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Pelo mundo

domingo, 1 de junho de 2008

Capítulo 8: A Conspiração de Audret - 1ª parte




Passaram-se os dias e Tristão, juntamente com Dom Marcos, seu tio, receberam a notícia de que Rivalino, pai dele, estava no leito de morte; restava-lhe pouco tempo de vida. Por isso, o seu filho Tristão e o regente da Cornualha viajaram para Lionês, deixando a Cornualha aos cuidados do duque Audret.
Antes de partir às terras do pai de Tristão, Marcos organizou o cortejo funerário que levaria os restos mortais de Sir Morholt à Irlanda, deixando-o sob a responsabilidade de Sir Dinas de Lindan.
Foi a última vez que Tristão enviou uma mensagem à Isolda e pediu que Sir Dinas lhe entregasse a carta em mãos. Na Irlanda, a notícia de que Tristão havia enfrentado um dos cavaleiros de Arthur pela honra de Anguish e da rainha Isolda “a velha”, já era conhecida por todos. Estes muito se admiraram quando souberam.
— Apesar de o termos expulsado da Irlanda, sob pena de morte, ele enfrentou um dos homens de Arthur para defender-nos da sua língua maldosa e caluniadora... — comentara certa vez o rei com a esposa.
Mas Isolda “a velha” não disse uma palavra; ainda estava muito chocada e magoada. Mágoa, que foi amenizada um pouco, quando o corpo de seu irmão chegou com toda a pompa, digna do grande cavaleiro que foi um dia.
Os reis vieram receber o cortejo assim que souberam que estava chegando. Isolda estava com eles, na esperança de receber notícias de seu amado.
Sir Dinas estava à frente dos homens e descendo do cavalo, dirige-se aos reis saudando-os e mostrando-se condolente com os sentimentos deles.
— Majestades — diz-lhes Dinas curvando-se de modo reverente. — É com grande pesar que tanto o rei Marcos, quanto Sir Tristão e os irmãos da Cornualha lamentam o ocorrido por antigas contendas de nossos antepassados. E o mínimo que poderíamos fazer é devolver os restos mortais de Sir Morholt, com todas as honras que devem ser dispensadas ao grande cavaleiro que ele foi.
Isolda “a velha” começava a chorar, mas não de ódio e sim, pela consideração e reconhecimento que a Cornualha teve para com seu irmão.
O cortejo era explêndido; a arca que transportava o corpo dele parecia um rico relicário cristão, destes usados para guardar as relíquias de um Santo. Esta, estava guardada por seis cavaleiros bem armados e ostentando belíssimas armaduras de combate prateadas e brilhantes; era impossível descrever por palavras a magnitude da homenagem.
Sir Dinas olhou para Isolda e pela sua beleza indescritível, como dissera Tristão, deduzira que fosse a própria. Ele reparou que a princesa demonstrava uma grande aflição; de certo, ansiando por notícias do homem que amava, com toda a força de seu coração juvenil.
O rei Anguish acolhe-os todos e oferece-lhes a melhor hospitalidade irlandesa, tal como mandava o protocolo naquela época, pois vieram em paz. Na manhã seguinte, cuidariam do corpo de Morholt numa solene cerimônia da antiga religião. Sir Dinas e seus homens ofereceram-se para ficar e assistir ao funeral, se os reis não tivessem qualquer objeção. Sir Morholt Marhaus seria cremado, segundo os costumes dos seguidores da Deusa.
— De modo algum, senhores. Por mim, está tudo bem — concorda o rei.
Desta forma, Sir Dinas conseguira ganhar tempo para entregar à Isolda a carta de Tristão.
Em poucas linhas, Tristão expressava a tristeza que sentia por estar tão distante dela; revelava-lhe os sentimentos mais profundos e aproveitava para contar-lhe que o rei Arthur de Camelot, convocou-lhe para lutar ao lado dele na iminente batalha de Monte Badon. Isolda sente o coração pesado com a notícia e temia pela vida dele; mas antes de mais nada, Tristão era um guerreiro valente e jamais fugiria de uma luta como essa; ainda mais ao lado do Grande Rei da Bretanha. A ela só restava rezar por ele, como todas as mulheres faziam pelos seus amados.
— O que foi, minha senhora? — pergunta Brangia percebendo-lhe a tristeza. — Más notícias?
— Tristão irá lutar contra os saxões em Monte Badon. Oh, minha amiga... Estou com medo de perdê-lo para sempre.
— Não fale assim, alteza! Tristão é um exímio combatente e tenho certeza de que sairá ileso desta batalha! — exclama a criada tentando animá-la.
— Que seja como tu dizes, minha amiga.
Abaixo da última frase, Tristão assinara: “seu para sempre... Tristão”.
Isolda sentia uma terrível agonia. Queria estar com ele, abraçá-lo, beijá-lo, matar aquela saudade que sentia e dizer o quanto o amava. À sua jovem criada, confessou-lhe as intenções mais íntimas. Chegara a dizer que, se porventura, Tristão aparecesse agora diante dela, antes de seguir para a batalha, ela lhe entregaria, sem pudor, a sua virtude e seria dele esta noite. Brangia corou com a inesperada confissão.
