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domingo, 17 de outubro de 2010

Tristão e Isolda-Capítulo 20: Acerto de Contas - (5ª parte)



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O rei subiu aos aposentos e agora, iria acertar as contas com Isolda. Uma vez confirmado por Tristão, como um fato no passado dos dois, ela não teria como negar. Marcos entrou no quarto e Isolda reparou que ele estava estranho. Brangia também reparou.

—Algum problema?

— Por que deveria? Há de fato algum problema ? Espero que minha senhora me diga...

Isolda recuou assustada e Brangia idem. Elas nunca o tinham visto assim.

— Não sei do que falas, milorde!

— Ah, não sabes... Brangia, saia!

Brangia hesitou em sair e só obedeceu, porque Isolda fez-lhe um sinal para que saísse. Depois que Brangia saiu, ele agarrou a esposa e jogou-a sobre a cama.

Meu rei! O que pensas estar fazendo?

Não mintas mais para mim e nem ouse enganar-me, pois não serei clemente!

Estás louco?!

Huddent o atacou quando viu sua dona ameaçada, mas contra Marcos, ele não pode fazer muito por ser tão pequeno. O cãozinho acabou expulso do quarto.

— Diga que não é verdade que Tristão e vós, senhora, já se envolveram no passado! Diga e não respondo pelos meus atos!!! Eu já soube de tudo...

Isolda viu-se perdida e morta. Só um milagre para salvá-la agora.

Eu não sei do que estás falando, meu senhor!

Sabe sim! Ah, tu sabes! Eu vi a carta de teu pai oferecendo tua mão à Tristão.

C-Como?! E-Eu não sei nada direito sobre isso...

Mentirosa!!! Tristão já confirmou sobre o passado de vocês! Vais contra a declaração de teu antigo amor, mulher?!

Marcos, por favor... — Isolda entrou em desespero — ...eu posso explicar!

Brangia, como estava preocupada, ficou ouvindo atrás da porta. O rei parecia que iria matar a rainha a qualquer momento, no que ela se desesperou e correu para chamar ajuda. Foi logo atrás de Dinas, seu noivo e Perynnis, o pajem de Isolda.

Audret e Basílica que adoraram, pois os gritos encolerizados do rei, se fazia ouvir pelos corredores do castelo.

Nossa! O que é isso?! Meu Deus! — exclama Basílica.

— O doce som da vitória! — comemora Audret levantando-se de um pulo e correndo para ver o resultado de sua vingança.

Ei! Espera!!!!

Basílica correu atrás, ajeitando “desajeitadamente” as madeixas cobres de seu penteado.

Tristão também ouviu e percebendo o corre-corre, foi tentar fazer algo para salvar sua amada, mas Dinas o impediu.

Não, Tristão! Tu não deves ir!!!

Me larga Dinas! Ela precisa de mim!!!

Indo lá, só irás piorar as coisas!

Brangia só sabia chorar de apreensão.

Na porta do quarto, Huddent cavava impaciente por baixo da fresta e gania desesperado. Perynnis o pegou e Dinas entrou nos aposentos, a tempo de segurar o rei.

Majestade, acalme-se! Estás fora de si!!!

Audret e Basílica chegaram naquele momento. Basílica, por ordem de Audret, correu para abraçar Isolda e fazer-se de amiga.

Marcos! Por que fazes isto com a pobrezinha?!!!!

Vais continuar negando, depois de tudo que foi confirmado, mulher infame?

Não! Não vou negar!!! É a verdade que queres? Pois terás a verdade!!! — grita Isolda corajosa e altiva. — Sim! Eu e ele nos envolvemos no passado! Mas meu pai, por saber ser ele o assassino de Morholt, não deu-nos sua benção e nos afastou, expulsando-o da Irlanda. Porém, vendo-me triste, acredito que decidiu voltar atrás e escrever a Tristão, pedindo que voltasse para se casar comigo. Só que Tristão não deu nenhuma resposta e foi buscar-me para casar sim, mas convosco, e chegando à Irlanda, o mesmo confessou a meu pai que não sentia mais nada por mim, pois estava envolvido com outra mulher, que havia encontrado um outro amor! — Isolda tenta essa saída, para acalmar o marido e funcionou. — Por isso, só o que posso dizer sentir por ele, agora, é desprezo!

