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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (4ª parte)


foto: Isolda, a mãe
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Morgana reparara em Isolda “a velha”, vira-lhe o crescente na testa e comenta com o marido.
— Ela é uma seguidora da antiga religião. Como nós...
— Por certo que sim, minha senhora. Aquela marca é idêntica a vossa.
O grande Merlin, também sorria ao vê-los. O único que demonstrara um grande desconforto com a presença dos dois fora o Bispo, mas ele tinha que suportá-los, afinal, eles eram os pais da noiva.
— Pai! Mãe!
Isolda corre para abraçá-los.
— Oh, minha pequena! — exclama a rainha abraçando-a saudosa.
— Eu não sabia que viriam...
— Marcos da Cornualha mandou-nos um convite, comunicando o dia e a hora do casamento.
— Ele não me disse nada!
— Ele queria fazer-te uma surpresa, minha filha — confessa-lhe o pai.
Isolda olha para o noivo, Marcos se aproximava para cumprimentá-los. Nesta hora, Isolda percebera uma coisa: Marcos era um bom homem e talvez, fosse tão vítima quanto Tristão e ela.
— Venham, Majestades! Tomem acento conosco!
Os reis irlandeses sentaram-se e Anguish começou a procurar por algo, ou alguém.
— E Sir Tristão? Não o vejo por aqui! — comenta sem querer.
Rei Marcos estranha mais uma vez a ausência de Tristão.
— É mesmo! Por Deus, onde ele se meteu agora? — perguntara-se o rei.
Isolda estava calada e pensativa.
— Isolda, querida? Sabes de alguma coisa?— pergunta-lhe.
— E por que eu haveria de saber? Tristão não me deve satisfações, meu senhor.
— Deve sim, e muito! Em breve serás senhora da Cornualha e deverá ser-te fiel e obedecer-te, como obedece a mim. Sinceramente, eu não entendo; ambos pareciam tão próximos quando desembarcaram no porto?! Por que ele a evitas agora?
— Talvez para preservar-me de comentários maldosos — responde Isolda.
— E há algum motivo para isso?
— Motivo não há, meu rei — mente ela, para proteger Tristão. — Mas não convém à uma noiva, prestes a tornar-se esposa, ficar a conversar com outros homens, que não sejam o seu pretendente, pelos corredores de um castelo — tenta justificá-lo.
— Minha filha tem razão, rei Marcos — fala a rainha tentando protegê-la.
— É... com vossa licença, Majestade... — intervêm Sir Lancelote. — Eu sei onde está Tristão. Encontrei-o pela manhã nas cavalariças, arrumando um cavalo. Perguntei-lhe o que fazia e ele me disse, por meias palavras, que precisava sair, mas não entrou em detalhes. A mim, pareceu-me que estava um pouco alterado.
— Ele está muito estranho... — comenta o rei.
Isolda deixa sua mente vagar e lembra-se da discussão ferrenha, que ela e Tristão tiveram pela manhã e que resultou naquela fuga...

