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terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 4: Rumo à Irlanda


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Tristão, em seus delírios febris, não sabia o que estava se passando; sentia-se balançar suavemente, parecia que estava flutuando. Era o balanço semelhante ao do mar. Estaria ele no mar? A dor do ferimento parecia cortar-lhe fundo na alma.
Um alívio abençoado sobreveio-lhe à fronte, ao sentir o frescor de um pano úmido para abaixar-lhe a febre. Com dificuldade conseguira abrir os olhos e vê um rosto sobre ele. Tristão não pôde ver quem era; a face de quem o contemplava estava oculta sob uma máscara, que mantinha somente os olhos visíveis, mas ele notou uma certa semelhança com alguém muito estimado, parecia seu mestre Gorvenal. De longe, uma voz lhe dizia: “Agüente, Tristão! Logo chegaremos e tu serás curado!”.
No transcorrer dos dias, Tristão, cercado de cuidados, recobra um pouco a consciência e vê-se realmente no mar.
— Sir Gorvenal ?! —fala num fio de voz.— Onde estou? Meu tio... o rei...
— Calma, filho! Não se esforce...
Tristão sente um odor fétido e uma terrível dor abaixo de sua cintura. O ferimento, já começava a dar os sinais de putrefação das áreas próximas. Os que estavam com ele, no barco, não tiravam as máscaras.
— O que aconteceu com Morholt? Para onde estão me levando?
— Tu venceste, Tristão! Morholt está morto e a Cornualha está livre, agora. — conta-lhe Gorvenal.
— Eu consegui... consegui...
— Sim! Tu conseguiste! Venceste como um verdadeiro cavaleiro! Quanto à tua segunda pergunta... estamos a caminho da Irlanda.
— Irlanda? —pergunta confuso. — Por quê?
— Porque somente lá encontrarás alivio para o teu mal. Foste envenenado pela ponta da espada de Morholt e só a rainha da Irlanda conhece o contra-veneno para curá-lo — explica-lhe o homem que os acompanhava.
— Sim... agora me lembro... Morholt me disse qualquer coisa sobre isso, enquanto lutávamos, mas... a rainha jamais irá curar-me...
— Não se preocupe; tudo já foi planejado. Ela não saberá quem somos, seu nome será Thantris e diremos que somos bardos errantes, para que consigamos entrar no castelo do rei Anguish. Vê? Trouxe até tua harpa!
— E pelo jeito... não foi só a harpa que trouxeste... — ri Tristão apontando para a sua armadura.
Gorvenal ficou sem graça...
— É... bem... fiquei tão apavorado com seu estado que, embarquei-o com a armadura completa.
— Bom, mas isto não importa! O importante é mantermos tua armadura e a espada ocultas. A não ser que as joguemos no mar...
— De jeito nenhum! — protesta Tristão. — Logo a minha primeira armadura de cavaleiro consagrado e a espada de meu tio Marcos? São objetos muito valiosos e estimados... Ui! Que dor!
Gorvenal não conteve o riso.
— Pelo visto, melhoraste um pouco meu caro!
— Meu pai! Alguém precisa avisar meu pai! Dizer-lhe que sobrevivi ao combate... — lembra-se Tristão aflito.
— Não fique perturbado, filho. Teu tio se encarregará disto; acho que até já deve ter enviado um mensageiro até Lionês pelo tempo. Agora, procure dormir, pois já falaste demais por hoje.
E assim, Tristão seguiu viagem: ora consciente, ora febril e inconsciente quando, enfim, chegam às praias da Irlanda. Alguns pescadores, que lançavam suas redes ao mar, vêem a embarcação que se aproximava e percebem que esta desceu um pequeno barco.
— Quem será? — diz um deles em seu idioma rude, típico das pessoas mais simples daquela região litorânea.
— Vamos ver! — corre um outro na direção do mar, percebendo que um homem, de pé na proa, lançara uma corda na costa para que os puxassem até a praia.
Eles puxaram o barco e viram um pobre homem ferido e em péssimo estado, acompanhado de outro que parecia muito aflito.
— Por favor, amigos! Eu e meu companheiro viemos de muito longe, para tentar uma cura para esta chaga, causada por uma lâmina irlandesa envenenada. Soubemos que vossa rainha é uma feiticeira poderosa da antiga religião, e que conhece muitos antídotos para certos venenos.
