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Pelo mundo

terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 3: O Preço da Liberdade

Ilustração de Julek Heller, 1990


Os dias foram passando e com o passar dos dias, a expectativa sobre o combate entre Tristão e Morholt também aumentava: onde seria o combate? Quais armas? Etc...
Uma certa manhã, então, o rei Marcos recebe afinal, um comunicado da parte de Morholt, combinando o dia, a hora e o local do duelo.
— Sir Morholt manda dizer-vos que o local, o dia e a hora já foram escolhidos — diz o rei ao sobrinho. — Será na ilha deserta de Saint-Samson, no sétimo dia desta semana, ao meio dia. Usarão somente espadas, tal como escolhestes no dia que o desafiastes.
— Estarei lá, exatamente na hora e dia marcados — concorda Tristão.
— Cada oponente levará, de sua parte, uma testemunha e Dinas de Lindan, o meu senescal*, será o juiz do combate.

Enfim, chega o tão esperado sábado.
Sir Morholt já o aguardava na ilha, junto com sua testemunha. Enquanto esperava por Tristão, o cavaleiro irlandês tira de sua bagagem um ungüento estranho e leitoso, e o esfrega na ponta de sua espada, guardando-a novamente na bainha sorrindo de forma diabólica. O homem que o acompanhava percebera o que fez e queria criticá-lo, porém, temia o grande cavaleiro.
À hora marcada, Tristão desembarca na ilha acompanhado de Sir Gorvenal, Dinas de Lindan e um sacerdote.
— Ora! Vejo que meu oponente realmente veio?! — debocha o irlandês.
Tristão nada diz, mas encara-lhe com sagaz reprovação por sua prepotência.
— Bem... Eu serei o juiz... e... — começava a dizer Dinas, quando Tristão antecipa-se.
— Um momento Sir Dinas — interrompe-lhe Tristão, dirigindo-se ao condutor da pequena embarcação que os trouxe, ordenando-lhe que remasse de volta.
Os que assistiam, não entenderam aquela atitude.
— Por que o fizeste, rapaz? — pergunta o gigante.
— Porque não há necessidade de dois barcos, basta o vosso, Sire... só um de nós embarcará de volta.
Sir Morholt sorri, admirando-lhe a coragem, porém, tinha certeza de quem seria o vencedor e sentiu certo pesar em relação ao jovem cavaleiro.
— Tu és corajoso, jovem. É uma pena ter que privar sua gente de tão bravo cavaleiro! Fica ao meu lado e seremos amigos, pois desagrada-me a idéia de matá-lo.
— De bom grado o farei, se livrares a Cornualha do tributo — retruca-lhe Tristão.
— Não posso — diz-lhe Morholt. — É dívida de guerra, que só se lava com sangue. Vamos à luta!
— Estou pronto — responde Tristão. — Para isso vim.
— Este é um combate mortal, que só terminará com a morte de um dos oponentes. O mais afortunado será o vencedor — diz-lhes Sir Dinas aproximando-se de ambos. — Veio comigo um sacerdote e aquele que desejar, poderá confessar-se e receber a absolvição dos pecados antes da luta.
Tristão concorda e pede ao padre que o ouça em confissão. Sir Morholt recusa-se a confessar.
— Eu não preciso confessar-me! Terei muito tempo ainda, para expiar os meus pecados! — diz o arrogante irlandês em tom debochado e já confiante na vitória.
Sir Gorvenal ficara irritado com a soberba dele, mas tenta controlar-se.
Tristão recebe o perdão de todos os seus pecados, inclusive a respeito da decisão da luta, caso matasse Morholt.
— A postos, cavaleiros — ordena Dinas.
Sir Morholt desembainha a espada e Tristão faz o mesmo.
— Cumprimentem-se — diz Dinas.
Ambos elevam a lâmina da espada à frente do rosto e fazem pequena reverência.
— Comecem! — Dinas afasta-se.
Os cavaleiros batem-se em duelo. Morholt fica surpreso ao perceber a agilidade e força de Tristão, pois em seu íntimo, achava que no primeiro golpe decidiria a luta; só que não foi bem assim... Tristão defendeu-se com a destreza de um profissional.
Enquanto isso, na praia próxima, onde os homens embarcaram ruma à ilha, um aglomerado de pessoas olhava aflito para o lugar do embate, que decidiria a sorte da Cornualha. O rei e seu outro sobrinho, o duque Audret, junto com alguns servos, guardas e conselheiros reais, também estavam presentes. O rei Marcos não tirava os olhos da ilha e acompanhava as orações que faziam em intenção à vitória de Tristão.
— Por favor, Tristão... vença! — murmurava ele. — O destino da Cornualha está em tuas mãos...
Era possível ver o sol refletido nas lâminas em choque, pois a ilha não era muito distante da praia.
No quinto embate, Tristão é ferido pela ponta da espada de Morholt em seu braço. Sir Gorvenal assusta-se e grita.
— Não baixe a guarda, Tristão!
Tristão revida o golpe e quase derruba Morholt, mas este consegue equilibrar-se e desfere-lhe outro golpe, porém, Tristão esquiva-se com exímia perícia.
