até a chegada de todos. Algumas moças já se encontravam no castelo para servirem de companhia à jovem e futura senhora da Cornualha.
Quando enfim chegaram, Basílica recebe a princesa de braços abertos, junto com as moças; estas, olhavam-na curiosas e admiradas pela beleza da futura rainha.
— Nossa! Ela é linda! — comentavam elas entre si.
— Meninas! Se aviem, vamos! Cumprimentem a princesa!
— Estamos encantadas em conhecer-vos, alteza! Meu nome é Lívian!
— Eu sou Helena — falou uma outra.
Seguidas umas das outras, as moças se apresentaram e cumprimentaram Isolda. A princesa respondia-lhes com cortesia, tentando mascarar a tristeza.
— Já conheceram vossa futura senhora, não? — diz-lhes Basílica. — Pois agora, retirai-vos! Ajudem com os preparativos para o jantar!
As moças saem.
— Oh, minha linda criança! É um prazer conhecer-te, alteza!
Isolda estava um tanto calada e só respondia com um sorriso leve e tímido. Em seus braços, estava seu cãozinho, que ela abraçava fortemente. Huddent já começava a sentir-se incomodado com aquilo; se ele falasse, talvez dissesse-lhe que ele não era uma almofada, para ser tão apertado daquele jeito.
— Meu senhor. Se me permites, levarei as duas moças para os aposentos femininos pois, ao que me parecem, estão muito fatigadas da longa viagem.
— Oh, sim, cara Basílica! Pode acomodá-las. Quero que minha noiva esteja descansada, para o jantar que oferecerei em sua honra esta noite — concorda rei Marcos bem humorado.
Basílica conduz Isolda e Brangia até o quarto e tagarelava animada contando-lhes sobre as maravilhas da Corte da Cornualha. Isolda tentava ser a mais simpática possível com sua guia e anfitriã, entretanto, sentia-se muito triste para prestar atenção às suas palavras.
— Espero que tudo esteja do vosso agrado, caras damas.
— Obrigada, senhora — agradece Isolda amuada.
— Estou achando-vos tão triste, minha querida — comenta Basílica fingindo-se preocupada. — Oh, mas eu entendo perfeitamente o que sentes! Afinal! Fostes tirada da casa dos vossos pais para vir à uma terra estranha e casar-vos com um homem, que nem a corte vos fizera. É horrível o que fazem com as mulheres! Porém, não fique assim. Com o tempo, irás acostumar-te à nova realidade e conformada, aceitarás o marido que a vida ofereceu-te. Sei do que falo, porque também já fui casada.
— E agora? Não és mais?
— Não. Sou viúva agora. Meu finado esposo morreu há mais ou menos um ano — Basílica faz uma pausa. — Coitado... era um bom homem.
— A senhora o amava?
— Com o tempo aprendi a amá-lo, meu bem. E é talvez o que também aconteça contigo. Com o passar dos anos, te afeiçoarás ao teu marido, a não ser que, tão jovem e bela como és, tenhas deixado um grande amor para trás, nas terras da Irlanda. Neste caso, torna-se um pouco mais difícil, o que não era o meu caso...
Isolda ficara pensativa com as palavras de Basílica e deixa seus devaneios irem ao encontro de Tristão. Não deixara o amor tão distante, como pensava a simpática mulher; pelo contrário, ele estava muito próximo e sentindo-se decepcionado da mesma forma que ela, ao ver o rei Marcos vindo recebê-los no porto de Tintagel e frustrando assim, o sonho de fugirem juntos e viverem felizes para sempre, talvez nas terras de Lionês.
— Bom, esta será sua cama por enquanto, até casar-se — Basílica a conduz à cama mais bela e recém preparada. Os lençóis de linho, perfumados e limpos. — Creio que já falei demais e as duas devem estar ansiosas para dormirem um pouco. E não há nada melhor! O sono é o melhor companheiro da beleza da mulher. Descansem queridas e vou dizer ao rei que já as acomodei.
Delicadamente, Basílica sai e fecha as moças, e a seguir, empina o nariz bem feito e olha com desdém para a porta, antes de afastar-se de vez.
No aposento grande, mobiliado de forma singela e com várias camas, uma luz cálida invadia o espaço, dando ao lugar uma atmosfera acolhedora. Os leitos eram confortáveis e as cabeceiras esculpidas e trabalhadas com vários símbolos bretões, envoltas numa espécie de dossel brocado, para manter a privacidade de suas ocupantes. No canto uma roca e um velho tear, uma escrivaninha e várias cadeiras.

