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terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 6: A Espada Partida





Tristão esgueirava-se pelo jardim à procura de Isolda. Haviam combinado um encontro depois da festa.
Isolda encontrava-se no quarto e chorava, enquanto o pequeno Huddent brincava perto dela. Não muito tempo depois, Brangia entra no quarto e Isolda enxuga as lágrimas, para que sua aia não percebesse o seu choro.
— Ainda não dormiste, minha senhora?—admira-se a criada. — Julguei que já estivesses sonhando uma hora destas.
— Pois é! Perdi o sono!
Brangia puxou a cama que ficava guardada embaixo da cama da princesa e tentava arrumá-la.
— Sai daqui, cão tolo! — reclamava ela enquanto arrumava a cama e Huddent, se dava ao trabalho de bagunçá-la. Para ele, era uma grande brincadeira, pois ele puxava o lençol e sacudia-o junto com a cabeça peluda.— Larga isso! Ô, seu peste!!! Não sei onde Thantris estava com a cabeça para te dar isso?
Isolda começa a rir com as travessuras do cãozinho e a indignação da criada. Quando Brangia tentava bater nele, Huddent, de lençol na boca, desviava com perícia fazendo-a de boba; e ainda latia, para provocá-la mais ainda.
— Isolda! Quer fazer o favor de controlar este teu cão! — chia Brangia irritadíssima.
Isolda pega-lhe no colo e afaga-lhe a nuca.
— Vamos, Huddent. Deixemos esta chata arrumando a cama dela — fala ela saindo do quarto e usando o cão, como pretexto para sair e encontrar-se com Tristão.
Brangia nem desconfiou; queria mais era dormir, o que seria impossível com o pequeno Huddent, latindo ao seu ouvido.
Isolda desce à sala principal e vê quantas pessoas dormiam largadas e de qualquer maneira, por conta do vinho que beberam. Ninguém percebe-lhe a presença, pois estavam mais mortos de sono, do que vivos.
Ela sai silenciosamente, com Huddent aninhado em seu colo; ele parecia querer dormir também. Mas quando chegaram ao jardim, ele levantou as pequenas orelhas e farejou o cheiro de Tristão, logo, sua cauda começa a agitar-se e ele pula do colo da princesa para saudá-lo.
Lá estava ele esperando por ela...
— Pensei que não viesses mais, minha senhora...
— Não poderia deixar de vir...
Isolda abraça-o por um longo tempo, depois, senta-se no banco do jardim e novamente, sentiu que iria chorar. Huddent deita junto deles.
— Vais mesmo partir, como disse meu pai?
— Eu não sei... é Gorwen que quer partir... Por mim, ficaria aqui para sempre...
— E por que não ficas? — indaga ela.
Tristão senta-se ao seu lado e fica calado. A lembrança do corpo inerte de Morholt surgira em sua mente. Era um fantasma que, há muito, deixara de assombrar os seus sonhos e agora, voltara ainda mais forte...
“O dia que Isolda souber... será que conseguirá perdoar-me e entender minhas razões? Que fiz o que era exigido, para livrar a Cornualha?”— indagava-se.
— Gorwen não gosta muito de mim, creio... — diz ela quebrando o silêncio.
— Não é isso, Isolda...
— Então, por que quer afastá-lo de mim?
Tristão acaricia-lhe o rosto tristonho.
— Ele gosta de ti sim, mas me considera um filho e preocupa-se com o que os reis fariam comigo, ao saberem do que sinto por ti. Eles poderiam levar a mal e julgar que um bardo tentou seduzir a filha deles, para ficar com o trono.
— Meus pais jamais pensariam isto! Oh, meu amor... Não vês como eles gostam de ti?
— Sim, eu sei. Teus pais são maravilhosos, Isolda...
“Este é o problema...” — pensa Tristão ao lembrar da afeição que sempre lhe dispensaram.
— Tu me amas, Thantris?— Isolda volta-se para ele.
— Tu bem sabes que te amo. Amo-te com toda a força de minha alma, querida Isolda...
Ela toca-lhe o rosto e pede em tom quase infantil.
