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quinta-feira, 22 de maio de 2008

Bem vindos de coração


Aproveitei este espaço, pra informar que os próximos capítulos mais longos, que eu postar de Tristão e Isolda, farei da seguinte forma, para facilitar a leitura (Afinal! Essas letrinhas de Blog são muito miúdas e reconheço que um texto muito longo, deve cansar por demais nossas vistas):

Vou dividi-los sempre em três ou quarto partes de forma "SEMANAL" no mês que eles serão postados.

Para mim, o mais importante é tornar a leitura mais agradável, visando o bem-estar dos leitores. Um beijo no coração de todos e até Junho de 2008, com o 8º capítulo de Tristão e Isolda.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 7: De volta à Cornualha


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Tristão chega enfim à Cornualha, depois de uma longa viagem mar à fora. De longe, seus olhos pousaram na sombra onipotente da fortaleza de Tintagel, que erguia-se de encontro ao céu carregado de nuvens. Parecia que ia chover.
— Em casa, finalmente! — comemora Sir Gorvenal.
Tristão abaixa a cabeça e nada fala; apenas fixava os olhos sobre a superfície do mar turvo e cinzento. Deixava-se perder em pensamentos e naquilo que deixara para trás; era como se o seu coração ainda estivesse na Irlanda.
Gorvenal parou de comemorar e muito sem graça, tentou mudar de assunto.
— Teu tio ficará feliz em vê-lo, pois de certo, pensa que estás morto...
— Eu estou morto. Não fisicamente... mas a minha alma ficou na Irlanda — suspira o rapaz queixoso.
Gorvenal preferiu não dizer mais nada; talvez o que dissesse, contribuísse mais ainda para aumentar-lhe a tristeza. Mas... Bolas! Era jovem ainda... conheceria muitas moças...
Seu mestre não conseguia compreender.
O rei Marcos estava recepcionando a sua prima Basílica, que ficara viúva há pouco tempo, quando recebe a notícia de que Tristão estava chegando ao castelo. Grande foi a alegria dele com a boa nova..
— Deus seja louvado! Estás vivo! — exclama o rei abraçando-o.
— Sua benção, meu tio e senhor.
— Deus te abençoe, meu filho!
Basílica olha-o curiosa e encanta-se por aquele primo que ela ainda não conhecia. Era uma mulher madura e experiente; tinha os cabelos acobreados e volumosos e seus olhos eram tão claros, que pareciam possuir um tom de mel. Ela deveria ter uns 35 anos, aproximadamente.
E como convinha à lei da boa educação, Marcos apresenta-lhe Basílica.
— Tristão, esta é tua prima Basílica da Bretanha menor; ela é neta de um dos irmãos de meu pai e sua prima em 3º grau de parentesco.
— Tristão? O herói da Cornualha? — pergunta ela.
Tristão toma-lhe a mão e beija-a de forma respeitosa.
— Muito prazer, senhora.
— O prazer é todo meu, caro primo.
— O marido de Basílica morreu há poucos dias e ela resolveu vir para cá, para esquecer um pouco a tristeza — explica-lhe seu tio.
— Meus sentimentos, minha prima. Espero que a Cornualha consiga afastar o pesar do seu coração — deseja ele de forma inocente e educada.
— Não tenho dúvidas quanto a isso! — diz-lhe sorrindo de forma envolvente e sedutora.
Tristão reparou no olhar dela e ficou meio desconfiado; no fundo, duvidou se ela realmente estaria triste com a morte do marido.
Marcos bate palmas e manda um dos criados chamar Audret.
— Audret! Veja! Tristão está vivo!
— Tristão?! Mas como...
Audret ficara lívido, parecia estar diante de um fantasma.
— Foi um milagre! Anda Audret! Abrace-o! É assim que recebes o teu primo? — brinca o rei animado.
— Perdão, meu tio — disfarça ele. — É que eu fiquei surpreso... Tristão, caro primo! Seja bem-vindo!
Audret abraça-o e beija-lhe na face. Marcos também aproveitou para apresentar-lhe Basílica.
Quando Audret pediu licença, inventando uma desculpa qualquer e se afastou...
— MALDIÇÃO!!! Como ele pode ter sobrevivido àquela chaga terrível? Como conseguiu suportar o veneno? — pragueja ele. — Só há uma explicação convincente: ele é um servo de Satanás! Por fora, faz-se de bom cristão, mas por dentro, tem parte com o demônio!
O rei continuava comemorando o seu regresso.
— Que alegria! Não poderias ter regressado em melhor hora!
— E por quê, meu tio? — quis saber Tristão.
— Porque amanhã virão dois cavaleiros do Grande Rei da Bretanha, para tratarmos de assuntos de segurança e estado, em relação aos saxões. Arthur “Pendragon” deseja realizar alianças entre os soberanos e unificar a Bretanha contra os invasores. E já que voltaste, vou fazer uma grande festa de boas-vindas e vou apresentá-lo aos dois cavaleiros.
— Como? Cavaleiros de Arthur de Camelot?
— Sim. Sir Lancelote e Sir Gawain! E eles devem estar ansiosos para conhecer o campeão da Cornualha! E também, vou aproveitar para fazer um pronunciamento solene na presença deles, quero que eles sirvam de testemunhas...
— Pronunciamento? — pergunta Gorvenal curioso.
Tristão não consegue entender. Seu tio estava enigmático...
— Agora fiquei curioso, meu senhor! — comenta ele.
— Amanhã verás. Agora, meu querido sobrinho, descanse da longa viagem! Amanhã será um grande dia para todos.
— Antes, preciso entregar-lhe isto — Tristão puxa a carta do rei Anguish da túnica e entrega-lhe o documento.
Marcos abre e lê.
— Meu tio, seria ousado de minha parte perguntar do que se trata?
— Nada de mais, Tristão. Ele apenas deseja que translademos imediatamente os restos mortais de Sir Morholt, uma vez que o tempo de espera da decomposição já expirou e não causará mais incômodo a quem transportá-lo. Ele quer dar-lhe uma sepultura digna...
Naquela época, por não saberem as técnicas de mumificação ou conservação, era costume o corpo de um estrangeiro, que morresse fora de suas terras, ser sepultado provisoriamente no país em que perdesse a vida, para que se esperasse o tempo da decomposição.
— Se é assim, peço-te um favor caro tio... — Tristão fez uma pausa. — Transporte-o com um rico cortejo e todas as honras que um campeão do nível dele merece.
O rei Marcos não compreendeu aquele pedido, mas não contestou a vontade dele e faria conforme Tristão lhe pedira.

