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domingo, 15 de junho de 2008

Capítulo 8 : A Conspiração de Audret - 3ª parte

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Sem perder tempo, na manhã seguinte, o duque Audret reúne todos os barões e vassalos do rei Marcos, conseguindo que uma boa parte deles ficassem contra Tristão e exigissem que o rei repensasse em sua decisão de não casar.
Há muito Audret desejava atingir Tristão de alguma forma e Isolda, seria a chave para conseguir a sua vingança.
— Meus senhores... A Irlanda é um país rico e tem interesses nestas terras — Começa ele.— Ao invés de um regime de servidão, ofereceríamos uma aliança que nos proporcionaria maiores benefícios.
— E a Irlanda concordaria com isso, depois do que houve? — rebate um dos homens incrédulos.
— E por que não? — insiste o duque. — Forjando alianças os países são beneficiados, ao contrário da guerra, que só traz miséria e prejuízo para ambos os lados. Tudo é uma questão de negociação, senhores.
— E qual seria tua proposta, Sir Audret? — pergunta um outro.
— Creio que é interesse de todos gerar estabilidade em nossa Cornualha. Para isso, é necessário um herdeiro legítimo. Isolda é a princesa da Irlanda e como é jovem, tem condições de gerar muitos filhos. Sugiro que façamos com que o rei Marcos concorde em desposá-la e nos dê um legítimo herdeiro do trono! Eis a aliança que proponho com a Irlanda!
— Mas Sir Lancelote disse-nos que já existe um herdeiro.
— Sim eu sei. Porém, numa época de guerras, não sabemos se o herdeiro da Cornualha sobreviverá para assumir o trono. Na falta do herdeiro, o filho de Marcos seria o primeiro na linha de sucessão, uma vez que Marcos é o único parente vivo mais próximo do antigo dono destas terras, o barão Gorlois.
— É verdade, senhores — intromete-se Denoalan. — O rei Marcos é primo irmão do nosso saudoso barão. Ele e sua descendência têm direitos sobre este trono.
Ao ouvirem as palavras de Denoalan, os membros do conselho apoiaram a proposta de Audret.
Ocorre então que, assim que o rei Marcos regressa da viagem, os barões e vassalos exigem que ele se case e desse ao trono um possível sucessor e herdeiro legítimo; e fizeram de Audret, o porta-voz da exigência. Rei Marcos tentou fugir, mais uma vez à responsabilidade, mas os barões foram persuasivos e insistiram na aliança com a Irlanda, sugerindo-lhe casamento com a princesa Isolda, em troca da fidelidade deles.
— Casar-me com Isolda? — espanta-se o rei. — Isto não faz sentido! Sempre existiu entre a Cornualha e a Irlanda um atrito muito grande; ficamos anos e anos numa guerra, que parecia não ter fim e agora, querem que eu me case com a filha de nossos inimigos?! Os reis da Irlanda jamais concordarão com isso.
— Em se tratando de negócios, qualquer desavença poderá ser desfeita, meu senhor — insiste Audret. — Seria um acordo de paz entre os dois reinos inimigos, depois do que houve. E mesmo apesar da morte de Sir Morholt, o rei Anguish já reconheceu de forma oficial, que a derrota de seu campeão ocorreu em uma luta justa.
— Como sabes disso? — pergunta Marcos incrédulo.
— Durante vossa ausência meu tio, o rei da Irlanda mandou-nos um mensageiro que, de viva voz, passou-nos a atual posição de Anguish, em relação ao ocorrido — mente ele descaradamente. — A Irlanda é muito rica, senhor, e seria muito proveitoso à Cornualha unir-se a um reino como esse. Ela só perde para a bela e dourada Camelot do rei Arthur, em matéria de beleza e riqueza! Acho que o casamento poderia ser muito bem negociado entre as partes. E Isolda é jovem; poderá dar-te muitos filhos.
— E quem seria o negociador diante do trono irlandês, duque Audret? — ironiza o tio.
— Tristão, meu senhor — responde Audret com um sorriso atravessado e irônico, já imaginando em que bela armadilha o primo dele cairia. — Não confias tanto nele? Ademais... ele já esteve na Irlanda, quando precisou curar-se daquela chaga, por isso, conhece como ninguém o povo daquelas terras e facilmente conseguiria negociar a mão da princesa.
— Tristão seguiu para Camelot. Ele vai lutar em Monte Badon com o rei Arthur e seus cavaleiros, e só Deus sabe por quanto tempo.
— Pelo que ouvi dizer, não durará muito. O rei Arthur reuniu um grande contingente de guerreiros, sob a bandeira do” Pendragon”e conseguirá, facilmente, derrotar os inexperientes saxões. Todos estão muito confiantes no poder bélico de nosso rei. Acho até proveitosa a ausência de Tristão; assim meu tio poderá pensar melhor e, se decidir desposar Isolda, Tristão já terá regressado da batalha e poderá negociar o casamento e buscá-la para ti, meu senhor.
Marcos fica pensativo.
— O tempo corre à uma velocidade exorbitante, senhor meu tio. Já não sois mais moço como antes... Assim que Tristão voltar, seria muito bom já teres pensado sobre o caso e dar uma resposta aos teus vassalos e barões conselheiros.
