Quem sou eu

Minha foto
Desejam falar comigo? *Escrevam seus comentários, que assim que puder, entrarei em contato. Eu não uso outlook.

Pelo mundo

terça-feira, 20 de maio de 2008

Capítulo 7: De volta à Cornualha


Índice Geral :: Capítulo anterior


Tristão chega enfim à Cornualha, depois de uma longa viagem mar à fora. De longe, seus olhos pousaram na sombra onipotente da fortaleza de Tintagel, que erguia-se de encontro ao céu carregado de nuvens. Parecia que ia chover.
— Em casa, finalmente! — comemora Sir Gorvenal.
Tristão abaixa a cabeça e nada fala; apenas fixava os olhos sobre a superfície do mar turvo e cinzento. Deixava-se perder em pensamentos e naquilo que deixara para trás; era como se o seu coração ainda estivesse na Irlanda.
Gorvenal parou de comemorar e muito sem graça, tentou mudar de assunto.
— Teu tio ficará feliz em vê-lo, pois de certo, pensa que estás morto...
— Eu estou morto. Não fisicamente... mas a minha alma ficou na Irlanda — suspira o rapaz queixoso.
Gorvenal preferiu não dizer mais nada; talvez o que dissesse, contribuísse mais ainda para aumentar-lhe a tristeza. Mas... Bolas! Era jovem ainda... conheceria muitas moças...
Seu mestre não conseguia compreender.
O rei Marcos estava recepcionando a sua prima Basílica, que ficara viúva há pouco tempo, quando recebe a notícia de que Tristão estava chegando ao castelo. Grande foi a alegria dele com a boa nova..
— Deus seja louvado! Estás vivo! — exclama o rei abraçando-o.
— Sua benção, meu tio e senhor.
— Deus te abençoe, meu filho!
Basílica olha-o curiosa e encanta-se por aquele primo que ela ainda não conhecia. Era uma mulher madura e experiente; tinha os cabelos acobreados e volumosos e seus olhos eram tão claros, que pareciam possuir um tom de mel. Ela deveria ter uns 35 anos, aproximadamente.
E como convinha à lei da boa educação, Marcos apresenta-lhe Basílica.
— Tristão, esta é tua prima Basílica da Bretanha menor; ela é neta de um dos irmãos de meu pai e sua prima em 3º grau de parentesco.
— Tristão? O herói da Cornualha? — pergunta ela.
Tristão toma-lhe a mão e beija-a de forma respeitosa.
— Muito prazer, senhora.
— O prazer é todo meu, caro primo.
— O marido de Basílica morreu há poucos dias e ela resolveu vir para cá, para esquecer um pouco a tristeza — explica-lhe seu tio.
— Meus sentimentos, minha prima. Espero que a Cornualha consiga afastar o pesar do seu coração — deseja ele de forma inocente e educada.
— Não tenho dúvidas quanto a isso! — diz-lhe sorrindo de forma envolvente e sedutora.
Tristão reparou no olhar dela e ficou meio desconfiado; no fundo, duvidou se ela realmente estaria triste com a morte do marido.
Marcos bate palmas e manda um dos criados chamar Audret.
— Audret! Veja! Tristão está vivo!
— Tristão?! Mas como...
Audret ficara lívido, parecia estar diante de um fantasma.
— Foi um milagre! Anda Audret! Abrace-o! É assim que recebes o teu primo? — brinca o rei animado.
— Perdão, meu tio — disfarça ele. — É que eu fiquei surpreso... Tristão, caro primo! Seja bem-vindo!
Audret abraça-o e beija-lhe na face. Marcos também aproveitou para apresentar-lhe Basílica.
Quando Audret pediu licença, inventando uma desculpa qualquer e se afastou...
— MALDIÇÃO!!! Como ele pode ter sobrevivido àquela chaga terrível? Como conseguiu suportar o veneno? — pragueja ele. — Só há uma explicação convincente: ele é um servo de Satanás! Por fora, faz-se de bom cristão, mas por dentro, tem parte com o demônio!
O rei continuava comemorando o seu regresso.
— Que alegria! Não poderias ter regressado em melhor hora!
— E por quê, meu tio? — quis saber Tristão.
— Porque amanhã virão dois cavaleiros do Grande Rei da Bretanha, para tratarmos de assuntos de segurança e estado, em relação aos saxões. Arthur “Pendragon” deseja realizar alianças entre os soberanos e unificar a Bretanha contra os invasores. E já que voltaste, vou fazer uma grande festa de boas-vindas e vou apresentá-lo aos dois cavaleiros.