— É verdade, senhor. Ela conhece muitas coisas. Mas dizei-nos: quem sois e qual é o vosso ofício? — pergunta o pescador com a mão em seu nariz. O cheiro estava insuportável.
— Eu me chamo Gorwen e este, é Thantris. Somos menestréis errantes. Nosso barco foi atacado por saxões, mas conseguimos escapar e ficamos à deriva, até surgir o abençoado barco cristão que nos trouxe à estas praias.
Tristão estava cada vez mais próximo da morte, pois, a cada dia, o veneno tornava-se mais poderoso. Ele estava novamente inconsciente.
Na aldeia de pescadores, diante do majestoso castelo de Anguish Gormond, Tristão foi desembarcado com Gorvenal e o homem que mostrou-lhes o caminho mais rápido. Os pescadores, compadecidos, ajudaram-nos a levar o moribundo e os fardos que trouxeram até o castelo. Próximo do castelo, o homem se despede de ambos e toma outro rumo; de certo, iria rever a sua família depois de tanto tempo.
Os reis já haviam recebido a notícia da morte de Morholt, dias atrás, através de dois mensageiros que trouxeram consigo, a ponta da espada que arrancou-lhe a vida e relataram como se deu o fato. Estavam recolhidos, desde então, pela perda do ente querido e pela perda da Cornualha; mas quando os guardas viram o homem ferido, chamaram o rei e a rainha que, desprezando o luto, vieram socorrê-lo.
A jovem Isolda, nos seus puros 14 anos, fica curiosa com a movimentação no castelo, uma vez que parecia um túmulo após a morte de seu tio e aproxima-se para ver do que se tratava e qual o motivo de tanto alvoroço. Olhou o rapaz que chegara e também apiedou-se dele.
O rei ordenava que o levassem para dentro e que chamassem sua senhora.
Deitaram Tristão em um dos aposentos e a rainha, sem desconfiar de quem se tratava, começa a tratar da horrível chaga. Isolda, tímida e aflita, estava parada à porta, junto com sua aia Brangia.
— Pobre rapaz! — dizia ela. — Espero que mamãe consiga salvá-lo.
Sir Gorvenal, apreensivo, acompanhava tudo o que ela fazia. A rainha, depois que limpou o ferimento, ordenou aos criados que trouxessem um líquido de nome estranho, que Gorvenal não conseguiu entender. Seria o antídoto? Ela derramou o líquido sobre a chaga e Tristão gemeu de dor.
Como se fosse magia, o ferimento assumira uma outra cor e um aspecto melhor; e o cheiro que exalava, dissipa-se no mesmo instante.
— Incrível! — exclama Gorvenal.
— Fiz a minha parte, forasteiro... agora, só depende dele — diz a rainha a Gorvenal. — Agora, se me derem licença, irei recolher-me aos aposentos, para tornar a cultuar o luto por meu irmão.
Gorvenal queda mudo. Por uns instantes, sente-se péssimo por ver o cuidado que a rainha dispensara ao jovem, uma vez que ele sabia bem de quem ela cuidava: do homem que matara o seu irmão.
A rainha, vendo a filha encolhida a um canto, chama-a para junto de si.
— Filha minha... não posso ficar aqui a todo tempo e já que, ensinei-lhe a lidar com as ervas, poções e ungüentos, cuide do rapaz por mim. Caso note alguma alteração em seu estado, é só me chamar, que virei imediatamente.
— Sim, mamãe — sorri a princesa satisfeita, por sua mãe confiar nela pela primeira vez.
— Quanto a ti... — dirige-se a Gorvenal —...pedirei aos criados que providenciem um aposento confortável, para que descanses, pois vieste de muito longe e deves estar cansado.
— Senhora... eu posso ficar aqui mesmo...
— É melhor não. Estás aflito em demasia e poderás atrapalhar o tratamento que daremos ao teu amigo. Sendo assim, é melhor que te afastes, para que minha filha Isolda cuide dele com calma. Caso ele piore, mandarei avisar-te.
Isolda olhava o misterioso rapaz extasiada. Ela nunca tinha visto um homem tão belo como ele.
— Senhora... o que achas sobre o estado dele? Seja sincera...
— O estado dele é grave; mas creio que a juventude será uma forte aliada. — disse a rainha saindo.