— Então não partas! fica comigo, meu amor!
Tristão beija-lhe as mãos e a seguir, os lábios róseos e delicados.
— Oh, querida... Deus é testemunha de que desejo ficar, mas algo mais forte do que minha vontade, me impede de fazê-lo.
Isolda não compreende.
— Do que falas, querido amor? Eu não compreendo o que acabaste de dizer...
— Acredite-me. É melhor que nem saibas a razão, pois se souberes, talvez venhas a odiar-me.
— Nunca! Eu te amo, Thantris!
Ouvem-se passos. Huddent ergue-se de ímpeto e late para um vulto que estava cada vez mais próximo.
— Vão nos descobrir...
Isolda sente o sangue gelar e fica pálida. Seriam flagrados ali, sozinhos e quem quer que fosse, faria um escândalo; a menos que fosse Brangia atrás dela. Senão, seria pior para Tristão, pois iriam acusá-lo de atentar contra a honra da princesa. Todavia, para alivio de ambos, era um velho conhecido.
—Senhor Gorwen?! — exclama a princesa aliviada. Antes ele do que o pai.
Tristão ficara calado e encarava o semblante reprovador de seu mestre.
— Alteza, o que faz aqui sozinha e com o meu amigo? Não é nada bom para tua reputação, senhora...—diz-lhe de forma branda. Ele não estava indignado, mas sim, preocupado.— E tu? Vens dormir ou não, Thantris?
— Eu precisava falar com Thantris, senhor. Mas asseguro-te que nada desonroso aconteceu. Teu amigo me respeita, por ser um homem de boa índole, senhor Gorwen. — defende-lhe Isolda. — Não precisas ficar tão cismado...
— Procurei-te por todo o castelo e não consegui encontrá-lo. Daí deduzi onde estavas. Já se faz tarde e é hora de nos recolhermos e a senhora também, Vossa Alteza. Precisam ser mais prudentes, caros jovens! Enfim... creio que é o mal daqueles que encontram-se na flor da idade...— disse-lhes o experiente homem. — tu vens ou não, Thantris? — dirige-se a Tristão num tom imperativo e ele, tentara argumentar alguma coisa, mas Isolda contorna a situação.
— Gorwen tem razão, senhor. Já está tarde. Boa noite, senhores.
Isolda pega Huddent e volta ao castelo.
— Por que me persegues? — chia Tristão. — Não devias vir aqui...
— Ainda bem que encontrei-os há tempo, antes que falasse de nosso segredo à Isolda. Foi Deus quem me enviou até vós!
— Pois eu estava tentando me despedir. Não queria partir sem dar-lhe uma explicação e pensei sim, em contar-lhe a verdade. Eu não estou agüentando mais!
— Pensas, Tristão, que ela agiria diferente se soubesse? Oh, Deus... Eu te avisei, meu filho! Não quiseste partir quando eu quis e agora, está sendo muito pior afastar-se dela.
Gorvenal abraça-o e Tristão deixa-se abraçar. Estava mesmo precisando de um ombro amigo.
— Mas ainda bem que agora pensas em partir. Vejo que estás começando a recuperar a razão e já não era sem tempo — continua o seu mestre — Teu tio, o rei Marcos da Cornualha, deve estar muito preocupado, pois não sabe se estás vivo ou morto, por causa do ferimento que Sir Morholt causou-te.
Tristão não disse mais nada e voltou ao castelo com Gorvenal.
Em seu quarto, a rainha ainda não dormira e levanta-se para mexer na gaveta de seu toucador. O rei ressonava e percebia-se que nada conseguiria acordá-lo, sendo assim, Isolda “a velha” podia abrir as gavetas sem preocupar-se.
De uma das gavetas retira uma caixa pequena, forrada do mais fino veludo vermelho e bordada com fios de ouro. Seus dedos demoraram-se um pouco sobre a tampa e depois abriu-a. Dentro dela estava a ponta quebrada da espada que matou o seu irmão. Na pequena lâmina, ainda era possível ver o sangue de Sir Morholt, agora coagulado pelo tempo. A rainha começa a chorar com a lembrança e fecha a caixa, guardando-a a seguir.

