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Pelo mundo

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tristão e Isolda-Capítulo 13: Bodas de Desespero (6ª parte)


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No salão, totalmente enfeitado para a coroação de Isolda e a festa, Tristão havia se sentado. Os criados terminavam os últimos preparativos.
Lancelote e Percival saíram da capela e foram ter com ele.
— O que está havendo, Tristão? — pergunta Percival.
— Não é nada, Percy.
— Como não? Estás pálido, como se estivesses morto!
— Acho que é o calor.
— Calor?! O tempo está escuro e frio, sujeito a chuva! — riu-se Percival. — É meu amigo, bem se vê que não estás nada bem!
— Assustaste a todos nós, meu amigo. Há algo que o perturba?
— Foi só uma ligeira indisposição, Lance. Já estou melhor...
— Tem certeza?
— Saí para pegar um pouco de ar e é só. Por favor... voltem para junto do Grande Rei e terminem de assistir à cerimônia — pede-lhes Tristão, tentando disfarçar o desespero.
— Tu não vens? — indaga Lancelote.
— Daqui há pouco. Só preciso de mais um tempo aqui.
Eles relutaram um pouco, porém, voltaram à capela, pois perceberam que Tristão queria ficar só. Chegando lá, Sir Gawain, curioso como sempre, cobriu-lhes de perguntas.
— O que deu no “novato” para sair assim, de forma tão intempestiva?
— Não sabemos, Gawain — responde-lhe Percival.
— Não sabeis? Vós não fostes falar com ele?
— Tristão se sentiu mal, só isso — corta Lancelote, antes que os convidados percebessem o movimento estranho dos cavaleiros e a saída de Tristão da cerimônia. Algo, dentro de Lancelote, dizia-lhe que era melhor manter no anonimato e ninguém saber do fato.
Ainda no salão, Tristão estava sentado no mesmo lugar e pensava consigo mesmo: “Louca! Doidivanas! Por que Isolda? Por quê?”. No fundo, acho que o coração dele preferia tê-la ouvido dizer não, contudo, o que ela alegaria para justificar a decisão?
Sinceramente, Tristão não sabia, mas seria a deixa para que ele tomasse a palavra e a defendesse, alegando o que queria e assumir toda a culpa. Se ainda assim não adiantasse e Isolda não alcançasse clemência, na pior das hipóteses ele arrancaria Isolda do altar e fugiria com ela, para deixá-la em segurança e depois, regressaria para arcar com as conseqüências.
A cerimônia terminou e todos foram para o salão real, onde ocorreria a coroação da consorte do regente da Cornualha.
Isolda fingia sorrir, através de uma máscara que via-se obrigada a criar, durante o evento. Dom Patrício abençoou a coroa e Isolda, ajoelhou-se diante dele. Ele proferiu uma benção em latim e colocou a coroa sobre sua cabeça.
Ao verem-lhe a fronte coroada, todos os presentes curvam-se para saudar a esposa de Marcos, em sinal de respeito. Desejaram-lhe vida longa e depois, todos os que tinham ordem militar fizeram uma fila, diante do trono dos reis, para jurarem fidelidade à consorte do seu regente. Foi o momento mais difícil para Tristão, porque como primeiro cavaleiro da Cornualha, vira-se obrigado a prestar-lhe o juramento, antes de todos os outros.
Ela estende-lhe a mão e Tristão a toma com reverência, mal conseguindo olhar-lhe nos olhos.
— Minha espada estará a serviço do meu rei e a vosso serviço também, senhora, até o dia de minha morte — diz Tristão alto e de forma solene, prestando-lhe o juramento imposto pela cortesia e a tradição da cavalaria.
— Não aflijas teu coração, querido. Dará tudo certo — sussurra-lhe baixo, cuidando para que ninguém mais a ouvisse.
Tristão não entendera. O que ela quis dizer com isso? —“Ela enlouquecera com o casamento forçado, por certo...” — pensara Tristão.
Depois dele, os outros cavaleiros fizeram o mesmo.
A comemoração durara o dia inteiro. Marcos aproveitou para acertar com os reis irlandeses os critérios da aliança que fariam. Conversaram por um longo espaço de tempo e depois de tudo acertado entre eles, Anguish Gormond e sua esposa tomaram parte da festa.
Durante a festa, Tristão topa com os reis da Irlanda, estes o cumprimentaram cortesmente; Tristão conversou com eles por um tempo, mas depois pediu licença e retirou-se. No salão iluminado, tudo era alegria e todos aqueles festejos o estavam sufocando.
Discretamente, Tristão afasta-se do salão, deixando para trás a música e os risos que, aos poucos, foram se transformando em sussurros distantes. No seu íntimo, desejava imensamente que o chão se abrisse e o engolisse inteiro e inconscientemente dirigiu-se à esplanada, o terraço mais alto em um castelo. Lá, apoiara-se nas muralhas e olhava para as trevas do abismo que se estendia à frente, impedindo-o de ver o solo.
No horizonte, entre céu e mar, nuvens negras se adensavam prenunciando uma tempestade.
— Sei não! Isto é mau presságio! Uma tempestade num dia de casamento? — comentava o vigia da torre leste, com seu companheiro de guarda.
— Ora! Largas de ser supersticioso!
