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terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 2 : Uma Carta Inesperada


A disposição exagerada de Rivalino ao organizar a festa de Tristão, teve lá suas conseqüências: já um pouco atingido na resistência física, o rei encontrava-se acamado agora; precisava repor seus esforços. Tristão estava quase a todo instante, com seu pai.
Então, um mensageiro da Cornualha chega ao castelo, a mando do rei Marcos, e anuncia-se ao guardião dos portões. Este o deixa passar.
— Tenho comigo uma mensagem do regente* da Cornualha — diz o homem mostrando uma pequena carta a Sir Gorvenal.
— Eu cuidarei para que esta carta seja entregue — fala Gorvenal aceitando a mensagem e despedindo-se do mensageiro.
O jovem cavaleiro curva-se respeitosamente e afasta-se.
O rei de Lionês, ao ler a carta, mostra-se muito preocupado. Tristão percebe a gravidade e achega-se ao leito.
— O que foi, meu pai? Más notícias do meu tio? — pergunta o jovem aflito.
— Oh, que sina da bela Cornualha! — desabafa o rei. — Ter que, mais uma vez, receber o maldito cobrador da Irlanda! Por isso, meu cunhado Marcos não veio à festa e pede desculpas nestas poucas linhas!
— Cobrador?! Do que se trata? — indaga Tristão curioso.
Rivalino passa-lhe a carta e ele lê:

Caríssimo Rivalino, soberano de Lionês. Sinto muitíssimo por perder a oportunidade de conhecer meu sobrinho, filho vosso e de minha irmã Albaflor. Há muito sonhava com este dia, mas infelizmente, a data coincidiu com a chegada de Sir Morholt de Marhaus, campeão da Irlanda e não posso ausentar-me agora da Cornualha. Preciso estar presente para preparar-lhe a recepção, porque o mesmo poderá chegar a qualquer momento para cobrar a dívida.
E vós, melhor do que ninguém, conheceis nossa sina.
Sem mais nada a declarar, despeço-me enviando-vos o meu abraço cordial e lembranças minhas ao jovem Tristão.
Seu amigo: Marcos da Cornualha

— Quem é Sir Morholt? — pergunta Tristão com certo tom de raiva.— De que cobrança diz a carta?
— Há alguns anos atrás, quando ele ainda era moço, o pai de Marcos, o rei Cormac e os pais da atual rainha da Irlanda, travaram uma guerra que durou meses. No fim, a Irlanda levou vantagem, pelo seu poderio militar e conseguiu vencer a Cornualha e, como castigo imposto pela amarga derrota, a Cornualha viu-se obrigada a pagar anualmente, um tributo ao reino vencedor. Este tributo consiste em entregar cem donzelas, cem mancebos e cem cavalos de raça. Compromisso que Marcos se negou a cumprir e que, então, quase gerou uma nova guerra e, como a Cornualha foi arrasada durante o tal conflito e temendo por seu povo... — o rei fez uma pausa e continuou —Marcos não teve outra escolha, viu-se forçado a pagar a dívida devida à rainha. Por isso, este ano, Sir Morholt vai à Cornualha para cobrar o tributo.
— O quê?!! Cem donzelas? O que querem com cem donzelas?
— As mais afortunadas e prendadas tornam-se amas da rainha e as de menos sorte, provavelmente tornam-se concubinas reais, para serem usadas a bel-prazer dos cavaleiros irlandeses — explica-lhe Sir Gorvenal.
Aquilo causou asco e revolta em Tristão, o que o fez explodir de raiva.
— Isto é um absurdo!!!! Meu tio não devia jamais, pagar esta dívida! É vergonhoso ver a virtude de cem virgens, negociada como se elas fossem mercadorias! Diga-me, meu pai: Como a Cornualha poderá livrar-se de tamanha barbaridade?
— Desse trato alvitante, a Cornualha só se livrará, no momento em que um campeão do rei Marcos, venha a derrotar Morholt em um combate justo. Mas Sir Morholt de Marhaus é o campeão da Irlanda e exímio combatente; sua fama, como o gigante irlandês, espalhou-se aos quatro ventos ao ser cantada em versos pelos bardos errantes. Por isso, todos o temem e ninguém se atreveu a enfrentá-lo até hoje.
