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terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 5 : A Melodia do Amor




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Transcorreram tranqüilos os dias e Tristão, por fim, encontrava-se recuperado e em boas condições de saúde. A chaga havia se fechado completamente e, graças aos conhecimentos da rainha Isolda “a velha”, não ficou nenhuma marca da letal ferida, que quase ceifou-lhe a vida..
O rei fez conforme prometera. Apresentou-o à Corte e jurou perante todos que, um dia, concederia-lhe uma dádiva, caso o rapaz precisasse de um favor seu.
Sem perder tempo, Tristão fez planos e elaborou as primeiras aulas.
No jardim do palácio, sob as sombras de uma videira, Tristão e Isolda sentavam-se todas as manhãs para estudar da teoria à prática. A alegria de Isolda era contagiante, principalmente quando errava as notas, no que ela ria envergonhada. Contudo, ela era uma aluna muito aplicada e aprendia rápido, graças ao seu interesse e dedicação.
Brangia estava sempre com eles para vigiar sua jovem senhora, uma vez que um homem e uma donzela, juntos, poderiam ser motivo de comentários maldosos no palácio, caso ficassem a sós.
Gorvenal ainda custava a aceitar a situação. Por ele, já estariam na Cornualha, há muito tempo; mas acabou tendo que se conformar com o decorrer dos dias.
E o tempo passava e quase sem notar, um sentimento muito profundo foi nascendo entre eles por causa daquela convivência constante. Tristão não conseguia ficar muito tempo sem vê-la e aumentou as horas de aula, e Isolda, contava as horas para a próxima aula.
— Oh, Brangia! — suspirava a bela princesa em seus aposentos e revelando sentimentos ocultos à jovem criada. — Não sei o que se passa comigo... Quando estou com Thantris, sinto-me completa, e distante dele, um vazio imenso! Como se nós fizéssemos parte um do outro... Será que estou apaixonada? É um sentimento tão novo para mim... Eu não consigo parar de pensar nele, um minuto, querida Brangia...
— Minha senhora, cuidado... — advertia-lhe a aia.— O vosso pai pode não gostar, se ouvir-vos falando assim. Thantris é um simples bardo e vós, uma princesa. O muro que vos separa é alto e intransponível.
— Mas será que ele realmente é só um bardo? A maneira de portar-se assemelha-se a de um príncipe. Até minha mãe comentou com meu pai sobre isso.
Brangia queda muda e pensativa; de fato, Thantris, em nada, assemelhava-se a um simples bardo.
Na manhã seguinte, nos primeiros raios de sol, Isolda levanta-se depressa e segue para o jardim; não esperou que Brangia acordasse para vir com ela. Desta vez, queria ter uns momentos a sós com Thantris. Ele já a aguardava e fica surpreso ao vê-la só.
— Já tão cedo, Alteza? E Brangia?
— Está dormindo ainda — sorri marota a jovem princesa. — Bem, mestre... O que faremos hoje?— brinca animada já pegando a harpa e dedilhando alguma coisa.
Tristão sorria de satisfação. Isolda aprendera rápido.
Percebendo que estava indo muito bem, Isolda erra de propósito.
— Ei! Não é isso! — comenta ele.
— Oh, me desculpe! Como era mesmo?—finge não saber para que Tristão ensine-a de novo.
— Pra começar, estás segurando o instrumento errado...— observa Tristão. —Já ensinei-te a posição...
— Eu me esqueci, senhor. Mostre-me outra vez...—diz ela de forma doce e ao mesmo tempo, com certo ar de desafio.
Isolda lança-lhe um olhar sugestivo e Tristão, tenta resistir ao máximo; mas o seu coração dispara. Há muito já a amava, só que mantinha uma distância respeitosa, porque Isolda ainda não havia demonstrado os seus sentimentos de forma tão clara. E melhor! Estavam sozinhos e longe dos olhos vigilantes de Brangia. Era um ambiente propício ao amor; perfeito!
Tristão aproxima-se de Isolda e toca em suas mãos para ajeitar o instrumento. Isolda sente o ar faltar-lhe e fecha os olhos, quando o percebe tão próximo; ele estava há poucos centímetros e sua respiração morna, aquecia-lhe as mechas do cabelo. Acometida de uma ânsia e um desejo incontrolável, Isolda vira-se de ímpeto e seus lábios, por pouco, não tocaram os dele.
— Princesa Isolda! — berra Brangia ao vê-los tão próximos, no que ambos afastam-se às pressas.