Brangia começava a desfazer as malas, enquanto Isolda sentava-se no vão da janela, com Huddent ainda em seu colo. Foi nessa hora, que Brangia percebeu um soluço sentido e aproximou-se de sua senhora. Isolda chorava, agarrada ao seu cão.
— Minha senhora... Outra vez às lágrimas?
— Não consigo evitar, minha amiga. Só de pensar que agora, eu e Tristão poderíamos estar a caminho de Lionês...
— Mas vós ainda podeis fugir...
— Não, Brangia. Conheço Tristão. Ele não fará isto, agora que está sob o teto de seu tio. Ele jamais irá ferir-lhe, com tamanha desonra... Oh, meu pobre e querido amor! Deves estar sofrendo, na mesma medida que tua Isolda, neste momento. Ou até mais do que eu, por ver-se tão impotente, diante da situação que se fechou contra nós. O que será de nós, agora? — lamentava-se Isolda, inconformada.
E de fato, era verdade.
O regente da Cornualha organizou uma grande festa que durou muitos dias, por conta do seu casamento, com direito a um grande torneio de “justas” entre os cavaleiros. Só estranhou Tristão não querer participar.
Logo a notícia do futuro enlace entre Marcos e Isolda corre por toda a Bretanha e chega aos ouvidos do rei Arthur. Não muito tempo depois, um mensageiro da Cornualha aparece em Camelot, portando o convite oficial.
— Eu não acredito! Finalmente esse homem decidiu casar-se?! — falava Arthur em tom galhofeiro. — Por Deus! Ocorrerá um novo “Dilúvio”!!!— ria o Grande Rei com a nova.
— De quem falais, meu senhor? — pergunta Gwenevere curiosa.
— Como de quem, senhora? Esqueceste das últimas novidades, minha Gwen? O velhaco do Marcos resolveu casar-se e hoje chegou-nos o convite!
— Então é verdade, meu senhor? Não foram apenas boatos?— ri Gwenevere surpresa.
Arthur passa-lhe o convite para que ela o lesse.
— Nós iremos, Arthur?
— Por certo que sim, minha esposa! Não perco este acontecimento único por nada neste mundo! — fala Arthur bem-humorado.— E veja só! O “safardanas” demorou a decidir-se pelo matrimônio, mas em compensação, escolheu muito bem a noiva! Velhaco!!! — a gargalhada sonora do rei ecoou pelos aposentos.
— Arthur... não vá fazer galhofa com o rei Marcos no dia do casamento dele. Controle-se em suas brincadeiras — adverte-lhe a rainha.
2ª parte :: índice geral

domingo, 26 de outubro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 12: O Filtro do Amor (3ª parte)

índice geral :: parte anterior (2ª parte)

Tristão foi conversar com Isolda, depois do diálogo com Dinas. Ela estava com os olhos perdidos na superfície turva, acompanhando o movimento do mar, que batia violentamente contra o casco da nau. Tristão aproxima-se, a abraça e, a seguir, comunica-lhe o que havia decidido: que viveria com ela daquele dia em diante, casar-se-iam às escondidas e depois, fugiriam juntos para Lionês, enquanto sir Dinas cuidaria do resto.
— Espero, meu amor, que estejas certo desta decisão.
— Não há volta e nem como negar o que sentimos um pelo outro, e beber a poção, foi apenas uma mera fatalidade, que contribuiu para que abríssemos os nossos olhos.
— Tristão... — murmura ela tocando em seu rosto. Estava sem palavras...
Isolda ficou muito feliz, era o que mais queria na vida: viver para sempre ao lado de seu grande amor.
Tristão aperta a amada em seus braços e Isolda, abandona-se à força daqueles braços. Num instante sentimental, longo e mudo, ficaram grudados até Tristão quebrar o silêncio com uma promessa.
— Serás senhora de Lionês e não da Cornualha. Assim que desembarcarmos, seguiremos paras as terras de meu pai. Prometo-te...
— Para mim, tanto faz, contanto que tu estejas ao meu lado — sorria ela, apertando-o mais ainda entre seus frágeis braços.
Mas enquanto a nau singrava o mar às terras da Cornualha, Audret imaginara que ambos pudessem tomar uma decisão como esta, uma vez que conhecia o segredo dos dois. O pérfido primo, então, precavido que só ele, convence o rei a receber a futura noiva no porto, com uma rica escolta para acompanhá-la.
— Recebê-la no cais? — dizia o rei surpreso.
— Claro que sim, meu tio! Ela, de certo, ficaria impressionada! E se sentiria muito bem acolhida!
— Hum... Creio que tens razão, meu sobrinho...
— E cuidaria, também, de arranjar-lhe boas companhias, já que ao chegar em terras estranhas, ela se sentirá um tanto só e saudosa da casa paterna.
— Companhias?!
— Sim ,Milorde. Boas moças para servi-la. Como em Camelot, onde a rainha Gwenevere tem, sob sua custódia, várias moças que a servem e aprendem as virtudes necessárias para se tornarem boas esposas. É a última moda nas Cortes!
— Parece-me uma boa idéia, Audret. Falarei com os nobres que me servem e convidarei suas filhas, caso as tenham, para morarem no castelo com Isolda.
— Até nossa prima Basílica poderia ajudá-la na formação das moças, dada à sua vasta experiência, uma vez que já foi casada.