Tristão ajoelha-se diante do pai.
— Pois então, permita-me pai. Eu desejo enfrentar Morholt e livrar a Cornualha desta vergonha.
— O quê?! Enlouqueceste?!!!—assusta-se o rei.
— Tristão! — exclama Gorvenal.
— Sir Morholt é cruel e terrível com sua espada! Jamais foi derrotado! Não! Não entregarei meu herdeiro à morte certa! Somente um cavaleiro bem preparado, poderia enfrentá-lo em igualdade de condições! — nega-se Rivalino.
— Eu passei a minha infância inteira e a minha juventude, a serviço do rei da Gália, e fui treinado pelos seus melhores cavaleiros e também por Gorvenal. Eu sei as regras da cavalaria e as formas de combate. Posso muito bem enfrentá-lo de igual para igual.
— Isto é verdade, milorde — pondera Gorvenal.
— Pai! Meu tio está precisando de mim... é a chance que terei para mostrar o meu valor e firmar-me como homem.
— Ficaste este tempo todo longe de mim e agora, que finalmente tenho o meu filho comigo, queres que eu te deixe partir? E pior! Queres partir ao encontro da morte! Só Deus sabe o que poderá acontecer...
— E eu desejo entregar-me às mãos de Deus, agora e decidir o futuro da Cornualha! Se acaso for da vontade Dele, eu sairei vencedor; do contrário, morrerei. Mas morrerei feliz, porque partirei com honra por tentar fazer o bem — diz o jovem em seus deleites de glória. — Uma coisa é certa, meu pai... do jeito que está, não pode continuar. A Cornualha precisa livrar-se deste tributo cruel. Por favor... — implora Tristão quase num sussurro — deixe-me ir até meu tio Marcos e enfrentar o temido cavaleiro. Enquanto ficas indeciso, Morholt pode estar na Cornualha, agora, levando as pobres moças para a Irlanda.
O rei quedou mudo e olhou para Sir Gorvenal.
— Se quiseres, meu rei... eu posso acompanhar vosso filho...
— Faça isso, fiel amigo — consente o rei.
Tristão abre um largo sorriso.
— Querido pai! Eu não vou decepcioná-lo! — promete o rapaz radiante.
E foi assim, que o rei Rivalino de Lionês viu partir, com pesar, o seu querido filho. Tristão vestira sua armadura que recebera do rei da Gália; estava lindo em sua indumentária e Gorvenal, partiu com ele. Tristão parecia um verdadeiro cavaleiro.
“Tão lindo quanto Lancelote”, diriam dele num futuro próximo...
— Que Deus vos proteja e vos abençoe, filho meu. E que os anjos do Senhor vos sejam favoráveis. Adeus.

Passaram-se os dias e Tristão desembarca no porto de Tintagel. Atracado ao porto, encontrava-se uma imensa nau, em cujo mastro principal, via-se desfraldada uma bandeira estranha para ele e, curioso, pergunta a um marujo que vinha passando pelo cais:
— De quem é este navio? — pergunta o jovem.
— É de Sir Morholt, o maldito irlandês — responde o homem com certa ira na voz.
— Então, ele já chegou à Cornualha? — indaga Sir Gorvenal e olha para Tristão.
— Há bem umas duas semanas, com certeza! — fala o marinheiro.
— E as moças e o resto do tributo, já devem estar sendo recolhidos — antecipa-se Tristão. — Bom homem, diga-me: onde posso encontrar bons cavalos para conduzir-nos até Tintagel?
— Ah, bem ali adiante. Lá fica um homem que vive da barganha de cavalos e são animais rápidos, resistentes e de excelente raça.
— Obrigado, senhor — agradece Tristão, lançando uma moeda de ouro para o homem.
Enquanto iam à procura do tal homem e de seus magníficos animais, Tristão fazia recomendações ao seu mestre.
—Não fale a ninguém que sou o sobrinho do rei. Não quero que saibam agora.
Os dois compraram os melhores cavalos e partiram, num galope desenfreado, em busca do castelo do rei Marcos.
Num certo momento, durante o percurso, Tristão ouve uma mulher gritando e corre até aonde ouvira o grito. Depara-se, então, com um quadro revoltante: a mulher lastimava-se agarrada à sua filha, enquanto um guarda tentava arrastar a menina. A moça deveria ter uns quinze anos.