— Como? Cavaleiros de Arthur de Camelot?
— Sim. Sir Lancelote e Sir Gawain! E eles devem estar ansiosos para conhecer o campeão da Cornualha! E também, vou aproveitar para fazer um pronunciamento solene na presença deles, quero que eles sirvam de testemunhas...
— Pronunciamento? — pergunta Gorvenal curioso.
Tristão não consegue entender. Seu tio estava enigmático...
— Agora fiquei curioso, meu senhor! — comenta ele.
— Amanhã verás. Agora, meu querido sobrinho, descanse da longa viagem! Amanhã será um grande dia para todos.
— Antes, preciso entregar-lhe isto — Tristão puxa a carta do rei Anguish da túnica e entrega-lhe o documento.
Marcos abre e lê.
— Meu tio, seria ousado de minha parte perguntar do que se trata?
— Nada de mais, Tristão. Ele apenas deseja que translademos imediatamente os restos mortais de Sir Morholt, uma vez que o tempo de espera da decomposição já expirou e não causará mais incômodo a quem transportá-lo. Ele quer dar-lhe uma sepultura digna...
Naquela época, por não saberem as técnicas de mumificação ou conservação, era costume o corpo de um estrangeiro, que morresse fora de suas terras, ser sepultado provisoriamente no país em que perdesse a vida, para que se esperasse o tempo da decomposição.
— Se é assim, peço-te um favor caro tio... — Tristão fez uma pausa. — Transporte-o com um rico cortejo e todas as honras que um campeão do nível dele merece.
O rei Marcos não compreendeu aquele pedido, mas não contestou a vontade dele e faria conforme Tristão lhe pedira.

Na manhã seguinte, quando os dois famosos cavaleiros chegaram, os preparativos já estavam concluídos.
O rei Marcos recebe-os com pompa e circunstância; dignas de cavaleiros da Távola Redonda. Tristão não estava acreditando. Finalmente conheceria dois cavaleiros do Rei Arthur.
— Ora! Isto que eu chamo de recepção! — comenta Gawain sorrindo orgulhoso.
Marcos aproxima-se, junto com seus dois sobrinhos. Gawain dirige-se a Audret, crente que estava abafando...
— Sir Tristão, eu presumo...
— Não. Eu não sou Tristão — fala ele amargurado com a comparação.
— Este é Audret, meu outro sobrinho. Eis Tristão! — diz-lhes o rei.
Gawain quase não acreditou. Tristão portava-se de forma muito humilde para ser um cavaleiro, um herói como diziam...
E Audret era mais velho, parecia ter mais experiência e um porte cavaleiresco mais convincente e acentuado.
Lancelote sorri para Tristão e cumprimenta-o de forma respeitosa.
— Aí está o homem que venceu o arrogante campeão da Irlanda! — fala Lancelote.
— E diante de mim, dois cavaleiros respeitáveis de nosso Grande Rei! Sinto-me lisonjeado por conhecê-los — responde-lhe Tristão, no mesmo tom de admiração.
— Venham, senhores! Vamos meus filhos! Uma festa magnífica vos espera! — falava Marcos animado.
O rei Marcos convida-os a entrar e ordenou que a festa começasse. Haviam muitos nobres com suas esposas, filhos e filhas; os barões conselheiros do rei e haviam também cortesãs, que ganhavam para animar as festas glamourosas daquela época.
— Por Deus! O que vejo aqui? — exclama sir Gawain eufórico. — Quantas damas belíssimas! Vou me refazer hoje... — ri maliciosamente.
— Ah, não começa, Gawain! Não estou com a menor vontade de livrar-te de apuros hoje, caso te metas neles! Viemos a negócios... — critica-lhe Lancelote.
De nada adiantaram os conselhos de boa conduta de Sir Lancelote, pois ele fez-se de surdo. Sir Gawain via-se diante de uma visão paradisíaca e mais ainda quando viu Basílica, que era uma linda mulher. Ela trajava um belo vestido negro com detalhes em prata e ajeitava os seus fartos seios, sob um decote ousado e sedutor; parecia vestida para impressionar alguém.