— Essa não! —murmura Isolda decepcionada. — Por pouco...
Tristão não consegue segurar o riso, pois ouvira-lhe o sussurro.
— Muito bonito, heim?—protesta a criada.—Fugiste e não me esperaste, princesa Isolda. Ainda bem que cheguei a tempo e impedi que fizessem tamanha loucura! O que estás pensando, senhor? —dirige-se a Tristão, interpondo-se entre eles. — Pensas que minha senhora é uma qualquer?
— Eu ?! Por Deus, senhora! De modo algum!— defende-se ele.
Aquele dia, Brangia sentou entre eles, e Tristão e Isolda mal se tocaram. A princesa ficou emburrada o restante do dia por conta disto e nada que fizesse, conseguia afastar a criada de si. Brangia era mais fiel que um cão. Tristão também sentia-se contrariado e constrangido, contudo, uma coisa animava-lhe o coração: Isolda não lhe era indiferente e nutria o mesmo sentimento por ele. Por este motivo, sentia-se feliz e a cada dia, o sentimento intensificava-se.
Apaixonado, compunha as mais belas odes exaltando este sentimento e certa noite, sob a luz do luar, ele faz uma surpresa à amada. Sob a janela de seu quarto, Tristão lhe faz uma serenata, cantando para ela a música que havia feito quando pensava na bela e meiga Isolda.
Isolda beijara uma das delicadas flores que ornamentavam um vaso em seu quarto e a joga para ele, dizendo que aquela rosa representava o seu coração. Tristão beija a flor também e guarda-a consigo, diante dos olhos de Isolda, embora preferisse beijar-lhe os lábios e confessa-lhe aquele desejo, no que Isolda corou encabulada.
Mas como nem tudo são flores, Brangia surpreende-a na janela e Isolda tenta disfarçar, fazendo um gesto oculto para Tristão, pedindo que ele se escondesse.
— O que fazes na janela? — pergunta a criada desconfiada. Ela havia saído para encher o jarro de prata do quarto da princesa; daqueles usados para lavar o rosto pela manhã.
— Nada! Só achei que estava muito quente, então...
Brangia corre à janela e olha para baixo, porém, não vê ninguém.
— Senhora... — adverte-a em tom de acusação.
— Ai, o que foi?
— Era ele, não era?
— Ele quem? — disfarça a princesa.
— Pensa que me engana, é?
— Mas que coisa, Brangia! Me deixe em paz!
Isolda deita-se e se cobre toda.
— Ora! Não estavas com calor? — pergunta Brangia de modo cínico.
— Não me atormentes!
Passaram-se alguns dias e semanas depois, Tristão também conquistara a amizade e a confiança do rei, a ponto de tomar parte à ceia e em outros eventos do castelo. O soberano da Irlanda seria-lhe eternamente grato pelo que fizera por sua filha.
Isolda agora, tornara-se uma excelente harpista e, com isso, o rei sentia-se orgulhoso, quando a bela Isolda encantava o salão real com sua doce melodia. Outras vezes, o rei chamava Tristão para tocar e cantar com ela e, juntos, faziam um harmonioso dueto. Foram tempos felizes, que Tristão jamais apagaria de sua mente.
Em um desses sarais, a rainha comenta com o marido sobre Tristão.
— Meu senhor... acha mesmo que o jovem mentor de nossa filha é um simples bardo?
— Por que, minha senhora?
— Eu não sei, meu senhor e rei. Eu tenho tido sonhos estranhos... Quase sempre, nestes sonhos, eu vejo Thantris usando uma armadura e montado em um magnífico corcel...
— Confesso que não sei, querida. Às vezes, o jovem Thantris porta-se de forma demasiado cortês realmente.
— E não é só ele. O homem que o acompanha sempre, também porta-se da mesma forma.
— Tem razão, minha rainha.

E a desconfiança dos reis foi aumentando a cada dia. Sir Gorvenal, como bom observador que era, reparou isso, mas Tristão parecia viver com a cabeça no mundo da lua e só pensava em Isolda; não dava a mínima para suas advertências.
Mais uma vez, Gorvenal insiste para que partam logo.
— Por que partir assim, sem nenhum motivo aparente? — pergunta Tristão irritado.
— Por Deus, meu filho! Isolda já sabe tocar e cantar, não há mais nada que o prenda aqui. Por favor, recobre a consciência e vamos embora.
O rei entra neste momento e ouve parte da conversa.
— Desejam partir, jograis? Por quê? Nossa acolhida foi insuficiente para vós, amigos?