— Filha nascida sob o estigma da fatalidade, antes nunca tivesse te concebido!
— Mãe! — chorava a garota. — Eu não quero ir!!!
— Oh, piedade senhor! Não tire minha filha de mim!!!
O guarda vendo-se sem opção, empurra a mulher. Tristão reparou que ele também estava tenso.
— Não piorem as coisas! Deixe-a mulher!
— Não! Catherine!!!
— Não adianta lastimarem-se! O tributo tem que ser pago para termos paz! — justifica o homem.
— Minha filha...
Tristão olha à sua volta e vê que o mesmo quadro se repetia em vários pontos de Tintagel. Ao mesmo tempo, outros guardas arrastavam mais moças da mesma idade da primeira.
Tristão ficou mais horrorizado ainda, ao contemplar a atual situação pessoalmente. Moças eram arrancadas dos braços de seus pais, de forma violenta e insensível. As mães batiam no peito e os pais, nada faziam, porque aqueles que tentavam eram imediatamente punidos à chicotadas e outros, ainda mais ousados, eram levados ao castelo para serem feitos prisioneiros, acusados de provocarem rebelião e auto-traíção à Irlanda.
Todo ano na chegada de Morholt, era assim. Muitas donzelas preferiam deitar-se com qualquer homem, durante um ano e outro, para não terem que passar por isso, mesmo que não houvesse sentimento entre eles. E muitos pais, também cediam a virgindade das filhas para não as verem sendo carregadas à Irlanda no ano seguinte.
— Mestre! Precisamos nos apressar, pois a situação está pior do que pensei! — exclama o jovem pálido.
Tristão dirige-se a um dos guardas e dá uma de desentendido do assunto, propositalmente. Este colocava as moças, numa espécie de jaula, sobre uma carroça.
— Amigo! O que está havendo? Por que tanto desespero?
— Morholt, o gigante irlandês, veio a mando de sua irmã, a rainha da Irlanda, obrigar-nos a saldar a dívida vergonhosa, que é paga pela flor de nossa mocidade.
— Ele já está no castelo?
— Sim, estrangeiro. Chegou há poucos dias e está recolhendo os fardos do tributo.
— Mas o que farão com as moças? — quis saber Tristão.
— Ou serão amas da rainha Isolda “a velha” *, ou concubinas reais para servirem aos cavaleiros da Irlanda — responde-lhe o interpelado.
O jovem Tristão explode de raiva.
— Leve-me ao rei, agora! Quero falar com o rei! — diz-lhe Tristão impaciente.
— Como?! — espanta-se o guarda.
— Alguém tem que pôr um fim nisso!
O guarda não soube explicar, mas algo no olhar daquele homem inspirou-lhe confiança.
— Muito bem. Peguem seus cavalos e sigam-me.
— Vamos Sir Gorvenal. Tenho muita pressa em resolver logo este assunto — chama Tristão.
Após um longo e penoso caminho, Tristão vê erguer-se majestosa ante seus olhos, a fortaleza da Cornualha sobre o penhasco íngreme de Tintagel.
— Chegamos, rapaz — aponta-lhe o guarda. — Lá está Tintagel.
Tristão percebera que uns quinze homens, vestidos de modo diferente, circulavam pelos arredores do castelo e pelas características, só podiam ser irlandeses, mas ele quis confirmar.
— Estes homens são da Irlanda? — pergunta Tristão, mas já imaginando qual seria a resposta.
— Sim. São alguns dos irlandeses que acompanham o maldito cavaleiro.
Tristão chama Sir Gorvenal e entram sem serem anunciados.
— Ei! Espera!Vão nos barrar se tentarmos entrar assim! — berra Gorvenal, porém, inutilmente. Tristão não lhe dera ouvidos.
Dito e feito. Na mesma hora, os guardas que estavam vigiando a entrada, apontaram suas lanças de forma ameaçadora.
— Viu?! Eu disse! Mas vossamercê é sempre impetuoso e nunca me ouve — critica Gorvenal. — Ei, amigos! Calma! Viemos em paz! — tenta consertar a situação, antes que fossem transpassados pelas lanças.
— Quem vos deu permissão para adentrarem no castelo assim? — fala um dos guardas.