Isolda ficou com Tristão a noite toda. Cuidava de abaixar-lhe a febre e aliviar-lhe a dor e ela, alcançou um grande progresso, após 48 horas. Na manhã que sucedeu à estas horas, Tristão não apresentava mais febre e desperta em seus braços.
Ele encara confuso a bela jovem que encontrava-se ao seu lado. Ela era magnífica! Tristão ainda não vira uma beleza tão pura e casta assim antes; Isolda parecia um anjo com aquelas mechas douradas e reluzentes de seus cabelos anelados, pendendo sobre seus ombros alvos. À luz do sol da manhã, chegavam a confundir as vistas e seus olhos, de um intenso azul, pareciam duas contas azuis caídas do céu. A pele dela era delicada e denunciava o frescor da tenra idade.
— Meu Deus, um anjo! Eu morri ?! — murmura ele, acreditando-se estar nos braços de uma das criaturas angelicais de sua crença.
Isolda ri do seu espanto e diz com voz cálida, que aos ouvidos de Tristão, soara como um acorde celeste: — Não, jovem senhor... Estás vivo! Felizmente! Não! Não levante! Ainda estás fraco...
— Como te chamas, senhora?
— Princesa Isolda. Sou filha do rei da Irlanda. E tu, cavalheiro?
— Eu... — Tristão iria dizer seu nome, mas cala-se. — “Eu não posso dizer meu verdadeiro nome...” — pensa a tempo.
Em seu íntimo, tentava lembrar-se do nome que Gorvenal havia-lhe sugerido durante a viagem.
— Eu me chamo Thantris — lembra-se enfim.
— Espere um momento! — diz a jovem sorridente. — Vou chamar minha mãe e teu amigo! Eles vão adorar vê-lo consciente, principalmente Gorwen!
Ela sai. Tristão sente o coração disparar pela prestimosa e alegre jovem.
“Oh, abençoada manhã! Ei? Mas o que estou dizendo? O que há comigo?” — assusta-se ao pensar na donzela com tanto sentimento.
A rainha veio a seguir e Sir Gorvenal, minutos depois, acompanhado da formosa Isolda.
— Vejo que estás revigorado, meu jovem. Isto é bom — diz-lhe a rainha.
Tristão vê Isolda refletida na mãe; elas eram muito parecidas na aparência, mas diferentes no comportamento. A rainha era bela e fria; Isolda, bela e alegre.
— Thantris! — exclama Gorvenal. — Oh, por Deus! Como posso agradecer-vos, senhoras?
— Com uma canção — sugere Isolda, uma vez que já ouvira no palácio que eles eram menestréis.
— U-Uma canção?! — gagueja Gorvenal, pois não sabia tocar e nem cantar nada.
— Minha filha ama música — confessa a rainha.
Tristão percebe em que apuros o mestre se metera, ao falar que eram menestréis e tenta consertar a situação, imediatamente.
— Gorwen, dê-me a harpa. Não a trouxeste?
— Sim.
— A gentil princesa adora música e ela, ouvirá a canção que deseja — fala ele.
Gorvenal suspira aliviado. “Ainda bem que o meu menino sabe tocar e cantar...” — pensa o cavaleiro aliviado e pegando a harpa.
Tristão dedilha uma bela canção e canta com todo o seu sentimento:

“Não tenho braços, nem pernas, nem mãos,
não tenho coração e, no entanto, vivo.
Não tenho amor e, em verdade, amo.
Seria para mim melhor morrer?

Morrendo de amor, no Amor me restauro,
A cada aceno da morte, eu torno a viver.
De pronto ressuscito.
À porta da morte, sinto renascer.

Tantas vezes, e de formas tão diversas,
Como ocorre com a caça perseguida,
Assim amor me acossa e me atormenta
Na busca de um amor que desconheço.
Amor uma vez me prometeu
Uma messe de bens e, no entanto,
Nada, senão tormentos me couberam
Ao invés do amor que eu esperava.”

Isolda aplaude feliz e emocionada. A rainha sorri e levanta-se.
— Lindo! Maravilhoso! — exalta a jovem princesa.
— És um erudito, senhor. Cantaste muito bem e trouxeste um pouco de alegria para nós. Pena que a alegria não possa ser cultuada por mais tempo, dadas às circunstâncias do luto de nosso estado. No entanto, falarei com meu marido e alegraria-nos em muito, se ficásseis entre nós, jogral. Nossa filha está se transformando em uma bela moça e precisa ser educada nas artes, como uma princesa que se preze. E que melhor professor, senão vós?
— Mãe! — sorri Isolda.— Queres que eu aprenda música? Oh, isso é ótimo!
— O que acha, meu jovem? — pergunta a rainha.
— A vós e à vossa filha devo minha vida, senhora. É a maior honra com a qual, um bardo como eu, pode sonhar. Se for da vontade do rei, aceito de bom grado.
Gorvenal quase soltou um não em voz alta, mas conteve-se. Quando ficaram sozinhos, ele tenta persuadi-lo a desistir daquela história.
— Ficaste louco? Foi apenas para curar-te, que viemos aqui! Ficando em condições ideais, nada poderá prender-nos! Temos que voltar...
— Mestre! Não seja tão ingrato! A princesa cuidou de mim com tanto zelo... será injusto não ensiná-la!
— Vais deixar teu tio morto de aflição, para satisfazer a um capricho de juventude?
— Eu dei a minha palavra, mestre. Por isso, sinto muito; pois não vou voltar atrás. Esta foi a forma que encontrei para agradecer-lhe e só assim, poderei contemplar-lhe a bela face por muito tempo... — confessa enfim.
— O quê? Vossamercê não está pensando em...
— Apaixonar-me? —completa Tristão.— Acho que já fui enfeitiçado pela beleza dela...
— Não! Mil vezes Não! Isto não está acontecendo! Antes ser surdo do que ouvir isso...
— Que mal há? Eu sou um homem e ela, uma mulher.
— Que mal há?! E tu ainda perguntas? Pra começar: ela é sobrinha do homem que mataste, em prol da Cornualha. Quer mais motivos?
Tristão cala-se e fica pensativo. Mas depois, cria coragem e diz-lhe:
— Mestre... eu sei. Mas ninguém precisa saber disso, precisa?
— Vais viver aqui, sustentado por tamanha mentira? Eu não acredito!
— Não será para sempre, mestre, tenho consciência disto. Apenas até a princesa aprender todas as artes musicais.
— E se o teu sentimento aprofundar-se, meu filho? O que será de ti? Tu sofrerás muito mais depois, do que agora se partires.
— Eu não me importo.
Ouvem-se batidas na porta e ambos se calam. Era Brangia, a criada de Isolda, levando-lhe o jantar.
— Boa noite, senhores. Minha jovem senhora mandou-te isto. Espero que gostes, senhor Thantris; ela mesma fez.
Era um creme de carne com verduras e legumes bem cozidos e um pedaço de pão. Cheirava muito bem e parecia delicioso.
— É uma comida bem leve, já que estás convalescendo do ferimento. Nada muito temperado e nem pesado.
— E Isolda? Digo: a princesa?
— Está jantando com os pais... Ah! A propósito! O rei mandou-me dizer-te que, ao terminar o jantar, virá falar-te. Com licença...
Quando terminaram de jantar, o rei foi ter com Tristão, acompanhado de sua filha. Grovenal já havia se recolhido.
— E então, meu jovem? Como te sentes?
— Estou bem, Majestade. E mais feliz ainda, com a acolhida que me dispensaram.
— Minha senhora comentou comigo sobre ensinar música à Isolda. Confesso que fiquei muito interessado...
— Se for de vossa real vontade, o farei de bom grado, Majestade.
— Nada me deixaria mais feliz, do que ver minha filha aprendendo aquilo que ela mais preza. E ninguém melhor do que vós, meu jovem. Minha senhora e rainha ouviu-te a voz harmoniosa e o primor com o qual dedilhaste a harpa e não é sempre, que encontramos um bardo disposto a renunciar à liberdade, para ensinar as artes para alguém.
Tristão não tirava os olhos de Isolda e ela, prendia-se ao olhar cheio de promessas de amor, do jovem de quem cuidara. Ela achava-o lindo e doce; diferente dos homens rudes da Irlanda, que só pensavam em lutar por lutar. Para Isolda, Tristão era um poeta.
— Assim que sua Alteza achar que posso levantar-me daqui, começarei a ensinar-lhe.
— Só mais alguns dias, senhor, e estarás preparado para agir normalmente. — diz-lhe Isolda sorridente.
— E quanto vos pagarei para... — interrompe o rei.
— Nenhum ducado, Majestade. Isolda dispensou-me cuidados gratuitamente e de graça, irei ensiná-la.
— Sois generoso, meu rapaz. Poderias exigir algum lote de terra, cavalos e, no entanto, prefere receber nada em troca... mesmo assim, faço-te uma promessa: o dia que precisares de um favor meu, peça-me o que quiseres e hei de conceder-te. Jurarei isto perante a Corte, quando estiveres apto a ensinar Isolda e apresentar-te como mentor dela — promete o rei.
E assim foi feito.


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