“Com a ajuda de Brangia, ambos se encontraram às ocultas mais uma vez. No diálogo conturbado, Tristão estava preocupado com a desonra dela e cismara que deveria contar a verdade ao rei, assumindo que seduzira Isolda, embora a contragosto dela, fazendo cair a culpa, apenas sobre si. Isolda seria perdoada e ele arcaria com todas as conseqüências.
Pela primeira vez, Isolda usara de sua autoridade de futura rainha e proibiu-o de fazer isto:
— Se tu fizeres isto, serás condenado por alta traição e serás morto por pena máxima! — lembrara-se ela.
— Eu não me importo... — teimava ele.
— Mas eu me importo!!!! Não quero ser responsável por tua morte!!!!! Tristão, eu, como tua futura rainha, proíbo-te de tomares uma atitude besta como esta!
— Por Deus, não me faças cumprir uma ordem destas!
— Meu amor... És o meu único alento nesta vida miserável e queres privar-me, tão precocemente, de tua companhia?! Não! Não permito esta loucura! — Chorava Isolda desesperada.
— E tu? O que será de ti, meu Deus? Nós chegamos às últimas conseqüências, desonrei-te! Meu tio não é tolo! Ele vai perceber!!! Isolda, eu não quero que morras... — Tristão começara a desesperar-se também.
— Nós não vamos morrer! Não tivemos culpa! Nosso único pecado, talvez, seja nos amarmos muito e profundamente, embora tenha surgido esta maldita idéia de casamento! Mas asseguro-te que darei um jeito, querido, pensarei em algo para que o rei não perceba.
— Não há como! Isto é uma esperança vã e tola, senhora!
— Tristão, pela alma o juro, se me desobedeceres e contares ao rei, eu irei contrariar a tua versão diante de todos. Não ficarei calada, deixando a culpa apenas para ti. Queres morrer? Pois então, morreremos juntos. Escolha!
Tristão ficara totalmente desfigurado com aquela ameaça.
— Tu não serias capaz... — falou ele entre os dentes e com voz entalada.
— Experimente! Conte ao rei a verdade e verás do que sou capaz! — ameaçou-lhe Isolda enxugando as lágrimas e assumindo a forma altiva de uma rainha.
Tristão ficou indignado e, totalmente transtornado, afastou-se dela. Nem sequer olhou para trás...”

Foi assim que aquela discussão findara. Uma verdadeira troca de ameaças e na certa, Tristão pegou um cavalo e saiu a esmo, para tentar esfriar a cabeça.

Na praia, próximo ao castelo da Cornualha, uma figura solitária amarrara o cavalo num arbusto e deitara-se na areia. No horizonte, nuvens adensavam-se em cúmulos pesados e imponentes e de tom ligeiramente acinzentado. Prometiam chuva para breve. Na areia, Tristão apertava forte sua fronte; a cabeça dele parecia estar prestes a explodir de tanta dor. Ele não sabia o que fazer.
Muito gosto ele teria de morrer por ela se com isso, Isolda conseguisse a clemência do rei. Morreria, e sua alma partiria em paz, sabendo que sua amada ficara bem. Seria tão fácil... mas, “bolas! Por que ela tinha que ser tão teimosa?” — pensava desesperado.
A dor de sua cabeça só aliviou, quando ele deixou mais uma vez a postura viril de cavaleiro e pôs-se a chorar.
Pela primeira vez em sua vida, Tristão sentia um grande medo, até maior do que o medo que sentira, quando quase tombara pela espada do cavaleiro irlandês.

domingo, 23 de novembro de 2008

Aviso aos meus queridos navegantes!!!!



Atenção: Acompanhem em "Amores Imortais" esta linda e sublime história de amor, criada pelo indiscutível talento de William Shakespeare (com um sutil toque meu).


Romeu e Julieta em Prosa e Versos





domingo, 16 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (3ª parte)