Basílica não gostou, nem um pouco, daquela idéia há princípio.
— De jeito nenhum! Eu não vou servir como dama de companhia da lambisgóia irlandesa! — dizia irada.
— Basílica, querida... é por uma boa causa... tornando-te amiga dela, poderás arrancar-lhes confissões íntimas que, provavelmente, nos seria de grande valia contra Tristão — diz-lhe Audret tentando convencê-la.
Basílica fica pensativa, refletindo uns instantes sobre aquela proposta inesperada. De certa maneira, Audret tinha razão...
— Não desejais tanto a vingança quanto eu? Será que não valeria o sacrifício, minha querida?
— Ora! Está bem! Farei o que me pedes, pela nossa vingança. Prometo-te que me tornarei a sua melhor amiga e confidente.
Um sorriso de vitória esboçou-se nos lábios de Audret.
Enquanto isso, no barco, o casal apaixonado fazia planos para um futuro promissor: como viveriam, quantos filhos teriam e Isolda respondia-lhe sempre: “quantos o meu senhor quiser...”.
Só que eles não contavam, era que Marcos fosse recebê-los no porto de Tintagel, no momento do desembarque.
Huddent corria na frente, latindo e pulando, mas num certo momento estacou e farejava algo no ar, enquanto Tristão descia animado e amparava Isolda. Foi nessa hora que ele percebera, que seu amigo Dinas ficara lívido de repente e fazia-lhe gestos confusos e frenéticos.
— O que se passa, amigo? — pergunta ele.
— O rei... Ai,meu Deus! O rei... — sussurra-lhe pálido e atônito.
Agora, foi a vez de Tristão perder as cores da face, ao virar-se e topar com seu tio, Audret e um pomposo cortejo a sorrir-lhes ansiosos.
Brangia corre e agarra o cãozinho que farejava a pata de um cavalo, antes que ele levasse um coice, pois o animal já demonstrava sinais de impaciência.
— Ora! Ora! Vejo que meu estimado sobrinho está bem familiarizado com sua futura “tia”... — brinca o rei saudando-o. — Fico muito feliz e esta, cercada de tantos cuidados pelo meu fiel cavaleiro, de beleza inefável e angélica, só pode ser a princesa Isolda!
Isolda sente-se estremecer diante daqueles rostos curiosos a admirá-la.
— Tristão... não me diga que ele...— gagueja Isolda.
— Sim. É o rei Marcos da Cornualha, meu tio — as palavras de Tristão soaram implacáveis e frias. O desânimo era evidente em seu tom.
— Sede bem vindo, caríssimo primo! — saúda-lhe Audret. — Como foi a viagem? Folgo em saber que estás inteiro, após voltar da Irlanda! — caçoa o primo em tom sarcástico, debruçando-se sobre a montaria.
— E agora, Tristão? — sussurra-lhe Isolda, já entrando em desespero.
O rei adianta-se e estende a mão à noiva. Isolda hesita...
— Algum problema, alteza? — repara Marcos ao ver-lhe a esquiva. —Deves estar nervosa e ansiosa pela mudança que sofreste em tua vida... mas não temas, princesa Isolda, pois tudo farei para fazer-te feliz, enquanto eu viver.
— Bravo, meu senhor! — aplaude Audret. — Disseste bem!
O rei volta-se para Tristão, que estava completamente estático e confuso, e agradece-lhe por tudo com um caloroso abraço.
— Sou-te muito grato, meu filho, por trazer esta jóia rara da Irlanda para mim, com tanta fidelidade e presteza. Quanto a ti, cara e bela donzela, sede bem-vinda à estas terras e considere-as como se fossem o teu lar, de hoje em diante — Marcos beija o dorso daquelas mãos delicadas, como rezava a cortesia. — Muito bem, Tristão. Fizeste bem a tua parte, agora, deixai que eu faça a minha e apenas, procure descansar.
Isolda olha desesperada para Tristão, enquanto Marcos conduzia-lhe à montaria. Entretanto, o circo estava muito bem armado e Tristão, sentia-se impotente diante daquele inesperado espetáculo.
Isolda perdera completamente a fala. Por um instante, desejou gritar para que Tristão fizesse alguma coisa, mas ela não poderia revelar o segredo de ambos, diante de tantas testemunhas. Temia pela vida dele e, por isso, calou-se e deixou-se levar por Marcos.
— Ficaste sem falas, minha senhora? — brinca Marcos, enquanto ajudava-a a subir no cavalo. — Será um bom presságio?
Tristão estava parado, vendo-a afastar-se em companhia do tio e nem ouvira quando um dos guardas lhe mostrava o cavalo que iria transportá-lo ao castelo.
— Senhor, teu cavalo. Senhor?!
Mecanicamente, Tristão pega as rédeas, porém, não montou. O guarda não entendia aquele silêncio mortal e olhava-o curioso. Sir Dinas e a jovem aia de Isolda também estavam estupefatos com o que houve.
— Oh, não! E agora, Sir Dinas? — desespera-se Brangia.
— Eu não contava com isso! Céus! Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de todos nós...
Naquele instante, todos os castelos de sonhos que aquelas quatro almas haviam construído durante a viagem, desabaram. O casamento era praticamente fato consumado, os dois apaixonados não mais fugiriam juntos e as tentativas de Dinas e Brangia para ajudá-los, foram por água abaixo, pois a chegada do cortejo do rei no desembarque, frustraram todos os seus planos.