Como?! Mas nunca a vi demonstrar isso e destratá-lo!

Por consideração a vós, o tolero! Oh, o Céu é testemunha do quanto desejava a vossa volta, para não ter que suportar mais a companhia de Tristão. Embora não demonstrasse, eu o odiava por isso e queria me vingar! Mas depois que vos conheci, descobri um novo sentido para a minha vida!

Isolda conseguiu simular lágrimas de alguém muito humilhado e incompreendido. Audret teve vontade de gritar, acusá-la de mentirosa e pervertida. Contudo, conteve-se, pois o rei caíra na artimanha dela e logo se jogou aos pés da rainha, a pedir-lhe perdão.

— Isolda, minha querida! Me perdoe!!! Não sei o que deu em mim!

Sois um tolo! Nunca reparastes que quando me obrigavas à companhia de Tristão, nós dois ficávamos estranhos? Não reparastes nas escusas de Tristão para não comer em nossa companhia? Era sempre tu que o obrigavas a sair da solidão dos seus aposentos para vir ter conosco. Sabe por que disso? Porque ele sabia que eu o odiava...





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Tristão e Isolda-Capítulo 20: Acerto de Contas - (4ª parte)


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Marcos estremece. O rei abandonou o acesso de fúria e lembrou-se do mal-estar causado na Corte, quando ele mesmo propôs que Tristão sucedesse-o no trono. Lembrou-se de muitos barões que se pronunciaram contra. Poderiam, de fato, estarem armando para que ele se indispusesse com Tristão? Mas a carta comprometedora de Anguish da Irlanda existia, e as testemunhas também, para provar aquele suposto romance. Marcos não sabia o que fazer...

— Pois bem, meu tio. Fiz minha defesa e compete a vós julgar-me. Se achais que tenho alguma razão, perdoe-me pelo meu mau passo no passado; agora, se acreditas que sou culpado, mesmo sabendo o quanto de fidelidade vos devotei todos estes anos de minha vida, mate-me e devolva a paz ao vosso coração.

— Não vou matá-lo, não agora, preciso pensar e julgar da melhor forma possível. Mas, infelizmente, vou precisar fazer algo convosco até segunda ordem.

Marcos não conseguiu mais manter aquela raiva. Vendo o amado sobrinho ali, oferecendo-lhe a vida dele pela sua paz de espírito, acabou comovendo-o.

— Eu convoquei o Conselho, mas vou adiar porque estou ainda muito confuso e abalado e não quero tomar nenhuma decisão precipitada. Há ainda muitas coisas a serem esclarecidas. Mas alguma decisão deverá ser tomada, pois os barões exigem que eu a faça e tome uma atitude. Por hora, para protegê-lo, aconselho-o a afastar-se do castelo, para que não dê razões às más línguas, pelo menos até essa poeira baixar.

— Quer que eu vá embora?! — assusta-se Tristão.

Tristão empalidecera. Ser exilado logo agora no pé em que estava a relação dele e Isolda? Com uma criança por vir?

— Não querias ir até Lioness, antes que eu partisse com Uriens? Pois bem, estou concedendo-lhe o que me pediste.

Isso era tudo o que Tristão menos queria. Deixar Isolda, exatamente na hora em que ela mais precisava dele.

— Por favor, meu senhor, eu regressei de lá há pouco tempo, não me afastais da vossa companhia agora que voltastes. Acredite, não há necessidade...

— É uma ordem Tristão. Faço isso para o teu próprio bem... — encerra o rei firmemente. — Partas logo que o dia amanhecer, vos darei proventos para a viagem e só tornes à Cornualha, quando receber minha ordem. Ou preferes que eu o mantenha cativo, até o julgamento?! Só Deus sabe qual será a tua sorte, uma vez que mesmo dissestes que possuis inimigos declarados no castelo...

Marcos saiu da sala e Tristão ficou a sós com suas terríveis aflições. Suas pernas tremiam e não queriam obedecer-lhe. Ele ofegava e suava, era um milagre ele ainda estar vivo.

Viu-se num torvelinho de emoções. Ele vira seu tio esquecer sua realeza e chorar pela primeira vez e isso, o impressionou. Percebeu , também, o quanto era amado por ele, de uma forma que não merecia, porque ainda que os inimigos tenham destilado tamanho veneno, o tio continuava empenhado em protegê-lo.

