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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Tristão e Isolda-capítulo 15: Amor sem limites-2ª parte

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De fato, Tristão não tinha escolha e no fundo, seu tio estava coberto de razão. O jeito foi conformar-se. Mas, frustrações à parte, a verdade era que Tristão temia mais por Isolda do que por ele próprio, depois de ouvir a profecia da mãe dela.
No dia seguinte, Arthur e seus homens voltaram para Camelot. Os festejos já haviam findado e a vida na Cornualha tornou ao seu curso normal.
Dom Patrício também regressou a Glastonbury e muitos outros convidados também se despediram, apenas a senhora Morgana e seu esposo, permaneceram ainda na Cornualha. Fizeram a gentileza de esperarem Marcos, uma vez que o mesmo iria até as terras de Uriens a negócios, sendo assim, por que não irem juntos? As estradas na época eram perigosas, saxões exilados poderiam estar à espreita, ou até mesmo saqueadores prestes a atacar e tirar proveito de algum desavisado.
Isolda estava feliz, Tristão não mais se afastaria dela e melhor ainda, eles estariam a sós durante toda a ausência de Marcos. Poderiam ter mais chances de ficarem juntos e se amarem, desde que fossem prudentes.
Rei Marcos ofereceu um último jantar em honra de Morgana das fadas e seu marido e aproveitaram para tratar da viagem. Conversavam animados; Tristão também estava presente.
— Protegei Isolda com vossa vida, caro Tristão — recomenda-lhe o tio. — Assim como também, ajude Dinas a ensinar-lhe a administrar o castelo.
— Meu pai me ensinou algumas coisas, senhor. Creio que não há tanta necessidade... — fala ela.
— “Algumas coisas”, disseste? Contudo, mais conhecimentos sempre são bem-vindos...
— Coitado do primo Tristão, meu tio! Tanto encargo! Eu posso ajudar Dinas a ensinar vossa esposa a administrar também... — oferece-se Audret.
Marcos ri galhofeiro, pois já estava meio alterado com o vinho que havia tomado.
— Oras! Tu mal sabes administrar as tuas terras! Vives aqui em vez de lá...
— Senhor... Não fale assim de Audret — defende-lhe Tristão.
Audret espanta-se.
— Obrigado pela intervenção, caro primo, mas em nada o comentário de nosso tio afetou-me. É este o juízo que fazes de mim, meu tio? — Audret levara na brincadeira, embora não tivesse gostado do que ele disse, mas como era sonso e bem cínico, fingia-se nunca se ofender com tais palavras. — Se vivo aqui, é porque o estimo e quero estar sempre ao seu lado! — bajula ele.
— Ora! Largas de ser bajulador, garoto! — fala Marcos em tom irônico.
— Ademais, depois que minha mãe morreu, sentia-me muito só no meu castelo — justifica-se Audret.
— Então case-se e tenha filhos para não se sentir tão só — retruca o tio. — Até aqui, não sabia o que era isso, vivia solitário. Agora posso dizer com convicção, não há nada melhor no mundo!
— Senhor! — repreende-lhe Isolda encabulada.
— O fato de Audret não estar em suas terras, não significa que ele seja péssimo administrador — defende-lhe também Morgana. — Veja teu próprio exemplo... Estás longe de tuas terras e no entanto, administras a Cornualha muito bem.
— De fato, deixei um homem de minha total confiança no lugar. O pai desse bajulador aqui — diz ele apontando para Audret. — Na verdade, ofereci as terras como dote ao meu cunhado, quando casou-se com Rosalinda.
— Ora! Ora! Está tudo em família, então? — caçoa o rei Uriens.
Todos riram.
— Então, não tens mais nada na Bretanha? — pergunta Basílica surpresa.