Próximo capítulo (1ª parte) :: índice geral

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 12: O Filtro do Amor (2ª parte)



índice geral :: parte anterior (1ªparte)

Brangia busca-os, então, por todo barco e por fim, lembra-se do único lugar onde ainda não estivera, o bagageiro. Porém, tarde demais...
Ambos já estavam entrelaçados e nus, com a capa vermelha de Tristão sobre eles. Ela firmou o olhar na escuridão e percebeu que os amantes trocavam carícias e beijos apaixonados, intercalados com suspiros, palavras sem sentido e gemidos de prazer.
“Oh, não! — pensa a criada, virando-se aflita. — O que eu fiz?”
A criada sobe ao convés e afasta-se para chorar e, pela sua mente, passaram-se muitas coisas.
“O casamento será marcado... Noiva impura... O rei vai perceber e a devolverá aos pais, acusando-a de não preservar-se até o casamento... A verdade virá à tona e Tristão será condenado à morte por traição... Oh, dia desgraçado! E tudo por minha culpa!” — chorava ela, quando foi surpreendida por sir Dinas.
— Brangia?! O que tens? Por que choras?
— Sir Dinas? Oh, por Deus! Me ajude!!!
Brangia agarra-se a ele e conta-lhe tudo.
— O quê?!! Filtro de amor? Como isso é possível?
— Oh, por favor! Não os denuncie! Eles não têm culpa, eu que fui a culpada!
— Não, eu não vou denunciá-los. Antes de mais nada, Tristão é meu amigo... Mas precisamos fazer alguma coisa. Eles não podem continuar com isso até serem descobertos. O dia já está amanhecendo.
— O que vai fazer?— pergunta a criada, soluçando.
Dinas cria coragem e bate com força à porta do alçapão que levava ao porão. Tristão e Isolda se assustam.
— Quem será? — pergunta preocupada.
Tristão veste-se rápido e Isolda faz o mesmo.
— Tristão! — chama Dinas.
— É Dinas — reconhece o cavaleiro.
— Senhora! Minha senhora!
— E esta é Brangia.
Os dois saem juntos e Brangia, assim que os vê, lança-se aos prantos aos pés de ambos.
— Perdoem-me!!! — pedia desesperada. — Oh, Deusa! Foi minha culpa!!!
Eles não entenderam nada. Dinas estava pálido e olhava para Tristão.
— Do que estás falando, Brangia? — indaga Tristão já nervoso.
— Vós fostes enfeitiçados! — revela a criada por fim.
— Como? — assusta-se ele. — Que história é essa?
— A garrafa... A garrafa era um filtro do amor!
— Aquilo era um feitiço? — grita Isolda já compreendendo o que se passara.
— Sim. Um feitiço para que tu e Marcos bebessem e se apaixonassem. Tua mãe o fez, para que não sofresses com o casamento, alteza.
— Oh, não... Meu amor. Nós fomos amaldiçoados! — desespera-se Isolda.
Tristão, sem pensar direito, agarra Brangia de forma violenta.
— Deve haver uma maneira de reverter o feitiço. Fale Brangia!!!
— Tristão, acalma-te e solta a moça! — intervém Dinas, afastando-o da pobre aia ao ver-lhe a fúria.
— Não há como, senhor. Não há um contra-feitiço para isto. Só o que sei é que ele dura três anos, levando os amantes à uma paixão cega e louca.
— O quê?! Três anos?! — fala Tristão desesperado.
— Infelizmente sim, meu senhor.
— Estamos perdidos, Tristão — conclui Isolda.
Os dois ficaram muito chocados com a nova; Sir Dinas procurava conversar com eles para acalmá-los e buscarem juntos a melhor solução.
Brangia continuava a chorar de remorsos. Huddent acabara de acordar e espreguiçava-se, alheio ao que se passava ao redor e, inocente, fez festa em todos, mas ninguém deu-lhe muita atenção.
— Eu não sei o que fazer, Dinas — dizia Tristão perplexo.
— Eu ainda acho que a melhor solução é fugires com Isolda, ainda mais agora, depois do que houve — Dinas torna a insistir no assunto.
— Eu não posso fazer isso com meu tio.
— E achas tu, que suportarás estar perto de Isolda e não poder tocá-la, estando sob feitiço? Será muito pior ambos serem pegos em pecado, do que se fugirem agora.
— Meu amor... Sir Dinas está certo... — fala Isolda. — Digo-te por mim mesma. Eu não vou conseguir afastar-me de ti, manter distância... Acabaremos descobertos — Isolda acaricia-lhe o rosto aflito.
— Maldita hora em que bebi aquele líquido! — desabafa ele.
— Nós não tivemos culpa, meu querido. Não sabíamos que se tratava de um feitiço de amor — retruca-lhe Isolda.
— E não é só isso... — Dinas olha para as duas moças e pede-lhes que se retirem um instante, pois o que falaria a Tristão era muito íntimo e precisava de total discrição. Não cairia bem falar de tal assunto na frente delas.
Elas obedeceram.
— Isolda não é mais pura. Sem querer, movidos pela paixão, ambos se deixaram arrastar pelos sentimentos e tu a desonraste. Como achas que teu tio reagirá a isto? Será uma vergonha para Isolda. Vais permitir que ela passe por isto?
— De jeito nenhum! Jamais!
— Tristão, agora falo-te como amigo: quando desembarcarmos na Cornualha, fuja com Isolda, case-se com ela, se preferir e deixe que de Marcos, cuido eu. Eu tentarei descobrir uma maneira de contornar a situação.
— Acho que tu estás certo, meu amigo. É a melhor solução. Que a lealdade seja esquecida, então, porque minha Isolda não merece passar por tamanho constrangimento!
— Eu não estou pensando apenas nela, mas em ti, também. Tu sabes muito bem o que acontecerá se deixarmos que isto vá avante, não sabes?
— Sim. Eu sei.
Dinas pousa a mão sobre os ombros dele.
— Tomaste a melhor decisão, amigo. Agora vá lá fora e converses com Isolda para transmitir-lhe tua decisão. Fim da 2ª parte