foto: olhar enigmático de Morgana

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Após o jantar, Tristão quis vê-la e mandou Brangia entregar-lhe um bilhete, dizendo que precisava encontrá-la. Brangia, esperançosa, julgara que ele estava disposto a tentar fugir outra vez.
Isolda, naquela noite, antes das donzelas se recolherem, recebe-lhe rápido em seus aposentos enquanto Brangia ficara de guarda. Outra vez juntos, ambos se abraçaram e se beijaram, matando a saudade que sentiam e Isolda tentara persuadi-lo a fugir de novo, mas no dia seguinte, o noivado já estava marcado e por ordem de Audret, Basílica grudou-se em Isolda usando o pretexto de ajudar-lhe com os preparativos, no que acabou frustrando qualquer plano que ambos pudessem combinar, pois a prima não dava-lhes nenhum espaço.
Uma semana antes do casamento, chegaram os demais convidados.
Um homem anunciava a cada um à medida que chegavam. A primeira a chegar e que era uma das figuras mais ilustres e esperadas foi Morgana, casada agora com o rei Uriens. As moças que Isolda tomava conta, correram para vê-la.
— Vejam! É Lady Morgana! — falava uma delas empolgada.
— Ela é que é a famosa Morgana das fadas? — falou outra admirada. — Eu achei que ela fosse mais alta!
— Lady Morgana! É um prazer tê-la conosco neste momento solene! — cumprimenta Marcos.
— Vejo que estás cuidando muito bem destas terras! A Cornualha está prosperando! — comenta ela.
— Rei Uriens — Marcos faz-lhe uma reverência. — Rei Uriens, senhora Morgana, esta é Isolda minha futura esposa — apresenta-lhe o rei.
Morgana olhara-a fundo nos olhos o que muito perturbou Isolda. A ela, parecia-lhe que a famosa feiticeira da Deusa, invadira-lhe o fundo de sua alma. O certo é que Morgana, sensitiva como sempre, percebe que algo muito sério atormentava Isolda e a fazia infeliz; porém, Morgana foi discreta e nem fez-lhe perguntas sobre isso; não era de sua alçada invadir-lhe a privacidade.
O noivado foi muito bem organizado e dentro de sete dias seria o casamento. Uma festa para entrar na história da Bretanha e mais ainda quando chega, finalmente, Arthur e seus cavaleiros. As moças ficaram mais excitadas com a chegada deles.
— Vejam!!! É o Grande Rei e sua esposa! — exclama Helena, dando pulinhos de contentamento. — Olhem!!!! Quatro cavaleiros!
— Um deles deve ser Sir Lancelote! — grita Lívian encantada.
— Quem será? Ai, quero conhecê-lo! — fala outra quase delirando.
— Tristão! — chama-lhe o tio. — Venha! Vamos fazer-lhes as honras!
Ao receber a notícia da chegada deles, Tristão sentira-se mais animado.
Marcos, acompanhado de toda a Corte, foi recebê-los. Ao lado dele estavam Isolda e Tristão, acompanhados de Audret, Basílica, Brangia e Sir Dinas de Lindan.
— Senhor, meu rei. Eu e Isolda senti-mo-nos lisonjeados com vossa régia presença!
— Bajulador incorrigível este! — caçoa o rei.
— Como, meu senhor? — espanta-se Marcos.
— Arthur Pendragon, não comece! — repreende-lhe Gwenevere. — Esqueceste do que conversamos, durante a viagem?
— Nossa! As mulheres não têm o menor senso de humor! — reclama ele. — Ah, mas quem eu vejo?! Tristão!!!!
Arthur nem deixou ele reverenciá-lo, já foi abraçando-o. Tristão sentira-se um verdadeiro chocalho nas mãos do rei. Arthur era capaz até de desmontá-lo, de tal que fora o cumprimento dele.
— Meu senhor e meu rei — ri Tristão depois de tantos dias. — Eu devo por obrigação ajoelhar-me e saudá-lo!
— Ora, deixe disto, rapaz! Sem cerimônias hoje! Quero esquecer que sou rei por um dia! —fala ele bem-humorado.
— Sir Tristão! — diz-lhe Lancelote, abraçando-o.
Tristão ainda mal se recuperara do abraço do rei e já recebera outro em seguida. Mas Lancelote foi menos “agressivo”.
— Lance! Folgo em vê-lo outra vez! — cumprimenta Tristão feliz.
— Ei! Alto lá! Agora é minha vez! Com licença! — fala Percival aproximando-se.