— De modo algum, Majestade! — diz-lhe Gorvenal atrapalhado. — Apenas acho que nós já abusamos demais da vossa hospitalidade...
— Não há abuso algum, senhores. O que fiz por vós, faria com qualquer outro que precisasse cuidar de seus ferimentos. Agradaria-me muito se continuassem conosco, porém, não posso mantê-los aqui contra a vossa vontade. Mas gostaria que esperassem até o debute de Isolda, quando vou apresentá-la a todos os meus vassalos e súditos, em um grande banquete na Corte. Isolda vos estima demais, principalmente a ti jovem Thantris...
— Eu sei, meu senhor... — concorda Tristão animado.
— E creio que ela ficará muito triste se partires agora, sem que pelo menos deixemos ela se acostumar com a idéia. Quinze anos é uma data muito especial para qualquer moça e tenho certeza, de que ela fará questão de vossas presenças no grande banquete que darei neste dia.
— De minha parte vos digo, Majestade: não penso em partir tão cedo como deseja o meu amigo e será uma grande honra participar da festa da princesa — sorri Tristão, contrariando Sir Gorvenal. — Quando será?
— Dentro de três dias —corresponde o rei ao sorriso espontâneo do jovem. — Que bom que ficarão conosco por mais um tempo. Bom... vim fazer-vos um convite. Reuni alguns dos meus homens, mais chegados, para uma caçada na floresta e vim convidar-vos para tomarem parte nesta diversão. Isolda irá também e ficará ainda mais animada caso aceitem ir conosco.
Os olhos de Tristão brilharam. Há muito não sabia o que era caçar e ele adorava este tipo de atividade; ainda mais sabendo que Isolda também iria. Lembrou-se com saudades, da última vez que saiu para caçar com o pai, pelas terras de Lionês. Fazia muito tempo. Foi antes de sua madrasta atentar contra a sua vida.
— Mas é claro que aceito! — diz ele animado. — Adoro caçar!
O rei fica admirado.
“Ora! Cada dia que passa, me convenço de que Thantris não é um simples bardo...— pensava o rei.— Agora... Se ele é de linhagem nobre, por que ocultar o fato?”
O rei combinou o horário e à hora marcada, todos estavam preparados com suas roupas de caça; inclusive o rei. Só faltava Isolda.
***
Sir Gorvenal não quis ir e Tristão foi sozinho. E de nada adiantaram os protestos de Gorvenal tentando convencê-lo a não tomar parte nisso:
— Tristão, acho que é muito arriscado... Não devias ir à caça.
— Que mal há? É tão divertido!
— Só tu não percebes que é uma cilada. O rei está desconfiado de nós. Ele acha que nós não somos o que dizemos ser e agora, que aceitaste o convite, destes mais asas à imaginação dele. Caçar não é uma atividade cultivada por bardos, mas por altos cavaleiros.
— Quer saber?! Já estou cansado de mentir; fingir ser o que não sou! Seria bem melhor se o rei descobrisse que descendo da nobreza e que sou um cavaleiro!
— Ah, é? Seria ótimo também se ele descobrisse que foste o responsável pela morte de Sir Morholt! —debocha o seu mentor.
Tristão não disse mais nada. Fechou o cenho e saiu.
— Droga! —xinga Gorvenal. — Ele está se arriscando demais, por conta de um par de olhos bonitos!
***
Não muito tempo depois chega Isolda. Ela estava linda no modelo de caça e, por incrível que pareça, sem a companhia da sua fiel sombra, Brangia. Os olhos de Tristão pousaram sobre ela e Isolda sorriu-lhe.
— Demoraste, minha filha.
— Desculpe, meu pai. É que custei a achar a roupa, pois não é com freqüência que me chamas para estas atividades — diz-lhe a princesa bem-humorada, mas num certo tom de crítica.
A rainha surgiu à porta do castelo e o rei fez-se de surdo àquela crítica, dando a desculpa de que ia despedir-se da esposa.
— Então, ele aceitou participar da caça? — comenta a rainha.— Observa-o bem, meu senhor. Veja se não tenho razão.
O rei olhava-o atentamente e notava a postura dele ao montar: o corpo firme e ereto, como se não fosse a primeira vez; como se já fizesse parte de sua vida.
Bardos geralmente andavam a pé ou no máximo, sobre um burrico; pois era a montaria que podiam comprar com as poucas posses que tinham e, no entanto, Tristão montava um alazão puro-sangue e com a maior naturalidade.