Na manhã seguinte, Tristão assusta-se quando vê o mestre já de pé e com todas as malas prontas...
— O que é isso, Sir Gorvenal?!
— Ora essa! Nossos pertences! Ah, não vejo a hora de voltar às terras da Cornualha —diz ele animado e conferindo tudo.
Quando Gorvenal ia saindo com o primeiro alforje, Tristão começa a desarrumar o resto.
— Ei! O que está fazendo?
— Eu não vou partir agora! Não nestes repentes!!! — diz enfurecido.
— Ficaste louco?! Tu não me disseste que havia se despedido de Isolda?
— Eu “tentei” me despedir, mas tu não deixaste!
— Oh, Meça! E eu que pensei que tinhas recuperado o juízo!
Gorvenal afasta-o e põe tudo nos fardos de novo e Tristão retira tudo outra vez.
— Pára com isso, Tristão!
— Pare vossamercê! Já disse que não vou!
— Dane-se então! Se não quer vir, vou sozinho! Fique aqui até descobrirem tudo e te condenarem à morte!
Gorvenal sai irritado com seus pertences.
Tristão deita-se tranqüilamente na cama.
— Em cinco segundos ele volta. 1, 2, 3, 4...— conta ele.
Gorvenal torna a entrar no quarto, bufando e com uma cara de leão enfurecido.
— Cinco! Não falei? Voltaste, Sir Gorvenal? — pergunta em tom cínico. — Não estavas de partida?
— Eu não posso voltar sem ti. Teu tio e teu pai me matam — diz-lhe jogando os alforjes no chão.
— Ótimo! Ainda bem que sabes disto?—provoca-o com a veracidade do fato.
— Olha aqui! Se fosses meu filho e não meu príncipe, eu te carregava à força e debaixo de sopapos!
—Sir Gorvenal, por favor, fiquemos aqui só por alguns dias, até os reis e Isolda se acostumarem com a idéia de nossa partida. Até lá, eu vou preparando-lhes o espírito...
— E quantos dias seriam, Alteza? — pergunta Gorvenal secamente e encarando-o nos olhos.
— Um mês.
— Quê!!?! É muito tempo seu...
— Quinze dias?
Gorvenal encara-o feio.
— Três dias?! — pergunta Tristão sem jeito.
— Ora, está bem. Feito — concorda o mestre.
Tristão solta um grito de júbilo e beija o rosto de seu mestre.
— Ei! Pára com isso!
— Eu te adoro, Gorvenal!
Tristão sai feliz. Ele conseguira ganhar tempo.
— Por que tenho a sensação de que ele me enrolou e vai me enrolar ainda mais? Oh, Deus! Acho que jamais voltarei à Cornualha com vida.

Na véspera do terceiro dia, chega enfim a noite do quarto crescente. A rainha Isolda “a velha” levantara-se cedo naquela manhã, para colher as ervas frescas que usaria naquela noite. Algumas tinham no jardim e outras, fora do castelo.
A rainha da Irlanda coloca a sua roupa costumeira para estas ocasiões e sai, voltando depois com a cesta cheia de ervas e topa com a filha Isolda na cozinha do castelo.
— Mamãe, o que é isso? — pergunta a princesa curiosa.
— Destas ervas dependerá a tua felicidade, querida — fala a rainha de modo enigmático e acariciando o rosto ansioso da filha.
— Como assim, mamãe?
Na cozinha, a mãe começa a separar e desfolhar as ervas.
— Onde está Thantris? — pergunta Isolda “a velha”.
— Discutindo com Gorwen, pra variar — ri Isolda.
— De novo? Estes dois...
Isolda quase pegou nas ervas, mas a mãe impede-lhe de fazer isso.
— Não faça isso, Isolda. Não profane as ervas da Deusa.
— Por quê?
— Preciso delas para esta noite e elas devem estar imaculadas.
A rainha fez uma pausa.
— Isolda... quero falar-te.
— Sobre o quê, mãe?
— Sobre vossamercê e Thantris.
— Como? — espanta-se a princesa.