De fato, Marcos não era jovem para os padrões da época, apesar de seus 55 anos. Foi eleito como regente provisório da Cornualha aos 21 anos e preocupado com a guerra contra a Irlanda, que encontrava-se no auge, nunca pensou em casar-se e agora, com a idade avançada, muito menos. Tudo soava muito estranho para ele.
— Muito bem — diz ele enfim. — Pensarei sobre o caso e assim que Tristão voltar, prometo que darei a minha resposta.
O rei dispensa o sobrinho e recolhe-se em seus aposentos, pois queria descansar da longa viagem de Lionês à Cornualha.
Naquela noite, Audret nem dormiria e contaria ansiosamente os dias, para que a armadilha contra o primo se fechasse e foi ter com Basílica em seu quarto, para compartilhar com ela o doce paladar da vingança. Ela ainda continuava como hóspede do castelo e não conseguia compreender o desprezo de Tristão; teimosa, ainda tentou mais uma vez, conquistar-lhe o afeto, mas este desprezou-a e frustrou-a novamente. Aquilo corroía-lhe a alma e mais indignada ficara, quando Audret contou-lhe que ele amava outra mulher e que esta mulher, era a princesa Isolda da Irlanda.
— Ah, cara Basílica! O cerco irá se fechar e Tristão terá o que merece, depois de roubar-me o afeto de meu tio Marcos e desprezá-la, prima.
— Espero que estejas certo disto, senão, ficarei muito decepcionada contigo, Audret.
Ele a atrai para si e tenta beijá-la, porém, a prima desvencilha-se de seus braços; ela ainda estava muito incrédula quanto ao sucesso da empreitada.
— Calma, meu caro! Ainda é cedo para comemorarmos...
— Garanto-vos que se ficares do meu lado, não vos arrependerás. Serás bem recompensada se me ajudares, Basílica, pois farei de ti minha rainha quando eu ascender ao trono da Cornualha e terás a tua vingança, ao ver Tristão sofrer por amor à Isolda e não conseguir tê-la para si.
— Pois este é o meu maior desejo — ri ela de modo prazeroso. — E quando será isso, primo Audret?
— Muito em breve, querida.
Ambos riram juntos e Basílica, beija-lhe para selar o pacto. Tornara-se aliada e amante de Audret, agora e sonhava em ser rainha quando ele conseguisse o trono.
— Mas se o rei casar-se, terá herdeiros e o trono não será nosso — pondera ela preocupada.
— Não te aflijas, querida... Eu não deixarei que nenhum filho de Marcos suceda-o no trono — jurou o pérfido duque.
Enquanto os dois primos tramavam às suas costas, Tristão chegava finalmente à Camelot. Era magnífico contemplar a bela e dourada fortaleza do rei Arthur reluzindo ao sol da manhã, no alto cume do monte. Ao redor do castelo, pequenas aldeias tornavam-se quase cidades. Muitos vieram de longe, fugindo da ameaça saxônica, para abrigarem-se sob a sombra protetora do Grande Rei.
Os olhos de Tristão cintilaram de emoção e de todas as partes chegavam cavaleiros, bem armados, assim como ele. Para onde quer que olhasse, Tristão percebia cortejos e mais cortejos, com seus senhores à frente e suas belas damas a acompanhá-los.
O castelo de Camelot era uma construção imensa; quase que soberba com suas várias torres de tamanhos variados e as suas fortes muralhas. No cume da mais alta torre, talvez a que abrigasse o rei, pendia oscilante ao vento a grande bandeira do “Pendragon”.
— Eu não acredito... — murmura Tristão maravilhado e incrédulo. — Finalmente vou conhecer pessoalmente o Grande Rei e os membros de sua Távola! — exclama excitado.
Tristão atravessa a aldeia que cercava o castelo e reparava em todos os rostos. Eles expressavam uma grande felicidade.
Ao aproximar-se dos portões, dois sentinelas vieram interceptá-los, até por uma questão de segurança. Ainda mais por Tristão chegar sem nenhum cortejo, apenas com um tímido escudeiro, ao contrário dos outros.
— Como assim não podem me deixar passar? Se eu vim foi porque o rei convocou-me — explica Tristão. — Ou será que por vir sem um rico cortejo, não mereço tomar parte no conselho do rei?
— Caro senhor, permita-me explicar-lhe... — começa um dos sentinelas, explicando o motivo do embargue. — O rei Arthur pode ser muito amado pelos seus, mas... ele também tem seus inimigos. E creio que não seja estranho a ti que estamos sob ameaça de guerra, portanto, toda precaução é bem-vinda, não achas? Dizei-nos, antes de mais nada, senhor: Qual é a vossa graça?
— Eu sou Tristão da Cornualha e príncipe das terras de Lionês.
Os guardas arregalaram os olhos. Já ouviram falar daquele homem.
O segundo guarda, ainda foi mais ousado.
— Estranho seres um príncipe e não vir com um cortejo. Acaso sabeis, senhor, de alguém que poderá confirmar o que dizes?
— É só chamarem Sir Lancelote. Ele confirmará o que digo.
Os guardas assim fizeram. No mesmo instante mandaram um pajem chamar o cavaleiro. Lancelote, ao ouvir-lhe o nome, pediu permissão ao rei Arthur para recebê-lo e trazê-lo até a Távola.
— Ora! Ora! Eis o tão famoso campeão da Cornualha! —brinca o rei.— Por Deus, caro amigo, se avie! Vá logo recebê-lo e dar-lhe as boas vindas! — diz ele animado.
— Essa não! Terei que conviver com este fedelho, que mal saiu dos cueiros?— resmunga Sir Gawain, ainda engasgado com a derrota que sofrera de Tristão.