— Senhora! — repreende-lhe envergonhada. — Cuidado com o que desejas, pois se a Deusa ouvir-te, poderá levar-te a isto! — fala Brangia de forma supersticiosa.
— Pois que Ela me ouça! Ela que é geradora da vida...
— Pare com isso, Isolda!
Após o funeral do cavaleiro irlandês, Sir Dinas de Lindan e seus companheiros de viagem despediram-se dos reis e ele, bondoso como era, ofereceu-se para levar a Tristão a resposta de Isolda à carta, no que Isolda muito agradeceu-lhe e mandou uma mensagem a Tristão, dizendo-lhe que jamais o esqueceria, e que ainda tinha esperanças de pertencer a ele algum dia.
Assim, sendo portador daquela mensagem, ele e os outros voltaram à Cornualha. Em todo o percurso, os homens do cortejo estranharam o silêncio de Dinas. Em seu interior, ele desconfiava que, entre a jovem princesa irlandesa e o campeão da Cornualha existia algo muito maior do que uma simples troca de gentilezas e agradecimentos. Porém, mantendo a discrição, sufocara dentro de si a desconfiança e seguiu o seu caminho. Haja o que houvesse entre os dois, não era da alçada dele.
Em Lionês, Tristão e Marcos acabavam de chegar, acompanhados de Sir Gorvenal e alguns cavaleiros da Cornualha. O castelo estava silencioso em respeito ao estado de seu rei.
Quatro valetes vieram recebê-los; pegaram seus mantos e as armas que portavam, levaram os cavalos dos viajantes para o estábulo a fim de alimentá-los e para que pudessem descansar da viagem, e trouxeram água para que os recém chegados se lavassem.
Tristão olha em volta e sente uma certa nostalgia ao ver novamente o seu lar. Há muito que não via aquele lugar.
— Venha, Tristão — chama-lhe o rei Marcos envolvendo-o em seus braços. Marcos sabia o quanto ele estava triste por regressar ao castelo de seu pai naquela ocasião derradeira.
Quando adentraram a sala do trono, Tristão teve uma surpresa. Sentado no amplo cômodo e rodeado das crianças que habitavam o castelo, estava um rapaz de hábito religioso e Bíblia na mão, contando a história de Moisés e os dez mandamentos para aquele grupinho atento e de olhos cintilantes. Tristão logo o reconheceu quando viu-lhe os olhos vivos e verdes; olhos semelhantes aos de sua madrasta, a rainha Eliza.
— “E então, o Senhor disse a Moisés: Toma o cajado nas mãos e bata com ele, três vezes na água, e o Egito testemunhará a Minha Grandeza...”.
— Lucan?! — exclama Tristão emocionado.
— Tristão, meu irmão! — sorri o rapaz, levantando-se para saudá-lo.— Por Deus! Não mudaste nada!
Eles se abraçaram. Há muito tempo que não se viam; desde que Lucan decidiu abraçar a vida religiosa.
Como convinha à boa educação, Tristão apresenta-lhe o rei Marcos e os dois se cumprimentaram conforme o costume, mas cansado da viagem, Marcos deixou-os a sós para que pudessem conversar e matar a saudade. Apressado, quis logo ver Rivalino.
— E Leônidas? — pergunta Tristão com esperanças.— Nosso irmão ainda vive? Nunca mais mandou notícias...
— Infelizmente não. Depois de muito tempo eu soube que ele, de fato, havia morrido.
— É uma pena...
Lucan dispensou as crianças, para que Tristão e ele pudessem conversar melhor. Elas lamentaram muito e insistiram para que ele continuasse.
— Amanhã, crianças. Amanhã eu termino a história. Prometo.
— Ah, logo agora! A história estava tão boa...— chiou uma delas, mas obedeceram ao padre Lucan.
— E tu, Tristão? Pelo que vejo, já te tornaste um cavaleiro famoso como havia sonhado.
— Nem tanto.
— És muito modesto, caro irmão. A tua fama por ter vencido o campeão da Irlanda, se espalhou por toda a Bretanha. Até o Grande Rei já sabe disso!
— Eu sei... Fui convocado por Lancelote para lutar ao lado do Rei Arthur em Monte Badon. Só ainda não fui para Camelot, por causa da saúde de nosso pai.
— Pelo jeito, os rumores da invasão saxônica tem fundamento e a guerra está cada vez mais próxima, não é?
— Sim, Lucan. Os saxões querem a Bretanha e estão reunindo um contingente cada vez maior de guerreiros, para tomarem o nosso solo. Pela narrativa de Sir Lancelote, a situação está cada vez mais aterradora e só o nosso Rei, unificando toda a Bretanha sob suas ordens, poderá derrotá-los.
— Então, que Deus permita que Arthur faça logo isso, senão, o que será destas terras, de nossas mulheres e crianças? Mas vamos! Deixemos este assunto de lado por um tempo e vamos até nosso pai. Quando soube que papai estava morrendo, o Abade dispensou-me para que pudesse vir vê-lo, assisti-lo em seus últimos momentos e dar-lhe a Extrema Unção.

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