Com isso, Tristão também chorou. Chorou pela sua situação como amante enfeitiçado e o quanto era difícil afastar-se de Isolda. Chorou pela vinda da inesperada criança, que Isolda carregava no ventre. “O que será de nós?” Foi a única pergunta que veio-lhe à mente.

— Oh, Deus dos Céus Eternos! Por que tive que beber aquele maldito filtro?



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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Tristão e Isolda-Capítulo 20: Acerto de Contas - (3ª parte)



Postei finalmente três textos. Depois de meses ausentes, em respeito a todos que me acompanham, era o mínimo que podia fazer. Confesso que nesse tempinho de férias, dei uma repensada na história e mudei muitas coisas para oferecer uma leitura cada vez melhor a todos. Abraços e espero que curtam.

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Tristão foi outra vez ao encontro do tio, que agora, estava com uma cara nada amistosa. Audret estava com um sorriso sarcástico, iluminando todo o rosto e Hestas, o velho conselheiro, encarava-o com ares de severa reprovação. Um silêncio mortal pairava no ar. Tristão desejou mais uma vez, como tantas outras, que o chão se abrisse e o devorasse até o rei quebrar o silêncio.

Saiam os dois! — ordena ele.

Audret protestou.

— Mas, senhor meu tio, eu...

— Ambos já cumpriram a que vieram, agora, minha conversa é só com ele.

Tristão não desviou, em momento algum, o olhar de seu tio. Hestas e Audret saíram contrariados. Marcos se levantou e sem hesitar, achegou-se a Tristão e deu-lhe um sonoro tapa em sua face. Os dedos ficaram logo marcados, mas Tristão não ofereceu nenhuma resistência e também, não reagiu.

DEVASSO!!! MENTIROSO!!! IGNÓBIL!!!! Mentiste para mim! Disseste-me que estavas cuidando de Isolda com extremo zelo?! Que me dizes disto?

Marcos jogou a carta de Anguish no rosto do sobrinho. Tristão, sem entender, pegou a carta e leu. Ficou sem palavras e lembrou-se da vez que o rei da Irlanda comentara, sobre uma carta que enviara a ele.

Vais ter a coragem de negar os sentimentos por Isolda, depois desta prova?

Tristão amassou a carta e deixando vazar toda a raiva contida; explodiu:

Não! Não vou negar! Mas isso já foi há muito tempo! Só o que sinto por ela agora, é respeito por ser vossa esposa!

Ordinário!!!

Lágrimas relampejaram nos olhos de Marcos e ele agarrou o sobrinho pela túnica, sacudindo-o violentamente.

Não é o que certas pessoas andaram vendo. Enquanto estive fora, te davas ao desfrute com minha mulher!!!

Marcos jogou-o no chão. Tristão desembainhou a espada e o rei, pensou que o sobrinho fosse atacá-lo para ficar de vez com Isolda. Qual não foi sua surpresa, quando Tristão jogou-se aos pés dele e estendeu-lhe a espada, suplicante.

— Sei que não posso fazer-vos acreditar em mim, pelo veneno que incutiram em vossa mente a meu respeito, senhor. Mas para provar o quanto vos sou fiel, entrego-vos a espada que me destes, e se quiserdes me matar, faça bom uso dela. Minha vida é vossa, disponhais dela como desejares.

Marcos ficou pasmo. Não esperava uma atitude daquelas.

— Pois eu devia realmente matá-lo — fala o rei embargado.

— Não me oporei, meu tio... que tua vontade seja feita. Mate-me, se isto o fizer sentir-se melhor.

Tristão insistia em passar-lhe a espada, porém, Marcos negou-se a cumprir o que ele pedia. O cavaleiro continuou...

— Houve um tempo, que de fato, cheguei a amar Isolda, quando éramos mais jovens. Só que este tempo passou e não há mais nada entre nós. Se alguém diz ter visto isso, de certo, não viu direito ou não aprecia minha pessoa e quer me ver fora deste castelo.

— Uma pessoa poderia ter se enganado, agora duas, muito pouco provável, não acha? E você acredita que vosso primo desejaria prejudicar-vos? Segundo o próprio confirmou, ele foi uma das testemunhas que os viram juntos, como Hestas.

— Sempre respeitei Audret como a um irmão. O que possa tê-lo levado a levantar esse falso contra mim, desconheço.