—Ainda não esqueceste o que ouve entre ti e o jovem cavaleiro, caro Gawain?! — debocha o rei. —Achei que tiveste um coração mais generoso e capaz de perdoar, primo!
Os cavaleiros presentes riram.
—Não achei a menor graça. — emburra-se Sir Gawain.
— Bem, querendo ou não, acho melhor acostumar-se com a idéia, pois o precioso jovem será nosso companheiro de armas nesta guerra. Ele irá conosco para Monte Badon —encerra o rei firmemente.
Do pátio do castelo, Lancelote já gritara o nome dele e dirigira-se ao portão.
—Tristão, meu rapaz! Tudo bem senhores. Deixem-nos passar.
— Perdão, Sir Tristão — desculpa-se o guarda de forma reverente.—Só estávamos cumprindo as ordens do protocolo.
—Tudo bem. Eu compreendo, senhores. — suspira ele, tentando compreender aquilo tudo e buscando ser o mais cortês possível.
— Bem-vindo Sir Tristão! É um prazer tê-lo conosco —cumprimenta-o Lancelote. — E sinto muito pelo teu pai. A notícia já chegou até nós.
— Obrigado Sir Lancelote.
—Venha. O Grande Rei está ansioso para conhecê-lo.
— E eu ao rei, senhor. Sinto-me honrado em servir ao Grande Rei neste momento.
Após acomodá-lo, Lancelote leva-o até a sala onde todos os maiores guerreiros estavam reunidos na presença do rei. Quando ele entrou, os cavaleiros se levantaram, menos Gawain. Sir Kay cutuca-lhe e ele, muito contrariado, ergue-se também. A seguir, todos se curvaram, cumprimentando-o. Tristão mal conseguia acreditar, julgava que estivesse sonhando, pois lá estava o rei Arthur, ídolo de sua juventude a sorrir-lhe, ostentando as belas vestes reais e a coroa do dragão, com a famosa espada tirada da rocha a cingir-lhe a cintura.
— Sir Tristão, é um prazer tê-lo conosco — saúda-lhe o rei. — Venha. Achegue-se a mim.
Tristão sente as pernas vacilarem nesta hora, mas obedece à ordem sem pestanejar. Emocionado, tira a espada da cintura e ajoelha-se aos pés do rei, erguendo-a.
— Minha espada a vosso serviço, meu rei e senhor de toda a Bretanha — diz ele quase sem voz e sentindo faltar-lhe o ar.
Arthur desembainha e ergue Excalibur; a sagrada lâmina reluz, pousando suavemente sobre os ombros dele.
— Eu aceito o serviço de vossa espada, Sir Tristão, cavaleiro da Távola Redonda — sorri o rei, proclamando alto e em bom tom, antes de erguê-lo de forma paternal.
Os cavaleiros ovacionaram o novo companheiro.
Tristão sentia-se muito acolhido por todos e no meio daqueles homens todos, reconhecera o rosto amistoso de Sir Lancelote, aplaudindo-o orgulhoso.
Por uns momentos, apenas por uns momentos, Tristão esquecera a morte do pai e o grande amor que deixara para trás, nas terras da Irlanda. Para ele agora, o mais importante era servir ao Grande Rei e conquistar a vitória contra os saxões. Estava disposto a dar a sua vida pela causa, caso fosse preciso.
Enquanto isso, na Irlanda, Isolda “a velha” fora ver a filha que continuava prostrada na cama e sem a menor razão de viver. Havia prometido ao marido que teria uma conversa séria com ela e levar-lhe uma ponta de esperança, contando-lhe sobre a carta que enviaram a Tristão; talvez, sabendo disso, Isolda conseguisse reanimar-se.
A notícia foi um alívio para a alma da jovem princesa.
— Vós remetestes uma carta a Tristão? — pergunta ela com os olhos marejados de lágrimas. Foi a primeira vez que Isolda voltara a falar após os funerais de Sir Morholt.
— Sim, minha filha. Depois de todo este tempo, percebemos o quanto tua felicidade é importante para nós. Por isso, eu e teu pai decidimos dar uma nova chance a Tristão e perdoá-lo pelo que houve, a ponto de entregar-lhe tua mão em casamento se for do agrado dele.
Os olhos de Isolda brilharam.
— Mãezinha... isto é verdade? — uma lágrima corre de seus olhos fundos.
A mãe fez que sim e a filha ergue-se para abraçá-la, ainda com certa dificuldade, pois Isolda estava muito fraca.
— Mamãe querida... — soluça a princesa. — obrigada... Eu amo a ti e papai, oh, como eu vos amo! E ele virá, mãe... sei que virá, porque ele me prometeu antes de partir.
“Assim espero, filha...” — pensava Isolda “a velha” preocupada.
— E então? Que tal cuidar-se e sair desta tristeza, para que quando Tristão regressar encontre-a linda e radiante como ele a deixara? — diz-lhe a mãe enxugando algumas lágrimas que afloraram em seus olhos.
— Sim. Eu preciso estar linda para o meu amado — fala a princesa cheia de esperança.
Isolda “a velha” sorri aliviada. Conseguira livrar a filha da tristeza.
— Vou pedir as criadas que te preparem um bom banho e uma boa guarnição, pelo tempo que ficaste em jejum.
Depois daquele dia, Isolda voltara a viver e logo recupera sua formosura. Esperançosa, aguardava com ansiedade o dia que Tristão voltaria àquelas terras para tomá-la como esposa e repetia para si mesma, olhando o horizonte das muralhas do castelo.
— Ele virá... Eu sei que ele virá.
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domingo, 8 de junho de 2008