Na manhã seguinte, quando os dois famosos cavaleiros chegaram, os preparativos já estavam concluídos.
O rei Marcos recebe-os com pompa e circunstância; dignas de cavaleiros da Távola Redonda. Tristão não estava acreditando. Finalmente conheceria dois cavaleiros do Rei Arthur.
— Ora! Isto que eu chamo de recepção! — comenta Gawain sorrindo orgulhoso.
Marcos aproxima-se, junto com seus dois sobrinhos. Gawain dirige-se a Audret, crente que estava abafando...
— Sir Tristão, eu presumo...
— Não. Eu não sou Tristão — fala ele amargurado com a comparação.
— Este é Audret, meu outro sobrinho. Eis Tristão! — diz-lhes o rei.
Gawain quase não acreditou. Tristão portava-se de forma muito humilde para ser um cavaleiro, um herói como diziam...
E Audret era mais velho, parecia ter mais experiência e um porte cavaleiresco mais convincente e acentuado.
Lancelote sorri para Tristão e cumprimenta-o de forma respeitosa.
— Aí está o homem que venceu o arrogante campeão da Irlanda! — fala Lancelote.
— E diante de mim, dois cavaleiros respeitáveis de nosso Grande Rei! Sinto-me lisonjeado por conhecê-los — responde-lhe Tristão, no mesmo tom de admiração.
— Venham, senhores! Vamos meus filhos! Uma festa magnífica vos espera! — falava Marcos animado.
O rei Marcos convida-os a entrar e ordenou que a festa começasse. Haviam muitos nobres com suas esposas, filhos e filhas; os barões conselheiros do rei e haviam também cortesãs, que ganhavam para animar as festas glamourosas daquela época.
— Por Deus! O que vejo aqui? — exclama sir Gawain eufórico. — Quantas damas belíssimas! Vou me refazer hoje... — ri maliciosamente.
— Ah, não começa, Gawain! Não estou com a menor vontade de livrar-te de apuros hoje, caso te metas neles! Viemos a negócios... — critica-lhe Lancelote.
De nada adiantaram os conselhos de boa conduta de Sir Lancelote, pois ele fez-se de surdo. Sir Gawain via-se diante de uma visão paradisíaca e mais ainda quando viu Basílica, que era uma linda mulher. Ela trajava um belo vestido negro com detalhes em prata e ajeitava os seus fartos seios, sob um decote ousado e sedutor; parecia vestida para impressionar alguém.
— Cahan! —pigarreia o cavaleiro de Arthur. — Acaso, esta bela dama, esta jóia da Bretanha está sozinha? — pergunta ele ajeitando os cabelos e lançando o seu charme irresistível sobre ela. Ou pelo menos, pensava que era irresistível...
Basílica olha-o com desdém; ela não sabia que se tratava de Sir Gawain, pensou que fosse um engraçadinho qualquer.
— Sou uma bela dama, sou uma jóia... mas não sou para vosso deleite. Com licença...
Ela sai, deixando-o com cara de bobo. Lancelote conversava com Tristão e, ao ver isso, começa a rir.
— Eu nunca fui tão humilhado por uma mulher em toda a minha vida! — diz Gawain juntando-se aos dois, muito contrariado e ficou possesso com a risada de Lancelote.— Vou fazer tu engolires o riso... — ameaça ele.
— Creio que hoje não é dia para o “grande sedutor” de Camelot entrar em ação — fala Lancelote em tom cínico.
Tristão ri também.
Sir Gawain ficou calado e afastou-se de ambos. Pegou a primeira taça de vinho que viu servirem e bebeu de um só gole; levar aquele fora foi duro para ele.
O rei sentara-se na grande mesa e ordenou que começassem a servir o almoço. Sentaram-se depois todos os outros: Tristão, por ordem do rei, sentara-se à sua direita; Lancelote e Gawain, à sua esquerda, respectivamente; Audret, ao lado de Tristão e pensava em seu íntimo “Antes de Tristão aparecer, era eu que sentava ao lado direito dele...”.
Basílica fez de tudo para sentar-se defronte a Tristão e conseguira. Ela olhava-o insistentemente, com aquele olhar que só as apaixonadas sabem; mas ele estava alheio, não conseguia perceber ainda. Audret percebera o olhar dela e mais inveja sentira do primo.
Gawain não parava de beber...
— Gawain... acho que estás exagerando... — observa Lancelote preocupado. Quando Gawain queria beber, ele não tinha limites.
— Ora, me deixa! — funga o cavaleiro bebendo mais um pouco.
Num dado momento, após a sobremesa, o rei Marcos ergue-se e propõe um brinde aos cavaleiros que chegaram e ao que diria em seguida.
— Amigos de Camelot, quero que sejam minhas testemunhas daquilo que direi agora! Barões conselheiros! Parentes e amigos de longa data! Diante de vós, quero fazer um pronunciamento solene... — diz ele.
Todos se voltaram para o rei e ficaram curiosos e ansiosos para ouvirem o que ele diria.
— Hoje estou muito feliz por ter a presença de Sir Lancelote e Sir Gawain, e mais ainda pelo regresso de meu estimado sobrinho Tristão, que julguei estar morto. Sir Tristão salvou a Cornualha, libertando-nos da servidão à Irlanda e nada mais justo que declarar que, uma vez que não sou casado e não tenho filhos, ceder o meu trono à pessoa que me é mais cara... Tristão!
A boa nova causou um escândalo na Corte. Os barões conselheiros ficaram estáticos e dividiram-se entre os que apoiaram a escolha do rei e aqueles que acharam injusta a escolha, já que o duque Audret era o sucessor legítimo por causa da sua idade.
— Isto é um absurdo! — protesta um deles, chamado Denoallen. — Audret é o sucessor por direito!
Os olhos de Audret brilharam, pois percebera que ele não era o único a nutrir antipatia por Tristão.
— Estás dizendo, sir Denoallen, que estou sendo injusto? — retruca o rei.
Tristão tentava contornar a situação e também foi pego de surpresa. Nesta hora, Sir Gorvenal percebeu o que o rei queria dizer sobre um tal pronunciamento solene e que seria um grande dia para todos.
— Achas injusto conceder o trono ao meu campeão? Ao homem que salvou-nos da Irlanda? Não achais, senhor, que tu sim estás sendo injusto por tentar obrigar-me a não lhe conferir tal honra? Sois um bando de ingratos! Isto sim!
— O rei Marcos está certo! Tristão é digno do trono por sua coragem! — replica Sir Bermond, um dos que eram favoráveis a Tristão.
— Ora! Se queres tanto ter um herdeiro? Por que não te casas e dá à Cornualha um herdeiro de verdade? — Fala um outro conselheiro, de nome Gondoine.
— Não me casei e não será agora, em avançada idade, que hei de me casar. — replica-lhe o rei.
— Tio! Por Deus! — suplica-lhe Tristão ao perceber o mal estar que a notícia causou à Corte. — Eles têm razão... Eu não posso ser teu herdeiro...
— Tolices! Eu dito as ordens nestas terras e quero que me sucedas ao trono, quando eu me for!
Lancelote toma a palavra.
— Senhores, por favor... Temos assuntos mais urgentes a tratar, deixemos discussões de sucessão para outra ocasião! Mesmo por que, devo lembrar-lhe Dom Marcos... Estás na Cornualha como regente da senhora Morgana, meia irmã de nosso rei. E se alguém deve sucedê-lo, terá de ser aprovado por ela e ao que me consta, ela tem um filho...
Marcos ficou calado; Lancelote lembrou-lhe uma coisa que, há muito, ele tinha se esquecido...
— Ora! A senhora de quem falas pouco se importa com estas terras, só dedica-se à Avalon.
— Mas ela é a legítima herdeira, juntamente com o seu filho, o pequeno Mordred, que está sendo criado por minha mãe em Orkney — comenta Gawain.
Audret ficou pálido. Lancelote estava certo; a Cornualha já tinha um herdeiro e viu que nem ele, se quisesse, poderia roubar-lhe o direito de tomar o trono, a não ser que o próprio Mordred morresse...
A cabeça de Audret dera mil voltas: se Mordred morresse, o trono ficaria sem o seu herdeiro, mas com certeza, Tristão seria um forte candidato a sucedê-lo, dado à decisão irredutível de Marcos, uma vez que Morgana pouco importava-se com a Cornualha; ela só se dedicava à sua deusa pagã e medíocre, na misteriosa ilha das fadas e talvez nem mais se lembrasse da sua nobreza.
Audret sentia-se tão desprezado, que a sua antipatia por Tristão acabou tomando ares de um ódio mortal por ele, a partir daquele dia.
“ Preciso arrumar um meio de acabar com a reputação de Tristão, custe o que custar... e quanto a Mordred, cuidarei dele mais tarde e assim, o trono da Cornualha será meu...” — pensa Audret de forma diabólica.
O invejoso primo não perdeu tempo; antes de acabar a festa, começou a incutir coisas absurdas e infâmias sem conta à mente daqueles que eram contra Tristão.
— O que estás dizendo, Sir Audret? Ele serve a Satanás? — espanta-se Gondoine.
— E o que achas, meu caro, depois dele suportar aquela chaga e voltar curado? Eu mesmo vos digo, por minha fé... — e que o céu caia sobre a minha cabeça, se estiver mentindo —... eu mesmo já o ouvi proferindo palavras profanas e exaltando “aquele” que não deve ser nomeado... — mente ele.
— Por Deus! Estaremos perdidos, se um homem como ele subir ao trono! — escandaliza-se Guenelon, um outro barão conselheiro, que ocupava o cargo de chanceler do rei.
— Nem em Mordred eu confio, amigos — complementa Audret, aproveitando-se da situação. — Sua mãe é uma feiticeira pagã e ele, com certeza, também terá formação semelhante à dela. Nós, cristãos, não podemos permitir que alguém como Mordred, assuma nossa terra, pois com certeza será a morte para todos nós. Ele será tão péssimo regente quanto Tristão, pois ambos seguem a mesma crença profana e exaltam o Inimigo declarado de Nosso Senhor! Oh, que Deus nos ajude! — exclama Audret.
— E o que faremos, senhor Audret? Diga-nos! — pergunta Denoallen.
— Devemos extirpar gente desta laia de nosso solo. Precisamos de um herdeiro cristão e justo...
— Então, ninguém melhor do que vós — fala Gondoine.
— Não, eu não ouso desejar isto! Eu não sou digno! — diz Audret, fingindo-se de santo.
— Não conhecemos ninguém mais digno — replica Gondoine.
— Eu ainda acho que o melhor seria meu tio casar-se e ter o seu próprio herdeiro, pois jamais pensei em cobiçar-lhe o trono. Longe de mim tal pretensão!
— Mas quem seria a escolhida para desposá-lo? — observa Guenelon.
— Terá que ser uma mulher bem jovem, para que possa dar-lhe muitos filhos — afirma Denoallen.
— Precisamos agir com cautela, senhores... Alto lá! Aí vem o rei! — avisa Audret ao ver o tio aproximar-se.
— Audret, viste Tristão? Desde o almoço que não o vi mais.
— Não, meu tio. Vai ver, está tomando um pouco de ar.
— Lancelote quer falar-nos sobre a ameaça dos saxões e gostaria que ele estivesse conosco; é importante que todos nós fiquemos a par da situação de guerra iminente e quero a presença de vós também, meus barões e amigos de longa data. Será uma reunião muito importante que irá ocorrer amanhã; agora, preciso encontrar Tristão e avisá-lo também.
— Asseguro-te que estaremos presentes, my lord — promete Denoallen.
Tristão sentia-se extressado com a confusão que se formara durante o banquete de boas-vindas dos dois cavaleiros. Pensando em fugir um pouco daquela turbulência, foi até uma sacada do castelo para respirar um pouco; tal como dissera Audret.
Basílica seguia-o para onde quer que fosse e encontra-se com ele no tal lugar.
Ele pegara a sua harpa e dedilhava a sua música preferida, a música que fizera para sua doce Isolda.
— É tão suave e tão mágico! — diz-lhe a prima ao ouvir a melodia. — Mas triste também...
— Basílica?! — Tristão pára de tocar ao vê-la.
— Oh, não. Por favor, não pare. É uma música tão bonita!
Tristão, como era gentil e cortês, continua tocando. Basílica senta-se ao seu lado e, de propósito, aproxima-se dele de forma estratégica, de modo que o rosto de Tristão ficasse bem próximo de seus seios fartos. Foi nesta hora, que Tristão percebera-lhe enfim as reais intenções.
— Senhora, o que estás fazendo?
— Aproximei-me para ouvir melhor, por quê? Não posso? — disfarça ela fingindo inocência.
— Não é preciso que faças isto. É só pedir que tocarei mais alto — diz ele levantando-se e demonstrando um grande incômodo.
— Pra quê tanto medo, meu caro? Não há mal algum em ficarmos mais próximos. Somos parentes... — ela também se levanta e achega-se a ele mais uma vez.
— Por isso mesmo. Por ser minha parenta, devo-te respeito — fala ele esquivando-se.
— Oh ,Tristão! Estou tão triste por tudo que me aconteceu há duas semanas atrás. Sinto-me tão só... — apela Basílica para o sentimentalismo.
— Eu imagino que sim e sinto muito por teu luto, mas creio que estás perturbada também... entendo que seja muito difícil estar viúva e só, mas o corpo de teu marido ainda está fresco na sepultura, por isso não convém que... — Tristão cala-se.
— O que irias dizer, meu primo?
Basílica fica feliz; em seu íntimo, achava que Tristão sentia-se balançar por ela.
— Que não convém que, com tamanha intimidade, fiques a conversar a sós com um homem.
— Minha presença te incomoda, primo? — fala ela tentando aproximar-se de novo.
— Desta forma sim — diz ele esquivando-se outra vez.
— Ora! — ri ela, achando aquela brincadeira de gato e rato muito divertida. — Eu ainda sou muito jovem e preciso de alguém que me defenda! As mulheres precisam de proteção, sabe? E sinto-me muito desprotegida... Vais te negar a defender uma dama, cavaleiro? — brinca ela de forma maldosa e sedutora, atraindo-o para si.
— Não preciso defender-te porque não estás em apuros — Tristão afasta-a de si e sai.
Basílica sente-se humilhada com a atitude dele e fica possessa. Tomada de despeito, segue atrás dele, e não medindo as palavras, ofende-lhe no seu orgulho.
— O que há convosco? Preferis os rapazes, senhor?
A primeira coisa que veio-lhe à cabeça era esbofeteá-la, mas Tristão era cortês demais para fazê-lo. Vira-se então, e vermelho de cólera, segura Basílica fortemente pelo punho e aperta-o. Ela sente-lhe a força e o seu punho, ficara dolorido sob a pressão de seus dedos.
— Não. Prefiro as moças, mas somente as que me agradam, o que não é o teu caso, prima — diz-lhe Tristão devolvendo-lhe a humilhação.
— Solte-me! Estás me machucando! — grita ela e Gawain, que continuava a beber, ouve-lhe o grito.
— Ei! Alto lá! — berra ele levantando-se cambaleante da mesa. Estava completamente bêbado.
— Gawain! — Lancelote tenta impedir-lhe.
Com dificuldade, Sir Gawain tenta puxar da espada.
— Pelo que vejo, o novato ainda precisa aprender boas maneiras e ninguém melhor do que eu para ensiná-lo! Não é assim que se trata uma dama!
Tristão solta a prima e encara o cavaleiro bêbado e vacilante diante de si.
— Não sabeis do que se trata, senhor, por isto, não antecipe o julgamento — fala Tristão altivo e cheio de coragem.
Sir Gawain saca da espada e quase cai pra trás, mas consegue firmar-se.
— Ora! — ri ele. — Então que tal me contares para que eu possa julgar-te, senhor?
— É assunto de família e não vos diz respeito.
— Ora, seu moleque atrevido eu vou...
— Gawain, pare! Nós viemos em paz, por isso, nada de confusões aqui! — diz-lhe Lancelote, tirando-lhe a espada e segurando-o.
— Me deixa, Lancelote! — retruca Gawain soltando-se do amigo. — Ele estava maltratando esta bela dama. Campeão da Cornualha?! Pois sim! Sorte de principiante, digo com certeza! De cavaleiro, ele não tem nada!
— Não darei crédito às vossas palavras, senhor, porque sei que não estais gozando plenamente de vossas faculdades mentais, por conta do vinho — fala Tristão tentando resolver pelo diálogo. Ele não queria arrumar briga com um membro famoso da Távola Redonda.
Os olhos de Basílica se iluminaram. Ver a confusão que havia se formado por causa dela, era prazeroso e, para lançar mais lenha à fogueira, ela começa a chorar, o que tirou mais ainda a Sir Gawain do sério.
— Veja só o que fizeste? A dama chora por tua causa, infame!
— Pare, Gawain! Meça as tuas palavras...
Sir Gawain empurra Lancelote e toma novamente a espada.
— O que há, rapaz? Estás com medo de mim, “cavaleirinho”? — fala o experiente cavaleiro em tom pejorativo. — Vamos patife! Saque de vossa lâmina se for homem!
— Não vou sacar minha espada, contra um cavaleiro de meu soberano Arthur! Não me deste motivos para tanto, senhor...
Tristão tenta afastar-se. Gawain insiste e humilha-o ainda mais.
— O quê? Ousais dar-me as costas? Queres que eu vos dê motivos, pois vos darei! Estou vos desafiando para um duelo, meu caro! E um cavaleiro de verdade jamais se nega a aceitar um desafio! Só se não fores um cavaleiro de verdade e sim, um maricas! Aliás, para mim, é isto que sois! UM MARICAS!!!! Até o nome combina com estas condições: Tristão, o infeliz, o coitadinho! O que nasce sob má-estrela, pobre homem...
Tristão não suportou mais e sacou da espada.
— Agora sim!!! Estás falando a minha língua!!!! — vibra Gawain.
Lancelote interpõe-se entre os dois e clama para que parem.
— Parem!!! Gawain, chega!!!
Ao ver a confusão, todos se amontoaram para ver a cena e se acotovelavam para conseguir o melhor ângulo. Aliás! Ver o campeão da Cornualha bater-se contra um membro da Távola Redonda era excitante...
Basílica aproveitara a confusão para afastar-se e ficou à parte, aguardando o desfeche do quadro que ela mesma criara. Audret achava tudo aquilo muito divertido e torcia para que o famoso cavaleiro poupasse-lhe do trabalho de matar Tristão.
— Mas o que é isso, senhores? — grita o rei Marcos ao ver os ânimos exaltados. — Para quê toda esta pilhéria? Por Deus! Somos amigos e civilizados e não precisamos disso! Tristão, meu sobrinho, guarda a espada!
Tristão prontamente faz o que o tio lhe pede, pois devia-lhe obediência acima de tudo. Por um momento, tudo se acalmara. Até Gawain estava mais calmo.
— Deves poupar-se para a guerra que virá, Tristão, e não terás aqui a rainha da Irlanda, para devolver-lhe à vida — brinca o tio aconselhando-o.
— A rainha da Irlanda, Bah! — ri o cavaleiro Gawain, deixando escapar sem querer. — Uma feiticeira, isso sim! Aposto que já se deitou com muitos nos rituais de Beltane, mesmo depois de casada, sem que o rei soubesse! E Anguish Gormond é outro maricas como este aí!
Essa foi a gota d’água. Tristão agarra-o de forma violenta e defende o rei da Irlanda e sua esposa.
— Limpe esta tua boca imunda ao falar do rei Anguish e de sua esposa, a rainha Isolda!
— Tristão! — berra Marcos assustado.
— Sir Tristão, por favor! Sabes que Gawain está bêbado e não sabe o que diz! — pede-lhe Lancelote.
— Tire suas mãos de mim, seu novato! — ele quase cai. — Acha que falei alguma mentira? Eu sei bem o que todas estas sacerdotisas são na verdade! Elas não passam de prostitutas!!! — diz o cavaleiro abaixando o nível.
E Tristão, que já ouvira falar da má fama da mãe dele...
— Pelo jeito, elas não são muito diferentes de vossa mãe, senhor! Afinal! A fama da rainha de Orkney também não é das melhores... — Tristão baixa o nível também, o que tira mais uma vez o cavaleiro Gawain do sério.
— O quê?!! Ousais ofender minha mãe, seu vadio?!
— De novo não... Pára Gawain!!!! Chega de confusão! PAZ!!!
— Ele ofendeu minha mãe!
— E tu o ofendeste muito mais primeiro! E pior! Ofendeste minha mãe também! Ou esqueceste que sou filho da senhora do Lago e benfeitora de nosso rei? Ela é a mais alta sacerdotisa da antiga religião e filha do Merlin da Bretanha! Eu deveria varar-lhe também com a minha espada, por tamanha afronta! Só não o farei, porque somos irmãos de armas e pertencentes da mesma Távola! — replica-lhe Lancelote.
— Muito bem. Agora não é hora para isso, mas exijo que enfrente-me Sir Tristão. Não posso deixá-lo impune depois do que disseste — insiste Gawain.
— Se assim deseja, senhor... escolha a data e a hora que o enfrentarei; também ofendeste aquela que, apesar de tudo, devolveu-me à vida com suas artes mágicas e o homem que considero como um amigo.
— Pois que seja amanhã, assim que o sol nascer — escolhe o cavaleiro de Arthur. — E rezai durante toda a noite para que encomendes a tua alma a Deus, pois hoje será o teu último dia de vida, novato — provoca-lhe Gawain.
E conforme o combinado, na manhã seguinte Tristão enfrentaria Sir Gawain. Mas Sir Gawain estava tão bêbado quando combinaram o embate que, na hora que Lancelote veio acordá-lo para arrumar-se, ele nem se lembrava mais do fato.
— O que é isso, Lance? — espanta-se Gawain ao ver Lancelote trazer-lhe a armadura e as armas, junto com o seu escudeiro.
— Ora essa! Não te lembras, insano? — critica-lhe o amigo. — Tristão vos espera para um duelo de vida e morte.
— Duelo?! — exclama confuso. — Ai! Minha cabeça! Que ressaca! Do que estás falando?
— Ontem, como bebeste tal qual um porco, acabaste ofendendo a Sir Tristão e ele a ti; no fervor da discussão, tu o desafiaste para um combate. Agora, ele vos espera na arena.
— Eu não me lembro de nada!
— Se te lembras ou não, pouco importa agora. O desafio foi lançado diante de várias testemunhas e deve ser cumprido.
— Ora! Pois muito bem! Se é assim, eu vou e acabo logo com ele.
— Não subestime os oponentes, Sir Gawain. E muito menos este, que venceu o gigante irlandês.
— Bah! Sir Morholt era um desafio pequeno diante de mim...
Lancelote meneia a cabeça de forma negativa e inconformada; Sir Gawain, sempre muito convencido, não tomava tendência e esta era a sua maior fraqueza e um dia, poderia ter uma grande surpresa.
Tristão o esperava, tal como Lancelote dissera. O rei Marcos dera-lhe sua nova espada, já que a dele estava quebrada desde que enfrentara Sir Morholt.
Basílica procurou o lugar mais privilegiado; afinal, se aqueles homens estavam prestes a se enfrentarem em combate, foi por culpa exclusiva dela e não queria perder o grande acontecimento.
Audret estava confiante de que vencer Tristão seria fácil para Sir Gawain, dada à sua vasta experiência como cavaleiro. Ambos se enfrentariam em um duelo clássico: Cavalo e lança, e depois a espada. Esse tipo de luta era chamado de “Justa”.
Tal duelo seguia um método que, primeiro, consistia em investirem um contra o outro sobre cavalos e de lança em punho e depois, quando um dos adversários era derrubado da montaria, o outro, que mantinha-se firme, apeava do animal e desembainhava a espada para o combate corpo o corpo. A luta só terminava quando um era desarmado e assim, reconhecendo a sua derrota, entregava-se à morte pela espada do oponente.
Não pretendo ater-me a dar detalhes sobre o embate, uma vez que é longa e penosa uma luta como essa. A todos é necessário dizer que, Tristão surpreendeu aos que assistiam e conseguiu sair vitorioso, para desespero de uns e felicidade de outros. Mas na hora de desferir o golpe de misericórdia, ele recusou-se a fazê-lo.
— O que estás esperando, homem? Acabe com isso de uma vez, pois estou em tuas mãos. — reconhece Gawain, já imaginando a espada de Tristão descendo com força e cortando o seu pescoço.
Ao invés de matá-lo, Tristão lança a espada ao chão. Ele tinha este direito, já que a vida de Gawain pertencia às suas mãos agora.
— O que estás fazendo? O que significa isso, covarde? — enfurece-se o experiente cavaleiro.
— Podes chamar-me covarde, Sir Gawain, mas já provei a minha valentia e não quero privar meu senhor Arthur, de um de seus mais estimados cavaleiros — fala Tristão afastando-se.
Lancelote sentia-se aliviado pela demonstração de sensatez do jovem Tristão. Gawain via-se tão humilhado que insistia para que Tristão o matasse.
— Isto é muita humilhação! — berra inconformado. — Além de derrotar-me, ainda priva-me de uma morte digna?!! Sir Tristão, conjuro-te! Termine o que deveis fazer!!!
— Chega, Gawain! — ordena Lancelote. — Sir Tristão já fez sua escolha!
Tristão aproxima-se do tio, que estava lívido e sem falas, e ajoelha-se diante dele dando por encerrada a luta.
— A cada dia que passa, tu me surpreendes ainda mais, caro sobrinho — elogia-lhe o rei.
Audret ficou possesso, mas tentou controlar-se e não demonstrar o grande desgosto que sentia. Basílica também ficou surpresa e sem ação; e muito contrariada, afasta-se da arena. Daquele dia em diante, tornara-se mais uma inimiga declarada de Tristão e pensava numa maneira de vingar-se daquele homem, que ousou desprezar o seu amor.
— Eu não acredito! O maldito venceu! — fala ela indignada.
Audret ouve ela queixar-se.
— Pelo jeito, minha cara prima também ficou surpresa com a vitória de Sir Tristão? — surpreende-lhe Audret.
— Dom Audret?! Eu não quis dizer isso...
— Ora, deixe estar minha cara, eu mesmo não nutro muita simpatia por Tristão — fala ele para tranqüilizá-la.
— Não — gagueja ela incrédula.
— Assim como também não consigo compreender como ele pode desprezar o amor de tão bela dama!
Audret toca-lhe a face. Basílica sente-se enaltecer com o galanteio.
— Me achais tão bela assim? — fala ela de modo sedutor.
— Sem dúvida... Quero fazer-vos uma proposta.
— Proposta?!
— Quero acabar com Tristão, desacreditá-lo perante a Corte, mas vou precisar de ajuda...
— Então, queres minha ajuda para destruí-lo?
— Depois que ele surgiu, meu tio nunca mais foi o mesmo comigo. Marcos agora só respira Tristão; tudo ele faz por Tristão e isto está me incomodando profundamente. E creio que minha prima querida também se sente incomodada por Tristão desprezá-la.
— Nunca homem algum resistiu aos meus encantos. Sempre tive muitos amantes... Tristão foi o único que ousou fazer isso.
— Então, junte-se a mim Basílica, ajude-me a destruí-lo e vingue-se de todo desprezo que ele devotou-lhe.