— Veremos se tuas premonições têm um fundo de verdade, minha rainha. Se realmente ele for um cavaleiro de boa linhagem, como viste em teus sonhos, confesso que ficaria muito feliz se Thantris desposasse Isolda — confessa o rei beijando a esposa e partindo a seguir.
A comitiva parte animada. O rei mandou trazerem o seu falcão adestrado, no caso de encontrarem algum animal de pequeno porte pelo caminho. Tristão e Isolda seguiam juntos pela trilha. A pedido do rei, Tristão a acompanhava.
— Quero providenciar um excelente gamo para assarmos no seu banquete, Isolda! Ou, quem sabe, um suculento Javali! —brincava o rei.— Agora! É claro que não desprezaremos um coelho, ou uma boa lebre para oferecermos como entrada, não é meu amigo? —comenta o soberano irlandês, afagando o peito emplumado do seu falcão.
Isolda ri com o comentário e todos a acompanharam na risada.
— Sente-se nervosa com a aproximação da festa, Vossa Alteza? —pergunta-lhe Tristão.
— Um pouco. Sabe... quinze anos é uma data única para qualquer moça. É a idade dos sonhos e é quando somos apresentadas a todo o reino e a alguns... — Isolda cala-se.
— Não terminaste a frase, senhora...
— Ah, esquece! Não é nada importante...
Atrás deles seguiam alguns pajens trazendo os cães de caça.
A caçada corria tranqüila e num dado momento, soltaram os cães para que farejassem as presas. No castelo, a rainha Isolda “a velha” orava e pedia licença à Grande Mãe para que os homens obtivessem sucesso na caça, se esta fosse a vontade dela.
Isolda estava feliz por estar longe dos olhos vigilantes de sua criada e mais próxima de seu amado. Mas, no íntimo, o que ela mais desejava era ficar a sós com ele, só que em respeito à confiança do rei, Tristão mantinha uma certa distância da princesa e não oferecia a menor chance para que isso acontecesse. De certo, ele achava que isso não cairia bem com a ocasião.
“Eu preciso ficar a sós com ele. Há tanto para dizermos um ao outro... — matutava ela com o coração acelerado. — Já sei!”
De repente, sem ninguém esperar, o cavalo da princesa dispara; como se algo o tivesse assustado...
— Isolda! — grita Tristão partindo atrás do animal desgovernado.
— O quê?!! Minha filha! — assusta-se o rei.— Vamos atrás deles, homens! Rápido! — ordena o rei irlandês.
Isolda começa a gritar por socorro e Tristão, pálido e apreensivo, incita mais ainda o seu cavalo e parte a plenos galopes para tentar aproximar-se, dominar-lhe e freiar-lhe a montaria. Isolda conseguira o seu intento...
— Thantris! Me ajude!!!!
— Calma Isolda! Agüente firme!
Isolda, não vendo o pai e os outros, tenta diminuir a velocidade para facilitar a aproximação de Tristão, entretanto, o cavalo não obedece.
— Essa não! — exclama Isolda. — Oh, não! Ele não está me obedecendo! Thantris!!!
Isolda olhava para trás e percebia que Tristão estava cada vez mais distante e encontrava dificuldades para aproximar-se. De uma brincadeira inocente, a coisa tornara-se séria. Isolda, de fato, havia perdido o controle do animal.
— Pela deusa! Eu vou morrer! Thantris!!! — grita mais uma vez.
Isolda segurava firme as rédeas para não cair.
— Por que fui fazer isso? ME AJUDEEEEEEM!!!
“ Droga! Preciso alcançá-la, mas como?”— pensava Tristão tentando organizar suas idéias.
O terreno acidentado se elevara entre as matas, o que fez o cavalo da princesa cansar-se um pouco e diminuir o trote, no que Tristão consegue aproximar-se mais. A elevação torna-se uma ladeira íngreme que terminava em um lago de águas límpidas.
— Essa não! Eu não sei nadar!!!!
O cavalo, quando percebe o lago, pára bruscamente e projeta Isolda para frente.
Ouve-se o barulho surdo de algo chocando-se contra a água e Tristão vê o cavalo da princesa, menos Isolda.
— Jesus Cristo! — grita Tristão saltando da montaria.— Isolda!
Ele corre até as águas e vê Isolda debatendo-se na superfície; ela parecia estar se afogando. Tristão, nem pensou muito, pulou na água e atingiu o fundo. O lago era raso, se Isolda esticasse as pernas, tranqüilamente alcançaria o chão. Inevitavelmente, ele começa a rir; ela ainda continuava a debater-se como se fosse o oceano mais profundo, pois ainda não se dera conta disso.