Capítulo 8: A Conspiração de Audret - 2ªparte

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Lucan o conduz aos aposentos do pai. Marcos estava sentado à cabeceira da cama e segurava firme a mão de seu cunhado. Este, recomendava-lhe o seu primeiro varão, com tal carinho paternal, que Marcos sentia-se emocionado pela consideração e confiança de Rivalino.

— Obrigado por vir aqui e confortar-me na morte, meu caríssimo amigo... e por favor, seja um pai para Tristão depois que eu me for. Não lhe deixe faltar nada.

Marcos derramava lágrimas tranqüilas e jurava cuidar e zelar por Tristão.

— Tristão é o meu melhor cavaleiro e o parente mais querido depois de ti, caro Rivalino. Assim o farei. Juro-te.

Tristão ouvira tudo e comovido, aproxima-se do leito, para que seu pai pudesse vê-lo melhor.

— Meu filho... — murmura o rei moribundo.

— Meu pai... — lamenta-se Tristão.

— Dá-me tua mão, filho meu — ordena o rei estendendo o braço com certa dificuldade.

Lucan também chorava e Gorvenal, pousou a mão sobre o ombro do caçula, a fim de confortá-lo. O rei também chama-o para junto de si; queria despedir-se dos dois únicos filhos que lhe restaram na vida. Depois, num gesto único, Rivalino toma a mão de Tristão e a de Marcos, juntando-as sobre o seu peito arfante.

— Sejam como pai e filho... Este é o meu último desejo.