— Eu quero falar com o rei Marcos — diz Tristão altivo e sem o menor temor.
— O nosso senhor está ocupado, agora; não poderá recebê-los. Marquem uma audiência e serão atendidos.
— Audiência?! Eu não posso aguardar audiência alguma, meu senhor. O caso deve ser resolvido agora mesmo! É a Morholt que eu quero desafiar!
Ao ouvir isso, o guarda fica surpreso e diz para todos recolherem as lanças.
— Desafiar Morholt? Definitivamente és um louco! Não sabes o que diz, rapaz... Ei?
Tristão aproveita a distração dos guardas e fura a barreira de soldados.

O rei Marcos estava de pé, ao lado do trono e Sir Morholt já havia contado os jovens e os cavalos; agora, contava as moças.
— 79 donzelas — dizia o cavaleiro. — ainda faltam 21 moças...
— Meus guardas já estão providenciando, Sir Morholt — falava o rei encarando-o com certa revolta e apertando a cruz da espada, como se desejasse sacá-la da bainha e pôr um fim naquela cena deprimente: Sir Morholt examinava-as na aparência e aos dentes também, como se elas fossem animais. Elas choravam encolhidas a um canto; de certo, pensando nos pais e sobre o que aconteceria com elas na Irlanda. Ao ver-lhes o medo estampado em seus jovens rostos, Sir Morholt sorria de mórbida satisfação.
Mas a alegria de Morholt duraria pouco. Tristão entra pelo salão de forma firme e violenta, assustando a todos que estavam presentes.
— Quem és tu? O que significa isso? — assusta-se o rei Marcos.
Tristão encara o cavaleiro irlandês, antes de responder às perguntas do tio.
— Sir Morholt de Marhaus, eu presumo...
— O que desejais de mim, jovem insano? Como ousas encarar-me desta maneira?
Sir Gorvenal cortou um dobrado para driblar os guardas e alcançar Tristão. Ao entrar, vislumbra uma cena incrível: Rei Marcos estava pálido e confuso; Tristão e Morholt encaravam-se mutuamente, como se um estudasse o outro. Nesta hora, Gorvenal desperta para uma gritante realidade; o menino que vira nascer crescera e não apenas em estatura, mas em coragem e transformara-se num gigante, diante daquele homem tão temido e famoso por sua crueldade.
— Nenhum tributo será pago à Irlanda. Se vossos tolos e insanos ancestrais celebraram tratado de tal ordem, hoje renunciamos a este tratado — diz Tristão enfim. —Para isso, estou disposto a enfrentá-lo corpo-a-corpo.
Sir Morholt ri de forma debochada.
— É em vosso nome, oh rei da Cornualha, Que este estúpido fala?
— E-Eu nada lhe ordenei! — fala Marcos confuso. — Quem sois que ousais medir-vos com Morholt, o gigante irlandês, sem ser meu parente? De quem tu descendes? O tributo é dívida de família, rapaz!
— Majestade... — Tristão aproxima-se do tio e deixando-se levar pela emoção, mostra o anel que ganhara de sua mãe quando ele nasceu. — Meu nome é Tristão. Sou filho de Albaflor da Cornualha e Rivalino, soberano de Lionês.
— O-O quê? — gagueja o rei às lágrimas. — Tu és o meu sobrinho... o sobrinho que ainda não conhecia?
O rei não sabia se ria ou chorava, diante de tamanha revelação. Passado o susto e a surpresa, ele ergue-se do trono de Tintagel e vai ao encontro dele para abraçá-lo.
— Oh, Deus! É uma grande benção! Tristão...
Tristão ajoelha-se diante do tio, dizendo em tom inaudível a Morholt.
— Sagra-me cavaleiro, querido tio, que tudo farei para livrar a Cornualha de tão vergonhoso tributo.
— Não sabes o que me pedes, meu sobrinho. Não tens a mínima chance contra ele — fala o rei preocupado.
— Senhor, não vos amargureis, pois tenho fé de que Deus olhará pela Cornualha e vosso reino será libertado deste injusto tratado.
— Se desejas tanto assim, assim o farei, embora o meu coração esteja inundado de lágrimas — suspira Marcos. — Sir Morholt... — diz o rei em tom solene. —Tenho diante de ti, um homem disposto a enfrentá-lo numa luta justa, em favor da Cornualha — Marcos fez sinal aos seus guardas, que vigiavam a sala e mandou libertar as moças e os jovens.