— Cahan! —pigarreia o cavaleiro de Arthur. — Acaso, esta bela dama, esta jóia da Bretanha está sozinha? — pergunta ele ajeitando os cabelos e lançando o seu charme irresistível sobre ela. Ou pelo menos, pensava que era irresistível...
Basílica olha-o com desdém; ela não sabia que se tratava de Sir Gawain, pensou que fosse um engraçadinho qualquer.
— Sou uma bela dama, sou uma jóia... mas não sou para vosso deleite. Com licença...
Ela sai, deixando-o com cara de bobo. Lancelote conversava com Tristão e, ao ver isso, começa a rir.
— Eu nunca fui tão humilhado por uma mulher em toda a minha vida! — diz Gawain juntando-se aos dois, muito contrariado e ficou possesso com a risada de Lancelote.— Vou fazer tu engolires o riso... — ameaça ele.
— Creio que hoje não é dia para o “grande sedutor” de Camelot entrar em ação — fala Lancelote em tom cínico.
Tristão ri também.
Sir Gawain ficou calado e afastou-se de ambos. Pegou a primeira taça de vinho que viu servirem e bebeu de um só gole; levar aquele fora foi duro para ele.
O rei sentara-se na grande mesa e ordenou que começassem a servir o almoço. Sentaram-se depois todos os outros: Tristão, por ordem do rei, sentara-se à sua direita; Lancelote e Gawain, à sua esquerda, respectivamente; Audret, ao lado de Tristão e pensava em seu íntimo “Antes de Tristão aparecer, era eu que sentava ao lado direito dele...”.
Basílica fez de tudo para sentar-se defronte a Tristão e conseguira. Ela olhava-o insistentemente, com aquele olhar que só as apaixonadas sabem; mas ele estava alheio, não conseguia perceber ainda. Audret percebera o olhar dela e mais inveja sentira do primo.
Gawain não parava de beber...
— Gawain... acho que estás exagerando... — observa Lancelote preocupado. Quando Gawain queria beber, ele não tinha limites.
— Ora, me deixa! — funga o cavaleiro bebendo mais um pouco.
Num dado momento, após a sobremesa, o rei Marcos ergue-se e propõe um brinde aos cavaleiros que chegaram e ao que diria em seguida.
— Amigos de Camelot, quero que sejam minhas testemunhas daquilo que direi agora! Barões conselheiros! Parentes e amigos de longa data! Diante de vós, quero fazer um pronunciamento solene... — diz ele.
Todos se voltaram para o rei e ficaram curiosos e ansiosos para ouvirem o que ele diria.
— Hoje estou muito feliz por ter a presença de Sir Lancelote e Sir Gawain, e mais ainda pelo regresso de meu estimado sobrinho Tristão, que julguei estar morto. Sir Tristão salvou a Cornualha, libertando-nos da servidão à Irlanda e nada mais justo que declarar que, uma vez que não sou casado e não tenho filhos, ceder o meu trono à pessoa que me é mais cara... Tristão!
A boa nova causou um escândalo na Corte. Os barões conselheiros ficaram estáticos e dividiram-se entre os que apoiaram a escolha do rei e aqueles que acharam injusta a escolha, já que o duque Audret era o sucessor legítimo por causa da sua idade.
— Isto é um absurdo! — protesta um deles, chamado Denoallen. — Audret é o sucessor por direito!
Os olhos de Audret brilharam, pois percebera que ele não era o único a nutrir antipatia por Tristão.
— Estás dizendo, sir Denoallen, que estou sendo injusto? — retruca o rei.
Tristão tentava contornar a situação e também foi pego de surpresa. Nesta hora, Sir Gorvenal percebeu o que o rei queria dizer sobre um tal pronunciamento solene e que seria um grande dia para todos.
— Achas injusto conceder o trono ao meu campeão? Ao homem que salvou-nos da Irlanda? Não achais, senhor, que tu sim estás sendo injusto por tentar obrigar-me a não lhe conferir tal honra? Sois um bando de ingratos! Isto sim!
— O rei Marcos está certo! Tristão é digno do trono por sua coragem! — replica Sir Bermond, um dos que eram favoráveis a Tristão.
— Ora! Se queres tanto ter um herdeiro? Por que não te casas e dá à Cornualha um herdeiro de verdade? — Fala um outro conselheiro, de nome Gondoine.
— Não me casei e não será agora, em avançada idade, que hei de me casar. — replica-lhe o rei.
— Tio! Por Deus! — suplica-lhe Tristão ao perceber o mal estar que a notícia causou à Corte. — Eles têm razão... Eu não posso ser teu herdeiro...