Os dois se olharam mutuamente e arriscaram um sorriso tímido.

Rivalino nem terminou de falar; começava a mostrar os primeiros sinais da agonia da morte e Lucan, desesperado, adiantou-se e pediu que todos saíssem por um momento. Ele queria administrar-lhe a última confissão e o último sacramento. Tementes a Deus, todos obedeceram ao padre e saíram. Enfim, confesso, perdoado e ungido, o rei de Lionês cerrara os olhos para sempre.

Lucan chama-os para dar-lhes a triste notícia. Tristão entra correndo, assim que toma conhecimento do fato e Marcos, veio a seguir. Rivalino expirara serenamente, na certeza de que havia cumprido com louvor a sua missão na terra, mas deixando um rastro de lágrimas daqueles que muito o estimaram em vida: seus filhos, Sir Gorvenal, Dom Marcos e seus súditos.

— Eis que parte um grande rei e um grande homem — desabafa Marcos fechando-lhe os olhos.

Tristão reclina-se sobre o corpo inerte do pai e chora. Lembrava-se dos poucos momentos marcantes que vivera ao lado dele e lamentava-se por não ter ficado mais do seu lado, como gostaria, por causa das adversidades que acabaram por afastá-los um do outro.

— Descanse em paz, meu pai — diz Tristão por fim.

Os sinos soaram pelo vale de Lionês, anunciando a triste notícia e os súditos lamentaram a esperada morte do rei. Muitos acorreram às portas do castelo para despedirem-se do soberano; no mais, fora um enterro simples, tal como Rivalino sempre desejou, com apenas alguns amigos e parentes.

— E agora? O príncipe Tristão assumirá o trono? — comentavam uns.

— Receio que não, por enquanto... — diziam outros — Ele foi convocado, por Arthur, para lutar em Monte Badon.

— Então, deixará alguém em seu lugar por certo. Quem será?

— Seu outro irmão é impossível, pois é religioso e o mais velho, depois dele, está morto.

— Terá que escolher um regente. Aposto que será Sir Gorvenal! — deduz uns dos que comentavam o assunto.

Sir Gorvenal seria o mais indicado, devido a sua amizade antiga com o rei e sua família, e muitos súditos o estimavam.

Naquela noite, jantaram em poucas palavras, pois os que assistiram o rei em seus últimos momentos estavam tristes, embora mais conformados.

Tristão estava sentado ao lado do tio e mal tocara na comida, Marcos estava preocupado e Sir Gorvenal, em frente a Tristão, imaginava muito bem o que ele sentia naquele momento, ao olhar agora para a cadeira vazia do seu pai à cabeceira da mesa.

“Pobre garoto! — pensava o bom Gorvenal. — Levara duas apunhaladas da vida, seguidas uma da outra...”

Dom Marcos resolve quebrar o silêncio.

— Filho... — diz-lhe o tio tocando em sua mão — o que pretendes fazer agora?

— Penso em pedir vossa permissão, meu tio e senhor, para seguir até Camelot e tomar parte no conselho de guerra do Grande Rei.

— Eu sinto muito por isso, porém, sois um guerreiro, meu caro sobrinho, e não posso opor-me quanto a isto. O Grande Rei está reunindo em torno de si, os cavaleiros mais jovens e valentes, dispostos a lutar frente à ameaça saxônica e tu, pelos teus merecimentos e tua bravura, foste um dos eleitos do Rei. Tens minha permissão para partir quando desejares, Tristão.

— Obrigado, meu tio.

— Que o Senhor te abençoe e te guarde nesta decisão, meu irmão — fala Lucan.

Tristão sorri um pouco, mas depois, seu semblante tomara ares sérios outra vez.

— Sir Gorvenal...— pede-lhe o príncipe. —... Não posso assumir o trono agora, pois tenho assuntos urgentes a tratar, sendo assim, peço-te em nome da amizade que sempre dispensaste ao meu finado pai: cuide do nosso reino, durante a minha ausência.

— Assim o farei, alteza.

— Quando pretendes partir? — pergunta-lhe seu tio.

— O mais breve possível, meu tio.

E Tristão segue para Camelot, Lucan volta ao monastério onde vivia, Marcos ainda ficou um pouco em Lionês, auxiliando Sir Gorvenal e depois, regressou à Cornualha.

Na Irlanda, com a falta de notícias de Tristão, Isolda mergulhara numa terrível depressão. Não queria mais comer, nem participar das festas e não mais brincava com o pequeno Huddent. Os reis, achando que fosse falta de um bom casamento, tentaram arranjar-lhe um pretendente, contudo, Isolda não aceitou nenhum deles.

