Quem sou eu

Minha foto
Desejam falar comigo? *Escrevam seus comentários, que assim que puder, entrarei em contato. Eu não uso outlook.

Pelo mundo

domingo, 15 de junho de 2008

Capítulo 8 : A Conspiração de Audret - 3ª parte

Índice geral :: parte anterior

Sem perder tempo, na manhã seguinte, o duque Audret reúne todos os barões e vassalos do rei Marcos, conseguindo que uma boa parte deles ficassem contra Tristão e exigissem que o rei repensasse em sua decisão de não casar.
Há muito Audret desejava atingir Tristão de alguma forma e Isolda, seria a chave para conseguir a sua vingança.
— Meus senhores... A Irlanda é um país rico e tem interesses nestas terras — Começa ele.— Ao invés de um regime de servidão, ofereceríamos uma aliança que nos proporcionaria maiores benefícios.
— E a Irlanda concordaria com isso, depois do que houve? — rebate um dos homens incrédulos.
— E por que não? — insiste o duque. — Forjando alianças os países são beneficiados, ao contrário da guerra, que só traz miséria e prejuízo para ambos os lados. Tudo é uma questão de negociação, senhores.
— E qual seria tua proposta, Sir Audret? — pergunta um outro.
— Creio que é interesse de todos gerar estabilidade em nossa Cornualha. Para isso, é necessário um herdeiro legítimo. Isolda é a princesa da Irlanda e como é jovem, tem condições de gerar muitos filhos. Sugiro que façamos com que o rei Marcos concorde em desposá-la e nos dê um legítimo herdeiro do trono! Eis a aliança que proponho com a Irlanda!
— Mas Sir Lancelote disse-nos que já existe um herdeiro.
— Sim eu sei. Porém, numa época de guerras, não sabemos se o herdeiro da Cornualha sobreviverá para assumir o trono. Na falta do herdeiro, o filho de Marcos seria o primeiro na linha de sucessão, uma vez que Marcos é o único parente vivo mais próximo do antigo dono destas terras, o barão Gorlois.
— É verdade, senhores — intromete-se Denoalan. — O rei Marcos é primo irmão do nosso saudoso barão. Ele e sua descendência têm direitos sobre este trono.
Ao ouvirem as palavras de Denoalan, os membros do conselho apoiaram a proposta de Audret.
Ocorre então que, assim que o rei Marcos regressa da viagem, os barões e vassalos exigem que ele se case e desse ao trono um possível sucessor e herdeiro legítimo; e fizeram de Audret, o porta-voz da exigência. Rei Marcos tentou fugir, mais uma vez à responsabilidade, mas os barões foram persuasivos e insistiram na aliança com a Irlanda, sugerindo-lhe casamento com a princesa Isolda, em troca da fidelidade deles.
— Casar-me com Isolda? — espanta-se o rei. — Isto não faz sentido! Sempre existiu entre a Cornualha e a Irlanda um atrito muito grande; ficamos anos e anos numa guerra, que parecia não ter fim e agora, querem que eu me case com a filha de nossos inimigos?! Os reis da Irlanda jamais concordarão com isso.
— Em se tratando de negócios, qualquer desavença poderá ser desfeita, meu senhor — insiste Audret. — Seria um acordo de paz entre os dois reinos inimigos, depois do que houve. E mesmo apesar da morte de Sir Morholt, o rei Anguish já reconheceu de forma oficial, que a derrota de seu campeão ocorreu em uma luta justa.
— Como sabes disso? — pergunta Marcos incrédulo.
— Durante vossa ausência meu tio, o rei da Irlanda mandou-nos um mensageiro que, de viva voz, passou-nos a atual posição de Anguish, em relação ao ocorrido — mente ele descaradamente. — A Irlanda é muito rica, senhor, e seria muito proveitoso à Cornualha unir-se a um reino como esse. Ela só perde para a bela e dourada Camelot do rei Arthur, em matéria de beleza e riqueza! Acho que o casamento poderia ser muito bem negociado entre as partes. E Isolda é jovem; poderá dar-te muitos filhos.
— E quem seria o negociador diante do trono irlandês, duque Audret? — ironiza o tio.