— Não precisa mentir para mim, filha... Já fui moça e já encontrei com o amor em vários caminhos na minha vida: pretendentes à minha mão, Beltane*, amantes e por fim, conheci teu pai, a quem passei a dedicar a minha vida.
— Mãe, por que estás me contando tudo isso?
— Porque sei que amas Thantris e ele não lhe é indiferente. Muitos na festa podem não ter percebido, nem mesmo teu pai, mas a letra daquela canção, revelou-me tudo.
Isolda fica sem graça.
— Por favor, minha mãe, não conte ao meu pai...
— Não se preocupe. Não vou contar. Mas posso te contar um outro segredo?
— Que segredo?
— Teu pai faria muito gosto em vossa união.
Isolda sorri esperançosa.
— Isto é verdade, mãe?
— Sim — confirma sua mãe. — Por isso, reze querida, para que o que farei hoje, traga-te a felicidade.
Naquela noite, como não queria que ninguém a importunasse, a rainha pede ao marido que não dormisse no quarto e ele, em respeito à alta sacerdotisa da antiga religião com quem havia se casado, fez-lhe a vontade e proibiu que outros se aproximassem do aposento do casal. O que a esposa faria, esta não lhe disse, mas deduziu que talvez fosse um ritual de purificação que as sacerdotisas realizavam de vez em quando.
Tarde da noite, a rainha Isolda “a velha” acende a lareira do quarto e lança as ervas que havia colhido ao fogo, logo; um cheiro agridoce se espalha pelo recinto.
Isolda livra-se do véu que cobria-lhe a cabeça e em sua testa, percebia-se o crescente das consagradas à Deusa.
Aproximando-se de uma mesa onde via-se duas velas e um caldeirão cheio até a metade, de água pura da fonte, Isolda senta-se. Tudo estava posto sobre uma toalha branca.
Ela acende as duas velas, que estavam dispostas de forma que suas chamas não refletissem, nem sobre as águas e nem em seus olhos e prepara-se para invocar a presença da Grande Mãe. Nas suas orações, pedia que a Deusa lhe permitisse usar a “Visão” e concentra-se. Soletra uma prece em uma língua estranha e depois, diz com ênfase:
— Agora, minha Mãe! Minha Deusa! Mostre-me através da “Visão” a verdadeira face de Thantris, se esta for a tua vontade!
As chamas da lareira agitaram-se e avivaram-se, indicando a forte presença da Grande Mãe e a superfície das águas começava a tomar formas. Há princípio, indefinidas, porém, depois ela pôde ver claramente:
Thantris estava vestido com uma rica armadura e empunhava sua espada de forma ameaçadora contra alguém; e este alguém era, nada mais e nada menos que seu irmão.
— Morholt! — ela grita assustada. — Não! Saia daí!
Quando Tristão chocou-se com ele, a rainha vê muito sangue e no meio desta poça de sangue, ela vê surgir a imagem de uma espada com a ponta quebrada. A seguir, depois que o sangue desaparece, ela vê o cadáver de Sir Morholt e ao lado do corpo, estava a ponta ensangüentada que chegou com os dois mensageiros e que ela guardou em seus pertences.
— Não! — Isolda desperta e entende o que se passou. — Pela Deusa! Thantris é Sir Tristão, o assassino de Morholt! E eu cuidei do assassino de meu próprio irmão! Devolvi-lhe a vida! Oh, Deusa...
Com a força liberada no ritual e pelo evidente cansaço, a rainha desfalece diante da mesa e perde os sentidos.

O nome de Tristão fora pronunciado durante muito tempo na Irlanda, após a morte de Sir Morholt de Marhaus. O antigo ódio da rainha aflorou de dentro do seu coração e mais ainda, por saber que cuidara do ferimento mortal de Tristão, sem saber quem ele era.
— Cães do inferno!!! Antes o tivesse deixado morrer para vingar a morte do meu irmão! — explode a rainha, quando voltou a si no dia seguinte.
Em questão de minutos, ela convoca os guardas e dá ordens de prisão contra Tristão e seu amigo.