“Pelo jeito, a situação é mais grave do que pensamos...” — imaginaram os reis.

Uma noite, o rei Anguish e sua esposa conversaram sobre o fato.

— Não há como negar. Isolda sente a falta dele — fala o rei à esposa.

— Como pode amá-lo, depois que soube que Tristão assassinou o tio dela?

— Isolda querida. Ela o ama e pronto. Acho que deveríamos esquecer o que houve e, por nossa filha, permitir que Tristão venha vê-la antes que seja tarde.

Isolda “a velha” ainda relutara um pouco, por causa do seu régio orgulho, mas vendo a piora da filha a cada dia, percebe que realmente seria o mais sensato a ser feito.

— E será que ele viria, depois de o expulsarmos daqui? — pergunta a rainha.

— Eu creio que sim, minha senhora. Tristão também a ama.

Assim, sem demora, o rei da Irlanda remete uma carta a Tristão, enviando-a por intermédio de um mensageiro, porém, foi o duque Audret que recebeu a carta, uma vez que estava à frente do reino da Cornualha.

— Tristão é meu primo e eu cuidarei para que a carta seja-lhe entregue, quando ele regressar à Cornualha. Não vos preocupeis, senhor.

O mensageiro despede-se e confiando na missão bem cumprida, regressa ao seu país.

Audret entra em seus aposentos e fecha-se.

— Ora! Ora! Uma carta do rei da Irlanda?! Deve ser bem interessante...

Audret abre a carta e lê; a cada linha, começa e ter ímpetos de risadas parecendo um alucinado.

— Eu não acredito! “Caríssimo Tristão... Venho informar por meio destas linhas que tanto eu, quanto minha esposa a rainha Isolda, entendemos tuas razões e o perdoamos pela morte de nosso parente. Compreendemos que tudo fizeste, em prol do bem de um povo.

Isolda, nossa filha, confessou-nos tudo. Sabemos que tanto tu quanto ela se amam profundamente e senti-mo-nos honrados com a notícia e nos arrependemos amargamente, por ter-vos separado por causa de uma mágoa que poderia ser quebrada, dada às condições do justo combate que travaste com Sir Morholt.

Sendo assim, pedimos também perdão e que, por favor, venha ver Isolda. Ela está mergulhada em profunda tristeza e tememos por sua vida e sua saúde. Se for do teu agrado, e creio que seja, estamos dispostos a ceder-te a mão de nossa filha.

Seu amigo para sempre...

Anguish Gormond, rei da Irlanda.” — termina Audret em tom sarcástico. — Ah! Que bela história de amor! É comovente! — comenta de forma debochada.— Tristão e Isolda! Isto é ótimo e perfeito para os meus planos! Oh, pobre mensageiro... confiaste em mim cegamente...

O primo de Tristão esconde a carta em seu quarto e pega uma taça de vinho, brindando a tão bela história.

— Um brinde a este amor, que jamais será concluído... — ele sorri de modo satânico e, sorvendo um último gole, joga a taça no fogo crepitante da lareira. — O trono da Cornualha será meu, caro primo e amaldiçoarás até a morte o dia do teu nascimento. A princesinha quer casar, não é? Podemos providenciar isto...