— Não levarás mais para a Irlanda, nossas moças e nem estes jovens — desafia o rei.
— O quê?! O que estão pensando, vassalos idiotas? Acham mesmo que um inexperiente jovem conseguirá vencer-me? Eu, Morholt, o terrível gigante da Irlanda? Não me façam rir...
— Cuidado com o que dizes, grande campeão da Irlanda! — mete-se Gorvenal. — Este jovem inexperiente, ao qual referiu-se, poderá surpreendê-lo! — provoca o velho cavaleiro cheio de confiança.
— Eu marcarei a hora, local e data do nosso combate — fala Morholt encarando Tristão com desdém. — Acho bom, porém, que prepares as honras e os funerais do vosso cavaleiro, senhor... — encerra o cavaleiro dirigindo-se a Marcos, de forma ameaçadora — pois com certeza, já sabemos quem será o vencedor.
O cavaleiro da Irlanda chama os seus homens que o estavam acompanhando e afasta-se do castelo. O rei Marcos pôde respirar aliviado logo assim que ele saiu e pensava, tentando organizar os pensamentos, que conseguira enfrentar Morholt, finalmente.
As moças e os mancebos foram libertados e correram para os braços de seus pais. Maravilhados, espalharam a notícia de que, enfim, um homem com coragem pisara nas terras da Cornualha.
Naquela noite, Tristão permanecera em vigília diante do altar da capela do castelo, preparando-se para a cerimônia de sagração que ocorreria na manhã seguinte. Marcos iria nomeá-lo cavaleiro, para que lutasse com Morholt em pé de igualdade.
Muitos súditos e até as próprias moças correram ao castelo para ver a solene cerimônia. Durante a sagração, cercado de luzes e honrarias, os convidados concordavam de forma unânime que nunca, na Cornualha, se vira tão belo cavaleiro. As moças suspiravam apaixonadas.
— Caro sobrinho, só lamento não ter podido transformar esta consagração, em uma festa de muitos dias.
— Meu tio... tornando-me vosso cavaleiro, já me satisfaz. Estou honrado em servir-vos com lealdade, todos os dias de minha vida — diz-lhe Tristão feliz.
O duque Audret, filho da irmã mais velha de Marcos, voltando de uma longa viagem que fizera às suas terras, ouviu os comentários de que um outro sobrinho de Marcos surgira na Cornualha e que, com coragem, desafiara o campeão da Irlanda. Audret, que até agora era o único sobrinho que Marcos devotava amor, não gostou da idéia de ter que dividir-lhe a preferência com um primo chegado não se sabe de onde. Um primo que nunca vira. Logo, a inveja aninha-se em seu coração e aumentara ainda mais, quando vira o esplendor da consagração de Tristão.
— Eu sempre vivi e vos servi com lealdade, no entanto, nunca consagrou-me vosso cavaleiro, senhor meu tio — protesta amargurado.
— Tu nunca te dispuseste a defender as terras da Cornualha contra a Irlanda. Sempre temeste Sir Morholt... Agora, não venhas criticar-me por tê-lo feito cavaleiro. Tu, que sempre estiveste ao meu lado, não quis enfrentá-lo; Tristão, no entanto, veio de longe e se dispôs a enfrentar o campeão irlandês em nosso nome. Seria injusto de minha parte, se não lhe conferisse tal honra.
Audret não disse mais nada e recolheu-se aos seus aposentos.
No silêncio do quarto, praguejava e amaldiçoava a sorte do primo distante; mas um pensamento acomete-lhe à mente e ele começa a rir pateticamente: “Ora! Por que estou tão preocupado? Sir Morholt é invencível, Tristão jamais conseguirá vencê-lo! Ah, meu caro primo... Estás às portas da morte...” — pensa triunfante.
* nota: Soberano escolhido para ocupar um trono, na ausência do verdadeiro monarca.

* nota: Coincidências de nomes entre pais e seus respectivos filhos, eram muito comuns na época. Assim, a rainha Isolda era conhecida como “a velha”, para diferenciar de sua filha Isolda, que herdara-lhe o nome.

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