— Sir Percival! — exclama Tristão.
Ambos também se abraçam, só faltava Gawain...
Todos olharam para ele e Arthur franziu o cenho, como se dissesse ao primo: “olha a cortesia”. Contrariado, Sir Gawain apenas estende a mão para saudar o jovem cavaleiro, mas é Tristão que o abraça.
— Ei! Me larga!!! Detesto homem me agarrando!!!!
— Apesar de tudo, eu o admiro, Sir Gawain — fala-lhe Tristão, deixando-o totalmente sem graça.
Depois da calorosa saudação do rei e dos cavaleiros a Sir Tristão, Marcos apresenta Isolda.
— Nossa! Como é belíssima!!! Demoraste homem, mas escolheste bem a noiva! — Arthur não conseguira evitar a ironia, apesar das recomendações de sua esposa.
Gwenevere desistira de controlá-lo. Seu marido era, e sempre seria essa figura carismática e bem-humorada.
— Sir Tristão. É um prazer revê-lo e gozando de perfeita saúde — fala-lhe Gwenevere estendendo-lhe a mão.
Com muita reverência e respeito, Tristão beija-lhe a mão e saúda a rainha.
— Faço minhas vossas palavras, senhora.
— Isolda. Trouxe-vos um presente.
Gwenevere chama os criados, que faziam parte do cortejo real, e pede-lhes que trouxessem a caixa com o presente de casamento.
Era um colar magnífico, incrustado de safiras azuis e feito do mais puro ouro-branco, minério muito raro de se ver. Tal colar combinava muito bem com os belos olhos azuis de Isolda.
— Este é o nosso presente, alteza. Com os mais sinceros votos de felicidade — fala-lhe a Grande Rainha.
— Agradeço-vos tão sublime gentileza, Majestades.
Lancelote repara uma nuvem de tristeza nos olhos de Isolda, da mesma forma que Morgana. “Será que ela não gostou do presente dos reis?...” — pensa ele intrigado, pois reparara que Isolda fazia um grande esforço para demonstrar alegria pelo presente.
O mago Merlin da Bretanha também aproximou-se e saudou a todos. Rei Marcos, Isolda e Tristão curvaram-se em respeito ao grande Druida e conselheiro do Grande Rei. Apenas Audret recusava-se a prostrar-se diante de um adorador do demônio, como sempre dizia dos druidas e das sacerdotisas da Deusa e afastara-se com Basílica, discretamente, para evitar aquele contato.
Outra figura importante e que era esperada com ansiedade, seria Dom Patrício, arcebispo de Glastonbury e primaz da Igreja romana na Bretanha. Este alto prelado iria celebrar as bodas.
Dom Patrício chegara no sábado, pela manhã e foi muito bem recebido por Marcos. O casamento era questão de horas.
No castelo, os criados trabalhavam sem parar, para deixarem tudo a contento para o Domingo. Durante o almoço de sábado, em honra do arcebispo, Dinas aproxima-se do rei e diz-lhe algo ao seu ouvido, cuidando para que ninguém ouvisse.
— Como? Eles chegaram? Por Deus, mande o arauto anunciá-los!
— Eles quem, meu senhor? — pergunta Isolda curiosa.
— É uma surpresa, querida noiva.
Isolda quase caíra para trás, quando o arauto anunciou os reis da Irlanda. Ela não sabia se ria ou chorava ao ver seus pais. Havia sido tão injusta com eles no dia que deixara a Irlanda; mal se despedira.
O rei Anguish Gormond e a rainha Isolda “a velha” adentraram o salão, fazendo calar os lábios de todos. Em sinal de respeito, rei Marcos levanta-se e todos repetem o gesto dele. A antiga desavença havia caído por terra e pelo milagre, que só uma aliança consegue providenciar, os súditos da Cornualha curvaram-se ante os reis do antigo país inimigo. Embora muitos o fizessem forçado, eles não tinham escolha; O regente da Cornualha faria um pacto de paz, ao contrair casamento com a herdeira irlandesa e o passado seria finalmente esquecido.
— Ora, vejam só! — disse Arthur em tom galanteador. — Daí se explica de onde a princesa herdou tanta formosura! Ai! Gwen?! Por que me beliscou, mulher?
— Me respeite, senhor meu marido!
— Mas nenhuma se compara a ti, querida! — tenta consertar o Grande Rei.