3ª parte :: Índice geral


domingo, 1 de junho de 2008

Capítulo 8: A Conspiração de Audret - 1ª parte




Passaram-se os dias e Tristão, juntamente com Dom Marcos, seu tio, receberam a notícia de que Rivalino, pai dele, estava no leito de morte; restava-lhe pouco tempo de vida. Por isso, o seu filho Tristão e o regente da Cornualha viajaram para Lionês, deixando a Cornualha aos cuidados do duque Audret.
Antes de partir às terras do pai de Tristão, Marcos organizou o cortejo funerário que levaria os restos mortais de Sir Morholt à Irlanda, deixando-o sob a responsabilidade de Sir Dinas de Lindan.
Foi a última vez que Tristão enviou uma mensagem à Isolda e pediu que Sir Dinas lhe entregasse a carta em mãos. Na Irlanda, a notícia de que Tristão havia enfrentado um dos cavaleiros de Arthur pela honra de Anguish e da rainha Isolda “a velha”, já era conhecida por todos. Estes muito se admiraram quando souberam.
— Apesar de o termos expulsado da Irlanda, sob pena de morte, ele enfrentou um dos homens de Arthur para defender-nos da sua língua maldosa e caluniadora... — comentara certa vez o rei com a esposa.
Mas Isolda “a velha” não disse uma palavra; ainda estava muito chocada e magoada. Mágoa, que foi amenizada um pouco, quando o corpo de seu irmão chegou com toda a pompa, digna do grande cavaleiro que foi um dia.
Os reis vieram receber o cortejo assim que souberam que estava chegando. Isolda estava com eles, na esperança de receber notícias de seu amado.
Sir Dinas estava à frente dos homens e descendo do cavalo, dirige-se aos reis saudando-os e mostrando-se condolente com os sentimentos deles.
— Majestades — diz-lhes Dinas curvando-se de modo reverente. — É com grande pesar que tanto o rei Marcos, quanto Sir Tristão e os irmãos da Cornualha lamentam o ocorrido por antigas contendas de nossos antepassados. E o mínimo que poderíamos fazer é devolver os restos mortais de Sir Morholt, com todas as honras que devem ser dispensadas ao grande cavaleiro que ele foi.
Isolda “a velha” começava a chorar, mas não de ódio e sim, pela consideração e reconhecimento que a Cornualha teve para com seu irmão.
O cortejo era explêndido; a arca que transportava o corpo dele parecia um rico relicário cristão, destes usados para guardar as relíquias de um Santo. Esta, estava guardada por seis cavaleiros bem armados e ostentando belíssimas armaduras de combate prateadas e brilhantes; era impossível descrever por palavras a magnitude da homenagem.
Sir Dinas olhou para Isolda e pela sua beleza indescritível, como dissera Tristão, deduzira que fosse a própria. Ele reparou que a princesa demonstrava uma grande aflição; de certo, ansiando por notícias do homem que amava, com toda a força de seu coração juvenil.
O rei Anguish acolhe-os todos e oferece-lhes a melhor hospitalidade irlandesa, tal como mandava o protocolo naquela época, pois vieram em paz. Na manhã seguinte, cuidariam do corpo de Morholt numa solene cerimônia da antiga religião. Sir Dinas e seus homens ofereceram-se para ficar e assistir ao funeral, se os reis não tivessem qualquer objeção. Sir Morholt Marhaus seria cremado, segundo os costumes dos seguidores da Deusa.
— De modo algum, senhores. Por mim, está tudo bem — concorda o rei.
Desta forma, Sir Dinas conseguira ganhar tempo para entregar à Isolda a carta de Tristão.
Em poucas linhas, Tristão expressava a tristeza que sentia por estar tão distante dela; revelava-lhe os sentimentos mais profundos e aproveitava para contar-lhe que o rei Arthur de Camelot, convocou-lhe para lutar ao lado dele na iminente batalha de Monte Badon. Isolda sente o coração pesado com a notícia e temia pela vida dele; mas antes de mais nada, Tristão era um guerreiro valente e jamais fugiria de uma luta como essa; ainda mais ao lado do Grande Rei da Bretanha. A ela só restava rezar por ele, como todas as mulheres faziam pelos seus amados.
— O que foi, minha senhora? — pergunta Brangia percebendo-lhe a tristeza. — Más notícias?
— Tristão irá lutar contra os saxões em Monte Badon. Oh, minha amiga... Estou com medo de perdê-lo para sempre.
— Não fale assim, alteza! Tristão é um exímio combatente e tenho certeza de que sairá ileso desta batalha! — exclama a criada tentando animá-la.
— Que seja como tu dizes, minha amiga.
Abaixo da última frase, Tristão assinara: “seu para sempre... Tristão”.
Isolda sentia uma terrível agonia. Queria estar com ele, abraçá-lo, beijá-lo, matar aquela saudade que sentia e dizer o quanto o amava. À sua jovem criada, confessou-lhe as intenções mais íntimas. Chegara a dizer que, se porventura, Tristão aparecesse agora diante dela, antes de seguir para a batalha, ela lhe entregaria, sem pudor, a sua virtude e seria dele esta noite. Brangia corou com a inesperada confissão.