3ª parte :: índice geral

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 12: O Filtro do Amor (1ª parte)

índice geral :: capítulo anterior (3ª parte)

Imediatamente, Isolda sente um torpor percorrer-lhe todo o corpo e, como se perdesse o tato por uns instantes, deixa a taça cair de suas mãos. As mesmas sensações estavam acometendo Tristão. Seguido da sensação de frio, sobreveio-lhes uma onda de calor insuportável e olharam-se com um desejo incontrolável. Os dois corações já acelarados, pulsaram ainda mais rápido.
— Isolda... o que...
— Tristão...
Isolda atira-se em seus braços desesperada e ele, aperta-lhe com força como se quisesse, nunca mais, separar-se dela. A mágica surtira o efeito esperado; foi como se os olhos de ambos se abrissem para a realidade.
Tristão segura-lhe o rosto macio entre as mãos e une seus lábios aos dela; permitiram-se envolver pelo sortilégio e beijaram-se de forma ardente e apaixonada. Esqueceram honra e lealdade; foi como se a barreira e a distância que os separavam, tivesse se quebrado como um frágil cristal.
— Oh, Tristão! — diz-lhe Isolda ofegante. — É a ti que eu amo! Não quero pertencer a Marcos! Não permitas que ele me despose! Pela minha alma eu juro! Se ele me possuir, eu me mato no dia seguinte!
— Não! — Tristão agarra-lhe. — Meu amor, não digas uma insanidade destas!
Ele abraçou-a mais forte ainda, como se ao pensar em perdê-la, fosse o castigo mais cruel da sua existência. Aos poucos, foram revelando os sentimentos mais ocultos que guardavam.
— Querida amada! Eu te amei desde o instante em que, convalescendo-me da maldita chaga, despertei em teus braços.
— Se me amas... prova o que dizes! — implora ela às lágrimas. — Toma-me em teus braços e me ame! Me possua! Jamais serei de Marcos! Oh, meu amor, querido e adorado amor... Quero ser tua e somente tua!
Tristão não mais se conteve e deixou vazar o amor contido por tantos anos. Enfeitiçados e desesperados, pensaram num lugar discreto na embarcação, a fim de se amarem e se entregarem um ao outro, pois na cabine era muito arriscado, uma vez que Brangia poderia voltar a qualquer momento.
Tristão deixa para trás sua espada e Isolda, nem iria preocupar-se com o frasco do filtro que deixara sobre a mesa, destampado e pela metade; o que eles de fato queriam, era saciar o desejo que os consumia. O único local que veio-lhes a mente foi o bagageiro. Era um lugar, no porão do barco, onde ficavam os pertences dos tripulantes e viajantes. Ninguém ia até lá, a menos que chegassem aos seus destinos, para desembarcarem os alforjes.
Deitaram-se naquela solidão escura e guiados pelo desejo que os castigava, amaram-se como homem e mulher...
Isolda, tomada de incontida aflição, tentava livrá-lo da túnica pesada que usava, mas como ela não sabia como tirar-lhe a túnica de cavaleiro, Tristão mesmo o fez e de forma habilidosa e rápida.
— Estamos prestes a cometer uma loucura, Isolda... — comenta ele ao ter um ímpeto de lucidez.
Isolda, para que ele não mudasse de idéia, interrompe-lhe as palavras beijando-o com paixão e volúpia.
— E o que é o amor, senão uma grande loucura... — sussurra-lhe puxando-o para junto de si.
Tristão também livra-lhe das vestes e curva-se sobre ela. As mãos fortes e ágeis e calejadas por inúmeras batalhas, percorrem-lhe as curvas do corpo e Isolda, fecha os olhos para sentir cada toque de seus lábios mornos e cada carícia de suas mãos. Excitada, deixa-se consumir pela paixão e entrega-lhe a sua virtude, pensando com imensa satisfação: “Serei mulher de meu amado e não de Marcos...”