— Tolices! Eu dito as ordens nestas terras e quero que me sucedas ao trono, quando eu me for!
Lancelote toma a palavra.
— Senhores, por favor... Temos assuntos mais urgentes a tratar, deixemos discussões de sucessão para outra ocasião! Mesmo por que, devo lembrar-lhe Dom Marcos... Estás na Cornualha como regente da senhora Morgana, meia irmã de nosso rei. E se alguém deve sucedê-lo, terá de ser aprovado por ela e ao que me consta, ela tem um filho...
Marcos ficou calado; Lancelote lembrou-lhe uma coisa que, há muito, ele tinha se esquecido...
— Ora! A senhora de quem falas pouco se importa com estas terras, só dedica-se à Avalon.
— Mas ela é a legítima herdeira, juntamente com o seu filho, o pequeno Mordred, que está sendo criado por minha mãe em Orkney — comenta Gawain.
Audret ficou pálido. Lancelote estava certo; a Cornualha já tinha um herdeiro e viu que nem ele, se quisesse, poderia roubar-lhe o direito de tomar o trono, a não ser que o próprio Mordred morresse...
A cabeça de Audret dera mil voltas: se Mordred morresse, o trono ficaria sem o seu herdeiro, mas com certeza, Tristão seria um forte candidato a sucedê-lo, dado à decisão irredutível de Marcos, uma vez que Morgana pouco importava-se com a Cornualha; ela só se dedicava à sua deusa pagã e medíocre, na misteriosa ilha das fadas e talvez nem mais se lembrasse da sua nobreza.
Audret sentia-se tão desprezado, que a sua antipatia por Tristão acabou tomando ares de um ódio mortal por ele, a partir daquele dia.
“ Preciso arrumar um meio de acabar com a reputação de Tristão, custe o que custar... e quanto a Mordred, cuidarei dele mais tarde e assim, o trono da Cornualha será meu...” — pensa Audret de forma diabólica.
O invejoso primo não perdeu tempo; antes de acabar a festa, começou a incutir coisas absurdas e infâmias sem conta à mente daqueles que eram contra Tristão.
— O que estás dizendo, Sir Audret? Ele serve a Satanás? — espanta-se Gondoine.
— E o que achas, meu caro, depois dele suportar aquela chaga e voltar curado? Eu mesmo vos digo, por minha fé... — e que o céu caia sobre a minha cabeça, se estiver mentindo —... eu mesmo já o ouvi proferindo palavras profanas e exaltando “aquele” que não deve ser nomeado... — mente ele.
— Por Deus! Estaremos perdidos, se um homem como ele subir ao trono! — escandaliza-se Guenelon, um outro barão conselheiro, que ocupava o cargo de chanceler do rei.
— Nem em Mordred eu confio, amigos — complementa Audret, aproveitando-se da situação. — Sua mãe é uma feiticeira pagã e ele, com certeza, também terá formação semelhante à dela. Nós, cristãos, não podemos permitir que alguém como Mordred, assuma nossa terra, pois com certeza será a morte para todos nós. Ele será tão péssimo regente quanto Tristão, pois ambos seguem a mesma crença profana e exaltam o Inimigo declarado de Nosso Senhor! Oh, que Deus nos ajude! — exclama Audret.
— E o que faremos, senhor Audret? Diga-nos! — pergunta Denoallen.
— Devemos extirpar gente desta laia de nosso solo. Precisamos de um herdeiro cristão e justo...
— Então, ninguém melhor do que vós — fala Gondoine.
— Não, eu não ouso desejar isto! Eu não sou digno! — diz Audret, fingindo-se de santo.
— Não conhecemos ninguém mais digno — replica Gondoine.
— Eu ainda acho que o melhor seria meu tio casar-se e ter o seu próprio herdeiro, pois jamais pensei em cobiçar-lhe o trono. Longe de mim tal pretensão!
— Mas quem seria a escolhida para desposá-lo? — observa Guenelon.
— Terá que ser uma mulher bem jovem, para que possa dar-lhe muitos filhos — afirma Denoallen.
— Precisamos agir com cautela, senhores... Alto lá! Aí vem o rei! — avisa Audret ao ver o tio aproximar-se.
— Audret, viste Tristão? Desde o almoço que não o vi mais.
— Não, meu tio. Vai ver, está tomando um pouco de ar.