4ª parte :: índice geral

domingo, 9 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (2ª parte)


índice geral :: parte anterior (1ª parte)

Arthur e Gwenevere trataram de preparar a viagem.
Junto com os reis, outros cavaleiros da Távola Redonda os acompanharam: Lancelote, Gawain, Percival e Bors. Estes quatro, em vez de regressarem para ver seus parentes, preferiram permanecer em Camelot, após a derrota dos saxões, aperfeiçoando as táticas de combate que empreenderam na guerra, no caso de alguma ameaça de nova invasão pelos bárbaros, tão comuns naquela época.
— Nossa! Dizem que grandes torneios esportivos estão sendo realizados por conta do noivado e casamento de Marcos! — comentava Sir Percival, com os olhos iluminados de excitação.
— Para mim será ótimo! Minha espada e minha lança estão sedentas de sangue! — fala Sir Bors animado.
— Meu velho e fiel Bors! São torneios esportivos, sem o intuito de derramamento de sangue! Deveis controlar vossa força, pois eles não são saxões!— adverte-lhe Arthur.
— Até que seria bom, se fossem torneios mortais... — murmura Gawain. — Teria um grande prazer em enfrentar “o fedelho” outra vez.
— Ora! Não começa, Sir Gawain! — repreende-lhe Sir Lancelote. — Aquele “fedelho”, como dizes, é Sir Tristão e é nosso companheiro e irmão de armas!
— Mas Santo Deus! — exclama Arthur em seu costumeiro tom debochado. — Ainda com esta birra infame contra Tristão, caro primo?
Todos riram. Gawain fez um muxoxo e emburrou a cara.
— É verdade! — comenta Sir Percival, lembrando-se. — Sir Tristão está na Corte de Marcos! Será ótimo rever nosso velho amigo!
O mago Merlin também fazia companhia a Arthur, queria rever Morgana, pois ela também fôra convidada para o grande evento, por ser senhora da Cornualha.
No castelo de Tintagel, Marcos recebe um comunicado oficial, confirmando a presença de Arthur.
— Veja, minha noiva! O Grande Rei confirmou a presença! Ele virá para o nosso casamento! — comemorava Marcos feliz. — Estás feliz, minha senhora?
— É uma grande honra receber o rei Arthur nesta Corte — desconversa Isolda.
— Perguntei se estavas feliz, minha querida.
— Se meu noivo está feliz, eu também estou — disfarça ela.
— Por Deus! Onde está Tristão? Ele anda tão estranho ultimamente! Pouco fala, não participa mais das coisas que acontecem ao redor dele... Vive mais enclausurado em sua casa perto do alojamento dos guardas do que conosco...
Isolda estremecera um pouco. De certo ela sabia que Tristão evitava tudo aquilo para não sofrer ou fugir do pecado. Eles continuavam enfeitiçados, isto era inegável, e estarem próximos um do outro poderia dar razão à insensatez e caírem outra vez em tentação.
Audret e Basílica estavam presentes e prestavam atenção às palavras do rei.
— Se estás tão preocupado, chame-o meu tio? — sugere-lhe Audret de propósito. Queria muito ver a reação de Isolda e Tristão, durante o jantar.
— Pois farei isto! Ele precisa saber que o rei Arthur virá e tomará parte em nossa alegria.
Marcos sai do torreão, corta o pátio interno passando pelas cavalariças e vai até o alojamento de Tristão, uma espécie de casebre de apenas um cômodo, mas amplo e confortável o suficiente para uma única pessoa. Ele estava recostado na cama, com a harpa nas mãos e absorto da realidade. Mecanicamente, dedilhava as cordas sem saber o que tocava e assusta-se ao ouvir batidas insistentes na porta.