Lancelote, quando teve uma chance, chamou Tristão à parte, para agradecer-lhe.
— Obrigado por não matar a Sir Gawain, Sir Tistão.
— Não havia necessidade para tanto, senhor. E o que disse a Gawain, mantenho com firmeza.
— O rei Arthur ficará feliz por não perder tão valoroso parente e companheiro — comenta Lancelote. — E juro-te, amigo, vou exaltar-te as virtudes diante do Grande Rei e seria uma grande honra, tê-lo conosco na batalha de Monte Badon.
— Por certo que irei, se meu rei assim quiser — promete o jovem.
Durante muito tempo, o fato de Tristão ter vencido Sir Gawain permaneceu na boca de todos os súditos da Cornualha. Foi outro feito tão marcante e memorável quanto a derrota de Morholt.


Capítulo 6: A Espada Partida





Tristão esgueirava-se pelo jardim à procura de Isolda. Haviam combinado um encontro depois da festa.
Isolda encontrava-se no quarto e chorava, enquanto o pequeno Huddent brincava perto dela. Não muito tempo depois, Brangia entra no quarto e Isolda enxuga as lágrimas, para que sua aia não percebesse o seu choro.
— Ainda não dormiste, minha senhora?—admira-se a criada. — Julguei que já estivesses sonhando uma hora destas.
— Pois é! Perdi o sono!
Brangia puxou a cama que ficava guardada embaixo da cama da princesa e tentava arrumá-la.
— Sai daqui, cão tolo! — reclamava ela enquanto arrumava a cama e Huddent, se dava ao trabalho de bagunçá-la. Para ele, era uma grande brincadeira, pois ele puxava o lençol e sacudia-o junto com a cabeça peluda.— Larga isso! Ô, seu peste!!! Não sei onde Thantris estava com a cabeça para te dar isso?
Isolda começa a rir com as travessuras do cãozinho e a indignação da criada. Quando Brangia tentava bater nele, Huddent, de lençol na boca, desviava com perícia fazendo-a de boba; e ainda latia, para provocá-la mais ainda.
— Isolda! Quer fazer o favor de controlar este teu cão! — chia Brangia irritadíssima.
Isolda pega-lhe no colo e afaga-lhe a nuca.
— Vamos, Huddent. Deixemos esta chata arrumando a cama dela — fala ela saindo do quarto e usando o cão, como pretexto para sair e encontrar-se com Tristão.
Brangia nem desconfiou; queria mais era dormir, o que seria impossível com o pequeno Huddent, latindo ao seu ouvido.
Isolda desce à sala principal e vê quantas pessoas dormiam largadas e de qualquer maneira, por conta do vinho que beberam. Ninguém percebe-lhe a presença, pois estavam mais mortos de sono, do que vivos.
Ela sai silenciosamente, com Huddent aninhado em seu colo; ele parecia querer dormir também. Mas quando chegaram ao jardim, ele levantou as pequenas orelhas e farejou o cheiro de Tristão, logo, sua cauda começa a agitar-se e ele pula do colo da princesa para saudá-lo.
Lá estava ele esperando por ela...
— Pensei que não viesses mais, minha senhora...
— Não poderia deixar de vir...
Isolda abraça-o por um longo tempo, depois, senta-se no banco do jardim e novamente, sentiu que iria chorar. Huddent deita junto deles.
— Vais mesmo partir, como disse meu pai?
— Eu não sei... é Gorwen que quer partir... Por mim, ficaria aqui para sempre...
— E por que não ficas? — indaga ela.
Tristão senta-se ao seu lado e fica calado. A lembrança do corpo inerte de Morholt surgira em sua mente. Era um fantasma que, há muito, deixara de assombrar os seus sonhos e agora, voltara ainda mais forte...
“O dia que Isolda souber... será que conseguirá perdoar-me e entender minhas razões? Que fiz o que era exigido, para livrar a Cornualha?”— indagava-se.
— Gorwen não gosta muito de mim, creio... — diz ela quebrando o silêncio.
— Não é isso, Isolda...
— Então, por que quer afastá-lo de mim?
Tristão acaricia-lhe o rosto tristonho.
— Ele gosta de ti sim, mas me considera um filho e preocupa-se com o que os reis fariam comigo, ao saberem do que sinto por ti. Eles poderiam levar a mal e julgar que um bardo tentou seduzir a filha deles, para ficar com o trono.
— Meus pais jamais pensariam isto! Oh, meu amor... Não vês como eles gostam de ti?
— Sim, eu sei. Teus pais são maravilhosos, Isolda...
“Este é o problema...” — pensa Tristão ao lembrar da afeição que sempre lhe dispensaram.
— Tu me amas, Thantris?— Isolda volta-se para ele.
— Tu bem sabes que te amo. Amo-te com toda a força de minha alma, querida Isolda...
Ela toca-lhe o rosto e pede em tom quase infantil.
— Então não partas! fica comigo, meu amor!
Tristão beija-lhe as mãos e a seguir, os lábios róseos e delicados.
— Oh, querida... Deus é testemunha de que desejo ficar, mas algo mais forte do que minha vontade, me impede de fazê-lo.
Isolda não compreende.
— Do que falas, querido amor? Eu não compreendo o que acabaste de dizer...
— Acredite-me. É melhor que nem saibas a razão, pois se souberes, talvez venhas a odiar-me.
— Nunca! Eu te amo, Thantris!
Ouvem-se passos. Huddent ergue-se de ímpeto e late para um vulto que estava cada vez mais próximo.
— Vão nos descobrir...
Isolda sente o sangue gelar e fica pálida. Seriam flagrados ali, sozinhos e quem quer que fosse, faria um escândalo; a menos que fosse Brangia atrás dela. Senão, seria pior para Tristão, pois iriam acusá-lo de atentar contra a honra da princesa. Todavia, para alivio de ambos, era um velho conhecido.
—Senhor Gorwen?! — exclama a princesa aliviada. Antes ele do que o pai.
Tristão ficara calado e encarava o semblante reprovador de seu mestre.
— Alteza, o que faz aqui sozinha e com o meu amigo? Não é nada bom para tua reputação, senhora...—diz-lhe de forma branda. Ele não estava indignado, mas sim, preocupado.— E tu? Vens dormir ou não, Thantris?
— Eu precisava falar com Thantris, senhor. Mas asseguro-te que nada desonroso aconteceu. Teu amigo me respeita, por ser um homem de boa índole, senhor Gorwen. — defende-lhe Isolda. — Não precisas ficar tão cismado...
— Procurei-te por todo o castelo e não consegui encontrá-lo. Daí deduzi onde estavas. Já se faz tarde e é hora de nos recolhermos e a senhora também, Vossa Alteza. Precisam ser mais prudentes, caros jovens! Enfim... creio que é o mal daqueles que encontram-se na flor da idade...— disse-lhes o experiente homem. — tu vens ou não, Thantris? — dirige-se a Tristão num tom imperativo e ele, tentara argumentar alguma coisa, mas Isolda contorna a situação.
— Gorwen tem razão, senhor. Já está tarde. Boa noite, senhores.
Isolda pega Huddent e volta ao castelo.
— Por que me persegues? — chia Tristão. — Não devias vir aqui...
— Ainda bem que encontrei-os há tempo, antes que falasse de nosso segredo à Isolda. Foi Deus quem me enviou até vós!
— Pois eu estava tentando me despedir. Não queria partir sem dar-lhe uma explicação e pensei sim, em contar-lhe a verdade. Eu não estou agüentando mais!
— Pensas, Tristão, que ela agiria diferente se soubesse? Oh, Deus... Eu te avisei, meu filho! Não quiseste partir quando eu quis e agora, está sendo muito pior afastar-se dela.
Gorvenal abraça-o e Tristão deixa-se abraçar. Estava mesmo precisando de um ombro amigo.
— Mas ainda bem que agora pensas em partir. Vejo que estás começando a recuperar a razão e já não era sem tempo — continua o seu mestre — Teu tio, o rei Marcos da Cornualha, deve estar muito preocupado, pois não sabe se estás vivo ou morto, por causa do ferimento que Sir Morholt causou-te.
Tristão não disse mais nada e voltou ao castelo com Gorvenal.
Em seu quarto, a rainha ainda não dormira e levanta-se para mexer na gaveta de seu toucador. O rei ressonava e percebia-se que nada conseguiria acordá-lo, sendo assim, Isolda “a velha” podia abrir as gavetas sem preocupar-se.
De uma das gavetas retira uma caixa pequena, forrada do mais fino veludo vermelho e bordada com fios de ouro. Seus dedos demoraram-se um pouco sobre a tampa e depois abriu-a. Dentro dela estava a ponta quebrada da espada que matou o seu irmão. Na pequena lâmina, ainda era possível ver o sangue de Sir Morholt, agora coagulado pelo tempo. A rainha começa a chorar com a lembrança e fecha a caixa, guardando-a a seguir.

Na manhã seguinte, Tristão assusta-se quando vê o mestre já de pé e com todas as malas prontas...
— O que é isso, Sir Gorvenal?!
— Ora essa! Nossos pertences! Ah, não vejo a hora de voltar às terras da Cornualha —diz ele animado e conferindo tudo.
Quando Gorvenal ia saindo com o primeiro alforje, Tristão começa a desarrumar o resto.
— Ei! O que está fazendo?
— Eu não vou partir agora! Não nestes repentes!!! — diz enfurecido.
— Ficaste louco?! Tu não me disseste que havia se despedido de Isolda?
— Eu “tentei” me despedir, mas tu não deixaste!
— Oh, Meça! E eu que pensei que tinhas recuperado o juízo!
Gorvenal afasta-o e põe tudo nos fardos de novo e Tristão retira tudo outra vez.
— Pára com isso, Tristão!
— Pare vossamercê! Já disse que não vou!
— Dane-se então! Se não quer vir, vou sozinho! Fique aqui até descobrirem tudo e te condenarem à morte!
Gorvenal sai irritado com seus pertences.
Tristão deita-se tranqüilamente na cama.
— Em cinco segundos ele volta. 1, 2, 3, 4...— conta ele.
Gorvenal torna a entrar no quarto, bufando e com uma cara de leão enfurecido.
— Cinco! Não falei? Voltaste, Sir Gorvenal? — pergunta em tom cínico. — Não estavas de partida?
— Eu não posso voltar sem ti. Teu tio e teu pai me matam — diz-lhe jogando os alforjes no chão.
— Ótimo! Ainda bem que sabes disto?—provoca-o com a veracidade do fato.
— Olha aqui! Se fosses meu filho e não meu príncipe, eu te carregava à força e debaixo de sopapos!
—Sir Gorvenal, por favor, fiquemos aqui só por alguns dias, até os reis e Isolda se acostumarem com a idéia de nossa partida. Até lá, eu vou preparando-lhes o espírito...
— E quantos dias seriam, Alteza? — pergunta Gorvenal secamente e encarando-o nos olhos.
— Um mês.
— Quê!!?! É muito tempo seu...
— Quinze dias?
Gorvenal encara-o feio.
— Três dias?! — pergunta Tristão sem jeito.
— Ora, está bem. Feito — concorda o mestre.
Tristão solta um grito de júbilo e beija o rosto de seu mestre.
— Ei! Pára com isso!
— Eu te adoro, Gorvenal!
Tristão sai feliz. Ele conseguira ganhar tempo.
— Por que tenho a sensação de que ele me enrolou e vai me enrolar ainda mais? Oh, Deus! Acho que jamais voltarei à Cornualha com vida.

