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Pelo mundo

terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 1 : O Regresso de Tristão

O INÍCIO


Numa tarde fresca e de odor primaveril, aproxima-se do reino de Lionês dois altivos cavaleiros: um de meia idade e o outro no tenro vigor de sua juventude. O primeiro demonstra, pelas linhas e marcas de seu rosto, a experiência e a sabedoria engajadas na aparência de um velho combatente; e o segundo, o mais moço, reflete em seus olhos a idade dos sonhos e aspirações de glória, a força e a destreza do ápice da vida. Este jovem cavaleiro é Tristão, o filho da tristeza e sucessor do soberano das terras de Lionês.
Vinha da Gália, onde permanecera sob as ordens do rei daquelas terras; seu companheiro, Sir Gorvenal, era seu mentor. Levara o jovem com ele para a Gália, a fim de livrá-lo das garras de sua cruel madrasta que, visando o interesse de seus filhos, tentou envenená-lo. O pai de Tristão, ao descobrir que sua esposa atentara contra a vida de seu primogênito e filho do grande amor de sua vida, quis expulsá-la do castelo junto com os filhos, mas Tristão, que além de nobre possuía um generoso coração, pediu para que o pai não fizesse isso; que pensasse antes em seus irmãos, pois estes não tinham a menor parcela de culpa na insensatez da mãe. Com isso, depois de um tempo, o rei e a rainha reconciliaram-se e Tristão, partiu à Gália com a desculpa de que Gorvenal iria completar-lhe os treinamentos e os estudos.
Passou-se anos a fio até Tristão receber a notícia da morte de sua madrasta e seu pai, agora, encontrava-se doente. Quanto aos seus irmãos, um fez-se monge numa abadia beneditina em Caerlon e o outro, perdeu-se na vida em troca de aventuras e não mandava notícias; provavelmente, teria encontrado a morte durante suas andanças. O pai estava só no momento mais penoso de sua vida e Tristão, resolveu voltar às terras de Lionês, para ficar com ele durante um tempo.
— Vosso pai ficará feliz ao ver-te, milorde — comentava Gorvenal. — Imagino o quanto ele deve estar ansioso para abraçar-vos depois de tantos anos.
— Meu pai... espero encontrá-lo em boas condições de saúde ao invés de doente, como dizia a carta que me enviou — aspira o jovem.
Olham em frente, num dado momento, e avistam finalmente o castelo. Tristão sorri, o que raras vezes fazia, e esporeia o cavalo para que corresse mais e logo, pudesse estar nos braços de seu pai.
Os guardas, que vigiavam a estrada que levava ao castelo, viram os dois homens que se aproximavam com tamanha rapidez e cruzavam a vila de aldeões, que circundava os muros da fortaleza de Lionês. Os súditos aclamavam a ambos, pois sabiam que o sucessor do soberano deles estava para chegar e logo, reconheceram em Tristão o menino que, quase sempre, acompanhava o rei em suas idas à vila, ou que corria pelo castelo, quando estes se abrigavam sob a proteção do soberano deles, vítimas de ataques inesperados dos bárbaros saxões, e outros invasores que vinham do mar e das investidas do pior inimigo de Sir Rivalino, Lorde Morgano.
— Vejam! É o Príncipe Tristão! — anuncia um dos súditos.
Logo a notícia chega aos ouvidos do rei Rivalino. Este ainda encontrava-se acamado, mas sentiu fluir um vigor inesperado ao receber a boa nova.
— Meu filho! Meu filho voltou?! Levantem-me!!! Ajudem-me cá! Quero recebê-lo de pé. Não quero que ele me veja nestas condições.
— Mas estás doente, senhor... — intervém um dos criados.
— Isto é uma ordem — sentencia o rei orgulhoso e revigorado.
Os cavaleiros, os vassalos e os criados recebem Tristão com grande júbilo, pois era um menino de treze anos quando os deixou e agora, já era um homem, completamente formado, de vinte anos de idade.