— Cada golpe de minha espada ser-te-á mortal, Tristão, porque ela foi envenenada por artes mágicas e nenhum médico poderá te salvar — diz-lhe ao pé do ouvido o cavaleiro Morholt, para intimidá-lo.
— O quê ?! Maldito...
Aproveitando a distração de Tristão, Morholt fere-o na coxa esquerda.
Tristão, refeito da surpresa, revida com um forte ataque, mas não consegue, embora o atingisse no peito, varar-lhe a couraça. Outro ataque de Morholt; outro profundo ferimento em Tristão; desta vez perfurando-lhe o quadril até o osso. A dor que Tristão sentira, quase o fez perder os sentidos e Morholt aproveitou para desarmá-lo, batendo com força em sua espada.
A lâmina voa acima da cabeça do jovem e cai um pouco adiante.
— TRISTÃO! — grita Gorvenal aflito. — A espada!!!! Pegue-a rápido!
Morholt, contando com o desfecho a seu favor, brande a lâmina contra o oponente caído para aplicar-lhe o golpe que decidiria a luta.
— Estás morto! — berra o irlandês às gargalhadas.
Tristão, vislumbrando a morte perto de si, busca forças em sua dor e arrasta-se para recuperar a espada. Por milésimos de segundos, Tristão pega da espada e mira o elmo de Morholt. O gigante solta um grito agonizante e cai; a espada de Tristão transpassara-lhe o elmo e feriu-lhe o crânio, foi tudo tão rápido, que ele nem soube como, porém, quando deu por si, Morholt já estava caído aos seus pés e a ponta da espada que segurava, estava quebrada.
Gorvenal, após refazer-se do susto, corre até Tristão e agarra-se a ele; num dado momento, parecia chorar.
O companheiro de Morholt ficou estupefato; nunca que ele imaginara antes, que Sir Morholt, o grande campeão da Irlanda, seria vencido um dia. E vencido por um cavaleiro novato, que nem havia feito história ainda.
Sir Gorvenal ergue Tristão e ajuda-o a aproximar-se de Sir Dinas de Lindan.
— Sire... — fala o jovem ofegante e guardando sua espada na bainha — a justiça foi feita. Declaro que a Cornualha reconquistou a liberdade...
Tristão mal terminara de falar quando foi acometido por tonturas; sentiu as vistas escurecerem e a seguir, desfalece. Dinas e Gorvenal perceberam algo errado e ampararam-no antes que caísse.
— Sir Tristão! — exclama Sir Dinas.
— Meu jovem senhor! — chama Gorvenal, dando-lhe tapinhas no rosto para tentar reanimá-lo.
— Fiel Gorvenal... eu fui envenenado... — comenta Tristão, abrindo os olhos com dificuldade, antes de perder de vez os sentidos.
— O quê ?! Tristão!!!
— Meu Deus! Como isso foi possível?
— Foi a espada — confessa o homem que acompanhava o cavaleiro irlandês. — Sir Morholt envenenou a ponta da lâmina.
— Maldição!!! — explode Gorvenal, agarrando o homem com violência. — Isto é traição!
— Solte-me! — berra o homem.
— Deve haver um antídoto! Um meio de cortar a peçonha! Confesse... — exige Sir Dinas, que já estava afeiçoado ao valente rapaz.
— Sim! Há um meio! A Irlanda!
— A Irlanda ?! — assusta-se Gorvenal.
— O veneno foi criado pela rainha Isolda da Irlanda e só ela conhece o antídoto! — explica o acompanhante de Morholt.
— Seu estúpido! A Irlanda é distante daqui; Tristão morrerá antes de chegar lá! — desespera-se o tutor do jovem.
— Não, senhor! Este veneno tem um efeito retardado! Ele só desmaiou, devido à dor. Primeiro, o envenenado sente calafrios, febre e dores muito fortes; depois, o ferimento transforma-se em uma chaga terrível, que vai corroendo a pele, músculos e órgãos internos, causando a mortalidade e a putrefação dos tecidos; se correrem, terão tempo de salvá-lo — revela o homem.
— Mas nunca estivemos na Irlanda e não sabemos o caminho, isto irá atrasar-nos ainda mais...
— Eu posso ir junto e mostrar-lhes o caminho — oferece-se o bom homem.
Sir Gorvenal solta-o.
— Pois então, vamos providenciar a viagem — decide sir Dinas. — Falemos com o rei Marcos.
O rei Marcos providenciou, na mesma hora, uma liteira para pousar o herói exangue e um barco para levá-lo à Irlanda. Não podiam mexer muito com ele, há princípio, uma vez que ele estava perdendo muito sangue e colocaram-no na liteira tal como estava, com armadura e tudo. Gorvenal cuidava de estancar-lhe um pouco o sangue, para trocar-lhe as roupas depois. Os criados providenciaram algumas mudas de roupas e aprontaram uma trouxa.
Se Tristão seria curado ou não? Se a rainha o acolheria? Somente Deus saberia, porém, algo precisava ser feito e não custava nada tentar.
Quanto a Sir Morholt; o rei mandou chamar os irlandeses e comunicou-lhes a derrota de seu campeão, aconselhando os mesmos a buscarem o corpo. Em seguida, ofereceu uma sepultura digna para o cavaleiro irlandês, até ser possível transladar os seus restos mortais à Irlanda.


* nota: Espécie de mordomo da época, que auxiliava o rei nos problemas do castelo.



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