— Tristão!!! Abra agora! Quero falar-vos, meu sobrinho! Trago-vos boas novas!
Tristão hesita. Não queria abrir a porta, mas vendo o tio tão suplicante acabou cedendo.
— Ora qual, rapaz? Quer fazer-se monge?! — brinca Marcos.
— Perdão, meu senhor... mas não estou me sentindo bem...
— Estás doente? — pergunta Marcos aflito e já querendo tocar-lhe para ver-lhe a temperatura.
Tristão segura-lhe a mão de forma educada e abaixa-lhe o braço. Ver o tio preocupado, como um pai, fazia-o sentir-se muito pior; ainda mais depois do que houve entre ele e Isolda.
— Não estou enfermo, senhor... é uma má fase. Portanto não vos preocupeis.
— Má fase? — Marcos não entendeu.
— Quais as novas que meu tio traz? — desconversa ele tomando o rumo da conversa, que havia se perdido.
— Ah, sim! Se passais por má fase, trago-vos certas notícias que irão alegrar-vos um pouco!
— Serão bem vindas... — suspira ele.
— O Grande Rei e a Rainha virão para o casamento. E não só ele! Juntos virão alguns cavaleiros! De certo, teu amigo Lancelote será um deles.
— Folgo em saber tão alegres notícias, meu senhor.
— Bem, mas, deveis melhorar este semblante! Não desejarás receber tão estimados amigos com esta face abatida, não é? Vamos — Marcos começa a puxá-lo.
— Pra onde? — gagueja ele.
— Jantar, ora essa! Que mais seria?
— Não, tio... eu... — Tristão tenta esquivar-se.
— Ora céus! Precisa vos alimentar homem! Anda! Mais um jantar em honra à futura rainha será servido!
— Por obséquio, senhor! Não estou com fome agora!
— Mas que teimosia! Terás a coragem de fazer mais esta desfeita à princesa Isolda?
Marcos empurra-o, literalmente, à sala de jantar.
Os criados e os convidados ficaram surpresos com aquele falatório todo. Isolda reconhecera a voz de Tristão e sentia-se feliz; há muito tempo que Tristão evitava estar em sua presença, mas ela queria vê-lo, sentia a falta dele.
— Eu não estou com fome!!! Já disse!!!!— berrava ele indignado.
— Que não está com fome o quê! Há muito tempo que não te alimentas direito, rapaz! — teimava o tio. — Eu não quero ter que prestar contas ao vosso pai, do outro lado, quando eu partir desta vida miserável! “Olha Marcos... — dirá vosso pai. — Confiei-vos meu filho e não cuidastes dele como pedi que o fizestes...” — inventa o rei.
Marcos fez ele sentar-se à força na mesa. Muitos riram.
Os olhos de Tristão e Isolda, depois de dias, voltaram a se cruzar.
— Tristão... — fala ela sorrindo e mais aliviada por vê-lo bem.
— Bons dias, senhora... — cumprimenta ele sem graça e já sentindo o coração palpitar, com o sorriso doce que Isolda devotara-lhe.
Tristão cala-se e abaixa os olhos. Queria evitar-lhe o olhar, mas não conseguia desprender-se dos olhos dela por muito tempo.
Marcos mandou começarem a servir os pratos.
Sir Audret sorria de satisfação ao ver o primo sentindo-se tão desconfortável. De quando em vez, lançava um olhar sugestivo à Basílica e degustando uma boa taça de vinho. Tristão não conseguia falar uma palavra, queria que aquilo tudo terminasse logo para voltar à sua solidão.
E o que mais irritava a ele, era Marcos comentando sem parar dos preparativos do casamento; um verdadeiro suplício. Mas o simples fato de estar próximo à Isolda, reacendera a chama do desejo, por isso ele evitara este reencontro ao máximo.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (1ª parte)