A seguir, Tristão apressa-se para encontrar o pai que já o aguardava na sala do trono. O brilho e o vigor de seus olhos haviam se apagado e o nobre homem estava muito abatido e pálido, embora fizesse um esforço sobre-humano para manter-se aprumado diante do filho; seus cabelos, de negros, tornaram-se brancos e uma barba longa e grisalha, também pendia de seu rosto enrugado.
— Meu filho! Filho de minha alma e de minha carne! Por fim tu regressaste para ver teu velho pai, meu menino! — fala o rei feliz e emocionado.
— Meu pai! — sorri Tristão.
Ambos abraçam-se por um longo tempo e o rei Rivalino de Lionês, permite-se chorar nos braços de seu filho. Esqueceu sangue e nobreza, diante da emoção do reencontro. Ele também acolheu com alegria, o seu fiel amigo Gorvenal e mostra-se grato por tudo que este fizera por Tristão.
— Oh, Gorvenal! Caro amigo! Obrigado pelo que fizeste por meu filho!
— Não me agradeçais, senhor. Apenas fiz o que era minha obrigação como vosso servo. E acredite-me, Majestade. Tristão é como se fosse meu próprio filho e sinto-me lisonjeado, por ter sido o mentor de tão nobre coração.
— E foste um segundo pai para mim e ainda és, Sir Gorvenal. Faço minhas as palavras gratas de meu pai.
Aquela noite, pai e filho não se deitaram. Ambos tinham muito para falar um ao outro e foram, aos poucos, recordando todo o passado.
— Eu não conheci minha mãe. Como ela era, pai?
— Tua mãe era a mais bela e jovem flor da Cornualha... — suspira o rei saudoso. — Ela era tão cheia de vida e graça; pena que partiu tão cedo desta vida, a minha doce Albaflor...
— Eu sei... ela não resistiu ao meu parto. Às vezes penso que eu fui o culpado por sua morte.
— Não, meu filho... não tiveste culpa de nada. Partos difíceis e com conseqüências sérias são muito comuns; muitas vezes, morre tanto a mãe quanto a criança. Mas Albaflor preferiu deixar-te viver e entregou sua alma a Deus.
Tristão puxa de um bolso embutido em sua túnica, o anel de família que a mãe lhe deixara antes de morrer, no dia que ele nasceu.
— Sir Gorvenal disse-me que antes de morrer, mamãe deixou-me esta lembrança. E que me chamo Tristão, porque nasci sob o signo de sua tristeza.
— Sim. Estas foram as suas últimas palavras, ao tê-lo finalmente em seus braços e antes de deixar este mundo: “... triste te vi nascer e triste, parto desta vida, por não ver-te crescer como eu gostaria. Chamar-te-ás Tristão, já que nasceste sob o signo da tristeza...” Só lamento, não poder ter estado ao lado de tua mãe nesta hora, pois encontrava-me em combate, junto com o Grande Rei — comenta Rivalino, entalado pela emoção. — Bem... falemos de coisas mais alegres! Quero organizar um suntuoso banquete para marcar a tua volta à nossa terra! Um banquete sem igual e com as mais finas iguarias! Chamarei todos os nobres da região e adjacências, e quero também, apresentar-lhe aos súditos, porque já estou velho e doente, e é bom que eles conheçam o futuro rei.
E assim foi feito. O pai de Tristão organizou o evento e convidou pessoas importantes e parentes distantes, inclusive seu cunhado Marcos, rei da Cornualha. Contudo, este não pôde comparecer. Foi uma pena, pois Tristão há muito desejava conhecer o tio.
“Talvez vendo-lhe a face, tenha uma noção do rosto de minha finada mãe...”— pensava sempre Tristão, quando imaginava-o em sua mente.
Mas o máximo que o rei Marcos pôde fazer foi mandar uma carta, explicando o motivo de sua ausência, junto com um solene pedido de desculpas. Carta esta, que preocupou em demasia o rei de Lionês.


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