— Prendam-nos e vasculhem todo o quarto. Quero descobrir a prova do crime: a espada sem ponta. Preciso disto para convocar um julgamento e condená-los.
Logo, o castelo de Anguish ficara em polvorosa com o escândalo, ninguém mais conseguiu dormir. Tristão e Gorvenal foram surpreendidos aquela manhã, por um grupo de guardas bem armados que invadiram os aposentos.
— Mas o que significa isto? —assusta-se Gorvenal. — Que despautério!!!
— Calem-se! Estão presos em nome da rainha! — diz-lhes o guarda.
— Como?! — berra Tristão confuso. — O que fizemos para merecer tal pena?
— Vasculhem o quarto e encontrem a espada — ordena o chefe da guarda.
— Não! — grita Gorvenal, mas é silenciado por um dos guardas ao encostar-lhe a ponta da lança em seu peito.
A notícia se espalha por todo o castelo e chega aos ouvidos do rei e da princesa.
— O que houve, Brangia? Por que estás pálida?
— Prenderam Thantris, senhora! — responde a criada esfregando as mãos nervosamente. — Alteza!!! Volte!!!!!
Isolda desce imediatamente e Huddent segue atrás dela.
Na sala do trono, o circo já estava armado.
— Enlouqueceste, mulher?!! — critica o rei ao ver Tristão e Gorvenal sendo arrastados à sua presença.
— Foi ele, meu senhor! Ele que matou meu irmão! Thantris é Sir Tristão!
— O quê?! Não pode ser! Deve ser um engano, senhora minha esposa.
— Eu vi, Anguish! A “Visão” revelou-me!
— Usaste a “Visão”?!
— A espada! — ordena aos guardas. — Tragam-me a espada!!!
Isolda testemunhava tudo. A mãe joga aos pés do rei, uma espada com a ponta quebrada, tilintando agressivamente no chão de mármore, provocando um ruído pesado e irritante.
— A ponta quebrada não significa nada! — observa o rei tentando ser justo e não precipitar-se no julgamento.
— Ah, não? E o que me diz disto? — diz a rainha tirando da caixa a ponta e recolocando-a novamente na espada e, para espanto dos presentes, a ponta encaixou de forma precisa e incontestável. — Vês, meu senhor? Não estou louca!
Os olhos do rei desviam-se do rosto contraído e enfurecido da mulher e pousam sobre Tristão.
— Usufruíste de nossa hospitalidade e, no entanto, és um inimigo oculto em nosso meio, jovem Thantris? Ou melhor dizer, Sir Tristão? — as palavras do rei soaram frias e distantes, dado à decepção que abatera-se sobre a Corte de Anguish, rei da Irlanda.
Isolda sente faltar-lhe o equilíbrio e só não foi ao chão, porque Brangia estava perto e amparou-a.
— Não pode ser! — repetia ela querendo não acreditar. — Thantris não é o assassino de meu tio! Não é!
Lágrimas vieram-lhe aos olhos quando Tristão confirma a história e assume a responsabilidade de seu ato.
— Foi um combate justo entre cavaleiros, Majestade — defende-se Tristão. — Só fiz o que fiz, pelo bem da Cornualha. Por que era o único meio...
O rei nem deixou ele terminar.
— Guardas! Levem-nos às masmorras e mantenha-os lá, até que eu decida o que fazer com eles.
Os guardas arrastaram-nos e antes de saírem do grande salão, Tristão vê Isolda. Ao pressentir a decepção nos olhos da amada, ele sente-se mal, mas continuou a olhar-lhe até sair do salão.
— Exijo que se faça justiça, meu rei e senhor! — fala a rainha. — Sangue do meu irmão e vosso campeão foi derramado! Ele matou Morholt e morrer deve!
— Não! — grita Isolda atirando-se aos pés do pai. — lembra-te, meu pai? Ele salvou minha vida por duas vezes! Justiça deve ser feita, mas seja misericordioso! Suplico-te!!!
— O que estás a dizer, Isolda? Ele matou o teu tio e pedes pela vida deste vil e infame mentiroso? Ele, que enganou-nos este tempo todo, fazendo-se de nosso amigo?