— Algumas terras ao leste e a Cornualha por enquanto, embora não seja minha de fato. Mas no futuro, serei senhor da Irlanda e garantirei uma velhice tranqüila — brinca o rei.
— Agora fiquei curiosa... — pergunta Isolda. — Quem vos está substituindo no vosso castelo, Duque Audret?
— Também fiquei curioso, agora... — questiona Marcos.
— Meu irmão mais moço.
— Ah, é mesmo! Esqueci dele...
— Esquecendo de um sobrinho, rei Marcos?! Que feio! — brinca Morgana.
— Bem, como ele não me perturba e nem me bajula, acho que por isso esqueci.
— Ou então, esqueceste por conta do vinho — fala Isolda.
— É o mais certo — brinca também Tristão
— Oh, meça! O que há com todos? Tiraram o dia para implicarem comigo? Se estou bebendo é porque estou feliz! Aliás, estou contando as horas para deitar-me em companhia de minha doce esposa, outra vez... — fala ele em tom malicioso.
Isolda estremecera. O comentário de Marcos despertara-lhe para uma cruel realidade, desta noite não passaria. Ela teria que deitar-se com ele, querendo ou não, pois Brangia não mais a substituiria. Tristão também sente-se perturbar da mesma forma e olha para Isolda; as mãos dela estavam contraídas de forma tensa.
— Por Deus, primo! Não convém falares de vossas intimidades diante de terceiros — repreende-lhe Basílica, defendendo Isolda de forma estratégica. — Estás a envergonhar vossa esposa com este assunto, não é Lady Morgana?
— Sem dúvida, não é de muito bom tom — concorda Morgana.
— Ora bolas! Eu a elogiei, comparei minha esposa a um doce! Por que é tão inconveniente?
Tristão queria dar-lhe uma resposta, mas em respeito ao tio, preferiu engolir as palavras. Olhou então para Isolda, mais uma vez, a fim de dar-lhe algum consolo; acalmar-lhe o coração. Isolda levanta-se.
— Fizeste um comentário muito grosseiro, senhor meu marido... Com licença. Desejo retirar-me... senhores, senhoras... boa noite.
Ela sai, mas antes, olhou para Tristão com olhos quase suplicantes o que muito o perturbou. O calor do ciúme invadiu o coração do cavaleiro e ele não conseguia mais soletrar uma palavra sequer; ficou calado durante o restante do jantar.
Marcos não gostou, nem um pouco, da atitude da recém esposa e franziu o cenho.
Isolda entrou no seu antigo quarto e mal deu atenção a Huddent. Andava de um lado para outro e estalando os dedos nervosamente. Brangia estava com ela.
— Senhora, deixe de rodar deste jeito. Estás me deixando tonta!
— Estou perdida! Hoje terei de me deitar com ele...
— Não posso mais ajudar-vos, senhora. Pode ser muito arriscado.
— Eu sei, querida amiga... Nem quero forçá-la a isso! O que faço, Brangia?
— Não sei, Isolda.
Marcos não tardara a subir e não viu Isolda no quarto; imaginando que a esposa estivesse em seu antigo aposento, o rei foi até lá.
Batidas na porta. Brangia atende.
— Oh! Majestade?! — cumprimenta a aia.
— Onde está Isolda?
— Ela...
Marcos nem espera Brangia concluir a frase.
— Que fazeis aqui, minha senhora? Este não é mais vosso quarto.
— Eu sei é que...
— Venha.
Marcos estende-lhe a mão. Isolda estremece outra vez.
— O que foi senhora, minha esposa? Algum problema? — pergunta ele percebendo-lhe a hesitação.
— Nada, senhor meu marido. Só quis ver Huddent — inventa ela, não pensando em nada melhor para usar como desculpa.
— Bem... creio que já o viste, não?
Isolda confirma e sai em companhia do marido, olhando com tristeza para sua dama de companhia. À Brangia, deu-lhe a impressão que ela parecia estar indo para o cadafalso.
— Pobre Isolda... — murmura a criada com pesar.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Tristão e Isolda-capítulo 15: Amor sem limites-1ª parte