— Eu não sei nadar! Thantris! Me tira daqui, porcaria! — berra ela reclamando de sua demora.
Tristão aproxima-se calmamente e fica de pé diante dela.
— Isolda, levante-se — diz-lhe estendendo a mão.
— Como assim? — gagueja ao ver o papel patético que estava representando.
— O lago é raso — ri ele.
Isolda ergue-se sem graça e Tristão cai na gargalhada. Isolda estava enlameada e com os cabelos úmidos e desalinhados, e a risada dele, irritou-a mais ainda; pois para uma moça vaidosa como ela, suas gozações eram uma ofensa; um crime contra o seu orgulho feminino.
— Ora seu! Como te atreves a rir da princesa da Irlanda?
Enfurecida, Isolda empurra-o contra as águas e começa a sujá-lo e desarrumá-lo da mesma forma. E, com o tempo, o momento de raiva dissipa-se e torna-se uma grande brincadeira.
— Ei! Pára!
— Vê se gostas de ficar sujo de lama? — ria ela. — Vê se achas engraçado agora?
Ambos riam, mas de repente, eles ficaram mudos. O semblante risonho de Tristão tornara-se sério.
Tristão acaricia-lhe o rosto sujo, que não deixara de ser belo mesmo naquele estado.
— Achei que iria perder-te! Tu poderias ter morrido, Isolda!
Isolda corou e abaixou a face. O seu coração batia acelerado ao ver-se finalmente a sós com ele e longe de tudo e de todos. Não era bem a cena que Isolda havia planejado em sua mente: os dois sujos e molhados, mas valeu a pena...
Tristão ergue-lhe o rosto e busca-lhe os lábios róseos, num beijo há princípio tímido, mas depois, se transformara num beijo ardente e apaixonado. Isolda entreabriu os lábios e recebeu, com prazer, aquele beijo molhado. O contato morno das duas bocas fez ela perder os sentidos e desejar que aquela sensação semincosciente e aquele momento, jamais terminassem, mas foram interrompidos pela voz do rei, chamando-os preocupado.
— Isolda! Thantris!—gritava o rei.
— Princesa Isolda! — chamava um outro.
Afastaram-se correndo e saíram do lago, antes que o rei flagrasse a cena apaixonada. Eles pegaram os cavalos e subiram, às pressas, a ladeira íngreme para se unirem ao grupo. O rei fica assustado ao ver-lhes o estado.
— Isolda, minha filha, o que aconteceu?
— Uma serpente, meu pai! — mente ela. — Uma serpente imensa saiu da mata e assustou o meu cavalo! Não foi? — diz a Tristão.
— Sim! Uma serpente! — fala ele entrando no jogo.
— Eu tentei recuperar o controle do animal, mas não consegui! —continua a narrativa impressionante.— Graças a Thantris, agora estou bem! Ele salvou minha vida, meu pai! Se Thantris não tivesse vindo conosco, não sei o que seria de mim!
— De fato, minha querida. É mais um favor que ficarei devendo-te, senhor Thantris — sorri o rei dirigindo-se a Tristão.— Agora... Por que estão sujos deste jeito?
— Bem... é que... quando Thantris segurou as rédeas do meu animal para freiá-lo, com a parada brusca, caí dentro de um lago. Thantris, temendo que eu me afogasse, mergulhou no lago fundo e resgatou-me!
— Pelo jeito, são dois favores que lhe devo, caro amigo. Salvaste minha filha duas vezes.
Depois do ocorrido, o rei preferiu regressar para o castelo e a rainha veio recebê-los. Reparou os semblantes cansados e desanimados e deduziu que a caçada não fora bem sucedida, pois os homens chegaram de mãos vazias.
— Desta vez, a Deusa não foi-nos propícia, minha querida.
— Talvez não estivesse nos planos Dela, que algum animal fosse abatido hoje, meu senhor. Amanhã, quem sabe? Não fiques tão desanimado. Ainda temos tempo para providenciar o jantar para o banquete.
Tristão e Isolda voltaram sem dar uma palavra. Eles estavam muito perturbados com o que houve, embora soubessem que, um dia, isto viria a acontecer. Era cada vez mais insuportável esconder o amor que sentiam um pelo outro.
A rainha Isolda “a velha” assustou-se com o estado deles quando se aproximaram.
— O que aconteceu com eles? Por que nossa filha está assim?
O rei ri e conta-lhe o que se passara.
— Thantris a salvou?