Neste exato momento, Brangia regressava à cabine apressada. Havia se encontrado com Sir Dinas no convés e perdera a noção do tempo, enquanto conversava com ele.
— Senhora! Voltei... Héim?
Brangia fica pálida e desnorteada; ela tinha certeza absoluta de que não deixara a poção à vista, porém, encontrou-a sobre a mesa e destampada; a taça caída no chão, contendo ainda um pouco de líquido, e a espada de Tristão jogada sobre a cama.
— Oh, não! Não... Não pode ser...
A criada lembra-se das palavras da rainha: “— Ninguém deve beber do filtro, somente minha filha e o rei. Principalmente Tristão. Se ele beber e Isolda, por um azar, beber também, haverá conseqüências muito sérias; porque eles já sentem amor um pelo outro e se beberem juntos, o sentimento irá intensificar-se e se transformará numa irresistível atração e com poucos momentos de prudência e lucidez. Sendo assim... cuidado, Brangia...”

— Essa não! A rainha vai me matar quando souber!
Fim da 1ª parte

domingo, 7 de setembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 11: Tentativa de fuga (3ª parte)


índice geral :: parte anterior (2ª parte)

Cansada de lutar inutilmente, Isolda entregara-se às lágrimas. Lágrimas estas, que caíram uma última vez, no momento que deixara a casa de seus pais.
Brangia sente-se comovida e abraça sua senhora, a fim de consolá-la.
— Estou decepcionada, querida Brangia... Tristão não é mais aquele homem doce que conheci e por quem me apaixonei perdidamente.
— Mas também... exageraste na tua rebeldia, Isolda. Tiraste ele do sério, alteza — critica-lhe a aia.
— Eu só queria que ele me notasse e visse o quanto estou sofrendo... — chora Isolda.
Huddent também tentava consolar a dona, deitando a cabecinha peluda sobre o seu regaço.
— O que aconteceu conosco? — indaga Isolda inconformada. — Acho que não tenho escolha. Terei que aceitar o meu destino.
— Senhora, confie... Tudo irá se resolver, tenho certeza que te afeiçoarás a Marcos da Cornualha!
— Como pode saber?
— Eu sei.
Isolda não entendia de onde vinha tanta confiança de sua aia, mas percebia que tudo estava relacionado à bolsa da qual ela nunca se separava.
“ Que segredo ela está escondendo?” — pensava a princesa.
Quando chegam ao porto, Tristão solta-lhe as amarras.
— Estou soltando-te, mas espero que te comportes de agora em diante. Não cairia bem à princesa da Irlanda, embarcar amarrada — fala ele.
Isolda nada disse e de cabeça baixa, desce da carruagem e embarca no navio, que já os aguardava. Aquilo, cortou o coração de Tristão e sentira remorsos por ter tomado uma atitude tão extrema como aquela; só que Isolda não lhe deixara outra alternativa.
— Eu não queria fazer isto e tu sabes que é verdade — diz-lhe, embarcando também.
Isolda insistia em não encará-lo nos olhos e nem dava-lhe respostas. Em silêncio, Tristão leva Isolda e Brangia para a cabine que haviam preparado para ambas, e acomoda-lhes.
Foi uma viagem longa, de fato. Embarcados; só viam céu e mar.
Isolda não comera nada, desde que saíra do castelo de seus pais, o que deixou Tristão preocupado e achou por bem, levar-lhe algo para que comesse.
— Eu não quero comer. Leve isto embora.
— Não comeste nada, alteza, desde que...
— Não estou com fome.
Brangia observava-os em silêncio. Tristão estava transtornado por ver o estado de Isolda, mas tentava disfarçar ao máximo, porém, a ela, ele não conseguia enganar. Ele ainda amava Isolda e também estava sofrendo.
— Coma mais tarde, então. Vou deixar tudo sobre a mesa.
Ele pousa o prato e olha uma última vez para Isolda, antes de sair, soltando um suspiro prolongado e, engano ou não, Brangia reparou que os olhos dele também estavam úmidos. Tristão parecia fazer um esforço sobre-humano para não chorar. Inevitavelmente, Brangia começa a sentir uma grande pena de ambos. “coitados...” — pensava ela.