A profecia da rainha da Irlanda perturbara infinitamente Tristão. Desesperado, pensou em ir para Lionês, pois há muito não ia às suas terras.
Basílica e uma cortesã, rindo e cada uma com uma taça de vinho na mão, aproximavam-se do pátio. Ela estava fugindo de Sir Gawain, que ainda teimava em fazer-lhe a côrte.
— Oh, Basílica! Tu és cruel! Pobre homem... — comentava a amiga.
—Muito velho para mim. Gosto dos mais mancebos e viris, ainda com muita vitalidade! — fala ela bebericando um gole de vinho, quando vê Tristão a conversar com Dinas.
Basílica olha para Tristão com ardente desejo, que dificilmente passaria despercebido, no que sua companheira logo percebeu.
— Hum! Como Sir Tristão, suponho? — brinca a outra. — Ou seria Sir Dinas?!
— Não. Dinas não é o tipo que cativaria meu coração... prefiro os guerreiros.
— És uma pândega, Milady! Faz-me rir! Vamos! Voltemos à festa!
— Vá na frente, eu vos seguirei depois.
— Vou tomar mais um pouco daquela bebida fermentada de cevada — ri a outra se afastando.
Basílica repara que Tristão estava aflito e conversava sério com Dinas. Sem que eles notassem, ela se aproxima para ouvir-lhes a conversa.
— Sir Dinas, vou partir.
—Ora! Tristão, meu amigo! O que foi?
— Eu não posso ficar aqui, Dinas! Não vou suportar! — desbafava ao amigo.
— Mas assim?
— Não posso ficar. Isolda ficará melhor sem mim. Por um milagre divino, meu tio não descobriu-lhe a desonra e ela não precisa mais de mim.
— Acho que não é o momento para abandoná-la... Por Deus! Estás sendo um covarde! Decepcionaste-me, Tristão!
— É só até o efeito do feitiço dissipar-se e voltarei... — desconversa ele. — E três anos passam logo...
— Tristão, não faça isso! Todos irão desconfiar! Talvez eu possa ajudar...
— Não, meu amigo. Ninguém pode me ajudar...
— Por que essa decisão sem sentido?
Tristão ficou calado; preferiu omitir-se e não entrar em detalhes, no que Dinas respeitou.
— Tudo bem, Tristão. Respeito tua decisão, afinal, tua vida te pertence... — o amigo suspira profundamente. — Só espero que não te arrependas depois...
“Ele quer fugir! Audret precisa saber disso!" — pensa Basílica e corre para falar com o seu cúmplice das tramas.
— Mas justo agora que estava ficando divertido?! — fala o primo cínico. — Não posso permitir isso.
— O que farás, então? Querer ir às terras dele, é uma desculpa justa.
— Vou falar com o rei Marcos de alguma forma e ele impedirá que Tristão se afaste daqui. Meu tio tem muita estima por ele e não irá concordar que o sobrinho preferido parta, sem uma explicação convincente e no meio de tamanha festividade.
O rei estava reunido com os convidados, enquanto banqueteavam e se divertiam com os bobos-da-corte. Alguns deles já estavam de partida, entre eles, os reis da Irlanda.
— É uma pena que não possam ficar mais — dizia-lhes Marcos.
— Pois é, temos uma longa viagem de mar pela frente e precisamos aproveitar os bons ventos — falava o pai de Isolda.
— Vou sentir tanta falta dos dois! — desabafa Isolda com pesar.
A mãe a abraça. À parte, faz-lhe recomendações para que fosse uma boa esposa.
— Vosso marido é um bom homem, minha filha. Respeite-o pelo menos, se não puderes amá-lo — aconselhou-a.
— Por que dizes tal coisa,minha mãe? — Isolda ficou surpresa.
— Eu sei o que digo, Isolda. Isso é para o teu bem. Cuide-se, minha jóia preciosa e assim que puder, vá com Marcos visitar-nos na Irlanda. Afastai-vos de Tristão... — sussurra ela, de modo inaudível.
A princesa não entendera... O que sua mãe sabia?
Isolda também se despediu do pai e com Marcos, conduziu-os à liteira, uma espécie de carruagem para longas viagens. Quando o cortejo de seus pais sumira no horizonte, Isolda derramava lágrimas, já antecipando a saudade que sentiria dos dois.
— Vamos, senhora. Não ficais triste assim, prometo-vos que iremos à Irlanda o mais cedo possível e logo podereis vê-los.
— Agradeço, meu senhor —diz-lhe Isolda tímida e arriscando um sorriso.
Audret vinha atrás do rei e cumprimenta o tio.
— E então, meu caro tio? Vejo que estás muito feliz; vislumbro um sorriso de satisfação em vossos lábios!