— Senhora! — repreende-lhe envergonhada. — Cuidado com o que desejas, pois se a Deusa ouvir-te, poderá levar-te a isto! — fala Brangia de forma supersticiosa.
— Pois que Ela me ouça! Ela que é geradora da vida...
— Pare com isso, Isolda!
Após o funeral do cavaleiro irlandês, Sir Dinas de Lindan e seus companheiros de viagem despediram-se dos reis e ele, bondoso como era, ofereceu-se para levar a Tristão a resposta de Isolda à carta, no que Isolda muito agradeceu-lhe e mandou uma mensagem a Tristão, dizendo-lhe que jamais o esqueceria, e que ainda tinha esperanças de pertencer a ele algum dia.
Assim, sendo portador daquela mensagem, ele e os outros voltaram à Cornualha. Em todo o percurso, os homens do cortejo estranharam o silêncio de Dinas. Em seu interior, ele desconfiava que, entre a jovem princesa irlandesa e o campeão da Cornualha existia algo muito maior do que uma simples troca de gentilezas e agradecimentos. Porém, mantendo a discrição, sufocara dentro de si a desconfiança e seguiu o seu caminho. Haja o que houvesse entre os dois, não era da alçada dele.
Em Lionês, Tristão e Marcos acabavam de chegar, acompanhados de Sir Gorvenal e alguns cavaleiros da Cornualha. O castelo estava silencioso em respeito ao estado de seu rei.
Quatro valetes vieram recebê-los; pegaram seus mantos e as armas que portavam, levaram os cavalos dos viajantes para o estábulo a fim de alimentá-los e para que pudessem descansar da viagem, e trouxeram água para que os recém chegados se lavassem.
Tristão olha em volta e sente uma certa nostalgia ao ver novamente o seu lar. Há muito que não via aquele lugar.
— Venha, Tristão — chama-lhe o rei Marcos envolvendo-o em seus braços. Marcos sabia o quanto ele estava triste por regressar ao castelo de seu pai naquela ocasião derradeira.
Quando adentraram a sala do trono, Tristão teve uma surpresa. Sentado no amplo cômodo e rodeado das crianças que habitavam o castelo, estava um rapaz de hábito religioso e Bíblia na mão, contando a história de Moisés e os dez mandamentos para aquele grupinho atento e de olhos cintilantes. Tristão logo o reconheceu quando viu-lhe os olhos vivos e verdes; olhos semelhantes aos de sua madrasta, a rainha Eliza.
— “E então, o Senhor disse a Moisés: Toma o cajado nas mãos e bata com ele, três vezes na água, e o Egito testemunhará a Minha Grandeza...”.
— Lucan?! — exclama Tristão emocionado.
— Tristão, meu irmão! — sorri o rapaz, levantando-se para saudá-lo.— Por Deus! Não mudaste nada!
Eles se abraçaram. Há muito tempo que não se viam; desde que Lucan decidiu abraçar a vida religiosa.
Como convinha à boa educação, Tristão apresenta-lhe o rei Marcos e os dois se cumprimentaram conforme o costume, mas cansado da viagem, Marcos deixou-os a sós para que pudessem conversar e matar a saudade. Apressado, quis logo ver Rivalino.
— E Leônidas? — pergunta Tristão com esperanças.— Nosso irmão ainda vive? Nunca mais mandou notícias...
— Infelizmente não. Depois de muito tempo eu soube que ele, de fato, havia morrido.
— É uma pena...
Lucan dispensou as crianças, para que Tristão e ele pudessem conversar melhor. Elas lamentaram muito e insistiram para que ele continuasse.
— Amanhã, crianças. Amanhã eu termino a história. Prometo.
— Ah, logo agora! A história estava tão boa...— chiou uma delas, mas obedeceram ao padre Lucan.
— E tu, Tristão? Pelo que vejo, já te tornaste um cavaleiro famoso como havia sonhado.
— Nem tanto.
— És muito modesto, caro irmão. A tua fama por ter vencido o campeão da Irlanda, se espalhou por toda a Bretanha. Até o Grande Rei já sabe disso!
— Eu sei... Fui convocado por Lancelote para lutar ao lado do Rei Arthur em Monte Badon. Só ainda não fui para Camelot, por causa da saúde de nosso pai.
— Pelo jeito, os rumores da invasão saxônica tem fundamento e a guerra está cada vez mais próxima, não é?
— Sim, Lucan. Os saxões querem a Bretanha e estão reunindo um contingente cada vez maior de guerreiros, para tomarem o nosso solo. Pela narrativa de Sir Lancelote, a situação está cada vez mais aterradora e só o nosso Rei, unificando toda a Bretanha sob suas ordens, poderá derrotá-los.
— Então, que Deus permita que Arthur faça logo isso, senão, o que será destas terras, de nossas mulheres e crianças? Mas vamos! Deixemos este assunto de lado por um tempo e vamos até nosso pai. Quando soube que papai estava morrendo, o Abade dispensou-me para que pudesse vir vê-lo, assisti-lo em seus últimos momentos e dar-lhe a Extrema Unção.