— Lancelote quer falar-nos sobre a ameaça dos saxões e gostaria que ele estivesse conosco; é importante que todos nós fiquemos a par da situação de guerra iminente e quero a presença de vós também, meus barões e amigos de longa data. Será uma reunião muito importante que irá ocorrer amanhã; agora, preciso encontrar Tristão e avisá-lo também.
— Asseguro-te que estaremos presentes, my lord — promete Denoallen.
Tristão sentia-se extressado com a confusão que se formara durante o banquete de boas-vindas dos dois cavaleiros. Pensando em fugir um pouco daquela turbulência, foi até uma sacada do castelo para respirar um pouco; tal como dissera Audret.
Basílica seguia-o para onde quer que fosse e encontra-se com ele no tal lugar.
Ele pegara a sua harpa e dedilhava a sua música preferida, a música que fizera para sua doce Isolda.
— É tão suave e tão mágico! — diz-lhe a prima ao ouvir a melodia. — Mas triste também...
— Basílica?! — Tristão pára de tocar ao vê-la.
— Oh, não. Por favor, não pare. É uma música tão bonita!
Tristão, como era gentil e cortês, continua tocando. Basílica senta-se ao seu lado e, de propósito, aproxima-se dele de forma estratégica, de modo que o rosto de Tristão ficasse bem próximo de seus seios fartos. Foi nesta hora, que Tristão percebera-lhe enfim as reais intenções.
— Senhora, o que estás fazendo?
— Aproximei-me para ouvir melhor, por quê? Não posso? — disfarça ela fingindo inocência.
— Não é preciso que faças isto. É só pedir que tocarei mais alto — diz ele levantando-se e demonstrando um grande incômodo.
— Pra quê tanto medo, meu caro? Não há mal algum em ficarmos mais próximos. Somos parentes... — ela também se levanta e achega-se a ele mais uma vez.
— Por isso mesmo. Por ser minha parenta, devo-te respeito — fala ele esquivando-se.
— Oh ,Tristão! Estou tão triste por tudo que me aconteceu há duas semanas atrás. Sinto-me tão só... — apela Basílica para o sentimentalismo.
— Eu imagino que sim e sinto muito por teu luto, mas creio que estás perturbada também... entendo que seja muito difícil estar viúva e só, mas o corpo de teu marido ainda está fresco na sepultura, por isso não convém que... — Tristão cala-se.
— O que irias dizer, meu primo?
Basílica fica feliz; em seu íntimo, achava que Tristão sentia-se balançar por ela.
— Que não convém que, com tamanha intimidade, fiques a conversar a sós com um homem.
— Minha presença te incomoda, primo? — fala ela tentando aproximar-se de novo.
— Desta forma sim — diz ele esquivando-se outra vez.
— Ora! — ri ela, achando aquela brincadeira de gato e rato muito divertida. — Eu ainda sou muito jovem e preciso de alguém que me defenda! As mulheres precisam de proteção, sabe? E sinto-me muito desprotegida... Vais te negar a defender uma dama, cavaleiro? — brinca ela de forma maldosa e sedutora, atraindo-o para si.
— Não preciso defender-te porque não estás em apuros — Tristão afasta-a de si e sai.
Basílica sente-se humilhada com a atitude dele e fica possessa. Tomada de despeito, segue atrás dele, e não medindo as palavras, ofende-lhe no seu orgulho.
— O que há convosco? Preferis os rapazes, senhor?
A primeira coisa que veio-lhe à cabeça era esbofeteá-la, mas Tristão era cortês demais para fazê-lo. Vira-se então, e vermelho de cólera, segura Basílica fortemente pelo punho e aperta-o. Ela sente-lhe a força e o seu punho, ficara dolorido sob a pressão de seus dedos.
— Não. Prefiro as moças, mas somente as que me agradam, o que não é o teu caso, prima — diz-lhe Tristão devolvendo-lhe a humilhação.
— Solte-me! Estás me machucando! — grita ela e Gawain, que continuava a beber, ouve-lhe o grito.
— Ei! Alto lá! — berra ele levantando-se cambaleante da mesa. Estava completamente bêbado.
— Gawain! — Lancelote tenta impedir-lhe.
Com dificuldade, Sir Gawain tenta puxar da espada.
— Pelo que vejo, o novato ainda precisa aprender boas maneiras e ninguém melhor do que eu para ensiná-lo! Não é assim que se trata uma dama!