índice geral :: capítulo anterior (3ª parte)

Em todo percurso, reinaria um silêncio mortal, se não fosse por Marcos tagarelando sobre as belezas agrestes da Cornualha. Cavalgando ao lado do rei, Isolda buscava, com seus olhos aflitos, os olhos de Tristão para obter algum alento; alguma força para suportar o que estava por vir.
Tristão preferiu retardar-se um pouco e cavalgar atrás do cortejo, uma vez que estava muito perturbado. Dinas seguia ao lado dele e tentava persuadi-lo a não perder as esperanças e reverter a situação.
— Ainda dá para ambos fugirem, Tristão!
—É tarde demais — sentencia ele desanimado.
— Nunca é tarde!
— Não percebeste, Dinas, o quanto meu tio está feliz? Parece um jovem de 20 anos... Nunca o vi assim!
— E o amor de ambos? Como fica? Eu não me conformo com esta resignação.
— Querendo ou não, eu tenho uma dívida incalculável para com este homem... Eu não posso fugir agora, com Isolda, e apunhalá-lo com tamanho desgosto!
— Oh, céus! Se há uma coisa em ti que eu desprezo e esta tua teimosia!
— Eu nasci teimoso e vou morrer teimoso — retruca ele.
— E o meu medo é justamente este — fala Dinas. — Meu medo é esta teimosia toda, levá-lo a um abismo sem fim!
— Talvez Sir Gawain tenha razão, quando diz que nasci sob má estrela... — desabafa ele de forma irônica.
— Ora! Faça-me o favor! Pare de dizer asneiras, homem! Sofrerás porque tu queres, não culpes o destino e nem qualquer estrela por tua insensatez! — replica-lhe o amigo.
No castelo, Marcos ocupara Basílica de cuidar de tudo e preparar a recepção, até a chegada de todos. Algumas moças já se encontravam no castelo para servirem de companhia à jovem e futura senhora da Cornualha.
Quando enfim chegaram, Basílica recebe a princesa de braços abertos, junto com as moças; estas, olhavam-na curiosas e admiradas pela beleza da futura rainha.
— Nossa! Ela é linda! — comentavam elas entre si.
— Meninas! Se aviem, vamos! Cumprimentem a princesa!
— Estamos encantadas em conhecer-vos, alteza! Meu nome é Lívian!
— Eu sou Helena — falou uma outra.
Seguidas umas das outras, as moças se apresentaram e cumprimentaram Isolda. A princesa respondia-lhes com cortesia, tentando mascarar a tristeza.
— Já conheceram vossa futura senhora, não? — diz-lhes Basílica. — Pois agora, retirai-vos! Ajudem com os preparativos para o jantar!
As moças saem.
— Oh, minha linda criança! É um prazer conhecer-te, alteza!
Isolda estava um tanto calada e só respondia com um sorriso leve e tímido. Em seus braços, estava seu cãozinho, que ela abraçava fortemente. Huddent já começava a sentir-se incomodado com aquilo; se ele falasse, talvez dissesse-lhe que ele não era uma almofada, para ser tão apertado daquele jeito.
— Meu senhor. Se me permites, levarei as duas moças para os aposentos femininos pois, ao que me parecem, estão muito fatigadas da longa viagem.
— Oh, sim, cara Basílica! Pode acomodá-las. Quero que minha noiva esteja descansada, para o jantar que oferecerei em sua honra esta noite — concorda rei Marcos bem humorado.
Basílica conduz Isolda e Brangia até o quarto e tagarelava animada contando-lhes sobre as maravilhas da Corte da Cornualha. Isolda tentava ser a mais simpática possível com sua guia e anfitriã, entretanto, sentia-se muito triste para prestar atenção às suas palavras.
— Espero que tudo esteja do vosso agrado, caras damas.
— Obrigada, senhora — agradece Isolda amuada.
— Estou achando-vos tão triste, minha querida — comenta Basílica fingindo-se preocupada. — Oh, mas eu entendo perfeitamente o que sentes! Afinal! Fostes tirada da casa dos vossos pais para vir à uma terra estranha e casar-vos com um homem, que nem a corte vos fizera. É horrível o que fazem com as mulheres! Porém, não fique assim. Com o tempo, irás acostumar-te à nova realidade e conformada, aceitarás o marido que a vida ofereceu-te. Sei do que falo, porque também já fui casada.
— E agora? Não és mais?
— Não. Sou viúva agora. Meu finado esposo morreu há mais ou menos um ano — Basílica faz uma pausa. — Coitado... era um bom homem.
— A senhora o amava?
— Com o tempo aprendi a amá-lo, meu bem. E é talvez o que também aconteça contigo. Com o passar dos anos, te afeiçoarás ao teu marido, a não ser que, tão jovem e bela como és, tenhas deixado um grande amor para trás, nas terras da Irlanda. Neste caso, torna-se um pouco mais difícil, o que não era o meu caso...
Isolda ficara pensativa com as palavras de Basílica e deixa seus devaneios irem ao encontro de Tristão. Não deixara o amor tão distante, como pensava a simpática mulher; pelo contrário, ele estava muito próximo e sentindo-se decepcionado da mesma forma que ela, ao ver o rei Marcos vindo recebê-los no porto de Tintagel e frustrando assim, o sonho de fugirem juntos e viverem felizes para sempre, talvez nas terras de Lionês.
— Bom, esta será sua cama por enquanto, até casar-se — Basílica a conduz à cama mais bela e recém preparada. Os lençóis de linho, perfumados e limpos. — Creio que já falei demais e as duas devem estar ansiosas para dormirem um pouco. E não há nada melhor! O sono é o melhor companheiro da beleza da mulher. Descansem queridas e vou dizer ao rei que já as acomodei.
Delicadamente, Basílica sai e fecha as moças, e a seguir, empina o nariz bem feito e olha com desdém para a porta, antes de afastar-se de vez.
No aposento grande, mobiliado de forma singela e com várias camas, uma luz cálida invadia o espaço, dando ao lugar uma atmosfera acolhedora. Os leitos eram confortáveis e as cabeceiras esculpidas e trabalhadas com vários símbolos bretões, envoltas numa espécie de dossel brocado, para manter a privacidade de suas ocupantes. No canto uma roca e um velho tear, uma escrivaninha e várias cadeiras.