— E não era para estar, meu sobrinho? Tenho a esposa mais linda do mundo! — galanteou ele. Isolda corou. — Viste Tristão?
— Oh, sim! Conversava com Sir Dinas de Lindan. São tão amigos, não?! Veja o senhor, que ele lhe dizia que queria voltar para Lionês?!!
— Como? Ora essa! Viajar em meio à tão grande festa?
— Vai ver, Sir Gorvenal mandou mensagem — busca justificar-lhe o Duque Audret.
Isolda fica pálida com a nova.
— Ora qual! Não chegou nenhum mensageiro de Lionês! E que eu saiba, Sir Gorvenal está administrando as terras muito bem! Não há necessidade, dele ausentar-se agora.
— Foi o que sem querer ouvi. Oh, meu Deus, não devia ter falado nada! — Audret finge-se arrependido de ter falado.
— Não. Fizeste bem.
— Vais deixar Tristão partir, meu senhor? — pergunta Isolda.
— De modo algum! Ele é meu cavaleiro e deve-me obediência. Além do mais, preciso dele aqui, pois vou partir em viagem após as bodas.
— Para onde, querido Marcos? — surpreende-se a esposa.
— Para as terras do rei Uriens, esposo de Lady Morgana. Temos assuntos a tratar.
— Mas mal te casaste comigo e já queres partir? — mente estar penalizada a jovem esposa. — Não fui do teu agrado?
— Não querida! Não é isso! Claro que me agradastes! — riu-se Marcos. — É que esta viagem já estava marcada há muito tempo, senão, jamais iria deixar-vos! Sabe, com o tempo entenderás as viagens que um rei necessita fazer para cuidar de seus negócios e terras e como precisamos aproveitar este bom tempo de verão para nos deslocarmos, pois no inverno é mais difícil — explica-lhe. — Eu poderia levar-vos comigo, mas como chegastes de uma viagem tão longa da Irlanda para casar-se, quero poupar-vos.
Audret ficara pasmo com a falsidade dela. Vira, assustado, que Isolda não seria presa fácil de uma armadilha forjada por ele.
“Como és hipócrita, mulher!” — admira-se ele.
— Então, vais deixar-me aos cuidados de Sir Tristão? — torna a perguntar.
— Por certo que sim, Isolda. Qual homem poderia velar por ti na minha ausência? Tristão é de minha total confiança.
Audret teve que segurar o riso. “até quando viverás iludido com isso, meu tio?” — pensara ele de forma cruel. — “quando souberes...”
— Bom... Quando Tristão vier falar comigo, não serei pego de surpresa e negarei autorização para que parta.
Não demora muito pra acontecer. Tristão, ao ver o tio, comunica-lhe que deseja partir. O tio e Isolda estavam sentados na mesa de banquete, com os convidados restantes.
— Que bom meu querido sobrinho! Venha comer conosco! Sentai-vos perto de mim e Isolda...
— Eu não estou com fome, senhor.
— Outra vez com esta história! Rei Arthur ficará muito ofendido se não tomares parte na mesa conosco — fala-lhe o rei Marcos.
Rei Arthur estava distraído e degustando um belo pedaço de carne e Gwenevere o cutuca.
— Hein? Que foi, mulher? Ah sim! Claro! Ficarei ofendido sim! — diz caindo em si.
Muitos riram com isso; menos Tristão.
— Eu sinto muito, Grande Rei, mas de fato estou um pouco indisposto. Acho que exagerei nas iguarias, na noite de ontem — inventa ele. — Quero aproveitar o momento e comunicar-vos, meu tio e senhor, que desejo partir para Lionês.
— De jeito nenhum — protesta Marcos. — Preciso de vós aqui.
— Mas tio, eu preciso ver minhas terras, não sei como...
— Ora! Está tudo bem! Notícias de desgraças chegam rápido e como irei viajar, preciso que alguém cuide de minha esposa, no meu lugar.
— Eu? Cuidar da senhora? — Tristão se assusta.
— E quem mais de minha total confiança, poderia ficar com ela? Se na minha ausência algum inimigo desejar invadir o castelo, quem irá defendê-lo e protegê-la em sua virtude? Isto sem falar, que é uma falta de respeito partir, enquanto estamos na presença do Grande Rei e os demais convidados!
Tristão ficara sem palavras para contestar. Audret, sentado em silêncio, disfarçava um sorriso triunfante: “Pensas que fugirá da ratoeira tão fácil, seu roedor imundo?” — indagava-se.
E assim, caíra por terra o intento de Tristão. O que faria agora? A rainha da Irlanda o advertira.
“Estou condenado...” — pensa o jovem. —“não tenho como fugir desta responsabilidade...”