— Tristão, meu senhor — responde Audret com um sorriso atravessado e irônico, já imaginando em que bela armadilha o primo dele cairia. — Não confias tanto nele? Ademais... ele já esteve na Irlanda, quando precisou curar-se daquela chaga, por isso, conhece como ninguém o povo daquelas terras e facilmente conseguiria negociar a mão da princesa.
— Tristão seguiu para Camelot. Ele vai lutar em Monte Badon com o rei Arthur e seus cavaleiros, e só Deus sabe por quanto tempo.
— Pelo que ouvi dizer, não durará muito. O rei Arthur reuniu um grande contingente de guerreiros, sob a bandeira do” Pendragon”e conseguirá, facilmente, derrotar os inexperientes saxões. Todos estão muito confiantes no poder bélico de nosso rei. Acho até proveitosa a ausência de Tristão; assim meu tio poderá pensar melhor e, se decidir desposar Isolda, Tristão já terá regressado da batalha e poderá negociar o casamento e buscá-la para ti, meu senhor.
Marcos fica pensativo.
— O tempo corre à uma velocidade exorbitante, senhor meu tio. Já não sois mais moço como antes... Assim que Tristão voltar, seria muito bom já teres pensado sobre o caso e dar uma resposta aos teus vassalos e barões conselheiros.
De fato, Marcos não era jovem para os padrões da época, apesar de seus 55 anos. Foi eleito como regente provisório da Cornualha aos 21 anos e preocupado com a guerra contra a Irlanda, que encontrava-se no auge, nunca pensou em casar-se e agora, com a idade avançada, muito menos. Tudo soava muito estranho para ele.
— Muito bem — diz ele enfim. — Pensarei sobre o caso e assim que Tristão voltar, prometo que darei a minha resposta.
O rei dispensa o sobrinho e recolhe-se em seus aposentos, pois queria descansar da longa viagem de Lionês à Cornualha.
Naquela noite, Audret nem dormiria e contaria ansiosamente os dias, para que a armadilha contra o primo se fechasse e foi ter com Basílica em seu quarto, para compartilhar com ela o doce paladar da vingança. Ela ainda continuava como hóspede do castelo e não conseguia compreender o desprezo de Tristão; teimosa, ainda tentou mais uma vez, conquistar-lhe o afeto, mas este desprezou-a e frustrou-a novamente. Aquilo corroía-lhe a alma e mais indignada ficara, quando Audret contou-lhe que ele amava outra mulher e que esta mulher, era a princesa Isolda da Irlanda.
— Ah, cara Basílica! O cerco irá se fechar e Tristão terá o que merece, depois de roubar-me o afeto de meu tio Marcos e desprezá-la, prima.
— Espero que estejas certo disto, senão, ficarei muito decepcionada contigo, Audret.
Ele a atrai para si e tenta beijá-la, porém, a prima desvencilha-se de seus braços; ela ainda estava muito incrédula quanto ao sucesso da empreitada.
— Calma, meu caro! Ainda é cedo para comemorarmos...
— Garanto-vos que se ficares do meu lado, não vos arrependerás. Serás bem recompensada se me ajudares, Basílica, pois farei de ti minha rainha quando eu ascender ao trono da Cornualha e terás a tua vingança, ao ver Tristão sofrer por amor à Isolda e não conseguir tê-la para si.
— Pois este é o meu maior desejo — ri ela de modo prazeroso. — E quando será isso, primo Audret?
— Muito em breve, querida.
Ambos riram juntos e Basílica, beija-lhe para selar o pacto. Tornara-se aliada e amante de Audret, agora e sonhava em ser rainha quando ele conseguisse o trono.
— Mas se o rei casar-se, terá herdeiros e o trono não será nosso — pondera ela preocupada.
— Não te aflijas, querida... Eu não deixarei que nenhum filho de Marcos suceda-o no trono — jurou o pérfido duque.