— Sim, querida. Se não fosse por ele, nossa filha poderia não ter regressado.
A rainha também demonstra-lhe gratidão e Tristão sorri sem jeito. Todavia, o fato contribuiu para aumentar mais ainda a curiosidade da rainha.
— Quer dizer que ele conseguiu salvá-la e sem a menor dificuldade? — comenta a rainha Isolda, quando recolhera-se ao quarto com o marido naquela noite.
— Sim, minha esposa! Foi fenomenal! Precisavas ter visto! Se ele não insistisse em dizer que é um bardo, eu juraria que Thantris é um grande cavaleiro!
— Será que ele tem alguma arma escondida? Uma armadura? — indaga ela.
O rei atrai a esposa para junto de si e beija-lhe de modo carinhoso.
— Bem... deixemos isso de lado por hoje, minha amada Isolda.
Em seu quarto, Princesa Isolda não conseguia dormir. A lembrança do beijo não abandonava a sua mente, por mais que se esforçasse para tanto...
“Será que ele também está perturbado? Será que não está conseguindo dormir como eu?”.
Isolda olha para o lado e vê sua criada Brangia, dormindo a sono solto.
“Se Brangia tivesse ido conosco... ela nem pode imaginar... — pensava excitada. — E se eu contasse? Não. É melhor não... ela não ia entender e me passaria o maior sermão... Acho que terá que ser uma recordação só minha...”.
Isolda suspira profundamente e toca em seus lábios, tentando ainda sentir o gosto daquele beijo e sorri enrubescida. Em sua mente, imaginava-se casada com ele; sentindo-se envolver por seus braços uma noite, onde tudo lhes seria permitido e se amariam sem medo.
“Ai! Vou enlouquecer se continuar a pensar nestas coisas... Oh, meu amor...”.
Isolda estava certa. Tristão também não conseguia dormir e queria estar junto dela.
Como não conseguia pregar o olho, resolve levantar-se e caminhar um pouco pelo castelo. Por toda parte via-se vestígios do empenho dos criados para organizar o grande banquete de aniversário de Isolda.
“Será daqui a dois dias e nem sei o que posso dar-lhe de presente...” — pensou por alguns instantes.

Passaram-se os dois dias e o castelo acorda, naquela ensolarada manhã, respirando festa.
Tristão levanta-se cedo e vai até a feira da aldeia, nos arredores do castelo de Anguish, a fim de comprar um presente para Isolda com as economias que Marcos havia dado a Gorvenal, para que nada faltasse ao seu sobrinho. Queria que fosse algo original. Percebe, então, um cachorrinho pequeno e manso, que não parecia tão filhote, mas que era engraçadinho por causa do seu tamanho. Ele não crescera muito, era um animal de porte pequeno que só serviria para companhia mesmo, contudo, combinava com uma princesa.
O pequeno animal fez-lhe uma grande festa quando Tristão aproximou-se, pois era muito brincalhão e ele não hesita em levá-lo.
— Seu nome é Huddent — diz-lhe o vendedor. —Foi minha finada filha que deu-lhe este nome.
— Se foi de sua filha que falecera há pouco, por que estás desfazendo-se dele, senhor? — pergunta Tristão, com pesar, e com o cão em seu colo.
— Porque ele me faz lembrar de Ellaine, pois ela vivia com ele no colo; o que me enche de tristeza por ver a falta que ele sente dela. Creio que ele poderá morrer por isso. Agora, se outra pessoa o amar e cuidar dele... — o mercador disfarçou as lágrimas que tentavam cair. — Depois da morte dela, eu não consigo mais cuidar dele...— confessa, enfim.
— Entendo. E sinto muito por sua filha...
— Eu já me conformei um pouco, pois sei que Ellaine está bem onde ela estiver agora. Seja com Deus ou com a Deusa... ela era uma excelente filha...
— Mas não temas, senhor. Para quem o levarei, saberá amá-lo como sua filha o amou.
— Só não sei se ele se acostumará com outro nome...
— Acho que não será preciso. A princesa Isolda irá adorar este nome e não desejará dar-lhe outro — diz Tristão bem-humorado.
— A princesa?! Tu irás levá-lo para a princesa Isolda? — sorri o homem orgulhoso e feliz, pelo destino que Deus reservara ao cãozinho de sua filha.
Tristão retorna ao castelo com Huddent. Ele não parava de abanar a cauda.
Sir Gorvenal procurava-o como louco por todo o castelo.