— Mãe seja prudente e pondere em tuas acusações...
A rainha não conteve a raiva e esbofetea-lhe na face. Ver a filha intercedendo pelo assassino do irmão e tio dela, era inaceitável.
— Cala-te e suba para o teu quarto! Quem és tu para pensar que podes intrometer-te em assuntos de estado e interceder por ele?
O certo é que o rei sentiu-se balançar pelas palavras da filha e a rainha, percebendo a fraqueza do rei, achou por bem afastá-la para que seus interesses de vingança fossem acatados.
Isolda sobe contrariada e a marca dos dedos da mãe ficaram em sua face.
Mais tarde, quando a madrugada ia avançada, Isolda quis ver Tristão e foi até as masmorras. Os guardas quase não a deixaram passar, mas a autoridade da princesa era superior à vontade deles.
— Quero olhar nos olhos do assassino de meu tio.
— É melhor não, Alteza...
— Isto é uma ordem. Deixem-me passar.
— Cinco minutos, princesa Isolda. Nenhum minuto a mais.
Os guardas saíram da frente para dar-lhe passagem e Isolda entra nas masmorras. Era um lugar fétido, frio e imundo; quase não enxergava nada a um palmo do nariz, se não fosse pela luz bruxuleante de umas poucas tochas. Do lado oposto às celas, ficava a câmara de torturas. Isolda sentia um arrepio, ao ver as ossadas dos prisioneiros que morreram trancafiados naquele lugar horripilante, que não permitia a passagem da luz do sol, ainda que fosse um pequeno feixe.
Procurava em cada cela e por fim, encontra Tristão e Gorvenal.
— Isolda? — assusta-se ele ao vê-la.
Isolda manteve-se distante por alguns minutos e olhava-o com um olhar inquisidor. Mas a frieza durou um curto espaço de tempo, pois, apesar de tudo, amava aquele homem acima de qualquer lei ou conveniência.
— Oh, Thantris... Por quê? — dizia ela engasgada com as lágrimas.— Eu nunca concordei com o injusto tributo imposto à Cornualha, mas matar o meu tio... Por que tinha que ser assim? Por quê?
Tristão também emociona-se e não consegue evitar que as lágrimas caiam.
— Ainda pedi que ele esquecesse o tributo e que voltasse em paz para a Irlanda. Mas ele não me ouviu...
Sir Gorvenal estava imóvel a um canto da cela e observava-os naquele desesperado colóquio.
— Cem mancebos e cem cavalos eu poderia suportar... — continua ele. — Mas... Cem moças...? Cem donzelas arrancadas dos braços dos pais e sabe-se lá que destino as aguardava nesta terra?
Isolda engoliu as palavras; ela sabia que destino as esperava e morria de pena das jovens que chegavam anualmente da Cornualha.
Na mesma hora, a fortaleza que erguera-se entre eles com a terrível revelação, desmoronara-se e Isolda entende-lhe as razões.
— Meu amor! — Isolda agarra-se às mãos de Tristão. — O que será de ti? O que será de nós? Minha mãe exige que teu sangue seja derramado para que assim, Morholt seja vingado! Estou com medo... muito medo...
— Não temas, minha querida. Tenho certeza de que teu pai é um rei justo e bom e entenderá as minhas razões. Meu sangue não será derramado...
— Oh, meu querido! Como gostaria de ter esta certeza! — chorava ela.
— O máximo que fará será extraditar-me do reino, afastar-me daqui!
— Oh, não! Não quero que te afastem de mim!
— Ou isso, ou a morte, Isolda. Mas se tivesse que morrer morreria por ti...
Isolda cala-o com um beijo longo e desesperado.
A porta pesada da masmorra abre-se e eles se afastam com o ruído. Fez-se ouvir, então, a voz potente do guarda.
— Senhora! O tempo esgotou!
— Vá, Isolda! É melhor que vá! —diz ele.
— Intercederei por ti no julgamento, querido. Não permitirei que o matem...
Isolda sai.