Na véspera do terceiro dia, chega enfim a noite do quarto crescente. A rainha Isolda “a velha” levantara-se cedo naquela manhã, para colher as ervas frescas que usaria naquela noite. Algumas tinham no jardim e outras, fora do castelo.
A rainha da Irlanda coloca a sua roupa costumeira para estas ocasiões e sai, voltando depois com a cesta cheia de ervas e topa com a filha Isolda na cozinha do castelo.
— Mamãe, o que é isso? — pergunta a princesa curiosa.
— Destas ervas dependerá a tua felicidade, querida — fala a rainha de modo enigmático e acariciando o rosto ansioso da filha.
— Como assim, mamãe?
Na cozinha, a mãe começa a separar e desfolhar as ervas.
— Onde está Thantris? — pergunta Isolda “a velha”.
— Discutindo com Gorwen, pra variar — ri Isolda.
— De novo? Estes dois...
Isolda quase pegou nas ervas, mas a mãe impede-lhe de fazer isso.
— Não faça isso, Isolda. Não profane as ervas da Deusa.
— Por quê?
— Preciso delas para esta noite e elas devem estar imaculadas.
A rainha fez uma pausa.
— Isolda... quero falar-te.
— Sobre o quê, mãe?
— Sobre vossamercê e Thantris.
— Como? — espanta-se a princesa.
— Não precisa mentir para mim, filha... Já fui moça e já encontrei com o amor em vários caminhos na minha vida: pretendentes à minha mão, Beltane*, amantes e por fim, conheci teu pai, a quem passei a dedicar a minha vida.
— Mãe, por que estás me contando tudo isso?
— Porque sei que amas Thantris e ele não lhe é indiferente. Muitos na festa podem não ter percebido, nem mesmo teu pai, mas a letra daquela canção, revelou-me tudo.
Isolda fica sem graça.
— Por favor, minha mãe, não conte ao meu pai...
— Não se preocupe. Não vou contar. Mas posso te contar um outro segredo?
— Que segredo?
— Teu pai faria muito gosto em vossa união.
Isolda sorri esperançosa.
— Isto é verdade, mãe?
— Sim — confirma sua mãe. — Por isso, reze querida, para que o que farei hoje, traga-te a felicidade.
Naquela noite, como não queria que ninguém a importunasse, a rainha pede ao marido que não dormisse no quarto e ele, em respeito à alta sacerdotisa da antiga religião com quem havia se casado, fez-lhe a vontade e proibiu que outros se aproximassem do aposento do casal. O que a esposa faria, esta não lhe disse, mas deduziu que talvez fosse um ritual de purificação que as sacerdotisas realizavam de vez em quando.
Tarde da noite, a rainha Isolda “a velha” acende a lareira do quarto e lança as ervas que havia colhido ao fogo, logo; um cheiro agridoce se espalha pelo recinto.
Isolda livra-se do véu que cobria-lhe a cabeça e em sua testa, percebia-se o crescente das consagradas à Deusa.
Aproximando-se de uma mesa onde via-se duas velas e um caldeirão cheio até a metade, de água pura da fonte, Isolda senta-se. Tudo estava posto sobre uma toalha branca.
Ela acende as duas velas, que estavam dispostas de forma que suas chamas não refletissem, nem sobre as águas e nem em seus olhos e prepara-se para invocar a presença da Grande Mãe. Nas suas orações, pedia que a Deusa lhe permitisse usar a “Visão” e concentra-se. Soletra uma prece em uma língua estranha e depois, diz com ênfase:
— Agora, minha Mãe! Minha Deusa! Mostre-me através da “Visão” a verdadeira face de Thantris, se esta for a tua vontade!
As chamas da lareira agitaram-se e avivaram-se, indicando a forte presença da Grande Mãe e a superfície das águas começava a tomar formas. Há princípio, indefinidas, porém, depois ela pôde ver claramente:
Thantris estava vestido com uma rica armadura e empunhava sua espada de forma ameaçadora contra alguém; e este alguém era, nada mais e nada menos que seu irmão.
— Morholt! — ela grita assustada. — Não! Saia daí!
Quando Tristão chocou-se com ele, a rainha vê muito sangue e no meio desta poça de sangue, ela vê surgir a imagem de uma espada com a ponta quebrada. A seguir, depois que o sangue desaparece, ela vê o cadáver de Sir Morholt e ao lado do corpo, estava a ponta ensangüentada que chegou com os dois mensageiros e que ela guardou em seus pertences.
— Não! — Isolda desperta e entende o que se passou. — Pela Deusa! Thantris é Sir Tristão, o assassino de Morholt! E eu cuidei do assassino de meu próprio irmão! Devolvi-lhe a vida! Oh, Deusa...
Com a força liberada no ritual e pelo evidente cansaço, a rainha desfalece diante da mesa e perde os sentidos.

O nome de Tristão fora pronunciado durante muito tempo na Irlanda, após a morte de Sir Morholt de Marhaus. O antigo ódio da rainha aflorou de dentro do seu coração e mais ainda, por saber que cuidara do ferimento mortal de Tristão, sem saber quem ele era.
— Cães do inferno!!! Antes o tivesse deixado morrer para vingar a morte do meu irmão! — explode a rainha, quando voltou a si no dia seguinte.
Em questão de minutos, ela convoca os guardas e dá ordens de prisão contra Tristão e seu amigo.
— Prendam-nos e vasculhem todo o quarto. Quero descobrir a prova do crime: a espada sem ponta. Preciso disto para convocar um julgamento e condená-los.
Logo, o castelo de Anguish ficara em polvorosa com o escândalo, ninguém mais conseguiu dormir. Tristão e Gorvenal foram surpreendidos aquela manhã, por um grupo de guardas bem armados que invadiram os aposentos.
— Mas o que significa isto? —assusta-se Gorvenal. — Que despautério!!!
— Calem-se! Estão presos em nome da rainha! — diz-lhes o guarda.
— Como?! — berra Tristão confuso. — O que fizemos para merecer tal pena?
— Vasculhem o quarto e encontrem a espada — ordena o chefe da guarda.
— Não! — grita Gorvenal, mas é silenciado por um dos guardas ao encostar-lhe a ponta da lança em seu peito.
A notícia se espalha por todo o castelo e chega aos ouvidos do rei e da princesa.
— O que houve, Brangia? Por que estás pálida?
— Prenderam Thantris, senhora! — responde a criada esfregando as mãos nervosamente. — Alteza!!! Volte!!!!!
Isolda desce imediatamente e Huddent segue atrás dela.
Na sala do trono, o circo já estava armado.
— Enlouqueceste, mulher?!! — critica o rei ao ver Tristão e Gorvenal sendo arrastados à sua presença.
— Foi ele, meu senhor! Ele que matou meu irmão! Thantris é Sir Tristão!
— O quê?! Não pode ser! Deve ser um engano, senhora minha esposa.
— Eu vi, Anguish! A “Visão” revelou-me!
— Usaste a “Visão”?!
— A espada! — ordena aos guardas. — Tragam-me a espada!!!
Isolda testemunhava tudo. A mãe joga aos pés do rei, uma espada com a ponta quebrada, tilintando agressivamente no chão de mármore, provocando um ruído pesado e irritante.
— A ponta quebrada não significa nada! — observa o rei tentando ser justo e não precipitar-se no julgamento.
— Ah, não? E o que me diz disto? — diz a rainha tirando da caixa a ponta e recolocando-a novamente na espada e, para espanto dos presentes, a ponta encaixou de forma precisa e incontestável. — Vês, meu senhor? Não estou louca!
Os olhos do rei desviam-se do rosto contraído e enfurecido da mulher e pousam sobre Tristão.
— Usufruíste de nossa hospitalidade e, no entanto, és um inimigo oculto em nosso meio, jovem Thantris? Ou melhor dizer, Sir Tristão? — as palavras do rei soaram frias e distantes, dado à decepção que abatera-se sobre a Corte de Anguish, rei da Irlanda.
Isolda sente faltar-lhe o equilíbrio e só não foi ao chão, porque Brangia estava perto e amparou-a.
— Não pode ser! — repetia ela querendo não acreditar. — Thantris não é o assassino de meu tio! Não é!
Lágrimas vieram-lhe aos olhos quando Tristão confirma a história e assume a responsabilidade de seu ato.
— Foi um combate justo entre cavaleiros, Majestade — defende-se Tristão. — Só fiz o que fiz, pelo bem da Cornualha. Por que era o único meio...
O rei nem deixou ele terminar.
— Guardas! Levem-nos às masmorras e mantenha-os lá, até que eu decida o que fazer com eles.
Os guardas arrastaram-nos e antes de saírem do grande salão, Tristão vê Isolda. Ao pressentir a decepção nos olhos da amada, ele sente-se mal, mas continuou a olhar-lhe até sair do salão.
— Exijo que se faça justiça, meu rei e senhor! — fala a rainha. — Sangue do meu irmão e vosso campeão foi derramado! Ele matou Morholt e morrer deve!
— Não! — grita Isolda atirando-se aos pés do pai. — lembra-te, meu pai? Ele salvou minha vida por duas vezes! Justiça deve ser feita, mas seja misericordioso! Suplico-te!!!
— O que estás a dizer, Isolda? Ele matou o teu tio e pedes pela vida deste vil e infame mentiroso? Ele, que enganou-nos este tempo todo, fazendo-se de nosso amigo?
— Mãe seja prudente e pondere em tuas acusações...
A rainha não conteve a raiva e esbofetea-lhe na face. Ver a filha intercedendo pelo assassino do irmão e tio dela, era inaceitável.
— Cala-te e suba para o teu quarto! Quem és tu para pensar que podes intrometer-te em assuntos de estado e interceder por ele?
O certo é que o rei sentiu-se balançar pelas palavras da filha e a rainha, percebendo a fraqueza do rei, achou por bem afastá-la para que seus interesses de vingança fossem acatados.
Isolda sobe contrariada e a marca dos dedos da mãe ficaram em sua face.
Mais tarde, quando a madrugada ia avançada, Isolda quis ver Tristão e foi até as masmorras. Os guardas quase não a deixaram passar, mas a autoridade da princesa era superior à vontade deles.
— Quero olhar nos olhos do assassino de meu tio.
— É melhor não, Alteza...
— Isto é uma ordem. Deixem-me passar.
— Cinco minutos, princesa Isolda. Nenhum minuto a mais.
Os guardas saíram da frente para dar-lhe passagem e Isolda entra nas masmorras. Era um lugar fétido, frio e imundo; quase não enxergava nada a um palmo do nariz, se não fosse pela luz bruxuleante de umas poucas tochas. Do lado oposto às celas, ficava a câmara de torturas. Isolda sentia um arrepio, ao ver as ossadas dos prisioneiros que morreram trancafiados naquele lugar horripilante, que não permitia a passagem da luz do sol, ainda que fosse um pequeno feixe.
Procurava em cada cela e por fim, encontra Tristão e Gorvenal.
— Isolda? — assusta-se ele ao vê-la.
Isolda manteve-se distante por alguns minutos e olhava-o com um olhar inquisidor. Mas a frieza durou um curto espaço de tempo, pois, apesar de tudo, amava aquele homem acima de qualquer lei ou conveniência.
— Oh, Thantris... Por quê? — dizia ela engasgada com as lágrimas.— Eu nunca concordei com o injusto tributo imposto à Cornualha, mas matar o meu tio... Por que tinha que ser assim? Por quê?
Tristão também emociona-se e não consegue evitar que as lágrimas caiam.
— Ainda pedi que ele esquecesse o tributo e que voltasse em paz para a Irlanda. Mas ele não me ouviu...
Sir Gorvenal estava imóvel a um canto da cela e observava-os naquele desesperado colóquio.
— Cem mancebos e cem cavalos eu poderia suportar... — continua ele. — Mas... Cem moças...? Cem donzelas arrancadas dos braços dos pais e sabe-se lá que destino as aguardava nesta terra?
Isolda engoliu as palavras; ela sabia que destino as esperava e morria de pena das jovens que chegavam anualmente da Cornualha.
Na mesma hora, a fortaleza que erguera-se entre eles com a terrível revelação, desmoronara-se e Isolda entende-lhe as razões.
— Meu amor! — Isolda agarra-se às mãos de Tristão. — O que será de ti? O que será de nós? Minha mãe exige que teu sangue seja derramado para que assim, Morholt seja vingado! Estou com medo... muito medo...
— Não temas, minha querida. Tenho certeza de que teu pai é um rei justo e bom e entenderá as minhas razões. Meu sangue não será derramado...
— Oh, meu querido! Como gostaria de ter esta certeza! — chorava ela.
— O máximo que fará será extraditar-me do reino, afastar-me daqui!
— Oh, não! Não quero que te afastem de mim!
— Ou isso, ou a morte, Isolda. Mas se tivesse que morrer morreria por ti...
Isolda cala-o com um beijo longo e desesperado.
A porta pesada da masmorra abre-se e eles se afastam com o ruído. Fez-se ouvir, então, a voz potente do guarda.
— Senhora! O tempo esgotou!
— Vá, Isolda! É melhor que vá! —diz ele.
— Intercederei por ti no julgamento, querido. Não permitirei que o matem...
Isolda sai.
No dia seguinte, marcaram o julgamento e todos se reuniram em frente ao torreão, no pátio interno do castelo. Os portões foram abertos ao público e logo, o grande pátio ficou apinhado de gente.
O rei aparece e toma assento em seu lugar de honra, acompanhado da rainha. Isolda também faz questão de assistir e esperar a hora mais propícia para interceder pelo amado. Logo a seguir, trazem Tristão e Gorvenal amarrados. O público começa a xingá-los e vaiá-los, dizendo-lhes injúrias sem conta. O rei ergue-se do assento e com um gesto imperativo, faz calar a multidão.
— Sir Tristão, cavaleiro e campeão da Cornualha! Foste acusado de assassinato, perjúrio e falsa identidade. Tens algo a dizer em tua defesa, antes que eu pronuncie a sentença? — diz-lhe o rei impassível.
— Sim, Majestade. Vós sabeis, ò rei, as regras que regem a cavalaria. O que fiz com Sir Morholt Marhaus não foi movido por interesses pessoais e sim, pelos interesses de um reino inteiro. Lutei com ele, de forma justa e esperada, para libertar a Cornualha e dentro das regras e normas estabelecidas pelos combates. Procurei ser justo oferecendo-lhe a chance de regressar em paz às suas terras, porém, ele recusou-se e obrigou-me a desafiá-lo para um duelo. Combati com lealdade, enquanto ele, usando de trapaça, envenenou-me com a ponta de sua espada, no que Deus, Justo e Onipotente, fez valer a Sua vontade dando a vitória a quem realmente era digno de ser o vencedor! — acusa-o com firmeza. — Aqueles que conhecem o poder dos venenos irlandeses, sabem que digo a verdade! E vossa rainha também sabe disto, pois ela mesma manipula e cria tais drogas!
Do meio do povo que assistia, uma voz fez-se ouvir na multidão.
— Isto é verdade, Majestade.
Gorvenal espanta-se ao ver quem era.
— Vossamercê?
O homem sorriu-lhe; era o companheiro de Morholt, o mesmo que revelou-lhes sobre o veneno e que fora a testemunha do cavaleiro irlandês.
— Assim que soube do julgamento, achei por bem aparecer e esclarecer alguns fatos — fala ele. — Senhor, eu fui o acompanhante de Morholt e servi de testemunha do embate. Agora, estou aqui para confirmar que realmente, Morholt preparou a lâmina para dar morte certa a Sir Tristão.
Do meio do povo subiram comentários surpresos e revoltados com tal reveleção. Gorvenal sorri grato e toma a palavra.
— E este mesmo homem foi quem nos disse: “Tristão só conseguirá salvar-se na Irlanda”.
Os que ouviam e presenciavam o tribunal ficaram escandalizados e as opiniões se dividiram. Muitos começaram a pedir clemência.
— Isto é uma calúnia! — tenta justificar a rainha.— Meu irmão jamais faria isso!
O rei repreende-lhe severamente.
— Tu bem sabes, senhora, que a honestidade não era uma das maiores virtudes de teu irmão — murmura o rei.— Há mais alguém que deseja falar em defesa dos prisioneiros? — pergunta à multidão.
Isolda ergue a sua mão e aproxima-se dos pais.
— Eu tenho. Quero lembrar-vos, meu pai, que ele salvou-me a vida por duas vezes; por isso, peço-vos que sejas justo em vossa sentença e pondere os fatos mencionados.
— Não há mais o que ponderar. Conheço as leis e sei que Sir Tristão está sob as ordens de Marcos da Cornualha, e não tenho o poder sobre sua vida e nem sobre sua morte. Todavia, não posso mais tolerar a presença dele nesta Corte, portanto — fala a Tristão. — pegue teu companheiro e volte às terras da Cornualha e não ouses voltar mais, sob pena de morte.
O rei levanta-se, enquanto a rainha tenta mudar-lhe a decisão, protestando contra a sua benevolência, no que o rei ordenou que ela se calasse.
— Minha decisão já foi tomada e não voltarei atrás. Que Tristão parta daqui e nunca mais retorne a estas terras, se preza pela sua vida. É só o que posso prometer para satisfazê-la, minha senhora. Nada mais... — e dirige-se a ambos — Vós tereis uma noite para partir. Libertai-os — ordena aos guardas.
Naquela noite, talvez a mais longa de sua vida, Tristão organiza todos os alforjes e as coisas indispensáveis para a viagem. Gorvenal o ajudava calado, sabia o quanto o príncipe sofria.
Enquanto arrumavam todas as coisas, um guarda do rei aproxima-se de ambos e entrega uma carta com o selo real.
— Anguish Gormond, rei da Irlanda, exige que esta carta chegue às mãos do rei Marcos, assim que pisarem nas terras da Cornualha — fala o guarda friamente e saindo a seguir.
Da janela de seu quarto, Isolda observava os dois homens solitários que arrumavam as coisas para partirem na manhã seguinte. Brangia estava com ela e sentiu invadir-se por uma grande pena de sua jovem senhora.
— O amais tanto assim, Vossa Alteza? — pergunta numa voz suave e ao mesmo tempo melancólica.
— Oh, fiel Brangia! Creio que mais do que a mim mesma. E só de pensar que Tristão está proibido de voltar à Irlanda... Não o verei mais... Nunca mais... — comenta entre soluços entrecortados.
Brangia entrega-lhe um pequeno bilhete.
— Depois do julgamento, Tristão procurou-me e me entregou este bilhete. Ele quer despedir-se de ti e marca um encontro no jardim. Se quiseres ir, eu fico de vigia e atenta para que ninguém os flagre juntos.
Isolda fica surpresa, pois para ela, Brangia era contra o relacionamento de ambos e demonstrava, em suas atitudes, o quanto pareciam desagradar-lhe.
— Jamais fui contra o vosso amor, mas procurava enxergar com os olhos da razão.
— Minha querida Brangia! Já não posso mais tratar-lhe como uma serviçal, pois agora considero-te uma grande amiga... minha melhor amiga... — corrige a princesa completando a frase.
Então, na hora marcada, Isolda corre ao jardim e sua criada fica à espreita para avisar-lhe, caso alguém aparecesse de forma inesperada. Tristão já a aguardava sob o caramanchão formado pela videira do castelo. Foi sob a sombra daquela parreira que tudo começou; desde as primeiras aulas de música, até a descoberta dos sentimentos.
Isolda abraça-se a ele, como se quisesse fazer com que o calor e o aroma daquele que amava, se impregnasse em todo o seu corpo. Ainda agarrada a ele, Isolda chorava...
— Minha querida, acalma-te — pedia ele vendo-lhe o desespero.— Tudo vai ficar bem...
— Como assim? Tu não podes mais ficar aqui e nem voltar à Irlanda? Oh, meu amor... que sorte cruel o destino nos reservou! Eu não vou suportar! Não quero que te apartem de mim...
Tristão segura-lhe o rosto úmido entre suas mãos e beija-lhe com um ardor inigualável; uma mistura de desespero e saudade implacáveis.
— Eu sigo para a Cornualha, mas voltarei para buscar-te — promete ele. — Quando retornar, te farei minha esposa...
— Tu não podes voltar! As palavras de meu pai, no fim do julgamento, foram bem claras: se voltares, tu morrerás!
— O tempo cura todas as feridas, minha amada... tenho certeza de que, quando a surpresa pela morte de Morholt passar, teus pais esquecerão a raiva e irão perdoar-me. É só dar tempo ao tempo...
— Oh, Tristão! Como gostaria de acreditar nisso...
— Pois acredite, meu amor... ainda ficaremos juntos e seremos felizes... prometo-lhe...
Isolda beija-lhe uma última vez.
— Enquanto estiveres na Cornualha, lembre-te sempre de tua Isolda e voltes para mim... — diz-lhe entre lágrimas. — Tua Isolda ficará aqui e esperará por ti.
— Sim... eu voltarei. Espere por teu Tristão... adeus...
Se abraçam e despedem-se em seguida.
* nota: Ritual do fogo e da fecundidade praticado pelos integrantes da antiga religião celta, a religião da deusa mãe.