Brangia começava a desfazer as malas, enquanto Isolda sentava-se no vão da janela, com Huddent ainda em seu colo. Foi nessa hora, que Brangia percebeu um soluço sentido e aproximou-se de sua senhora. Isolda chorava, agarrada ao seu cão.
— Minha senhora... Outra vez às lágrimas?
— Não consigo evitar, minha amiga. Só de pensar que agora, eu e Tristão poderíamos estar a caminho de Lionês...
— Mas vós ainda podeis fugir...
— Não, Brangia. Conheço Tristão. Ele não fará isto, agora que está sob o teto de seu tio. Ele jamais irá ferir-lhe, com tamanha desonra... Oh, meu pobre e querido amor! Deves estar sofrendo, na mesma medida que tua Isolda, neste momento. Ou até mais do que eu, por ver-se tão impotente, diante da situação que se fechou contra nós. O que será de nós, agora? — lamentava-se Isolda, inconformada.
E de fato, era verdade.
O regente da Cornualha organizou uma grande festa que durou muitos dias, por conta do seu casamento, com direito a um grande torneio de “justas” entre os cavaleiros. Só estranhou Tristão não querer participar.
Logo a notícia do futuro enlace entre Marcos e Isolda corre por toda a Bretanha e chega aos ouvidos do rei Arthur. Não muito tempo depois, um mensageiro da Cornualha aparece em Camelot, portando o convite oficial.
— Eu não acredito! Finalmente esse homem decidiu casar-se?! — falava Arthur em tom galhofeiro. — Por Deus! Ocorrerá um novo “Dilúvio”!!!— ria o Grande Rei com a nova.
— De quem falais, meu senhor? — pergunta Gwenevere curiosa.
— Como de quem, senhora? Esqueceste das últimas novidades, minha Gwen? O velhaco do Marcos resolveu casar-se e hoje chegou-nos o convite!
— Então é verdade, meu senhor? Não foram apenas boatos?— ri Gwenevere surpresa.
Arthur passa-lhe o convite para que ela o lesse.
— Nós iremos, Arthur?
— Por certo que sim, minha esposa! Não perco este acontecimento único por nada neste mundo! — fala Arthur bem-humorado.— E veja só! O “safardanas” demorou a decidir-se pelo matrimônio, mas em compensação, escolheu muito bem a noiva! Velhaco!!! — a gargalhada sonora do rei ecoou pelos aposentos.
— Arthur... não vá fazer galhofa com o rei Marcos no dia do casamento dele. Controle-se em suas brincadeiras — adverte-lhe a rainha.
2ª parte :: índice geral