No dia seguinte, marcaram o julgamento e todos se reuniram em frente ao torreão, no pátio interno do castelo. Os portões foram abertos ao público e logo, o grande pátio ficou apinhado de gente.
O rei aparece e toma assento em seu lugar de honra, acompanhado da rainha. Isolda também faz questão de assistir e esperar a hora mais propícia para interceder pelo amado. Logo a seguir, trazem Tristão e Gorvenal amarrados. O público começa a xingá-los e vaiá-los, dizendo-lhes injúrias sem conta. O rei ergue-se do assento e com um gesto imperativo, faz calar a multidão.
— Sir Tristão, cavaleiro e campeão da Cornualha! Foste acusado de assassinato, perjúrio e falsa identidade. Tens algo a dizer em tua defesa, antes que eu pronuncie a sentença? — diz-lhe o rei impassível.
— Sim, Majestade. Vós sabeis, ò rei, as regras que regem a cavalaria. O que fiz com Sir Morholt Marhaus não foi movido por interesses pessoais e sim, pelos interesses de um reino inteiro. Lutei com ele, de forma justa e esperada, para libertar a Cornualha e dentro das regras e normas estabelecidas pelos combates. Procurei ser justo oferecendo-lhe a chance de regressar em paz às suas terras, porém, ele recusou-se e obrigou-me a desafiá-lo para um duelo. Combati com lealdade, enquanto ele, usando de trapaça, envenenou-me com a ponta de sua espada, no que Deus, Justo e Onipotente, fez valer a Sua vontade dando a vitória a quem realmente era digno de ser o vencedor! — acusa-o com firmeza. — Aqueles que conhecem o poder dos venenos irlandeses, sabem que digo a verdade! E vossa rainha também sabe disto, pois ela mesma manipula e cria tais drogas!
Do meio do povo que assistia, uma voz fez-se ouvir na multidão.
— Isto é verdade, Majestade.
Gorvenal espanta-se ao ver quem era.
— Vossamercê?
O homem sorriu-lhe; era o companheiro de Morholt, o mesmo que revelou-lhes sobre o veneno e que fora a testemunha do cavaleiro irlandês.
— Assim que soube do julgamento, achei por bem aparecer e esclarecer alguns fatos — fala ele. — Senhor, eu fui o acompanhante de Morholt e servi de testemunha do embate. Agora, estou aqui para confirmar que realmente, Morholt preparou a lâmina para dar morte certa a Sir Tristão.
Do meio do povo subiram comentários surpresos e revoltados com tal reveleção. Gorvenal sorri grato e toma a palavra.
— E este mesmo homem foi quem nos disse: “Tristão só conseguirá salvar-se na Irlanda”.
Os que ouviam e presenciavam o tribunal ficaram escandalizados e as opiniões se dividiram. Muitos começaram a pedir clemência.
— Isto é uma calúnia! — tenta justificar a rainha.— Meu irmão jamais faria isso!
O rei repreende-lhe severamente.
— Tu bem sabes, senhora, que a honestidade não era uma das maiores virtudes de teu irmão — murmura o rei.— Há mais alguém que deseja falar em defesa dos prisioneiros? — pergunta à multidão.
Isolda ergue a sua mão e aproxima-se dos pais.
— Eu tenho. Quero lembrar-vos, meu pai, que ele salvou-me a vida por duas vezes; por isso, peço-vos que sejas justo em vossa sentença e pondere os fatos mencionados.
— Não há mais o que ponderar. Conheço as leis e sei que Sir Tristão está sob as ordens de Marcos da Cornualha, e não tenho o poder sobre sua vida e nem sobre sua morte. Todavia, não posso mais tolerar a presença dele nesta Corte, portanto — fala a Tristão. — pegue teu companheiro e volte às terras da Cornualha e não ouses voltar mais, sob pena de morte.
O rei levanta-se, enquanto a rainha tenta mudar-lhe a decisão, protestando contra a sua benevolência, no que o rei ordenou que ela se calasse.
— Minha decisão já foi tomada e não voltarei atrás. Que Tristão parta daqui e nunca mais retorne a estas terras, se preza pela sua vida. É só o que posso prometer para satisfazê-la, minha senhora. Nada mais... — e dirige-se a ambos — Vós tereis uma noite para partir. Libertai-os — ordena aos guardas.