Capítulo 5 : A Melodia do Amor




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Transcorreram tranqüilos os dias e Tristão, por fim, encontrava-se recuperado e em boas condições de saúde. A chaga havia se fechado completamente e, graças aos conhecimentos da rainha Isolda “a velha”, não ficou nenhuma marca da letal ferida, que quase ceifou-lhe a vida..
O rei fez conforme prometera. Apresentou-o à Corte e jurou perante todos que, um dia, concederia-lhe uma dádiva, caso o rapaz precisasse de um favor seu.
Sem perder tempo, Tristão fez planos e elaborou as primeiras aulas.
No jardim do palácio, sob as sombras de uma videira, Tristão e Isolda sentavam-se todas as manhãs para estudar da teoria à prática. A alegria de Isolda era contagiante, principalmente quando errava as notas, no que ela ria envergonhada. Contudo, ela era uma aluna muito aplicada e aprendia rápido, graças ao seu interesse e dedicação.
Brangia estava sempre com eles para vigiar sua jovem senhora, uma vez que um homem e uma donzela, juntos, poderiam ser motivo de comentários maldosos no palácio, caso ficassem a sós.
Gorvenal ainda custava a aceitar a situação. Por ele, já estariam na Cornualha, há muito tempo; mas acabou tendo que se conformar com o decorrer dos dias.
E o tempo passava e quase sem notar, um sentimento muito profundo foi nascendo entre eles por causa daquela convivência constante. Tristão não conseguia ficar muito tempo sem vê-la e aumentou as horas de aula, e Isolda, contava as horas para a próxima aula.
— Oh, Brangia! — suspirava a bela princesa em seus aposentos e revelando sentimentos ocultos à jovem criada. — Não sei o que se passa comigo... Quando estou com Thantris, sinto-me completa, e distante dele, um vazio imenso! Como se nós fizéssemos parte um do outro... Será que estou apaixonada? É um sentimento tão novo para mim... Eu não consigo parar de pensar nele, um minuto, querida Brangia...
— Minha senhora, cuidado... — advertia-lhe a aia.— O vosso pai pode não gostar, se ouvir-vos falando assim. Thantris é um simples bardo e vós, uma princesa. O muro que vos separa é alto e intransponível.
— Mas será que ele realmente é só um bardo? A maneira de portar-se assemelha-se a de um príncipe. Até minha mãe comentou com meu pai sobre isso.
Brangia queda muda e pensativa; de fato, Thantris, em nada, assemelhava-se a um simples bardo.
Na manhã seguinte, nos primeiros raios de sol, Isolda levanta-se depressa e segue para o jardim; não esperou que Brangia acordasse para vir com ela. Desta vez, queria ter uns momentos a sós com Thantris. Ele já a aguardava e fica surpreso ao vê-la só.
— Já tão cedo, Alteza? E Brangia?
— Está dormindo ainda — sorri marota a jovem princesa. — Bem, mestre... O que faremos hoje?— brinca animada já pegando a harpa e dedilhando alguma coisa.
Tristão sorria de satisfação. Isolda aprendera rápido.
Percebendo que estava indo muito bem, Isolda erra de propósito.
— Ei! Não é isso! — comenta ele.
— Oh, me desculpe! Como era mesmo?—finge não saber para que Tristão ensine-a de novo.
— Pra começar, estás segurando o instrumento errado...— observa Tristão. —Já ensinei-te a posição...
— Eu me esqueci, senhor. Mostre-me outra vez...—diz ela de forma doce e ao mesmo tempo, com certo ar de desafio.
Isolda lança-lhe um olhar sugestivo e Tristão, tenta resistir ao máximo; mas o seu coração dispara. Há muito já a amava, só que mantinha uma distância respeitosa, porque Isolda ainda não havia demonstrado os seus sentimentos de forma tão clara. E melhor! Estavam sozinhos e longe dos olhos vigilantes de Brangia. Era um ambiente propício ao amor; perfeito!
Tristão aproxima-se de Isolda e toca em suas mãos para ajeitar o instrumento. Isolda sente o ar faltar-lhe e fecha os olhos, quando o percebe tão próximo; ele estava há poucos centímetros e sua respiração morna, aquecia-lhe as mechas do cabelo. Acometida de uma ânsia e um desejo incontrolável, Isolda vira-se de ímpeto e seus lábios, por pouco, não tocaram os dele.
— Princesa Isolda! — berra Brangia ao vê-los tão próximos, no que ambos afastam-se às pressas.
— Essa não! —murmura Isolda decepcionada. — Por pouco...
Tristão não consegue segurar o riso, pois ouvira-lhe o sussurro.
— Muito bonito, heim?—protesta a criada.—Fugiste e não me esperaste, princesa Isolda. Ainda bem que cheguei a tempo e impedi que fizessem tamanha loucura! O que estás pensando, senhor? —dirige-se a Tristão, interpondo-se entre eles. — Pensas que minha senhora é uma qualquer?
— Eu ?! Por Deus, senhora! De modo algum!— defende-se ele.
Aquele dia, Brangia sentou entre eles, e Tristão e Isolda mal se tocaram. A princesa ficou emburrada o restante do dia por conta disto e nada que fizesse, conseguia afastar a criada de si. Brangia era mais fiel que um cão. Tristão também sentia-se contrariado e constrangido, contudo, uma coisa animava-lhe o coração: Isolda não lhe era indiferente e nutria o mesmo sentimento por ele. Por este motivo, sentia-se feliz e a cada dia, o sentimento intensificava-se.
Apaixonado, compunha as mais belas odes exaltando este sentimento e certa noite, sob a luz do luar, ele faz uma surpresa à amada. Sob a janela de seu quarto, Tristão lhe faz uma serenata, cantando para ela a música que havia feito quando pensava na bela e meiga Isolda.
Isolda beijara uma das delicadas flores que ornamentavam um vaso em seu quarto e a joga para ele, dizendo que aquela rosa representava o seu coração. Tristão beija a flor também e guarda-a consigo, diante dos olhos de Isolda, embora preferisse beijar-lhe os lábios e confessa-lhe aquele desejo, no que Isolda corou encabulada.
Mas como nem tudo são flores, Brangia surpreende-a na janela e Isolda tenta disfarçar, fazendo um gesto oculto para Tristão, pedindo que ele se escondesse.
— O que fazes na janela? — pergunta a criada desconfiada. Ela havia saído para encher o jarro de prata do quarto da princesa; daqueles usados para lavar o rosto pela manhã.
— Nada! Só achei que estava muito quente, então...
Brangia corre à janela e olha para baixo, porém, não vê ninguém.
— Senhora... — adverte-a em tom de acusação.
— Ai, o que foi?
— Era ele, não era?
— Ele quem? — disfarça a princesa.
— Pensa que me engana, é?
— Mas que coisa, Brangia! Me deixe em paz!
Isolda deita-se e se cobre toda.
— Ora! Não estavas com calor? — pergunta Brangia de modo cínico.
— Não me atormentes!
Passaram-se alguns dias e semanas depois, Tristão também conquistara a amizade e a confiança do rei, a ponto de tomar parte à ceia e em outros eventos do castelo. O soberano da Irlanda seria-lhe eternamente grato pelo que fizera por sua filha.
Isolda agora, tornara-se uma excelente harpista e, com isso, o rei sentia-se orgulhoso, quando a bela Isolda encantava o salão real com sua doce melodia. Outras vezes, o rei chamava Tristão para tocar e cantar com ela e, juntos, faziam um harmonioso dueto. Foram tempos felizes, que Tristão jamais apagaria de sua mente.
Em um desses sarais, a rainha comenta com o marido sobre Tristão.
— Meu senhor... acha mesmo que o jovem mentor de nossa filha é um simples bardo?
— Por que, minha senhora?
— Eu não sei, meu senhor e rei. Eu tenho tido sonhos estranhos... Quase sempre, nestes sonhos, eu vejo Thantris usando uma armadura e montado em um magnífico corcel...
— Confesso que não sei, querida. Às vezes, o jovem Thantris porta-se de forma demasiado cortês realmente.
— E não é só ele. O homem que o acompanha sempre, também porta-se da mesma forma.
— Tem razão, minha rainha.