— Eu gostaria muito, mas não posso mais acreditar em ti, pois mentiste antes para mim; negou que tu e Isolda tivessem se amado... Embora queira, do fundo de minha alma, eu não consigo perdoá-lo. Não antes de julgá-lo...

— Compreendo tua aflição, meu tio. Mas é de teu conhecimento, senhor, que tenho alguns inimigos declarados neste castelo e que tudo fariam para acabar com vossa confiança em mim. Peço-vos, que pense nisso quando levar-me a julgamento — diz-lhe Tristão calmamente e inabalável.



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Tristão e Isolda-Capítulo 20: Acerto de Contas - (2ª parte)


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Isolda sentiu-se magoar com as palavras dele. Tristão falava do filho, como se fosse um pesado fardo e não pôde evitar que lágrimas sentidas, escorressem por seu rosto.

— É seu filho, Tristão... Eu sinto muito... mas é seu filho...

Ele percebera-lhe as lágrimas e sentiu-se pior do que antes por magoá-la.

— Eu sei, Isolda.

Tristão segurou o delicado rosto entrre suas mãos trêmulas, beijou-lhe a face e tentou desculpar-se.

— Ele veio em má-hora, mas é meu filho e tenho obrigação de zelar por ele. Precisamos pensar em algo rápido.

— Marcos voltou, então, deitando-me com ele, Marcos pensará que o filho é dele...

Tristão explodiu.

Mais mentiras?! Estou farto disso!!!

— Não tem outro meio! — retruca ela.

— Não posso mais sustentar isso! Não quero desonrar-me ainda mais e macular a memória de meu pai! Ou contamos a verdade para Marcos, ou vamos para Lioness na calada desta noite!

O temor de ver Tristão arrepender-se e acusá-la o resto da vida de objeto de sua desonra, fez com que ela recusasse.

— Tristão, estás fora de si, não consegues organizar os pensamentos claramente. Como disseste; amais vosso tio e estás dividido. Uma decisão precipitada, poderá fazê-lo arrepender-se amargamente.

— Eu não compreendo? Não queres vir comigo?!

— É o que eu mais quero, meu amor. Mas não assim.

Tristão ficou ainda mais confuso, quando foi interrompido por Dinas e Perynnis, que o chamavam aflito.

— Estão me chamando. Preciso sair daqui. Isolda, esta nossa conversa não encerra aqui. Pense sobre a minha proposta e ainda hoje, me dê uma resposta por Brangia ou Dinas.

Ele saiu do quarto e foi até os que o chamavam.

— Graças a Deus, homem! Onde estavas? — exclama Dinas.

— Acho que já sabes.

— Tristão, o rei está de volta, onde estás com a cabeça? — critica-lhe o amigo. — Olha; as notícias que trago não são boas. Especula-se de que o rei decidiu reunir o Conselho da Corte, mas antes, quer vê-lo de novo.

Tristão ficou pálido. Reunião extraordinária do Conselho, não era coisa boa.

Dinas levou-o a um canto para falar-lhe.

— Tristão, Audret tem provas do teu relacionamento com Isolda.

O quê?!!!

— Aconselho-o a contar a verdade ao rei, embora omitindo alguns fatos.

— Eu não posso fazer isso! Além de comprometer-me, também comprometerei Isolda!

— Nas atuais circunstâncias, é melhor não negar, pois será pior — aconselhou-o o amigo.

— Oh, Céus! Que Deus tenha piedade de minha alma! — fala o cavaleiro.



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Tristão e Isolda-Capítulo 20: Acerto de Contas - (1ª parte)



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Ele subiu rapidamente e foi só o tempo dele entrar, pegar a carta, quando Perynnis veio chamá-lo.

Era a hora dele agir e mostrar ao rei, a carta do rei da Irlanda, que há muito estava em seu poder.

Não demorou muito, Audret já se apresentava diante do rei, o qual, já foi descarregando desaforos sobre ele.

— Espero que te retrates sobre o que me informaste naquela carta. Não admito que lances dúvidas sobre a fidelidade de Tristão sem provas. Seu primo me garantiu que tudo não passou de cuidados extremos para com a rainha.

