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Tristão calou-se. Dinas olhava-o e percebera que a sua decepção não se comparava ao fardo que o amigo carregava: amor e gratidão ao tio, misturado ao sentimento de culpa por ser amante da esposa dele. Talvez, no lugar de Tristão, ele já teria enlouquecido com essa situação. Dinas desviou o assunto.
— No dia que me contaste, eu fiquei perplexo. Ainda tentei falar com ela, mas quando entrei no quarto e a vi dormindo, perdi a coragem.
— Por um lado, deve ter sido melhor assim... aquele dia estavas nervoso e talvez, instigado pelo ciúme, pudesse ter posto tudo a perder.
—É pode ser... mas mesmo assim, ainda me sinto traído. Só que, posso relevar, já que me garantiste que foi só aquela noite.
—Foi aquela vez apenas, posso afiançar-vos, tem a minha palavra.
Brangia apareceu de repente e perguntando por Isolda.
— Sir Tristão? Sir Dinas?! Onde está Isolda?
— Acabou de sair com as donzelas, Brangia. Estão na praia —responde Tristão.
— Nossa! Por que ela não me esperou?
— Porque eu preciso falar-te e não ouses fugir de mim, como sempre fazes! — adianta-se Dinas de Lindan.
Brangia olhou desesperada para Tristão em busca de socorro, mas ele ignorou e afastou-se para que ambos pudessem conversar.
— Bom... eu não sei como começar, mas... — Dinas faz uma pausa para observá-la. Brangia estava imóvel, exceto por uma das mãos, que apertava nervosamente o vestido.
— Brangia... talvez aqui não seja um bom lugar para esta conversa, porque alguém pode passar e nos oubir. Vamos até o jardim.
Enquanto saíam, havia um alvoroço no pátio do castelo, o que favoreceu-os para que ninguém os visse.
Basílica e Audret tinham acabado de chegar.
— Bem, chegamos! Oh, quero só ver a reação de todos ao me virem assim! “Principalmente Tristão” — pensa ela delirante. —“Talvez o luto não me favorecesse e por isso, Tristão nunca notou como sou bela...”
Como se lesse os pensamentos dela, Audret insinuou...
— Todos, ou uma “certa” pessoa?! — comenta enciumado.
Basílica fez-se de surda ao comentário maldoso e desceu da carruagem. Até Isolda, que acabara de sair e suas damas, se espantaram.
— Basílica?! — comenta a rainha. — Estás tão... diferente...
— Ai! E linda também!!! — assanhou-se Lívian.
Todas as donzelas a cercaram para admirá-la. Basílica sentiu que seu ego ia explodir.
— Meu marido Audret é muito generoso!
— Marido?!! — espanta-se Isolda.
— Sim, nos casamos durante a viagem.
— O-Ora! Meus parabéns! — gagueja Isolda, ainda surpresa com a nova. — Aos dois!
Audret não parecia muito satisfeito.
— Vou dar ordens aos criados, para que descarreguem e levem nossas bagagens, com licença minha rainha.
Sai ele.
— Nossa! Ele não parece muito feliz, estando recém casado! — observou uma das garotas.
— É apenas cansaço da viagem. Coitado! Pouco descansou, desde que nos casamos... Onde vão? — Basílica mudou de assunto rapidamente, para não dar chances a mais especulações.
— À praia. Se não estiver muito cansada, gostaria de ir conosco, Basílica? — convida Isolda.
— Adoraria, minha rainha!
Basílica fez uma reverência e seguiu com elas.
Dinas conduziu Brangia até o lugar determinado e fez com que se sentasse. Ela se sentou imóvel e sem falas, como uma estátua de mármore, que fizesse parte do jardim.
— Brangia, por favor... não torne cada vez mais difícil para nós esta conversa. Sabe o quanto está me custando falar sobre esse assunto?
Ele se sentou perto dela e Brangia afasta-se mais uma vez. Dinas puxou-a para que o olhasse nos olhos e embora relutasse um pouco, acabou encarando-o a contra-gosto.
— Assim está melhor...
— Sir Dinas, por favor...
— Eu já soube de tudo.
— Soube do quê? — Brangia estremece com a nova.
— Do que fizeste para salvar Tristão e Isolda. És muito corajosa...
— Quê?! Como soube?
— Tristão me contou.
— Ah, não! Ele não podia ter feito isso comigo! Ele me prometeu que guardaria segredo! Maldito...
— Ei! Antes de condená-lo, saiba que ele só o fez, para cumprir uma ordem da rainha.
— Isolda também?! Raios!!! Por que eles fizeram isso comigo?
— Fizeram por se sentirem culpados e pensando em seu bem, por isso, não os culpe assim — defende ele.
— Eles não tinham este direito! Era um segredo meu. Assim como guardo o deles, eles deveriam fazer o mesmo!
— Eles não suportavam mais ver o quanto você se martirizava por isso.
Brangia não conteve mais as lágrimas e Dinas abraça-lhe. Com isso, ela chorou ainda mais... como uma criança que buscasse consolo nos braços de um adulto, depois de levar um tombo ou um susto.
— Não deveis criticá-los assim. Isso foi prova de imensa gratidão e grande amizade por ti. Eles querem ver-te feliz. Brangia, olhe para mim... eu te amo, apesar de tudo e gostaria que soubesses disso.
— Hã?! Mas eu estou maculada pro resto da vida! Como pode teimar em sentir algo assim por mim? Eu não te mereço...
— Pára de dizer que não mereces nada! Tu o fizeste visando praticar um bem! E realmente, que saída eles tinham? O rei ia descobrir tudo e nem eu conseguiria pensar em algo melhor. Você foi...
— Rameira.
— Não. Incrível! E ouso dizer que esta tua coragem, prova o quanto sois fiel à tua senhora, e isso cativou-me ainda mais! Foi um ato digno... meio torto, é claro! — ele riu. — Mas ainda assim, digno, visando os reais motivos...
— Você... —gagueja ela ainda não acreditando. — Está me dizendo que não está nem um pouco magoado e que, ainda assim, me perdoa por tudo?!
— Bom... se dissesse que não estou magoado, estaria sendo hipócrita, mas... digamos que eu entendo suas razões e que posso relevar e esquecer isso — fala ele meio sem-graça.
A tristeza de Brangia cedeu lugar a uma alegria inenarrável. Ela o abraçou e disparou nas palavras.
—Dinaseujuroquefoisónaquelanoiteeoreinuncamaistocouemmim!!!
— Ei! Calma! Eu sei disso!!!! Esper...

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