Quando viu que Tristão saíra, Isolda vai até a porta, onde estava acomodada, e acompanha-o até que ele sumisse na escuridão do convés.
— Apesar de tudo... eu ainda o amo... — confessa a princesa.
— Isolda, querida... Logo estarás casada e será melhor esquecê-lo... — pondera a aia.
— Jamais o esquecerei, Brangia. Tristão foi o meu primeiro e verdadeiro amor.
— Ai, credo! Vou tomar um pouco de ar, senhora. O balançar do navio está me enjoando — desconversa a criada, saindo.
Huddent já estava dormindo, próximo à mala de Brangia.
“Ora essa? Por que Brangia não guardou esta bolsa, junto com os outros fardos no bagageiro?” — pensa Isolda curiosa e abre a bolsa. — “O que é isso?” — indaga ela, tirando o frasco misterioso de dentro dela.
— O que é isto? — chega Tristão de surpresa e assusta-lhe.
Tristão tinha muito para falar com Isolda e quando viu a criada sair, voltara à cabine. Quando reparou no frasco que ela segurava, julgou que se tratasse de veneno.
— Não sei. Foi Brangia quem trouxe.Talvez seja um vinho...
— Deixe-me ver.
Tristão, imaginando que ela estivesse mentindo, tira-lhe o frasco e cheira.
— Ora qual, meu senhor? — debocha a princesa. — Pensas que é veneno? Achas que eu me daria a este luxo, por ti?
Injuriado com o tom irônico, ele vira um pouco na taça de barro, ao lado do prato de comida, e bebe. Se fosse veneno, Isolda o impediria, antes de sorver o primeiro gole; no que ela ficou ainda mais irritada pela desconfiança dele.
— Mais parece um chá... e é bom... tem um gosto diferente.
— Vai ver, foi minha mãe que fez para que eu me acalmasse! — diz ela, arrancando-lhe a taça da mão.
Isolda também despeja um pouco do líquido na taça e bebe-lhe de um só gole para peitar-lhe, mas antes, não o tivesse bebido... (fim da 3ªparte)

Próxima capítulo (1ª parte) :: índice geral

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ATENÇÃO!!! "Tudo por um Amor Imortal" ganhou nova roupagem!


Tenho 3 blogs, como todos já sabem. fapdunguel.blogspot; fapdunguel-1.blogspot; fapdunguel-2.blogspot

Meu blog "fapdunguel-2", passou a se chamar Amores Imortais. Com ele, tenho a pretensão de postar outras histórias clássicas tais como a de Tristão e Isolda; livremente adaptadas por mim e estou numa dúvida cruel: Qual História postar primeiro?

Tenho 3 sugestões e gostaria que os meus queridos leitores ajudassem, por isso, no dito blog, criei uma enquete. Àqueles que gostam desta história e estão acompanhando com carinho, tomei a liberdade de convidá-los a votar e escolher a primeira história da nova fase de "Tudo por um Amor Imortal:

1ª sugestão: Pigmalião - a lenda grega de um escultor que apaixona-se pela escultura que criara. Click para ler o fragmento

2ª sugestão: Romeu e Julieta em prosa e versos - uma livre adaptação da memorável história de William Shakespeare, contando o romance dos amantes de Verona em narrativa, mas não desprezando a bela poesia de William Shakespeare. Click para ler o fragmento

3ª sugestão: Hamlet, príncipe da Dinamarca - também de William Shakespeare e com o mesmo propósito do romance de Romeu e Julieta, conseguir um perfeito casamento entre poesia e prosa. Click para ler o fragmento
No blog, postei 3 pedacinhos de cada história para facilitar a escolha do texto que será publicado primeiro. A votação está prevista para acabar em um mês e se os amigos de fato votarem, terão a opção de ler mais uma boa história, que eternizou-se nos corações dos amantes da boa leitura.
Por isso, não deixem de votar! Um beijo e um abraço a todos!