— Onde estiveste? O rei está desesperado atrás de ti! Ele quer que cantes e toques para alegrar os convidados... O que é isso? — pergunta seu mentor reparando no pequeno cão.
— Ora! Não conheces mais um cão quando vê?—responde Tristão em tom galhofeiro.
— Que é um cão, eu sei! — fala ofendido.— Quero saber para quê?
— É o meu presente para Isolda, ora essa! Original, não?
— Um pulguento desses?!!
Huddent começou a rosnar, parecia até ter entendido o que ele disse. Sir Gorvenal afasta-se temeroso. Tristão ri do medo que seu mestre demonstrou.
— Calma Huddent! Ele não falou por mal... Com o tempo, vossamercê se acostuma com ele... Vamos, amiguinho! Quero apresentá-lo à sua nova dona!
Huddent abana a cauda outra vez e solta um latido de satisfação, enquanto se afastavam.
O salão principal estava tomado de convidados ilustres. Isolda já havia ganhado muitas prendas: vestidos, jóias, etc... mas, como ela diria mais tarde: “ o melhor presente que recebi foi o de Tristão...” Ela adorou o pequeno cãozinho; foi amor à 1ª vista.
— Ele é lindo! Oh, mas que gracinha!
Huddent fez-lhe uma tremenda festa e lambia-lhe as delicadas mãos, como se demonstrasse grande gratidão.
— Eu não sabia o que dar-lhe, então, quando o vi na feira da aldeia...
— Adorei! É o segundo melhor presente que poderia receber!
— O segundo?! —admira-se ele.
Isolda sorri matreira.
— O primeiro presente tu já me deste. O nosso primeiro beijo... —recorda-se a princesa, deixando Tristão sem graça.
— Isolda, não fales sobre isso aqui! Alguém pode ouvir-te...
Isolda abraça-lhe para demonstrar a gratidão pelo presente e sussurra-lhe ao ouvido; de certo, combinando um encontro...
— Esta noite, no jardim? — murmura ele.
— Sim. Quando todos já estiverem dormindo... não deixes de ir, meu amor...
— E Brangia?
— Esperarei que ela durma também...
O rei aproxima-se de ambos e já estava meio tocado pelo vinho.
— Ora! Até que enfim, senhor Thantris! Venha. Agracie-nos com vossa melodiosa voz.
— Veja, meu pai! — diz Isolda mostrando-lhe o pequeno cão. —Este foi o presente de Thantris, ele não é uma graça?
— Sem dúvida! Mas onde ele ficará? Ele não é um cão de caça e não poderá ficar com os outros, pois vão devorá-lo!
— Claro que não, papai! Ele ficará comigo em meu quarto!
— Já pensaste em um nome para ele, minha filha?
— O nome dele é Huddent — intromete-se Tristão e conta-lhes a triste história do aldeão que o vendeu.
— Huddent?! É lindo! Continuará Huddent! — fala a princesa animada.
Tristão toma o seu lugar no grande salão e o rei apresenta-o aos convivas, exaltando-lhe as suas virtudes e talentos, e convida-os a ouvi-lo. Ele começa a dedilhar em sua harpa, uma música alegre para que todos dançassem; outros músicos o acompanharam. Da cozinha à grande sala, criados passavam de lá pra cá e outros deles serviam os convidados na mesa.
A festa durou um dia inteiro e entrou pela noite. À certa hora, quando todos já estavam satisfeitos e os reis sentaram-se no trono, Tristão muda o repertório ao reparar que todos os convidados estavam exaustos e muitos casais tinham até se formado, com o avançar das horas, por isso; passara a tocar e cantar músicas mais suaves. Como era de se esperar, segundo a tradição da época, Tristão oferece uma música à debutante e entoa aquela que Isolda conhecia muito bem. A mesma que ele cantou naquela noite, sob a janela de seus aposentos e que Brangia quase o surpreendera.
A letra falava do belo olhar de Isolda e como ele se sentia diante daquele olhar; comparava-o a cascatas de luar e outros termos que ressaltavam uma grande paixão.

Ele emocionara a todos com aquela música magnífica e cheia de sentimentos. E o mais impressionante foi que, no fim, Isolda levantou-se e, largando Huddent no colo da mãe, cantou junto com Tristão para espanto e deleite de todos. Ambos foram muito aplaudidos; como aquelas duas vozes juntas, combinavam tão bem? — perguntavam-se todos. Maravilhados pelo dueto, insistiram que eles repetissem a música juntos e os dois concordaram: Tristão fazendo a primeira e Isolda, a segunda voz. O ocorrido chegou a ser comentários para muitos dias na Irlanda. A rainha Isolda “a velha”, tomada de emoção, pôs-se a chorar e seu marido, segurava-lhe as mãos enquanto aqueles dois anjos cantavam. Mas a rainha não era boba e percebia que aquilo não era uma simples música; mas a confissão do que sentiam um pelo outro.