domingo, 4 de janeiro de 2009

Tristão e Isolda-capítulo 14: a profecia da rainha da Irlanda (2ª parte)

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Brangia voltara ao quarto onde dormia com a princesa e lá, pegou a vasilha de água e lavou-se toda. Esfregava uma bucha vegetal com tanta força sobre a pele, que parecia querer arrancá-la e eliminar assim, o cheiro do homem que não amava e que parecia impregnado em seu corpo. Depois que fez isso, sentou-se na cama e chorou amargamente, enquanto Huddent dormia a sono solto e esticado junto à cama.
No dia seguinte, quando via Dinas de Lindan, ela o evitava. O pobre homem não estava entendendo nada, por fim, Brangia encontra um refúgio no jardim da rainha e lá permanece até Tristão encontrá-la. Ela estava sentada sobre a fonte do jardim, próxima ao velho carvalho que com sua frondosa e vasta copa, oferecia uma sombra generosa sobre o lugar. Um retiro bem aconchegante. A Tristão parecia que ela chorava e de fato estava chorando...
— Brangia. Isolda contou-me tudo. Estou pasmo... Oh, Deus! Tiveste que vos sacrificar por nós...

— Não se culpem, Sir Tristão. Fiz o que deveria ser feito para salvar a honra de minha senhora.

— Mesmo assim, não era justo...

— Se ambos estão nesta situação foi por imprudência minha, porque deixei aquele maldito frasco ao alcance dos dois.

— Ela esteve comigo a noite toda...

— Não poderia ser diferente. Era o único lugar onde a princesa Isolda estaria segura. Só não sei como serão as próximas noites, eu não suportaria ter que...

— Nós nem temos o direito de exigir isto de ti! Já fizeste muito por nós!

— Só vos peço, Sir Tristão, que não conteis sobre isto a Sir Dinas — interrompe ela.

— Claro! Tem a minha palavra, cara Brangia.

Nesta hora, Tristão percebeu que a jovem criada nutria um grande afeto por Sir Dinas e ele, sentiu-se ainda mais culpado. Que turbilhão é este que se chama amor? Que faz homens e mulheres perderem a razão e arrasta-os para uma tempestade inclemente ou um profundo abismo? Indagava-se o cavaleiro, pois era exatamente como se sentia: numa tempestade de paixões e num profundo abismo.

Enquanto eles conversavam, a rainha Isolda “a velha”, aproximava-se do jardim e ouvira toda a conversa e quando Tristão despediu-se da criada de Isolda...

— Deixou o frasco ao alcance dos dois? Eu ouvi bem? — surge a rainha da Irlanda, de súbito.