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 11: Tentativa de fuga (2ª parte)


índice geral :: parte anterior (1ª parte)

— Ele não pode me alcançar! Não pode! — falava Isolda ofegante, ora tropeçando, caindo, ralando-se...
Em um dado momento Isolda pára. À sua frente estava um rio revolto e borbulhante.
— E agora ?! Eu não sei nadar, porcaria!!!
— Isolda!!! Princesa Isolda!!! — gritava Tristão cada vez mais próximo.
No desespero, Isolda agarra Huddent e esquece o medo, atirando-se nas águas. Agarrada às pedras, para que a correnteza não a levasse, ela tentava chegar ao outro lado.
Tristão chega ao rio e fica pálido ao ver o que ela estava fazendo.
— Ela é louca! Isolda!!!
Tristão avança com o cavalo e graças à força de seu bom animal, consegue chegar até ela.
Isolda só conseguira chegar ao meio do córrego e estava imóvel de medo, mas mesmo assim, quando Tristão estende-lhe a mão para tentar puxá-la, Isolda bate na mão dele e, descuidadamente, acaba por soltar-se da rocha onde havia se segurado. Com um grito, Tristão vê ela sendo arrastada pelas águas, junto com o cão.
— NÃO!!!
— Tristão!!! — gritam os homens.
Tristão deixa o cavalo e segue atrás dela para salvá-la.
— Essa não! — berra Dinas. — Homens sigam-me! Vamos atrás deles!!!
Huddent conseguira chegar à outra margem, fiando-se no seu instinto de sobrevivência, mas Isolda, vira a morte de perto, se não fosse por uma raiz exposta de um velho salgueiro que serviu-lhe de amparo. Até agarrar-se à raiz, foi o tempo necessário para que Tristão conseguisse chegar perto dela.
— Isolda! — fala Tristão estendendo-lhe o cabo da espada. — Segure minha espada! Deixe-me puxá-la!
— Não! — grita ela, ainda mais alto que o som da força das águas.
— Não seja tola, mulher!!!
Encontrando forças desconhecidas dentro de si, Isolda agarra-se com mais firmeza à árvore e consegue alcançar a margem para sair do rio, usando-a como se fosse uma corda.
— Tristão!!! — chama Dinas.
Ele e os homens acompanhava-os de longe, durante a tentativa alucinante de resgate.
Dinas joga uma corda para ele e puxa-o, usando a força de sua montaria...
— Pegamos a ferinha! — anuncia Sir Bermond, trazendo Huddent que gania de desespero e tentava livrar-se.
— Tristão! Estás bem? — pergunta Dinas preocupado.
Tristão estava encharcado e exausto.
— Estou. Mas a desgraçada conseguiu fugir de mim — fala ofegante e quase sem voz.
— Senhor, o que faremos? — pergunta o homem com o cão. — Nós não podemos deixá-la fugir assim!
Huddent ainda se debatia inutilmente e Tristão teve uma idéia.
— Soltem o cão.
— Como? — o homem não entendeu.
— Ele seguirá, com o faro, o rastro de sua dona e nos levará até ela — explica-lhe o cavaleiro.
Os homens obedecem e, tal como dissera Tristão, o cãozinho foi atrás de Isolda. Esta havia se escondido sob um volumoso arbusto e tentava refazer-se do susto e da perseguição.
— Huddent?! — assusta-se Isolda ao ouvir o latido dele. — Oh, Huddent! Estás vivo!!! — abraça-o feliz e aliviada.
— Cansou de brincar de “esconde-esconde”, senhora? — diz-lhe Tristão, chegando de surpresa.
Ela tentou fugir outra vez, mas o cansaço impediu-a. Tristão agarra-lhe com força e ergue-lhe do chão.
— Me solta!!! — berra ela. — Eu não vou para a Cornualha!!!!
— Ah, vai! Tu vais!!! Nem que eu tenha que amarrar-te!
Tristão arrasta-lhe de volta e Huddent segue latindo atrás. Dinas agarra-o e tapa-lhe a boca, forçando-o a calar-se.
— Me larga!!! — esperneava Isolda.
— Onde está a corda, com a qual me puxaste do rio? — Pergunta Tristão a Dinas. —Amarrem-na — ordena Tristão.
— O quê?! Tu não te atreverias, insolente!
Os guardas tentaram tocá-la.
—Não se atrevam a tocar na princesa da Irlanda! — ameaça ela.
Os guardas ficaram confusos e olharam para Sir Tristão.
— Sob que ordens vós estais, senhores?
— Sob tuas ordens, Milorde — responde um deles.
— Então o que estão esperando? Façam o que eu disse.
— Perdoe-nos, alteza. Mas ordens, são ordens.
— Não! Seus animais irracionais, eu...
Com um grande alvoroço e palavras de injúrias sem conta, Isolda chega amarrada ao acampamento.
— Ei! Isto é um absurdo!!! Não podem fazer isso com a princesa! — protesta Brangia ao ver sua senhora amarrada e humilhada.
— Se esta aqui reclamar muito, amarrem-na também — diz Tristão enfurecido.
— Como?!! — assusta-se a criada.
— Ouviu o que ele disse, moça? É melhor comportar-se, senão, não teremos escolha — alerta o homem. (fim da 2ª parte)

3ª parte :: índice geral