E a desconfiança dos reis foi aumentando a cada dia. Sir Gorvenal, como bom observador que era, reparou isso, mas Tristão parecia viver com a cabeça no mundo da lua e só pensava em Isolda; não dava a mínima para suas advertências.
Mais uma vez, Gorvenal insiste para que partam logo.
— Por que partir assim, sem nenhum motivo aparente? — pergunta Tristão irritado.
— Por Deus, meu filho! Isolda já sabe tocar e cantar, não há mais nada que o prenda aqui. Por favor, recobre a consciência e vamos embora.
O rei entra neste momento e ouve parte da conversa.
— Desejam partir, jograis? Por quê? Nossa acolhida foi insuficiente para vós, amigos?
— De modo algum, Majestade! — diz-lhe Gorvenal atrapalhado. — Apenas acho que nós já abusamos demais da vossa hospitalidade...
— Não há abuso algum, senhores. O que fiz por vós, faria com qualquer outro que precisasse cuidar de seus ferimentos. Agradaria-me muito se continuassem conosco, porém, não posso mantê-los aqui contra a vossa vontade. Mas gostaria que esperassem até o debute de Isolda, quando vou apresentá-la a todos os meus vassalos e súditos, em um grande banquete na Corte. Isolda vos estima demais, principalmente a ti jovem Thantris...
— Eu sei, meu senhor... — concorda Tristão animado.
— E creio que ela ficará muito triste se partires agora, sem que pelo menos deixemos ela se acostumar com a idéia. Quinze anos é uma data muito especial para qualquer moça e tenho certeza, de que ela fará questão de vossas presenças no grande banquete que darei neste dia.
— De minha parte vos digo, Majestade: não penso em partir tão cedo como deseja o meu amigo e será uma grande honra participar da festa da princesa — sorri Tristão, contrariando Sir Gorvenal. — Quando será?
— Dentro de três dias —corresponde o rei ao sorriso espontâneo do jovem. — Que bom que ficarão conosco por mais um tempo. Bom... vim fazer-vos um convite. Reuni alguns dos meus homens, mais chegados, para uma caçada na floresta e vim convidar-vos para tomarem parte nesta diversão. Isolda irá também e ficará ainda mais animada caso aceitem ir conosco.
Os olhos de Tristão brilharam. Há muito não sabia o que era caçar e ele adorava este tipo de atividade; ainda mais sabendo que Isolda também iria. Lembrou-se com saudades, da última vez que saiu para caçar com o pai, pelas terras de Lionês. Fazia muito tempo. Foi antes de sua madrasta atentar contra a sua vida.
— Mas é claro que aceito! — diz ele animado. — Adoro caçar!
O rei fica admirado.
“Ora! Cada dia que passa, me convenço de que Thantris não é um simples bardo...— pensava o rei.— Agora... Se ele é de linhagem nobre, por que ocultar o fato?”
O rei combinou o horário e à hora marcada, todos estavam preparados com suas roupas de caça; inclusive o rei. Só faltava Isolda.
***
Sir Gorvenal não quis ir e Tristão foi sozinho. E de nada adiantaram os protestos de Gorvenal tentando convencê-lo a não tomar parte nisso:
— Tristão, acho que é muito arriscado... Não devias ir à caça.
— Que mal há? É tão divertido!
— Só tu não percebes que é uma cilada. O rei está desconfiado de nós. Ele acha que nós não somos o que dizemos ser e agora, que aceitaste o convite, destes mais asas à imaginação dele. Caçar não é uma atividade cultivada por bardos, mas por altos cavaleiros.
— Quer saber?! Já estou cansado de mentir; fingir ser o que não sou! Seria bem melhor se o rei descobrisse que descendo da nobreza e que sou um cavaleiro!
— Ah, é? Seria ótimo também se ele descobrisse que foste o responsável pela morte de Sir Morholt! —debocha o seu mentor.
Tristão não disse mais nada. Fechou o cenho e saiu.
— Droga! —xinga Gorvenal. — Ele está se arriscando demais, por conta de um par de olhos bonitos!
***
Não muito tempo depois chega Isolda. Ela estava linda no modelo de caça e, por incrível que pareça, sem a companhia da sua fiel sombra, Brangia. Os olhos de Tristão pousaram sobre ela e Isolda sorriu-lhe.
— Demoraste, minha filha.
— Desculpe, meu pai. É que custei a achar a roupa, pois não é com freqüência que me chamas para estas atividades — diz-lhe a princesa bem-humorada, mas num certo tom de crítica.
A rainha surgiu à porta do castelo e o rei fez-se de surdo àquela crítica, dando a desculpa de que ia despedir-se da esposa.
— Então, ele aceitou participar da caça? — comenta a rainha.— Observa-o bem, meu senhor. Veja se não tenho razão.
O rei olhava-o atentamente e notava a postura dele ao montar: o corpo firme e ereto, como se não fosse a primeira vez; como se já fizesse parte de sua vida.
Bardos geralmente andavam a pé ou no máximo, sobre um burrico; pois era a montaria que podiam comprar com as poucas posses que tinham e, no entanto, Tristão montava um alazão puro-sangue e com a maior naturalidade.
— Veremos se tuas premonições têm um fundo de verdade, minha rainha. Se realmente ele for um cavaleiro de boa linhagem, como viste em teus sonhos, confesso que ficaria muito feliz se Thantris desposasse Isolda — confessa o rei beijando a esposa e partindo a seguir.
A comitiva parte animada. O rei mandou trazerem o seu falcão adestrado, no caso de encontrarem algum animal de pequeno porte pelo caminho. Tristão e Isolda seguiam juntos pela trilha. A pedido do rei, Tristão a acompanhava.
— Quero providenciar um excelente gamo para assarmos no seu banquete, Isolda! Ou, quem sabe, um suculento Javali! —brincava o rei.— Agora! É claro que não desprezaremos um coelho, ou uma boa lebre para oferecermos como entrada, não é meu amigo? —comenta o soberano irlandês, afagando o peito emplumado do seu falcão.
Isolda ri com o comentário e todos a acompanharam na risada.
— Sente-se nervosa com a aproximação da festa, Vossa Alteza? —pergunta-lhe Tristão.
— Um pouco. Sabe... quinze anos é uma data única para qualquer moça. É a idade dos sonhos e é quando somos apresentadas a todo o reino e a alguns... — Isolda cala-se.
— Não terminaste a frase, senhora...
— Ah, esquece! Não é nada importante...
Atrás deles seguiam alguns pajens trazendo os cães de caça.
A caçada corria tranqüila e num dado momento, soltaram os cães para que farejassem as presas. No castelo, a rainha Isolda “a velha” orava e pedia licença à Grande Mãe para que os homens obtivessem sucesso na caça, se esta fosse a vontade dela.
Isolda estava feliz por estar longe dos olhos vigilantes de sua criada e mais próxima de seu amado. Mas, no íntimo, o que ela mais desejava era ficar a sós com ele, só que em respeito à confiança do rei, Tristão mantinha uma certa distância da princesa e não oferecia a menor chance para que isso acontecesse. De certo, ele achava que isso não cairia bem com a ocasião.
“Eu preciso ficar a sós com ele. Há tanto para dizermos um ao outro... — matutava ela com o coração acelerado. — Já sei!”
De repente, sem ninguém esperar, o cavalo da princesa dispara; como se algo o tivesse assustado...
— Isolda! — grita Tristão partindo atrás do animal desgovernado.
— O quê?!! Minha filha! — assusta-se o rei.— Vamos atrás deles, homens! Rápido! — ordena o rei irlandês.
Isolda começa a gritar por socorro e Tristão, pálido e apreensivo, incita mais ainda o seu cavalo e parte a plenos galopes para tentar aproximar-se, dominar-lhe e freiar-lhe a montaria. Isolda conseguira o seu intento...
— Thantris! Me ajude!!!!
— Calma Isolda! Agüente firme!
Isolda, não vendo o pai e os outros, tenta diminuir a velocidade para facilitar a aproximação de Tristão, entretanto, o cavalo não obedece.
— Essa não! — exclama Isolda. — Oh, não! Ele não está me obedecendo! Thantris!!!
Isolda olhava para trás e percebia que Tristão estava cada vez mais distante e encontrava dificuldades para aproximar-se. De uma brincadeira inocente, a coisa tornara-se séria. Isolda, de fato, havia perdido o controle do animal.
— Pela deusa! Eu vou morrer! Thantris!!! — grita mais uma vez.
Isolda segurava firme as rédeas para não cair.
— Por que fui fazer isso? ME AJUDEEEEEEM!!!
“ Droga! Preciso alcançá-la, mas como?”— pensava Tristão tentando organizar suas idéias.
O terreno acidentado se elevara entre as matas, o que fez o cavalo da princesa cansar-se um pouco e diminuir o trote, no que Tristão consegue aproximar-se mais. A elevação torna-se uma ladeira íngreme que terminava em um lago de águas límpidas.
— Essa não! Eu não sei nadar!!!!
O cavalo, quando percebe o lago, pára bruscamente e projeta Isolda para frente.
Ouve-se o barulho surdo de algo chocando-se contra a água e Tristão vê o cavalo da princesa, menos Isolda.
— Jesus Cristo! — grita Tristão saltando da montaria.— Isolda!
Ele corre até as águas e vê Isolda debatendo-se na superfície; ela parecia estar se afogando. Tristão, nem pensou muito, pulou na água e atingiu o fundo. O lago era raso, se Isolda esticasse as pernas, tranqüilamente alcançaria o chão. Inevitavelmente, ele começa a rir; ela ainda continuava a debater-se como se fosse o oceano mais profundo, pois ainda não se dera conta disso.
— Eu não sei nadar! Thantris! Me tira daqui, porcaria! — berra ela reclamando de sua demora.
Tristão aproxima-se calmamente e fica de pé diante dela.
— Isolda, levante-se — diz-lhe estendendo a mão.
— Como assim? — gagueja ao ver o papel patético que estava representando.
— O lago é raso — ri ele.
Isolda ergue-se sem graça e Tristão cai na gargalhada. Isolda estava enlameada e com os cabelos úmidos e desalinhados, e a risada dele, irritou-a mais ainda; pois para uma moça vaidosa como ela, suas gozações eram uma ofensa; um crime contra o seu orgulho feminino.
— Ora seu! Como te atreves a rir da princesa da Irlanda?
Enfurecida, Isolda empurra-o contra as águas e começa a sujá-lo e desarrumá-lo da mesma forma. E, com o tempo, o momento de raiva dissipa-se e torna-se uma grande brincadeira.
— Ei! Pára!
— Vê se gostas de ficar sujo de lama? — ria ela. — Vê se achas engraçado agora?
Ambos riam, mas de repente, eles ficaram mudos. O semblante risonho de Tristão tornara-se sério.
Tristão acaricia-lhe o rosto sujo, que não deixara de ser belo mesmo naquele estado.
— Achei que iria perder-te! Tu poderias ter morrido, Isolda!
Isolda corou e abaixou a face. O seu coração batia acelerado ao ver-se finalmente a sós com ele e longe de tudo e de todos. Não era bem a cena que Isolda havia planejado em sua mente: os dois sujos e molhados, mas valeu a pena...
Tristão ergue-lhe o rosto e busca-lhe os lábios róseos, num beijo há princípio tímido, mas depois, se transformara num beijo ardente e apaixonado. Isolda entreabriu os lábios e recebeu, com prazer, aquele beijo molhado. O contato morno das duas bocas fez ela perder os sentidos e desejar que aquela sensação semincosciente e aquele momento, jamais terminassem, mas foram interrompidos pela voz do rei, chamando-os preocupado.
— Isolda! Thantris!—gritava o rei.
— Princesa Isolda! — chamava um outro.
Afastaram-se correndo e saíram do lago, antes que o rei flagrasse a cena apaixonada. Eles pegaram os cavalos e subiram, às pressas, a ladeira íngreme para se unirem ao grupo. O rei fica assustado ao ver-lhes o estado.
— Isolda, minha filha, o que aconteceu?
— Uma serpente, meu pai! — mente ela. — Uma serpente imensa saiu da mata e assustou o meu cavalo! Não foi? — diz a Tristão.
— Sim! Uma serpente! — fala ele entrando no jogo.
— Eu tentei recuperar o controle do animal, mas não consegui! —continua a narrativa impressionante.— Graças a Thantris, agora estou bem! Ele salvou minha vida, meu pai! Se Thantris não tivesse vindo conosco, não sei o que seria de mim!
— De fato, minha querida. É mais um favor que ficarei devendo-te, senhor Thantris — sorri o rei dirigindo-se a Tristão.— Agora... Por que estão sujos deste jeito?
— Bem... é que... quando Thantris segurou as rédeas do meu animal para freiá-lo, com a parada brusca, caí dentro de um lago. Thantris, temendo que eu me afogasse, mergulhou no lago fundo e resgatou-me!
— Pelo jeito, são dois favores que lhe devo, caro amigo. Salvaste minha filha duas vezes.
Depois do ocorrido, o rei preferiu regressar para o castelo e a rainha veio recebê-los. Reparou os semblantes cansados e desanimados e deduziu que a caçada não fora bem sucedida, pois os homens chegaram de mãos vazias.
— Desta vez, a Deusa não foi-nos propícia, minha querida.
— Talvez não estivesse nos planos Dela, que algum animal fosse abatido hoje, meu senhor. Amanhã, quem sabe? Não fiques tão desanimado. Ainda temos tempo para providenciar o jantar para o banquete.
Tristão e Isolda voltaram sem dar uma palavra. Eles estavam muito perturbados com o que houve, embora soubessem que, um dia, isto viria a acontecer. Era cada vez mais insuportável esconder o amor que sentiam um pelo outro.
A rainha Isolda “a velha” assustou-se com o estado deles quando se aproximaram.
— O que aconteceu com eles? Por que nossa filha está assim?
O rei ri e conta-lhe o que se passara.
— Thantris a salvou?
— Sim, querida. Se não fosse por ele, nossa filha poderia não ter regressado.
A rainha também demonstra-lhe gratidão e Tristão sorri sem jeito. Todavia, o fato contribuiu para aumentar mais ainda a curiosidade da rainha.
— Quer dizer que ele conseguiu salvá-la e sem a menor dificuldade? — comenta a rainha Isolda, quando recolhera-se ao quarto com o marido naquela noite.
— Sim, minha esposa! Foi fenomenal! Precisavas ter visto! Se ele não insistisse em dizer que é um bardo, eu juraria que Thantris é um grande cavaleiro!
— Será que ele tem alguma arma escondida? Uma armadura? — indaga ela.
O rei atrai a esposa para junto de si e beija-lhe de modo carinhoso.
— Bem... deixemos isso de lado por hoje, minha amada Isolda.
Em seu quarto, Princesa Isolda não conseguia dormir. A lembrança do beijo não abandonava a sua mente, por mais que se esforçasse para tanto...
“Será que ele também está perturbado? Será que não está conseguindo dormir como eu?”.
Isolda olha para o lado e vê sua criada Brangia, dormindo a sono solto.
“Se Brangia tivesse ido conosco... ela nem pode imaginar... — pensava excitada. — E se eu contasse? Não. É melhor não... ela não ia entender e me passaria o maior sermão... Acho que terá que ser uma recordação só minha...”.
Isolda suspira profundamente e toca em seus lábios, tentando ainda sentir o gosto daquele beijo e sorri enrubescida. Em sua mente, imaginava-se casada com ele; sentindo-se envolver por seus braços uma noite, onde tudo lhes seria permitido e se amariam sem medo.
“Ai! Vou enlouquecer se continuar a pensar nestas coisas... Oh, meu amor...”.
Isolda estava certa. Tristão também não conseguia dormir e queria estar junto dela.
Como não conseguia pregar o olho, resolve levantar-se e caminhar um pouco pelo castelo. Por toda parte via-se vestígios do empenho dos criados para organizar o grande banquete de aniversário de Isolda.
“Será daqui a dois dias e nem sei o que posso dar-lhe de presente...” — pensou por alguns instantes.