— Senhora?!!!

“Oh não, a rainha irá me matar...” — pensa Brangia desesperada.

— Brangia, eu lhe fiz uma pergunta!

Brangia atira-se aos pés dela.

— Mil perdões! Tenha piedade!!!

Responda! Isolda e Tristão beberam da poção? — grita a rainha.

— Sim! Eu não consegui evitar...

A rainha, num acesso de ira, esbofeteia-lhe a face.

Pela Deusa! Amaldiçoada sejas, mulher!!! Oh, Brangia! Tanto que vos
recomendei!!!

— Eu já paguei a minha pena! Deitei-me com Marcos e salvei a honra de Isolda!

— E não fizeste mais do que vossa obrigação! Afinal, se eles...
Isolda “a velha” cala-se. Seu corpo havia sofrido um tremor e seus olhos, pareciam ter saído das órbitas.

— Senhora? — assusta-se Brangia ao ver aquele êxtase, que ela conhecia muito bem quando a rainha Isolda era envolvida pela “Visão”, de forma inesperada.

— Tristão deve afastar-se da Cornualha... Uma sombra negra o envolve... Um homem... Não! Está tão escuro! Não consigo ver!!!

Ela desperta do transe e vê-se assistida pela criada de Isolda, completamente pálida. Brangia a segurava pelo braço.

— O que houve? — pergunta ela voltando a si.

— Acho que tiveste uma “Visão”, senhora.

— Onde está Tristão? Preciso falar-lhe!

— Eu não sei para onde ele foi!

— Largue-me! Preciso vê-lo...

Isolda “a velha” afasta-se apressada. Tristão havia saído, não fazia muito; se corresse, o alcançaria adiante. Ela foi encontrá-lo nas cavalariças, supervisionando o trabalho do ferreiro, que trocava as ferraduras de seu cavalo.

— Sir Tristão!

— Rainha Isolda... — diz-lhe ele, curvando-se em respeito.

— Preciso falar-vos, meu caro. É urgente! E... particular.

— Venha comigo, senhora.

Tristão leva-a à capela. Não havia ninguém lá a esta hora.

— Percebo em vossa voz que, de fato, é algo importante. Pois fale, Majestade...

— Eu já soube de tudo. Sei que tu e Isolda beberam do filtro.

— Que filtro, por Deus?!Não compreendo... — ele tenta disfarçar.

— Não mintas Tristão! Se mentes para proteger Brangia, esqueças! Ela própria confirmou.

— Foi um acidente, senhora...

— Também sei que ambos não tiveram culpa, mas as conseqüências podem ser terríveis se não fizeres o que vim propor-te.

— Uma proposta?

— Não há um contra feitiço para a droga, a não ser o prazo que o filtro levará para enfraquecer. Por isso, afasta-te daqui durante três anos!

— Eu não posso afastar-me assim! Tenho obrigações com o reino da Cornualha!

— Uma sombra negra o envolve, senhor — diz-lhe a rainha de modo sério. — A morte o espreita neste castelo e poderá vir pelas mãos de um homem.

— Um homem?! Será meu tio?

— Tu bem sabes que sou uma ex-sacerdotisa da antiga religião e que tenho a “Visão”.

— Como poderia esquecer? Descobriste minha verdadeira identidade na Irlanda...

— Fui acometida pelo dom e vi este homem, mas, infelizmente, não defini o rosto dele. Deves proteger-te e proteger minha filha, também. O melhor é afastar-te da Cornualha por um tempo. Por favor, vá para Camelot ou voltes para Lionês. Afasta-te de Isolda!

Tristão a encara sério. A rainha afasta-se e olha-o uma última vez, antes de deixar a capela. Tristão senta-se em um dos bancos e fica pensativo. “...a morte o espreita neste castelo e poderá vir pelas mãos de um homem...” — ecoaram as palavras da rainha irlandesa em sua mente. — “ Quem pode ser este homem?” — indagara-se preocupado.

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