Tristão solta a prima e encara o cavaleiro bêbado e vacilante diante de si.
— Não sabeis do que se trata, senhor, por isto, não antecipe o julgamento — fala Tristão altivo e cheio de coragem.
Sir Gawain saca da espada e quase cai pra trás, mas consegue firmar-se.
— Ora! — ri ele. — Então que tal me contares para que eu possa julgar-te, senhor?
— É assunto de família e não vos diz respeito.
— Ora, seu moleque atrevido eu vou...
— Gawain, pare! Nós viemos em paz, por isso, nada de confusões aqui! — diz-lhe Lancelote, tirando-lhe a espada e segurando-o.
— Me deixa, Lancelote! — retruca Gawain soltando-se do amigo. — Ele estava maltratando esta bela dama. Campeão da Cornualha?! Pois sim! Sorte de principiante, digo com certeza! De cavaleiro, ele não tem nada!
— Não darei crédito às vossas palavras, senhor, porque sei que não estais gozando plenamente de vossas faculdades mentais, por conta do vinho — fala Tristão tentando resolver pelo diálogo. Ele não queria arrumar briga com um membro famoso da Távola Redonda.
Os olhos de Basílica se iluminaram. Ver a confusão que havia se formado por causa dela, era prazeroso e, para lançar mais lenha à fogueira, ela começa a chorar, o que tirou mais ainda a Sir Gawain do sério.
— Veja só o que fizeste? A dama chora por tua causa, infame!
— Pare, Gawain! Meça as tuas palavras...
Sir Gawain empurra Lancelote e toma novamente a espada.
— O que há, rapaz? Estás com medo de mim, “cavaleirinho”? — fala o experiente cavaleiro em tom pejorativo. — Vamos patife! Saque de vossa lâmina se for homem!
— Não vou sacar minha espada, contra um cavaleiro de meu soberano Arthur! Não me deste motivos para tanto, senhor...
Tristão tenta afastar-se. Gawain insiste e humilha-o ainda mais.
— O quê? Ousais dar-me as costas? Queres que eu vos dê motivos, pois vos darei! Estou vos desafiando para um duelo, meu caro! E um cavaleiro de verdade jamais se nega a aceitar um desafio! Só se não fores um cavaleiro de verdade e sim, um maricas! Aliás, para mim, é isto que sois! UM MARICAS!!!! Até o nome combina com estas condições: Tristão, o infeliz, o coitadinho! O que nasce sob má-estrela, pobre homem...
Tristão não suportou mais e sacou da espada.
— Agora sim!!! Estás falando a minha língua!!!! — vibra Gawain.
Lancelote interpõe-se entre os dois e clama para que parem.
— Parem!!! Gawain, chega!!!
Ao ver a confusão, todos se amontoaram para ver a cena e se acotovelavam para conseguir o melhor ângulo. Aliás! Ver o campeão da Cornualha bater-se contra um membro da Távola Redonda era excitante...
Basílica aproveitara a confusão para afastar-se e ficou à parte, aguardando o desfeche do quadro que ela mesma criara. Audret achava tudo aquilo muito divertido e torcia para que o famoso cavaleiro poupasse-lhe do trabalho de matar Tristão.
— Mas o que é isso, senhores? — grita o rei Marcos ao ver os ânimos exaltados. — Para quê toda esta pilhéria? Por Deus! Somos amigos e civilizados e não precisamos disso! Tristão, meu sobrinho, guarda a espada!
Tristão prontamente faz o que o tio lhe pede, pois devia-lhe obediência acima de tudo. Por um momento, tudo se acalmara. Até Gawain estava mais calmo.
— Deves poupar-se para a guerra que virá, Tristão, e não terás aqui a rainha da Irlanda, para devolver-lhe à vida — brinca o tio aconselhando-o.
— A rainha da Irlanda, Bah! — ri o cavaleiro Gawain, deixando escapar sem querer. — Uma feiticeira, isso sim! Aposto que já se deitou com muitos nos rituais de Beltane, mesmo depois de casada, sem que o rei soubesse! E Anguish Gormond é outro maricas como este aí!
Essa foi a gota d’água. Tristão agarra-o de forma violenta e defende o rei da Irlanda e sua esposa.
— Limpe esta tua boca imunda ao falar do rei Anguish e de sua esposa, a rainha Isolda!
— Tristão! — berra Marcos assustado.