Passaram-se os dois dias e o castelo acorda, naquela ensolarada manhã, respirando festa.
Tristão levanta-se cedo e vai até a feira da aldeia, nos arredores do castelo de Anguish, a fim de comprar um presente para Isolda com as economias que Marcos havia dado a Gorvenal, para que nada faltasse ao seu sobrinho. Queria que fosse algo original. Percebe, então, um cachorrinho pequeno e manso, que não parecia tão filhote, mas que era engraçadinho por causa do seu tamanho. Ele não crescera muito, era um animal de porte pequeno que só serviria para companhia mesmo, contudo, combinava com uma princesa.
O pequeno animal fez-lhe uma grande festa quando Tristão aproximou-se, pois era muito brincalhão e ele não hesita em levá-lo.
— Seu nome é Huddent — diz-lhe o vendedor. —Foi minha finada filha que deu-lhe este nome.
— Se foi de sua filha que falecera há pouco, por que estás desfazendo-se dele, senhor? — pergunta Tristão, com pesar, e com o cão em seu colo.
— Porque ele me faz lembrar de Ellaine, pois ela vivia com ele no colo; o que me enche de tristeza por ver a falta que ele sente dela. Creio que ele poderá morrer por isso. Agora, se outra pessoa o amar e cuidar dele... — o mercador disfarçou as lágrimas que tentavam cair. — Depois da morte dela, eu não consigo mais cuidar dele...— confessa, enfim.
— Entendo. E sinto muito por sua filha...
— Eu já me conformei um pouco, pois sei que Ellaine está bem onde ela estiver agora. Seja com Deus ou com a Deusa... ela era uma excelente filha...
— Mas não temas, senhor. Para quem o levarei, saberá amá-lo como sua filha o amou.
— Só não sei se ele se acostumará com outro nome...
— Acho que não será preciso. A princesa Isolda irá adorar este nome e não desejará dar-lhe outro — diz Tristão bem-humorado.
— A princesa?! Tu irás levá-lo para a princesa Isolda? — sorri o homem orgulhoso e feliz, pelo destino que Deus reservara ao cãozinho de sua filha.
Tristão retorna ao castelo com Huddent. Ele não parava de abanar a cauda.
Sir Gorvenal procurava-o como louco por todo o castelo.
— Onde estiveste? O rei está desesperado atrás de ti! Ele quer que cantes e toques para alegrar os convidados... O que é isso? — pergunta seu mentor reparando no pequeno cão.
— Ora! Não conheces mais um cão quando vê?—responde Tristão em tom galhofeiro.
— Que é um cão, eu sei! — fala ofendido.— Quero saber para quê?
— É o meu presente para Isolda, ora essa! Original, não?
— Um pulguento desses?!!
Huddent começou a rosnar, parecia até ter entendido o que ele disse. Sir Gorvenal afasta-se temeroso. Tristão ri do medo que seu mestre demonstrou.
— Calma Huddent! Ele não falou por mal... Com o tempo, vossamercê se acostuma com ele... Vamos, amiguinho! Quero apresentá-lo à sua nova dona!
Huddent abana a cauda outra vez e solta um latido de satisfação, enquanto se afastavam.
O salão principal estava tomado de convidados ilustres. Isolda já havia ganhado muitas prendas: vestidos, jóias, etc... mas, como ela diria mais tarde: “ o melhor presente que recebi foi o de Tristão...” Ela adorou o pequeno cãozinho; foi amor à 1ª vista.
— Ele é lindo! Oh, mas que gracinha!
Huddent fez-lhe uma tremenda festa e lambia-lhe as delicadas mãos, como se demonstrasse grande gratidão.
— Eu não sabia o que dar-lhe, então, quando o vi na feira da aldeia...
— Adorei! É o segundo melhor presente que poderia receber!
— O segundo?! —admira-se ele.
Isolda sorri matreira.
— O primeiro presente tu já me deste. O nosso primeiro beijo... —recorda-se a princesa, deixando Tristão sem graça.
— Isolda, não fales sobre isso aqui! Alguém pode ouvir-te...
Isolda abraça-lhe para demonstrar a gratidão pelo presente e sussurra-lhe ao ouvido; de certo, combinando um encontro...
— Esta noite, no jardim? — murmura ele.
— Sim. Quando todos já estiverem dormindo... não deixes de ir, meu amor...
— E Brangia?
— Esperarei que ela durma também...
O rei aproxima-se de ambos e já estava meio tocado pelo vinho.
— Ora! Até que enfim, senhor Thantris! Venha. Agracie-nos com vossa melodiosa voz.
— Veja, meu pai! — diz Isolda mostrando-lhe o pequeno cão. —Este foi o presente de Thantris, ele não é uma graça?
— Sem dúvida! Mas onde ele ficará? Ele não é um cão de caça e não poderá ficar com os outros, pois vão devorá-lo!
— Claro que não, papai! Ele ficará comigo em meu quarto!
— Já pensaste em um nome para ele, minha filha?
— O nome dele é Huddent — intromete-se Tristão e conta-lhes a triste história do aldeão que o vendeu.
— Huddent?! É lindo! Continuará Huddent! — fala a princesa animada.
Tristão toma o seu lugar no grande salão e o rei apresenta-o aos convivas, exaltando-lhe as suas virtudes e talentos, e convida-os a ouvi-lo. Ele começa a dedilhar em sua harpa, uma música alegre para que todos dançassem; outros músicos o acompanharam. Da cozinha à grande sala, criados passavam de lá pra cá e outros deles serviam os convidados na mesa.
A festa durou um dia inteiro e entrou pela noite. À certa hora, quando todos já estavam satisfeitos e os reis sentaram-se no trono, Tristão muda o repertório ao reparar que todos os convidados estavam exaustos e muitos casais tinham até se formado, com o avançar das horas, por isso; passara a tocar e cantar músicas mais suaves. Como era de se esperar, segundo a tradição da época, Tristão oferece uma música à debutante e entoa aquela que Isolda conhecia muito bem. A mesma que ele cantou naquela noite, sob a janela de seus aposentos e que Brangia quase o surpreendera.
A letra falava do belo olhar de Isolda e como ele se sentia diante daquele olhar; comparava-o a cascatas de luar e outros termos que ressaltavam uma grande paixão.

Ele emocionara a todos com aquela música magnífica e cheia de sentimentos. E o mais impressionante foi que, no fim, Isolda levantou-se e, largando Huddent no colo da mãe, cantou junto com Tristão para espanto e deleite de todos. Ambos foram muito aplaudidos; como aquelas duas vozes juntas, combinavam tão bem? — perguntavam-se todos. Maravilhados pelo dueto, insistiram que eles repetissem a música juntos e os dois concordaram: Tristão fazendo a primeira e Isolda, a segunda voz. O ocorrido chegou a ser comentários para muitos dias na Irlanda. A rainha Isolda “a velha”, tomada de emoção, pôs-se a chorar e seu marido, segurava-lhe as mãos enquanto aqueles dois anjos cantavam. Mas a rainha não era boba e percebia que aquilo não era uma simples música; mas a confissão do que sentiam um pelo outro.
Depois que terminaram, o rei chama-os para sentarem perto deles.
— Bela música, Thantris! Ela é sua? —pergunta a rainha Isolda.
— Sim, senhora...
— Estás de parabéns, meu rapaz! Isolda tem razão quando diz que sois um poeta! — sorri-lhe a rainha de forma amistosa.
Tristão agradece o elogio.
— Onde está vosso amigo Gorwen? Por que não quis participar da festa?— pergunta o rei Anguish.
— Ele ficou um pouco, Majestade. Só que, sentindo-se meio indisposto, recolheu-se mais cedo que o previsto. Mas mandou dizer-vos, que lamenta não ter ficado mais tempo na festa — responde-lhe Tristão, reparando Isolda a brincar com o cãozinho.
— É uma pena. Vais mesmo partir depois da festa de Isolda, senhor Thantris?— deixa escapar o rei.
— Anguish! — freia-lhe a rainha.
— O quê?! — assusta-se a princesa. — Partir?
Tristão não esperava por isto; foi pego de surpresa pela pergunta de Anguish e ao ver a reação de Isolda, fica perturbado. Ela lançara-lhe um olhar interrogador e deixou de brincar com Huddent, na mesma hora.
O cãozinho aproximara-se de Tristão para que recebesse seus afagos e lamber-lhe as mãos, pedindo carinho.
— Não sabes, filha? Ouvi que Gorwen comentava certa vez que eles deveriam partir; só não partiram, por que pedi-lhes que esperassem o teu aniversário.
— Tu vais partir depois do que houve? — os olhos azuis da princesa perderam o brilho naquele momento e seu semblante angélico, anuviou-se de tristeza.
Tristão fica pálido, achando que Isolda confessaria o que vinha acontecendo com eles, porém, ela apenas levantou-se e afastou-se deles. Os olhos da mãe a acompanharam; se Tristão não estivesse fazendo companhia ao rei, com certeza se levantaria e seguiria atrás dela.
— Eu disse algo errado? — pergunta o rei zonzo e inocente. O vinho impedia-lhe de raciocinar direito.
A rainha Isolda “a velha” encara o marido com reprovação.
— O que foi, mulher? Por que me olhas assim?
— Acho que já bebeste demais por hoje, senhor meu marido. Venha.
O rei obedece e se levanta amparado pela esposa.
— É... acho que tem razão... como sempre, não é?
— Boa noite, Thantris — despede-se a rainha.
— Boa noite, meu rapaz. E desculpe qualquer coisa...
— Não há nada para desculpar, Majestade. Boa noite.
Os reis saíram. Huddent olha para Tristão e parecia compreender-lhe a tristeza.
— É, meu amiguinho... não queira nunca apaixonar-se. É um conselho que lhe dou.
Huddent vira a cabecinha, como se dissesse “do que vossamercê está falando?”...
— Anda vai! Segue tua dona.
Ele abana a cauda e sai; mas só depois que Tristão fizesse-lhe aquele agrado...
Já nos aposentos reais, Isolda “a velha” deitou o rei e ele logo apagou. Observando o marido dormindo, ela começa a imaginar uma série de coisas.
“— Creio que minha filha está enamorada do jovem harpista e ele também sente o mesmo por ela... — pensa consigo mesma.— Isolda está em boa idade para casar-se e é pena Thantris não ser nobre, a menos que eu esteja certa quanto aos sonhos que tenho com ele... eu preciso ter certeza de que linhagem Thantris descende, se é que realmente ele seja um cavaleiro... e se for, por que ocultar suas condições? O que ele esconde? Faria muito gosto nesta união, contudo... preciso saber quem ele realmente é. Não posso entregar minha filha a um homem, que não sabemos nada do seu passado... mas, se eu usar a “visão”, poderei descobrir...”
A rainha levanta-se e vai até a janela, ao olhar para o céu, ela sorri.
“— Dentro de três dias a lua entrará em quarto crescente. Ótimo para invocar a “visão” e pedir à Grande Mãe que permita-me ver o passado dele... amanhã já posso providenciar algumas coisas para o ritual e na manhã do terceiro dia, colher as ervas das quais vou precisar...”