Enquanto os dois primos tramavam às suas costas, Tristão chegava finalmente à Camelot. Era magnífico contemplar a bela e dourada fortaleza do rei Arthur reluzindo ao sol da manhã, no alto cume do monte. Ao redor do castelo, pequenas aldeias tornavam-se quase cidades. Muitos vieram de longe, fugindo da ameaça saxônica, para abrigarem-se sob a sombra protetora do Grande Rei.
Os olhos de Tristão cintilaram de emoção e de todas as partes chegavam cavaleiros, bem armados, assim como ele. Para onde quer que olhasse, Tristão percebia cortejos e mais cortejos, com seus senhores à frente e suas belas damas a acompanhá-los.
O castelo de Camelot era uma construção imensa; quase que soberba com suas várias torres de tamanhos variados e as suas fortes muralhas. No cume da mais alta torre, talvez a que abrigasse o rei, pendia oscilante ao vento a grande bandeira do “Pendragon”.
— Eu não acredito... — murmura Tristão maravilhado e incrédulo. — Finalmente vou conhecer pessoalmente o Grande Rei e os membros de sua Távola! — exclama excitado.
Tristão atravessa a aldeia que cercava o castelo e reparava em todos os rostos. Eles expressavam uma grande felicidade.
Ao aproximar-se dos portões, dois sentinelas vieram interceptá-los, até por uma questão de segurança. Ainda mais por Tristão chegar sem nenhum cortejo, apenas com um tímido escudeiro, ao contrário dos outros.
— Como assim não podem me deixar passar? Se eu vim foi porque o rei convocou-me — explica Tristão. — Ou será que por vir sem um rico cortejo, não mereço tomar parte no conselho do rei?
— Caro senhor, permita-me explicar-lhe... — começa um dos sentinelas, explicando o motivo do embargue. — O rei Arthur pode ser muito amado pelos seus, mas... ele também tem seus inimigos. E creio que não seja estranho a ti que estamos sob ameaça de guerra, portanto, toda precaução é bem-vinda, não achas? Dizei-nos, antes de mais nada, senhor: Qual é a vossa graça?
— Eu sou Tristão da Cornualha e príncipe das terras de Lionês.
Os guardas arregalaram os olhos. Já ouviram falar daquele homem.
O segundo guarda, ainda foi mais ousado.
— Estranho seres um príncipe e não vir com um cortejo. Acaso sabeis, senhor, de alguém que poderá confirmar o que dizes?
— É só chamarem Sir Lancelote. Ele confirmará o que digo.
Os guardas assim fizeram. No mesmo instante mandaram um pajem chamar o cavaleiro. Lancelote, ao ouvir-lhe o nome, pediu permissão ao rei Arthur para recebê-lo e trazê-lo até a Távola.
— Ora! Ora! Eis o tão famoso campeão da Cornualha! —brinca o rei.— Por Deus, caro amigo, se avie! Vá logo recebê-lo e dar-lhe as boas vindas! — diz ele animado.
— Essa não! Terei que conviver com este fedelho, que mal saiu dos cueiros?— resmunga Sir Gawain, ainda engasgado com a derrota que sofrera de Tristão.
—Ainda não esqueceste o que ouve entre ti e o jovem cavaleiro, caro Gawain?! — debocha o rei. —Achei que tiveste um coração mais generoso e capaz de perdoar, primo!
Os cavaleiros presentes riram.
—Não achei a menor graça. — emburra-se Sir Gawain.
— Bem, querendo ou não, acho melhor acostumar-se com a idéia, pois o precioso jovem será nosso companheiro de armas nesta guerra. Ele irá conosco para Monte Badon —encerra o rei firmemente.
Do pátio do castelo, Lancelote já gritara o nome dele e dirigira-se ao portão.
—Tristão, meu rapaz! Tudo bem senhores. Deixem-nos passar.
— Perdão, Sir Tristão — desculpa-se o guarda de forma reverente.—Só estávamos cumprindo as ordens do protocolo.
—Tudo bem. Eu compreendo, senhores. — suspira ele, tentando compreender aquilo tudo e buscando ser o mais cortês possível.
— Bem-vindo Sir Tristão! É um prazer tê-lo conosco —cumprimenta-o Lancelote. — E sinto muito pelo teu pai. A notícia já chegou até nós.
— Obrigado Sir Lancelote.
—Venha. O Grande Rei está ansioso para conhecê-lo.
— E eu ao rei, senhor. Sinto-me honrado em servir ao Grande Rei neste momento.