— Vai acreditar tão piamente nele, meu tio? Pois bem, não o julgo, afinal, Tristão sempre lhe foi muito fiel... embora, uma carta do teu sogro, confirme um fato incontestável do passado do teu amado sobrinho e cavaleiro. Enfim, de repente, foi mero arroubo de juventude! — retruca-lhe Audret com a voz calma.

— Do que estás falando, Audret? Que carta é esta?— Marcos franziu a testa. — Seja claro, por favor...

— Dói-me ter de mostrar-lhe isso, mas os barões que o servem, exigem que eu o faça. E há testemunhas oculares, que os viram juntos e que podem confirmar...

Marcos ficou confuso. Pelo jeito, a coisa ainda era mais séria do que ele imaginava.

— Me mostre esta carta, agora — ordena o rei.

Audret estende-lhe a carta comprometedora. Marcos abre e lê. A perplexidade ficou evidente em seu rosto.

— Não pode ser... ele e Isolda, no passado... mas ele me garantiu que...

— Eu sinto muito, senhor. Se fosse só esta prova, mas há testemunhas oculares do fato. Hestas, o vosso conselheiro.

— Hestas é muito velho! Já deve estar cego e não viu direito!

— Infelizmente, eu estava com Hestas e também vi, meu tio. Por Deus, preferia ser cego ao ver aquilo! — comenta ele, demonstrando pesar.

— O que viste?

— Eles, na praia, aos afagos e beijos!

O mundo de Marcos pareceu desmoronar e o mesmo sentiu-se mal, caindo sobre a cadeira. Audret ficou assustado.

“Opa! Acho que fui longe demais...” — pensou aflito e foi chamar ajuda.

Nesse interím, Tristão foi falar com Isolda e entrou sem cerimônias no quarto dela.

— Tristão?! O que faz aqui? É arriscado agora que o rei voltou!

Rei Marcos, depois de recobrar-se, exigiu a presença de Hestas, para que o mesmo confirmasse a história de Audret . No quarto, Tristão conversava aflito com Isolda.

— Por quê?! Por que não me contou que estava grávida?

— E-Eu não tive tempo. Decidiste ir para Lioness e não quis atrapalhar suas obrigações! Mas eu ia contar, assim que voltasses! Só que o rei chegou e...

Ele a agarra.

—Ele está desconfiado e me fez várias perguntas.

— A mim também!

— Jamais quis que chegasse a tal ponto! Meu Deus! Não vai ter outro jeito! — diz aflito.

Tristão começou a circular impaciente pelo quarto, enxugando o suor que pingava.

— Isolda, precisamos fugir. Ainda mais agora! Há a sorte de uma criança em jogo. Eu errei! Oh, Deus! Fui um tolo! Podíamos ter fugido na ausência dele! Podia tê-la levado para Lioness!

— E causar uma guerra? Seria o primeiro lugar que ele iria procurar-nos. Fora o desgosto que iria causar a ele. Marcos é tão importante para ti quanto eu! Não conseguirias Tristão...

— Mas num caso como esse, por Cristo! Eu passaria por cima de tudo! Se eu soubesse deste filho...

— Quando partiste eu também não sabia, não tinha certeza!

Tristão começou a chorar.

— Eu também amo o meu tio, jamais me perdoaria se fizesse isso! Oh, Isolda! Eu me sinto dividido, porque desde que meu pai morreu, Marcos assumiu-lhe o lugar e passou a devotar-me ainda mais amor. Meu pai nos fez jurar, em seu leito de morte, que seríamos como pai e filho! A parte de Marcos, ele a está cumprindo com louvor, já eu, estou cada vez mais desonrado e agora, essa gravidez!


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Tristão e Isolda-Capítulo 19: O regresso de Marcos (4ª parte)


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Isolda não conseguia pensar em nada melhor, do que usar de sortilégios para fazê-lo arder em desejo e tomá-la nos braços sem reparar a mudança em seu corpo, e o mais rápido possível, colocar Tristão ciente do que se passava com ela.

Só que Brangia antecipou-se. Muito preocupada com a sorte de sua senhora, tomou a liberdade de revelar tudo a Tristão, antes que fosse tarde demais.

— O que está me dizendo, Brangia? — desespera-se o cavaleiro. — Isolda, grávida?! Isso não podia ter acontecido!

— Mas aconteceu, Tristão. E agora, vocês dois precisam tomar providências, antes que seja tarde.