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Capítulo 4: Rumo à Irlanda


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Tristão, em seus delírios febris, não sabia o que estava se passando; sentia-se balançar suavemente, parecia que estava flutuando. Era o balanço semelhante ao do mar. Estaria ele no mar? A dor do ferimento parecia cortar-lhe fundo na alma.
Um alívio abençoado sobreveio-lhe à fronte, ao sentir o frescor de um pano úmido para abaixar-lhe a febre. Com dificuldade conseguira abrir os olhos e vê um rosto sobre ele. Tristão não pôde ver quem era; a face de quem o contemplava estava oculta sob uma máscara, que mantinha somente os olhos visíveis, mas ele notou uma certa semelhança com alguém muito estimado, parecia seu mestre Gorvenal. De longe, uma voz lhe dizia: “Agüente, Tristão! Logo chegaremos e tu serás curado!”.
No transcorrer dos dias, Tristão, cercado de cuidados, recobra um pouco a consciência e vê-se realmente no mar.
— Sir Gorvenal ?! —fala num fio de voz.— Onde estou? Meu tio... o rei...
— Calma, filho! Não se esforce...
Tristão sente um odor fétido e uma terrível dor abaixo de sua cintura. O ferimento, já começava a dar os sinais de putrefação das áreas próximas. Os que estavam com ele, no barco, não tiravam as máscaras.
— O que aconteceu com Morholt? Para onde estão me levando?
— Tu venceste, Tristão! Morholt está morto e a Cornualha está livre, agora. — conta-lhe Gorvenal.
— Eu consegui... consegui...
— Sim! Tu conseguiste! Venceste como um verdadeiro cavaleiro! Quanto à tua segunda pergunta... estamos a caminho da Irlanda.
— Irlanda? —pergunta confuso. — Por quê?
— Porque somente lá encontrarás alivio para o teu mal. Foste envenenado pela ponta da espada de Morholt e só a rainha da Irlanda conhece o contra-veneno para curá-lo — explica-lhe o homem que os acompanhava.
— Sim... agora me lembro... Morholt me disse qualquer coisa sobre isso, enquanto lutávamos, mas... a rainha jamais irá curar-me...
— Não se preocupe; tudo já foi planejado. Ela não saberá quem somos, seu nome será Thantris e diremos que somos bardos errantes, para que consigamos entrar no castelo do rei Anguish. Vê? Trouxe até tua harpa!
— E pelo jeito... não foi só a harpa que trouxeste... — ri Tristão apontando para a sua armadura.
Gorvenal ficou sem graça...
— É... bem... fiquei tão apavorado com seu estado que, embarquei-o com a armadura completa.
— Bom, mas isto não importa! O importante é mantermos tua armadura e a espada ocultas. A não ser que as joguemos no mar...
— De jeito nenhum! — protesta Tristão. — Logo a minha primeira armadura de cavaleiro consagrado e a espada de meu tio Marcos? São objetos muito valiosos e estimados... Ui! Que dor!
Gorvenal não conteve o riso.
— Pelo visto, melhoraste um pouco meu caro!
— Meu pai! Alguém precisa avisar meu pai! Dizer-lhe que sobrevivi ao combate... — lembra-se Tristão aflito.
— Não fique perturbado, filho. Teu tio se encarregará disto; acho que até já deve ter enviado um mensageiro até Lionês pelo tempo. Agora, procure dormir, pois já falaste demais por hoje.
E assim, Tristão seguiu viagem: ora consciente, ora febril e inconsciente quando, enfim, chegam às praias da Irlanda. Alguns pescadores, que lançavam suas redes ao mar, vêem a embarcação que se aproximava e percebem que esta desceu um pequeno barco.
— Quem será? — diz um deles em seu idioma rude, típico das pessoas mais simples daquela região litorânea.
— Vamos ver! — corre um outro na direção do mar, percebendo que um homem, de pé na proa, lançara uma corda na costa para que os puxassem até a praia.
Eles puxaram o barco e viram um pobre homem ferido e em péssimo estado, acompanhado de outro que parecia muito aflito.
— Por favor, amigos! Eu e meu companheiro viemos de muito longe, para tentar uma cura para esta chaga, causada por uma lâmina irlandesa envenenada. Soubemos que vossa rainha é uma feiticeira poderosa da antiga religião, e que conhece muitos antídotos para certos venenos.
— É verdade, senhor. Ela conhece muitas coisas. Mas dizei-nos: quem sois e qual é o vosso ofício? — pergunta o pescador com a mão em seu nariz. O cheiro estava insuportável.
— Eu me chamo Gorwen e este, é Thantris. Somos menestréis errantes. Nosso barco foi atacado por saxões, mas conseguimos escapar e ficamos à deriva, até surgir o abençoado barco cristão que nos trouxe à estas praias.
Tristão estava cada vez mais próximo da morte, pois, a cada dia, o veneno tornava-se mais poderoso. Ele estava novamente inconsciente.
Na aldeia de pescadores, diante do majestoso castelo de Anguish Gormond, Tristão foi desembarcado com Gorvenal e o homem que mostrou-lhes o caminho mais rápido. Os pescadores, compadecidos, ajudaram-nos a levar o moribundo e os fardos que trouxeram até o castelo. Próximo do castelo, o homem se despede de ambos e toma outro rumo; de certo, iria rever a sua família depois de tanto tempo.
Os reis já haviam recebido a notícia da morte de Morholt, dias atrás, através de dois mensageiros que trouxeram consigo, a ponta da espada que arrancou-lhe a vida e relataram como se deu o fato. Estavam recolhidos, desde então, pela perda do ente querido e pela perda da Cornualha; mas quando os guardas viram o homem ferido, chamaram o rei e a rainha que, desprezando o luto, vieram socorrê-lo.
A jovem Isolda, nos seus puros 14 anos, fica curiosa com a movimentação no castelo, uma vez que parecia um túmulo após a morte de seu tio e aproxima-se para ver do que se tratava e qual o motivo de tanto alvoroço. Olhou o rapaz que chegara e também apiedou-se dele.
O rei ordenava que o levassem para dentro e que chamassem sua senhora.
Deitaram Tristão em um dos aposentos e a rainha, sem desconfiar de quem se tratava, começa a tratar da horrível chaga. Isolda, tímida e aflita, estava parada à porta, junto com sua aia Brangia.
— Pobre rapaz! — dizia ela. — Espero que mamãe consiga salvá-lo.
Sir Gorvenal, apreensivo, acompanhava tudo o que ela fazia. A rainha, depois que limpou o ferimento, ordenou aos criados que trouxessem um líquido de nome estranho, que Gorvenal não conseguiu entender. Seria o antídoto? Ela derramou o líquido sobre a chaga e Tristão gemeu de dor.
Como se fosse magia, o ferimento assumira uma outra cor e um aspecto melhor; e o cheiro que exalava, dissipa-se no mesmo instante.
— Incrível! — exclama Gorvenal.
— Fiz a minha parte, forasteiro... agora, só depende dele — diz a rainha a Gorvenal. — Agora, se me derem licença, irei recolher-me aos aposentos, para tornar a cultuar o luto por meu irmão.
Gorvenal queda mudo. Por uns instantes, sente-se péssimo por ver o cuidado que a rainha dispensara ao jovem, uma vez que ele sabia bem de quem ela cuidava: do homem que matara o seu irmão.
A rainha, vendo a filha encolhida a um canto, chama-a para junto de si.
— Filha minha... não posso ficar aqui a todo tempo e já que, ensinei-lhe a lidar com as ervas, poções e ungüentos, cuide do rapaz por mim. Caso note alguma alteração em seu estado, é só me chamar, que virei imediatamente.
— Sim, mamãe — sorri a princesa satisfeita, por sua mãe confiar nela pela primeira vez.
— Quanto a ti... — dirige-se a Gorvenal —...pedirei aos criados que providenciem um aposento confortável, para que descanses, pois vieste de muito longe e deves estar cansado.
— Senhora... eu posso ficar aqui mesmo...
— É melhor não. Estás aflito em demasia e poderás atrapalhar o tratamento que daremos ao teu amigo. Sendo assim, é melhor que te afastes, para que minha filha Isolda cuide dele com calma. Caso ele piore, mandarei avisar-te.
Isolda olhava o misterioso rapaz extasiada. Ela nunca tinha visto um homem tão belo como ele.
— Senhora... o que achas sobre o estado dele? Seja sincera...
— O estado dele é grave; mas creio que a juventude será uma forte aliada. — disse a rainha saindo.

Isolda ficou com Tristão a noite toda. Cuidava de abaixar-lhe a febre e aliviar-lhe a dor e ela, alcançou um grande progresso, após 48 horas. Na manhã que sucedeu à estas horas, Tristão não apresentava mais febre e desperta em seus braços.
Ele encara confuso a bela jovem que encontrava-se ao seu lado. Ela era magnífica! Tristão ainda não vira uma beleza tão pura e casta assim antes; Isolda parecia um anjo com aquelas mechas douradas e reluzentes de seus cabelos anelados, pendendo sobre seus ombros alvos. À luz do sol da manhã, chegavam a confundir as vistas e seus olhos, de um intenso azul, pareciam duas contas azuis caídas do céu. A pele dela era delicada e denunciava o frescor da tenra idade.
— Meu Deus, um anjo! Eu morri ?! — murmura ele, acreditando-se estar nos braços de uma das criaturas angelicais de sua crença.
Isolda ri do seu espanto e diz com voz cálida, que aos ouvidos de Tristão, soara como um acorde celeste: — Não, jovem senhor... Estás vivo! Felizmente! Não! Não levante! Ainda estás fraco...
— Como te chamas, senhora?
— Princesa Isolda. Sou filha do rei da Irlanda. E tu, cavalheiro?
— Eu... — Tristão iria dizer seu nome, mas cala-se. — “Eu não posso dizer meu verdadeiro nome...” — pensa a tempo.
Em seu íntimo, tentava lembrar-se do nome que Gorvenal havia-lhe sugerido durante a viagem.
— Eu me chamo Thantris — lembra-se enfim.
— Espere um momento! — diz a jovem sorridente. — Vou chamar minha mãe e teu amigo! Eles vão adorar vê-lo consciente, principalmente Gorwen!
Ela sai. Tristão sente o coração disparar pela prestimosa e alegre jovem.
“Oh, abençoada manhã! Ei? Mas o que estou dizendo? O que há comigo?” — assusta-se ao pensar na donzela com tanto sentimento.
A rainha veio a seguir e Sir Gorvenal, minutos depois, acompanhado da formosa Isolda.
— Vejo que estás revigorado, meu jovem. Isto é bom — diz-lhe a rainha.
Tristão vê Isolda refletida na mãe; elas eram muito parecidas na aparência, mas diferentes no comportamento. A rainha era bela e fria; Isolda, bela e alegre.
— Thantris! — exclama Gorvenal. — Oh, por Deus! Como posso agradecer-vos, senhoras?
— Com uma canção — sugere Isolda, uma vez que já ouvira no palácio que eles eram menestréis.
— U-Uma canção?! — gagueja Gorvenal, pois não sabia tocar e nem cantar nada.
— Minha filha ama música — confessa a rainha.
Tristão percebe em que apuros o mestre se metera, ao falar que eram menestréis e tenta consertar a situação, imediatamente.
— Gorwen, dê-me a harpa. Não a trouxeste?
— Sim.
— A gentil princesa adora música e ela, ouvirá a canção que deseja — fala ele.
Gorvenal suspira aliviado. “Ainda bem que o meu menino sabe tocar e cantar...” — pensa o cavaleiro aliviado e pegando a harpa.
Tristão dedilha uma bela canção e canta com todo o seu sentimento:

“Não tenho braços, nem pernas, nem mãos,
não tenho coração e, no entanto, vivo.
Não tenho amor e, em verdade, amo.
Seria para mim melhor morrer?

Morrendo de amor, no Amor me restauro,
A cada aceno da morte, eu torno a viver.
De pronto ressuscito.
À porta da morte, sinto renascer.

Tantas vezes, e de formas tão diversas,
Como ocorre com a caça perseguida,
Assim amor me acossa e me atormenta
Na busca de um amor que desconheço.
Amor uma vez me prometeu
Uma messe de bens e, no entanto,
Nada, senão tormentos me couberam
Ao invés do amor que eu esperava.”

Isolda aplaude feliz e emocionada. A rainha sorri e levanta-se.
— Lindo! Maravilhoso! — exalta a jovem princesa.
— És um erudito, senhor. Cantaste muito bem e trouxeste um pouco de alegria para nós. Pena que a alegria não possa ser cultuada por mais tempo, dadas às circunstâncias do luto de nosso estado. No entanto, falarei com meu marido e alegraria-nos em muito, se ficásseis entre nós, jogral. Nossa filha está se transformando em uma bela moça e precisa ser educada nas artes, como uma princesa que se preze. E que melhor professor, senão vós?
— Mãe! — sorri Isolda.— Queres que eu aprenda música? Oh, isso é ótimo!
— O que acha, meu jovem? — pergunta a rainha.
— A vós e à vossa filha devo minha vida, senhora. É a maior honra com a qual, um bardo como eu, pode sonhar. Se for da vontade do rei, aceito de bom grado.
Gorvenal quase soltou um não em voz alta, mas conteve-se. Quando ficaram sozinhos, ele tenta persuadi-lo a desistir daquela história.
— Ficaste louco? Foi apenas para curar-te, que viemos aqui! Ficando em condições ideais, nada poderá prender-nos! Temos que voltar...
— Mestre! Não seja tão ingrato! A princesa cuidou de mim com tanto zelo... será injusto não ensiná-la!
— Vais deixar teu tio morto de aflição, para satisfazer a um capricho de juventude?
— Eu dei a minha palavra, mestre. Por isso, sinto muito; pois não vou voltar atrás. Esta foi a forma que encontrei para agradecer-lhe e só assim, poderei contemplar-lhe a bela face por muito tempo... — confessa enfim.
— O quê? Vossamercê não está pensando em...
— Apaixonar-me? —completa Tristão.— Acho que já fui enfeitiçado pela beleza dela...
— Não! Mil vezes Não! Isto não está acontecendo! Antes ser surdo do que ouvir isso...
— Que mal há? Eu sou um homem e ela, uma mulher.
— Que mal há?! E tu ainda perguntas? Pra começar: ela é sobrinha do homem que mataste, em prol da Cornualha. Quer mais motivos?
Tristão cala-se e fica pensativo. Mas depois, cria coragem e diz-lhe:
— Mestre... eu sei. Mas ninguém precisa saber disso, precisa?
— Vais viver aqui, sustentado por tamanha mentira? Eu não acredito!
— Não será para sempre, mestre, tenho consciência disto. Apenas até a princesa aprender todas as artes musicais.
— E se o teu sentimento aprofundar-se, meu filho? O que será de ti? Tu sofrerás muito mais depois, do que agora se partires.
— Eu não me importo.
Ouvem-se batidas na porta e ambos se calam. Era Brangia, a criada de Isolda, levando-lhe o jantar.
— Boa noite, senhores. Minha jovem senhora mandou-te isto. Espero que gostes, senhor Thantris; ela mesma fez.
Era um creme de carne com verduras e legumes bem cozidos e um pedaço de pão. Cheirava muito bem e parecia delicioso.
— É uma comida bem leve, já que estás convalescendo do ferimento. Nada muito temperado e nem pesado.
— E Isolda? Digo: a princesa?
— Está jantando com os pais... Ah! A propósito! O rei mandou-me dizer-te que, ao terminar o jantar, virá falar-te. Com licença...
Quando terminaram de jantar, o rei foi ter com Tristão, acompanhado de sua filha. Grovenal já havia se recolhido.
— E então, meu jovem? Como te sentes?
— Estou bem, Majestade. E mais feliz ainda, com a acolhida que me dispensaram.
— Minha senhora comentou comigo sobre ensinar música à Isolda. Confesso que fiquei muito interessado...
— Se for de vossa real vontade, o farei de bom grado, Majestade.
— Nada me deixaria mais feliz, do que ver minha filha aprendendo aquilo que ela mais preza. E ninguém melhor do que vós, meu jovem. Minha senhora e rainha ouviu-te a voz harmoniosa e o primor com o qual dedilhaste a harpa e não é sempre, que encontramos um bardo disposto a renunciar à liberdade, para ensinar as artes para alguém.
Tristão não tirava os olhos de Isolda e ela, prendia-se ao olhar cheio de promessas de amor, do jovem de quem cuidara. Ela achava-o lindo e doce; diferente dos homens rudes da Irlanda, que só pensavam em lutar por lutar. Para Isolda, Tristão era um poeta.
— Assim que sua Alteza achar que posso levantar-me daqui, começarei a ensinar-lhe.
— Só mais alguns dias, senhor, e estarás preparado para agir normalmente. — diz-lhe Isolda sorridente.
— E quanto vos pagarei para... — interrompe o rei.
— Nenhum ducado, Majestade. Isolda dispensou-me cuidados gratuitamente e de graça, irei ensiná-la.
— Sois generoso, meu rapaz. Poderias exigir algum lote de terra, cavalos e, no entanto, prefere receber nada em troca... mesmo assim, faço-te uma promessa: o dia que precisares de um favor meu, peça-me o que quiseres e hei de conceder-te. Jurarei isto perante a Corte, quando estiveres apto a ensinar Isolda e apresentar-te como mentor dela — promete o rei.
E assim foi feito.