— Sir Tristão, por favor! Sabes que Gawain está bêbado e não sabe o que diz! — pede-lhe Lancelote.
— Tire suas mãos de mim, seu novato! — ele quase cai. — Acha que falei alguma mentira? Eu sei bem o que todas estas sacerdotisas são na verdade! Elas não passam de prostitutas!!! — diz o cavaleiro abaixando o nível.
E Tristão, que já ouvira falar da má fama da mãe dele...
— Pelo jeito, elas não são muito diferentes de vossa mãe, senhor! Afinal! A fama da rainha de Orkney também não é das melhores... — Tristão baixa o nível também, o que tira mais uma vez o cavaleiro Gawain do sério.
— O quê?!! Ousais ofender minha mãe, seu vadio?!
— De novo não... Pára Gawain!!!! Chega de confusão! PAZ!!!
— Ele ofendeu minha mãe!
— E tu o ofendeste muito mais primeiro! E pior! Ofendeste minha mãe também! Ou esqueceste que sou filho da senhora do Lago e benfeitora de nosso rei? Ela é a mais alta sacerdotisa da antiga religião e filha do Merlin da Bretanha! Eu deveria varar-lhe também com a minha espada, por tamanha afronta! Só não o farei, porque somos irmãos de armas e pertencentes da mesma Távola! — replica-lhe Lancelote.
— Muito bem. Agora não é hora para isso, mas exijo que enfrente-me Sir Tristão. Não posso deixá-lo impune depois do que disseste — insiste Gawain.
— Se assim deseja, senhor... escolha a data e a hora que o enfrentarei; também ofendeste aquela que, apesar de tudo, devolveu-me à vida com suas artes mágicas e o homem que considero como um amigo.
— Pois que seja amanhã, assim que o sol nascer — escolhe o cavaleiro de Arthur. — E rezai durante toda a noite para que encomendes a tua alma a Deus, pois hoje será o teu último dia de vida, novato — provoca-lhe Gawain.
E conforme o combinado, na manhã seguinte Tristão enfrentaria Sir Gawain. Mas Sir Gawain estava tão bêbado quando combinaram o embate que, na hora que Lancelote veio acordá-lo para arrumar-se, ele nem se lembrava mais do fato.
— O que é isso, Lance? — espanta-se Gawain ao ver Lancelote trazer-lhe a armadura e as armas, junto com o seu escudeiro.
— Ora essa! Não te lembras, insano? — critica-lhe o amigo. — Tristão vos espera para um duelo de vida e morte.
— Duelo?! — exclama confuso. — Ai! Minha cabeça! Que ressaca! Do que estás falando?
— Ontem, como bebeste tal qual um porco, acabaste ofendendo a Sir Tristão e ele a ti; no fervor da discussão, tu o desafiaste para um combate. Agora, ele vos espera na arena.
— Eu não me lembro de nada!
— Se te lembras ou não, pouco importa agora. O desafio foi lançado diante de várias testemunhas e deve ser cumprido.
— Ora! Pois muito bem! Se é assim, eu vou e acabo logo com ele.
— Não subestime os oponentes, Sir Gawain. E muito menos este, que venceu o gigante irlandês.
— Bah! Sir Morholt era um desafio pequeno diante de mim...
Lancelote meneia a cabeça de forma negativa e inconformada; Sir Gawain, sempre muito convencido, não tomava tendência e esta era a sua maior fraqueza e um dia, poderia ter uma grande surpresa.
Tristão o esperava, tal como Lancelote dissera. O rei Marcos dera-lhe sua nova espada, já que a dele estava quebrada desde que enfrentara Sir Morholt.
Basílica procurou o lugar mais privilegiado; afinal, se aqueles homens estavam prestes a se enfrentarem em combate, foi por culpa exclusiva dela e não queria perder o grande acontecimento.
Audret estava confiante de que vencer Tristão seria fácil para Sir Gawain, dada à sua vasta experiência como cavaleiro. Ambos se enfrentariam em um duelo clássico: Cavalo e lança, e depois a espada. Esse tipo de luta era chamado de “Justa”.
Tal duelo seguia um método que, primeiro, consistia em investirem um contra o outro sobre cavalos e de lança em punho e depois, quando um dos adversários era derrubado da montaria, o outro, que mantinha-se firme, apeava do animal e desembainhava a espada para o combate corpo o corpo. A luta só terminava quando um era desarmado e assim, reconhecendo a sua derrota, entregava-se à morte pela espada do oponente.