Após acomodá-lo, Lancelote leva-o até a sala onde todos os maiores guerreiros estavam reunidos na presença do rei. Quando ele entrou, os cavaleiros se levantaram, menos Gawain. Sir Kay cutuca-lhe e ele, muito contrariado, ergue-se também. A seguir, todos se curvaram, cumprimentando-o. Tristão mal conseguia acreditar, julgava que estivesse sonhando, pois lá estava o rei Arthur, ídolo de sua juventude a sorrir-lhe, ostentando as belas vestes reais e a coroa do dragão, com a famosa espada tirada da rocha a cingir-lhe a cintura.
— Sir Tristão, é um prazer tê-lo conosco — saúda-lhe o rei. — Venha. Achegue-se a mim.
Tristão sente as pernas vacilarem nesta hora, mas obedece à ordem sem pestanejar. Emocionado, tira a espada da cintura e ajoelha-se aos pés do rei, erguendo-a.
— Minha espada a vosso serviço, meu rei e senhor de toda a Bretanha — diz ele quase sem voz e sentindo faltar-lhe o ar.
Arthur desembainha e ergue Excalibur; a sagrada lâmina reluz, pousando suavemente sobre os ombros dele.
— Eu aceito o serviço de vossa espada, Sir Tristão, cavaleiro da Távola Redonda — sorri o rei, proclamando alto e em bom tom, antes de erguê-lo de forma paternal.
Os cavaleiros ovacionaram o novo companheiro.
Tristão sentia-se muito acolhido por todos e no meio daqueles homens todos, reconhecera o rosto amistoso de Sir Lancelote, aplaudindo-o orgulhoso.
Por uns momentos, apenas por uns momentos, Tristão esquecera a morte do pai e o grande amor que deixara para trás, nas terras da Irlanda. Para ele agora, o mais importante era servir ao Grande Rei e conquistar a vitória contra os saxões. Estava disposto a dar a sua vida pela causa, caso fosse preciso.
Enquanto isso, na Irlanda, Isolda “a velha” fora ver a filha que continuava prostrada na cama e sem a menor razão de viver. Havia prometido ao marido que teria uma conversa séria com ela e levar-lhe uma ponta de esperança, contando-lhe sobre a carta que enviaram a Tristão; talvez, sabendo disso, Isolda conseguisse reanimar-se.
A notícia foi um alívio para a alma da jovem princesa.
— Vós remetestes uma carta a Tristão? — pergunta ela com os olhos marejados de lágrimas. Foi a primeira vez que Isolda voltara a falar após os funerais de Sir Morholt.
— Sim, minha filha. Depois de todo este tempo, percebemos o quanto tua felicidade é importante para nós. Por isso, eu e teu pai decidimos dar uma nova chance a Tristão e perdoá-lo pelo que houve, a ponto de entregar-lhe tua mão em casamento se for do agrado dele.
Os olhos de Isolda brilharam.
— Mãezinha... isto é verdade? — uma lágrima corre de seus olhos fundos.
A mãe fez que sim e a filha ergue-se para abraçá-la, ainda com certa dificuldade, pois Isolda estava muito fraca.
— Mamãe querida... — soluça a princesa. — obrigada... Eu amo a ti e papai, oh, como eu vos amo! E ele virá, mãe... sei que virá, porque ele me prometeu antes de partir.
“Assim espero, filha...” — pensava Isolda “a velha” preocupada.
— E então? Que tal cuidar-se e sair desta tristeza, para que quando Tristão regressar encontre-a linda e radiante como ele a deixara? — diz-lhe a mãe enxugando algumas lágrimas que afloraram em seus olhos.
— Sim. Eu preciso estar linda para o meu amado — fala a princesa cheia de esperança.
Isolda “a velha” sorri aliviada. Conseguira livrar a filha da tristeza.
— Vou pedir as criadas que te preparem um bom banho e uma boa guarnição, pelo tempo que ficaste em jejum.
Depois daquele dia, Isolda voltara a viver e logo recupera sua formosura. Esperançosa, aguardava com ansiedade o dia que Tristão voltaria àquelas terras para tomá-la como esposa e repetia para si mesma, olhando o horizonte das muralhas do castelo.
— Ele virá... Eu sei que ele virá.
Capítulo 9 :: Índice geral

Nenhum comentário:

Postar um comentário