Naquela noite, talvez a mais longa de sua vida, Tristão organiza todos os alforjes e as coisas indispensáveis para a viagem. Gorvenal o ajudava calado, sabia o quanto o príncipe sofria.
Enquanto arrumavam todas as coisas, um guarda do rei aproxima-se de ambos e entrega uma carta com o selo real.
— Anguish Gormond, rei da Irlanda, exige que esta carta chegue às mãos do rei Marcos, assim que pisarem nas terras da Cornualha — fala o guarda friamente e saindo a seguir.
Da janela de seu quarto, Isolda observava os dois homens solitários que arrumavam as coisas para partirem na manhã seguinte. Brangia estava com ela e sentiu invadir-se por uma grande pena de sua jovem senhora.
— O amais tanto assim, Vossa Alteza? — pergunta numa voz suave e ao mesmo tempo melancólica.
— Oh, fiel Brangia! Creio que mais do que a mim mesma. E só de pensar que Tristão está proibido de voltar à Irlanda... Não o verei mais... Nunca mais... — comenta entre soluços entrecortados.
Brangia entrega-lhe um pequeno bilhete.
— Depois do julgamento, Tristão procurou-me e me entregou este bilhete. Ele quer despedir-se de ti e marca um encontro no jardim. Se quiseres ir, eu fico de vigia e atenta para que ninguém os flagre juntos.
Isolda fica surpresa, pois para ela, Brangia era contra o relacionamento de ambos e demonstrava, em suas atitudes, o quanto pareciam desagradar-lhe.
— Jamais fui contra o vosso amor, mas procurava enxergar com os olhos da razão.
— Minha querida Brangia! Já não posso mais tratar-lhe como uma serviçal, pois agora considero-te uma grande amiga... minha melhor amiga... — corrige a princesa completando a frase.
Então, na hora marcada, Isolda corre ao jardim e sua criada fica à espreita para avisar-lhe, caso alguém aparecesse de forma inesperada. Tristão já a aguardava sob o caramanchão formado pela videira do castelo. Foi sob a sombra daquela parreira que tudo começou; desde as primeiras aulas de música, até a descoberta dos sentimentos.
Isolda abraça-se a ele, como se quisesse fazer com que o calor e o aroma daquele que amava, se impregnasse em todo o seu corpo. Ainda agarrada a ele, Isolda chorava...
— Minha querida, acalma-te — pedia ele vendo-lhe o desespero.— Tudo vai ficar bem...
— Como assim? Tu não podes mais ficar aqui e nem voltar à Irlanda? Oh, meu amor... que sorte cruel o destino nos reservou! Eu não vou suportar! Não quero que te apartem de mim...
Tristão segura-lhe o rosto úmido entre suas mãos e beija-lhe com um ardor inigualável; uma mistura de desespero e saudade implacáveis.
— Eu sigo para a Cornualha, mas voltarei para buscar-te — promete ele. — Quando retornar, te farei minha esposa...
— Tu não podes voltar! As palavras de meu pai, no fim do julgamento, foram bem claras: se voltares, tu morrerás!
— O tempo cura todas as feridas, minha amada... tenho certeza de que, quando a surpresa pela morte de Morholt passar, teus pais esquecerão a raiva e irão perdoar-me. É só dar tempo ao tempo...
— Oh, Tristão! Como gostaria de acreditar nisso...
— Pois acredite, meu amor... ainda ficaremos juntos e seremos felizes... prometo-lhe...
Isolda beija-lhe uma última vez.
— Enquanto estiveres na Cornualha, lembre-te sempre de tua Isolda e voltes para mim... — diz-lhe entre lágrimas. — Tua Isolda ficará aqui e esperará por ti.
— Sim... eu voltarei. Espere por teu Tristão... adeus...
Se abraçam e despedem-se em seguida.
* nota: Ritual do fogo e da fecundidade praticado pelos integrantes da antiga religião celta, a religião da deusa mãe.

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