Uma chuva fina começava a cair. Tristão olha para o alto e deixa que as gotas generosas lavassem sua alma. No céu, relâmpagos começaram a cruzar o espaço e ribombavam com força, instantes depois. A torrente engrossou e Tristão ficou ali, imóvel, enquanto coisas horríveis passavam pela sua mente. Imaginava que logo Isolda estaria nos braços de outro e pior, desvirtuada, impura. O que seu tio faria? O que ele poderia fazer? Arrancá-la do leito conjugal? De forma alguma isto poderia ser feito.
Ele entra outra vez em desespero e debruça-se sobre a muralha.
— Oh, Senhor dos céus! O que farei? Deus!
Pedia ele e, numa atitude desafiadora, olha o céu carregado e grita amargurado.
Oh, Deus do céu!!!! Fulmine-me!!!!! Que um raio me atinja e me parta ao meio!!!!!!
Os guardas ouviram o clamor e se assustaram.
— O que foi isso?!
— Veio da esplanada! — fala o outro.
Um deles olha para baixo e na cortina densa de chuva, percebe um vulto de pé sobre o terraço.
— Aquela pessoa é louca! Ficar exposto, desta maneira, numa tempestade como esta...
Ele gritou de novo e, agora, mais atentos, os guardas reconhecem a voz.
— Reconheço o tom! É Sir Tristão!
— Como? O que deu nele?
— É melhor chamar alguém.
Um dos guardas desce apressado até o salão e encontra-se com Dom Audret.
— Senhor! Graças a Deus!
— O que foi, homem? Que tamanha aflição é esta?
— É Sir Tristão, Dom Audret. Está lá na esplanada e debaixo do temporal. E como sois parente dele, talvez consiga tirá-lo de lá!
— Aquieta-te, homem! Irei vê-lo. Beba um pouco...
— Não ouso, meu senhor. Estou de serviço.
— Ora! Só um copo não fará mal! Tome — diz ele animado, dando-lhe uns tapinhas nas costas e sai.
Audret vai à esplanada e lá, vislumbra a figura patética, encurvada nas muralhas. Por uns instantes, um instinto assassino despertara dentro de si e desejou empurrá-lo, para que fosse engolido pelas trevas. Chegou a avançar uns passos, mas recuou.
“Não. Matá-lo agora, no meio do tormento, seria uma benção para ele...” — pensa hesitante.—“ Quero que sofras, caro Tristão, até não agüentar mais...sofras por teu amor impossível...”
Sorrindo maliciosamente, Audret se afasta.
Sir Dinas procurava por Tristão, em meio àquela fanfarra e nada de encontrá-lo. “Por Deus! Onde estás, meu amigo?”— pensava aflito.
Nesta hora, ele vê Audret.
— Dom Audret! Viste Sir Tristão?
— Tristão?! Não! Não o vi! Ora! Vai ver, ele já se recolheu! — responde ele com a cara mais deslavada e cínica do mundo.
Sir Dinas de Lindan continuou a procurá-lo.
Basílica aproxima-se.
— Está acontecendo alguma coisa, Audret querido?
— Nada, Basílica. Não está acontecendo nada. Vamos dançar...
Por sorte, Dinas encontra o guarda com a taça oferecida por Audret, deliciando-se com pequenos e tímidos goles.
— Ei! Por que estás fora de teu posto? E o que significa isso? Estás bebendo em serviço?!!!— fala ele indignado.
O homem se assusta e joga a taça longe, jurando que não estava bebendo, só a segurava.
— Sir Dinas! Que bom que vos encontrei! Precisa ajudar Sir Tristão!— ele muda o assunto rápido, desviando-lhe a atenção da sua imprudência.
— O que tem ele? — pergunta Dinas aflito.
Ele lhe explica tudo.
— O quê?! Na esplanada, no meio da tormenta?
— Sim, meu senhor.
— Depressa. Leve-me até ele!
Eles saíram juntos.
“Céus! Espero que Tristão não tenha feito nenhum ato impensado...” — indagava preocupado.
Ao chegar no terraço, Dinas pôde respirar aliviado. Tristão estava sentado, enrolado com sua capa e apoiava as costas na muralha. A chuva ainda caía sem trégua... Ele estava completamente encharcado e parecia desacordado.
— Ei, Tristão! Que isso? Levanta homem!
Ao tocá-lo, Tristão desperta.
— Dinas, meu fiel amigo...
— Deus meu! Tristão!!! Vamos entrar, depressa, ou acabarás doente. Venha! Me ajude... — pede ao guarda.
— Não precisa! Estou bem... Deixem-me! — fala ele.
— De modo algum! Precisas trocar estas roupas!
Levaram Tristão para seu alojamento militar e lá, Dinas tratou de arrumarar-lhe logo roupas secas, para que se livrasse das roupas úmidas.
— Ela se casou, Dinas. Está tudo acabado! — desabafava ele, muito perturbado. — O que será dela?
— Não sei o que dizer, Tristão. Mas se isto te serve de consolo, saiba que se precisarem da minha ajuda, eu tudo farei para defendê-los. Lutarei por clemência junto ao rei.
— Dinas... obrigado.
— Agora tente dormir um pouco. Deixe as preocupações para amanhã.
— Não sei se conseguirei. Só de pensar que Isolda estará nos braços de outro daqui a alguns instantes e que só Deus sabe o que lhe poderá acontecer... Eu fui um covarde! — amargurava-se Tristão.
— Vou mandar preparar-te uma bebida quente e reconfortante e procure acalmar teu coração. Nada poderás fazer agora. Descanse.
Apesar dos conselhos de Sir Dinas, Tristão teve a sensação de que teria uma noite insone e longa. O fato de imaginar Isolda nos braços de outro homem feria-lhe fundo na alma, mas ele nada podia fazer a não ser rezar, rezar para que seu tio não percebesse-lhe a desonra.


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