Perynnis chegava nesse momento, com um recado do rei. Marcos reclamava a presença de Tristão na sala de armas. Tristão não pôde evitar pensar o pior: “ele descobriu tudo”, mas obedeceu corajosamente. Fosse o que fosse, ele teria que enfrentar, por ele e por Isolda. Sem perda de tempo, dirigiu-se à presença do tio. Antes de abrir a porta e entrar, suspirou e suplicou em seu íntimo que não fosse nada grave.

— Meu senhor. Aqui estou como me ordenaste... — disse-lhe um pouco apreensivo.

O rei estava sentado à cabeceira da mesa larga, onde homens de sua família, anteriormente, reuniam-se para combinar estratégias militares. Um arsenal de armas poderosas pendiam e reluziam na parede de trás; eram lanças, escudos, alabardas e espadas; se Marcos descobrira sobre ele e Isolda, matá-lo seria a coisa mais fácil a ser feita, bastava apenas tomar de alguma daquelas armas e golpeá-lo sem piedade, pois ele, Tristão, não ofereceria a menor resistência, entregaria sua vida de bom grado.

Só que para alívio de Tristão, o rei não estava com uma cara severa, mas apenas, um semblante de indagações e preocupações. Marcos se levantou e dirigiu-se a ele cordialmente.

— Ah, sim. Preciso fazer-vos algumas perguntas e peço-vos, meu sobrinho, que sejas sincero comigo. O que foi? Pareces perturbado?

Era inevitável. Desde que soube da possível gravidez de Isolda, por Brangia, Tristão não conseguia manter-se calmo; ambos foram longe demais e Marcos reparou que ele estava estranho.

— Impressão vossa, meu rei. Não tenho nada...

— Pois a mim, parece-me que não demonstras muita satisfação com minha volta.

— O quê?! Por Deus, senhor, como podes dizer isso? — assusta-se ele.

— Não sei, meu sobrinho... Porém, há muito venho reparando que você parece estar se afastando de mim. O sentimento não é mais como antes... nem de tio me chamas mais...

— C-como assim? — gagueja assustado.

— Como se não me considerasse mais como tio. Sinto-o cada vez mais fechado em si mesmo, como se estivesse dentro de um casulo.

A verdade era que desde as bodas, era impossível a Tristão não sentir ciúme daquele homem, que agora era dono de sua amada. Não conseguia mais vê-lo como um parente estimado e sim um rival. Isso, involuntariamente, causou certa distância entre eles. Tristão não conseguia mais enxergá-lo como seu tio e Marcos chamou-lhe à atenção, para algo que nem mesmo ele havia reparado. E era verdade; já não mais o chamava de tio.

Audret viu os dois conversando e sorrateiramente, escondeu-se para ouvir-lhes. O veneno que havia contaminado o coração do rei, mediante a carta que ele mesmo escrevera, já começava a fazer o efeito esperado.

Tristão desconversou, pois aquela conversa só acabaria comprometendo-o ainda mais.

— O senhor me disse, que queria fazer-me perguntas, pois bem, meu “tio” — disfarça ele, soletrando a palavra de forma quase engasgada. — prometo que se puder responder-vos, serei sincero.

— Será uma conversa um tanto constrangedora, meu caro filho, mas preciso que me respondas de fato com sinceridade, para que devolvas a paz novamente ao meu coração. Sabe o quanto o admiro e estimo, não?

— Sim, eu sei — falou ele constrangido.

Marcos fez uma curta pausa e continuou.

— Perguntei a minha esposa e ela recusou-se a responder de forma clara, porém, confio em ti e em tua fidelidade incontestável. Tristão, tu bem sabes que o tenho como um filho muito estimado...

— Eu sei, meu senhor...

— Enquanto estava em casa de Uriens, para minha infelicidade, recebi uma carta muito comprometedora me informando que você e Isolda estavam muito íntimos.

— Eu não compreendo... apenas fiz o que vós mesmo me ordenastes: cuidar da rainha. Agora, se exagerei nos cuidados... não o fiz por mal.

— Tu me asseguras que tudo não passou de cuidado apenas extremo?

— Sim senhor.

— Muito bem, meu sobrinho, podeis ir agora.

Audret escondeu-se até Tristão sair de vista.

— Vou ao quarto pegar a carta do rei da Irlanda, pois chegou a hora de mostrá-la, porque com certeza, Marcos irá chamar-me.


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