Depois que terminaram, o rei chama-os para sentarem perto deles.
— Bela música, Thantris! Ela é sua? —pergunta a rainha Isolda.
— Sim, senhora...
— Estás de parabéns, meu rapaz! Isolda tem razão quando diz que sois um poeta! — sorri-lhe a rainha de forma amistosa.
Tristão agradece o elogio.
— Onde está vosso amigo Gorwen? Por que não quis participar da festa?— pergunta o rei Anguish.
— Ele ficou um pouco, Majestade. Só que, sentindo-se meio indisposto, recolheu-se mais cedo que o previsto. Mas mandou dizer-vos, que lamenta não ter ficado mais tempo na festa — responde-lhe Tristão, reparando Isolda a brincar com o cãozinho.
— É uma pena. Vais mesmo partir depois da festa de Isolda, senhor Thantris?— deixa escapar o rei.
— Anguish! — freia-lhe a rainha.
— O quê?! — assusta-se a princesa. — Partir?
Tristão não esperava por isto; foi pego de surpresa pela pergunta de Anguish e ao ver a reação de Isolda, fica perturbado. Ela lançara-lhe um olhar interrogador e deixou de brincar com Huddent, na mesma hora.
O cãozinho aproximara-se de Tristão para que recebesse seus afagos e lamber-lhe as mãos, pedindo carinho.
— Não sabes, filha? Ouvi que Gorwen comentava certa vez que eles deveriam partir; só não partiram, por que pedi-lhes que esperassem o teu aniversário.
— Tu vais partir depois do que houve? — os olhos azuis da princesa perderam o brilho naquele momento e seu semblante angélico, anuviou-se de tristeza.
Tristão fica pálido, achando que Isolda confessaria o que vinha acontecendo com eles, porém, ela apenas levantou-se e afastou-se deles. Os olhos da mãe a acompanharam; se Tristão não estivesse fazendo companhia ao rei, com certeza se levantaria e seguiria atrás dela.
— Eu disse algo errado? — pergunta o rei zonzo e inocente. O vinho impedia-lhe de raciocinar direito.
A rainha Isolda “a velha” encara o marido com reprovação.
— O que foi, mulher? Por que me olhas assim?
— Acho que já bebeste demais por hoje, senhor meu marido. Venha.
O rei obedece e se levanta amparado pela esposa.
— É... acho que tem razão... como sempre, não é?
— Boa noite, Thantris — despede-se a rainha.
— Boa noite, meu rapaz. E desculpe qualquer coisa...
— Não há nada para desculpar, Majestade. Boa noite.
Os reis saíram. Huddent olha para Tristão e parecia compreender-lhe a tristeza.
— É, meu amiguinho... não queira nunca apaixonar-se. É um conselho que lhe dou.
Huddent vira a cabecinha, como se dissesse “do que vossamercê está falando?”...
— Anda vai! Segue tua dona.
Ele abana a cauda e sai; mas só depois que Tristão fizesse-lhe aquele agrado...
Já nos aposentos reais, Isolda “a velha” deitou o rei e ele logo apagou. Observando o marido dormindo, ela começa a imaginar uma série de coisas.
“— Creio que minha filha está enamorada do jovem harpista e ele também sente o mesmo por ela... — pensa consigo mesma.— Isolda está em boa idade para casar-se e é pena Thantris não ser nobre, a menos que eu esteja certa quanto aos sonhos que tenho com ele... eu preciso ter certeza de que linhagem Thantris descende, se é que realmente ele seja um cavaleiro... e se for, por que ocultar suas condições? O que ele esconde? Faria muito gosto nesta união, contudo... preciso saber quem ele realmente é. Não posso entregar minha filha a um homem, que não sabemos nada do seu passado... mas, se eu usar a “visão”, poderei descobrir...”
A rainha levanta-se e vai até a janela, ao olhar para o céu, ela sorri.
“— Dentro de três dias a lua entrará em quarto crescente. Ótimo para invocar a “visão” e pedir à Grande Mãe que permita-me ver o passado dele... amanhã já posso providenciar algumas coisas para o ritual e na manhã do terceiro dia, colher as ervas das quais vou precisar...”

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