Não pretendo ater-me a dar detalhes sobre o embate, uma vez que é longa e penosa uma luta como essa. A todos é necessário dizer que, Tristão surpreendeu aos que assistiam e conseguiu sair vitorioso, para desespero de uns e felicidade de outros. Mas na hora de desferir o golpe de misericórdia, ele recusou-se a fazê-lo.
— O que estás esperando, homem? Acabe com isso de uma vez, pois estou em tuas mãos. — reconhece Gawain, já imaginando a espada de Tristão descendo com força e cortando o seu pescoço.
Ao invés de matá-lo, Tristão lança a espada ao chão. Ele tinha este direito, já que a vida de Gawain pertencia às suas mãos agora.
— O que estás fazendo? O que significa isso, covarde? — enfurece-se o experiente cavaleiro.
— Podes chamar-me covarde, Sir Gawain, mas já provei a minha valentia e não quero privar meu senhor Arthur, de um de seus mais estimados cavaleiros — fala Tristão afastando-se.
Lancelote sentia-se aliviado pela demonstração de sensatez do jovem Tristão. Gawain via-se tão humilhado que insistia para que Tristão o matasse.
— Isto é muita humilhação! — berra inconformado. — Além de derrotar-me, ainda priva-me de uma morte digna?!! Sir Tristão, conjuro-te! Termine o que deveis fazer!!!
— Chega, Gawain! — ordena Lancelote. — Sir Tristão já fez sua escolha!
Tristão aproxima-se do tio, que estava lívido e sem falas, e ajoelha-se diante dele dando por encerrada a luta.
— A cada dia que passa, tu me surpreendes ainda mais, caro sobrinho — elogia-lhe o rei.
Audret ficou possesso, mas tentou controlar-se e não demonstrar o grande desgosto que sentia. Basílica também ficou surpresa e sem ação; e muito contrariada, afasta-se da arena. Daquele dia em diante, tornara-se mais uma inimiga declarada de Tristão e pensava numa maneira de vingar-se daquele homem, que ousou desprezar o seu amor.
— Eu não acredito! O maldito venceu! — fala ela indignada.
Audret ouve ela queixar-se.
— Pelo jeito, minha cara prima também ficou surpresa com a vitória de Sir Tristão? — surpreende-lhe Audret.
— Dom Audret?! Eu não quis dizer isso...
— Ora, deixe estar minha cara, eu mesmo não nutro muita simpatia por Tristão — fala ele para tranqüilizá-la.
— Não — gagueja ela incrédula.
— Assim como também não consigo compreender como ele pode desprezar o amor de tão bela dama!
Audret toca-lhe a face. Basílica sente-se enaltecer com o galanteio.
— Me achais tão bela assim? — fala ela de modo sedutor.
— Sem dúvida... Quero fazer-vos uma proposta.
— Proposta?!
— Quero acabar com Tristão, desacreditá-lo perante a Corte, mas vou precisar de ajuda...
— Então, queres minha ajuda para destruí-lo?
— Depois que ele surgiu, meu tio nunca mais foi o mesmo comigo. Marcos agora só respira Tristão; tudo ele faz por Tristão e isto está me incomodando profundamente. E creio que minha prima querida também se sente incomodada por Tristão desprezá-la.
— Nunca homem algum resistiu aos meus encantos. Sempre tive muitos amantes... Tristão foi o único que ousou fazer isso.
— Então, junte-se a mim Basílica, ajude-me a destruí-lo e vingue-se de todo desprezo que ele devotou-lhe.

Lancelote, quando teve uma chance, chamou Tristão à parte, para agradecer-lhe.
— Obrigado por não matar a Sir Gawain, Sir Tistão.
— Não havia necessidade para tanto, senhor. E o que disse a Gawain, mantenho com firmeza.
— O rei Arthur ficará feliz por não perder tão valoroso parente e companheiro — comenta Lancelote. — E juro-te, amigo, vou exaltar-te as virtudes diante do Grande Rei e seria uma grande honra, tê-lo conosco na batalha de Monte Badon.
— Por certo que irei, se meu rei assim quiser — promete o jovem.
Durante muito tempo, o fato de Tristão ter vencido Sir Gawain permaneceu na boca de todos os súditos da Cornualha. Foi outro feito tão marcante e memorável quanto a derrota de Morholt.


Nenhum comentário:

Postar um comentário